terça-feira, 11 de maio de 2010

CORPO FECHADO, de Isabelle Fontrin

Deitado de olhos abertos no escuro do quarto, Doca recheia a noite insone com desespero. O sofrimento se esparrama e se aprofunda há dois dias. O medo resseca-lhe a boca. O coração dispara ao ritmo da angústia. Leva a mão à barriga e constata que o ferimento continua sangrando; e a dor, insuportável. Gostaria de sair porta afora espantando o impossível. Imagina-se correndo ladeira abaixo, a descer o morro, pegar o asfalto e fazer a única coisa na qual é bom.

“Tocaiar um otário voltando num carrão da balada. Estraçalhar o vidro, fincar o berro na cara.”

Doca gostava mesmo era do poder que sentia ao ver o terror nos olhos de suas vítimas sem saber o que viria.

“Na paz, irmão! Leva tudo, mas me deixa.”

Quantas vezes ele ouviu estas palavras? Em vozes trêmulas, contraste com a firmeza de sua mão empunhando a arma que lhe dava coragem.

“E aí, caralho, quem pode mais? Hein? Hein?

E gritava:

“Passa tudo, passa tudo, porra!.”

Quanto mais se encolhiam mais aumentavam as ofensas de Doca.

“Irmão é o escambau, mané, quem é mermão aqui? Sou filho do demo, não tenho parceiro, faço meus trampo na proteção do Poderoso.”

E ele acreditava no que dizia.

Na dolorosa madrugada leva a mão ao peito em busca da proteção que traz pendurada ao pescoço desde menino, presente de Mãe Vânia, poderosa na magia negra, temida no morro. Doca nunca se esqueceu da noite em que ela o pegou pela mão e o levou onde ninguém entrava sozinho ou sem permissão. Ele sempre fora curioso do lugar, mas tinha medo do poder da mulher que a todos na comunidade impunha limites. Aos olhos infantis-de-menino-que-já-viu-de-tudo o lugar parecia aterrador.

Dezenas de estátuas bizarras abarrotavam o minúsculo quartinho nos fundos do barraco da batuqueira. Lugar sem janelas, repleto de sombras subindo pelas paredes de madeira podre, desenhadas pelas chamas das velas que faziam o ambiente sufocante. Cheiro de morte. Sua protetora, com hálito de cachaça, avisou-lhe:

“Desde hoje, meu fio, tu não precisa mais tê medo de nada nem de ninguém. Tô te dando a proteção de um Pai muito melhor do que o teu verdadeiro”.

Ela bebeu e deu de beber a ele, rodaram dentro do círculo pintado em carvão no piso, contornado pelas velas acesas, evocando palavras incompreensíveis ao menino. O ritual terminou com o sacrifício de um galo preto, retirado de um saco de estopa. O bicho teve o peito aberto em segundos pelos dedos de Mãe Vânia; o coração arrancado e colocado na pequena mão espalmada, ainda pulsante, quente, banhado em sangue. Doca lembra-se da sensação do músculo apertado, fechado entre seus dedos, o galo esperneando, como por magia, ainda conectado à vida que já não tinha. No final, recebeu um colar acompanhado da promessa-ameaça de nunca tirá-lo, um quadrado de couro preso a uma tira do mesmo material, recheado com misterioso conteúdo jamais conhecido.

“Tu tá protegido, guri. Ninguém mais mete a mão contigo. Chega de abusarem de ti porque é sozinho. Teu pai agora é o Poderoso. Fala pra todo mundo que eu disse isso. Nada de mal vai te acontecer, nem agora, nem no resto dos teus dias”.

E a partir daquele dia, a vida de Doca mudou mesmo. Ele se sentiu mais seguro, ninguém o incomodava, deixou de obedecer aos maiorais, como se seus donos fossem e passou a viver e ganhar a vida por ele.

“Um dia faço a mala e aí vou ter o que mereço.”

Era o que sempre esperava.

