20/01
Hoje fui acometido por outro desses ataques de pânico. Comentando o assunto por alto com um colega, este me sugeriu que escrevesse tais experiências em um diário. Gostei da idéia, mas antes que pudesse fazer um comentário técnico sobre o mesmo, ele me expulsou de seu consultório sob o pretexto de que precisava terminar a consulta com seu paciente, me convidando para um café mais tarde. Um café. Mal sabe ele o mal que me faz a cafeína. No caminho de volta para o trabalho o trânsito estava terrível, lembrava uma artéria com obstrução quase total, e ainda que eu tenha controlado com algum sucesso a taquicardia que se instaurou em meu peito, decidi por deixar um bilhete para meus pacientes na porta consultório e fui para casa. Após o jantar tomei um banho quente para dilatar as veias e vim me deitar. Sinto-me melhor agora que apenas relato tais acontecimentos.
23/01
Hoje evitei utilizar meu carro, fazendo uso de ônibus para ir trabalhar. Péssima decisão! Aquela gente toda amontoada no corredor do veículo lembrava uma artéria com obstrução total. E como tossem e espirram, parecem animais! Me segurei firme e tentei desviar meus pensamentos, já que seria quase impossível passar por aquela parede humana em caso de mal súbito. Enquanto eu tentava formar em minha cabeça a imagem de macieiras ao vento, minha glote foi se estreitando, o coração acelerou e à medida que eu buscava um pouco de ar para oxigenar meus pulmões e reestabelecer meus batimentos cardíacos a um nível abaixo dos de um maratonista, terminei por inalar as hordas de bactérias que impregnavam o ar do maldito coletivo.
Ao chegar ao consultório atendi a Sra. Ana, e evoluímos menos do que eu esperava e menos ainda do que a infecção que progredia sensivelmente em meus tecidos moles superiores.
Mais tarde, já debilitado, atendi o Sr. Ricardo. A amigdalite e leves pontadas no córtex frontal não me permitiram concentrar na terapia. Que enigma este paciente! Há algumas sessões fracasso na tentativa de tirar algo dele, e hoje, não fossem as péssimas condições em que eu me encontrava, acredito que poderia ter conseguido. Ainda assim, saí com a sutil suspeita de que possa estar doente, uma vez que passou a consulta toda conversando comigo e com sua esposa, sendo que apenas eu e ele encontrávamos-nos na sala. Investigar. Sinto-me febril. Medir temperatura ao chegar em casa.
27/01
As consultas de hoje foram reveladoras. Retornando ao consultório após um rápido lanche para combater a hipoglicemia, flagrei o Sr. Ricardo mediando um debate entre um hindu e uma bispa na minha sala de espera. Agora preciso investigar o quanto do que me contou sobre sua vida é real e o quanto é doença. Na volta pra casa senti um desconforto nas costas e me veio a divertida idéia de eu sofrer do mesmo mal que o paciente, o que faria com que o Sr. Ricardo, a exemplo de sua esposa imaginária, não existisse. Apenas a título de diversão pedi a meu vizinho que telefonasse para ele, certificando-me, enquanto a conversa se desenrolava, de que ambos eram reais, exceto se os dois fossem alucinações. Investigar. Aproveitei o ensejo do telefonema e perguntei se havia tomado a medicação, o que me respondeu afirmativamente.
28/02
Hoje o dia foi duro. Descobri que dona Ana chama-se, de fato, Cláudia, e devia ter recebido alta fazem seis meses. Devo ter trocado as fichas ano passado. Aquelas malditas pedras nos rins não me deixavam fazer nada direito. O Sr. Ricardo por sua vez invadiu o consultório desesperado com o sumiço de sua esposa. A medicação está funcionando! Tentei explicar sutilmente o que se passa com ele, mas agora desconfia que sua mulher alugou um quarto em minha casa.
07/03
Hoje atendi o Sr. Cauduro. Ele está tendo enorme dificuldade para superar sua claustrofobia e relata tardes de verdadeiro pavor enquanto desempenha sua função de ascensorista. Contou, às lágrimas, que por vezes implora que alguns passageiros fiquem com ele por mais uns andares, o que está quase custando seu emprego. Desconfortável com seu relato, vesti meu casaco e fui pra casa, acometido de uma tosse terrível.
Nos últimos dias tenho vivenciado a sensação de estar sendo observado. Eu poderia jurar que ontem, enquanto preparava compressas para aliviar o estranho inchaço que se instalou nas minhas pernas, vi uma mulher passando pela sala. Resolvi começar a fazer caminhadas para aliviar as tensões e o estresse a que ando me submetendo.
09/03
Estava me sentindo bem com as caminhadas dos últimos dois dias. Hoje tive a impressão de que passei pela mesma mulher que vira em minha sala outro dia e quando fui me virar para abordá-la, torci o pé, o que me obrigou a voltar pra casa. À noite, vi nitidamente a tal mulher passando pelo quarto e me fazendo sinal de positivo. Estou apavorado, devo estar muito doente.
20/03
A maldita assombração não me deixa mais em paz. Estou até me acostumando com ela. Ontem perguntou se eu queria chá. Hoje chamei ao consultório o Sr. Ricardo. Está inconsolável. Aceita, com reservas, que sua esposa é fruto do seu distúrbio. Ainda assim, diz que a ama profundamente e ameaça parar com a medicação para tê-la de volta. Aproveitando o assunto pedi a ele que a descrevesse. Minhas suspeitas se confirmaram. Trata-se da alucinação que anda perturbando minha vida. Chama-se, segundo ele, Letícia. Certamente um caso sem precedentes. Investigar.