Agora, colada ao corpo suado do rapaz, a encardida guia permanecia como a finada Mãe Vânia ordenara. Na quente e sofrida noite havia inferno dentro do barraco e nas estranhas de Doca. Tinha 25 anos e nunca havia sido pego apesar das dezenas de mortes nas costas. Antes era parte do serviço, já há algum tempo lhe dava prazer.

“Passa os troféu aí e vaza filha da puta, vaza, senão te encho de pipoca”.

Esta oportunidade ele dava apenas aos que não se metiam a valentes. Colocava a grana, relógio, celular, tudo que pudesse virar pó, nos bolsos e se preparava para o próximo. Mudava de local, tinha os pontos perfeitos. Fazia como rotina.

“A fita é cabulosa. Ô, meu pai, me tira dessa!”

Há horas não conseguia mais se mexer, sem beber água, sem nada no estômago. Alternava momentos de lucidez e delírio. A febre e o vício consumindo dizimada energia. O calor, o calafrio, o ferimento podre, sangue se sobrepondo ao anterior, negro, seco.

“Passa tudo, passa tudo, passa tudo, puta do cão”

“Calma, calma, meu filho, estou indo para o trabalho, sou freira, que o Senhor esteja contigo”.

Como Doca adivinharia que a mulher de meia idade, miúda à sua frente era uma religiosa? Sem hábito, dirigindo sozinha na madrugada, em zona tão perigosa?

“Cala a boca, barata do caralho.”Tô na maior fissura passa tudo ou te colo o brinco. Não pensa que tu é outra.”

Doca falou que ela não era diferente dos demais, mas, achou que sim. Entrou no carro, tinha pressa, e cometeu o erro que cria de bandido nenhuma faria: baixou a guarda. Sentou-se no banco do carona; tentou arrancar das mãos da mulher a pasta que ela mantinha agarrada ao peito.

Um movimento brusco, e junto com ele, veio também uma inesperada mão, forte, ágil e na ponta desta, a bicuda que afundou na barriga de Doca com força descomunal. Uma só mortal estocada.

“Mas o que é isso, barata da porra, tu pirou?”

Na surpresa, foi só o que disse.

Pela porta aberta e com um empurrão certeiro foi atirado na calçada, caindo ao lado do carro que arrancou rápido, sem que ele tivesse tempo de reagir.

“Fica com Deus, meu filho. Que o Senhor te acompanhe.”

6 comentários:

  1. Isabelle Fontrin é uma misteriosa aluna importada da França, que prefere que eu não revele a qual das minhas turmas pertence. Mas seus contos são contundentes e bem escritos. Eu gostei muito.E você? Deixe aqui a sua avaliação.

    Charles Kiefer

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  2. Gostei muito, muito mesmo.

    Ela bebeu e deu de beber a ele, rodaram dentro do círculo pintado em carvão no piso, contornado pelas velas acesas, evocando palavras incompreensíveis ao menino. O ritual terminou com o sacrifício de um galo preto, retirado de um saco de estopa. O bicho teve o peito aberto em segundos pelos dedos de Mãe Vânia; o coração arrancado e colocado na pequena mão espalmada, ainda pulsante, quente, banhado em sangue. Doca lembra-se da sensação do músculo apertado, fechado entre seus dedos, o galo esperneando, como por magia, ainda conectado à vida que já não tinha. No final, recebeu um colar acompanhado da promessa-ameaça de nunca tirá-lo, um quadrado de couro preso a uma tira do mesmo material, recheado com misterioso conteúdo jamais conhecido.

    Essa parte evocou em mim uma atmosfera maior do que a do conto... não sei definir bem, se poesia, ou romance... mas algo maior.

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  3. Conheci Isabelle Fontrin em 2006, quando participava da Oficina Literária CK e todos seus contos eram marcantes, ricos pelo significado e pelas metafóricas representações linguisticas.Ela continua escrevendo bem e aprimorando seu estilo. Parabéns, Isabelle ...

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  4. Que saudades Carmen com "n". Que turma era aquela,não? eu adorava.Obrigada. Isabelle

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  5. A cultura tem que educar para amplo intendimento do que é ser brasileiro

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