27/03
Cancelei todas as consultas e passei o dia estudando, mas não encontrei nos registros históricos nenhum caso de contratransferência como esse. Li livros e mais livros, busquei em artigos, pesquisei na internet e nada. Letícia anotava tudo ao meu lado e até fazia sugestões de pesquisa. Como é prestativa! Ainda que eu anseie pela cura para este estranho problema, devo confessar que é muito bom ter alguém como ela por perto.
05/04
Hoje o Sr. Ricardo permaneceu comigo por mais de uma hora. Mal sabia ele que eu podia enxergar Letícia dentro da sala. Tentei ignorá-la mas, astuta que é, passou a dar petelecos em minhas orelhas e fazer caretas e poses na mesa de centro. Como é brincalhona! Perguntei a ele sobre suas lembranças, e enquanto ele me relatava histórias que viveram juntos, o ciúme corroía minhas veias. Ainda sabendo que tal sentimento é uma completa loucura, não pude controlá-lo. Acabei por confessar que andava vendo Letícia e estava perdidamente apaixonado por ela. Furioso, o Sr. Ricardo me empurrou no chão, pegou de minha mesa uma escultura da torre Eiffel e veio em minha direção. Calafrios correram pelo meu corpo, eu sei bem do que gente doida é capaz. Antevi a peça encravada em meus miolos, mas para minha surpresa, o Sr. Ricardo ergueu o braço, atirando a escultura contra o armário de remédios. Que idiota!- pensei. Mal sabia eu que segundos depois ele iria enfiar em minha boca, à força, os mesmos compridos que eu lhe prescrevera semanas atrás. Estou arrasado!
06/04
Fazendo uma profunda reflexão decidi dar voz ao bom senso. Retirei todas esculturas da sala e novamente chamei o Sr. Ricardo ao consultório. Argumentei que a medicação é fundamental para seu tratamento. Envergonhado, ele concordou em buscar a cura, sob a exigência de que eu também me trate. Não quer que eu fique com Letícia definitivamente. Rindo, lhe respondi que já o estava fazendo, mas ele não acreditou. Por fim, combinamos de nos encontrar diariamente para que ambos tomemos a medicação um na frente do outro, podendo conferir também embaixo da língua três vezes por semana.
15/05
Ricardo é um sujeito legal, e apesar da fossa em que estamos por ter perdido Letícia, nossos almoços têm sido bem agradáveis e o tratamento é um sucesso para ambos. Hoje convidei-o para ir a um bar. O local estava cheio, o balcão parecia uma artéria com obstrução total. Aquela gente fumava, ria e tossia, impregnando o ambiente como animais! Escolhemos uma mesa mais ao fundo e a noite foi bastante tranqüila, exceto pelo ataque de pânico que tive de controlar com respiração cachorrinho e por um garçom que falava e ria o tempo todo sozinho. Corroídos pelo ciúme o levamos para o banheiro, e após uma breve luta, conseguimos enfiar-lhe os comprimidos goela abaixo.
Guilherme Behs.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Está tudo bem, querido? (Ricardo Morales)
Sábado. Morales e Vitória há algum tempo não saíam para se divertir. Estavam presos a uma mesmice que se restringia ao emprego e o retorno para a casa. Clara contava com quase cinco anos e durante o dia ficava com a avó materna. Naquela noite, a menina tinha ido dormir com a mãe de Vitória, pois Morales decidira aceitar o convite de um colega para um jantar-baile no clube de oficiais do exército. Não era o tipo de festa que lhe agradava, mas pensou que poderia ser a quebra da rotina por ambos desejada em silêncio.
A mulher, depois da faculdade de pedagogia, obteve aprovação em um concurso público e passou a trabalhar em uma escola de ensino médio. Alimentou planos para prosseguir os estudos a fim de entrar no corpo docente da universidade do Estado. O projeto se desfez nos primeiros meses após o retorno à vida acadêmica; os motivos foram o ciúme e a gravidez. Por isso, por vezes, sentia-se como castigada. A estagnação em sua vida profissional e o casamento, um tanto tedioso, ainda que o marido fosse um bom homem, a aborreciam. Daí imaginar que o tal baile serviria como uma chance de diminuir a tensão cotidiana.
Morales presumia que ele e Vitória entendiam com perfeição um ao outro, ao menos no que é possível para um casal maduro se entender. Na visão dos amigos era o modelo do casamento perfeito, as pessoas acreditavam naquilo e os dois, segundo ele pensava, gostavam de ser vistos assim. Além disso, Morales supunha que compreendia a si mesmo – o que podia fazer, até onde seria tolerado, o que lhe era proibido, quais as medidas que deveria tomar diante de determinados fatos; tudo por achar que conhecia muito bem as suas possibilidades e as suas limitações. Mais do que tudo, julgava gozar de elevado conceito na categoria de marido, cujo padrão conseguira ao longo dos anos, pois não se furtava de lavar a louça, acordar a mulher com um café na cama, presenteá-la de surpresa, só para vê-la satisfeita.
Os dois diziam se considerar um casal pleno, exceto por uma única ponta de tristeza por conta da interrupção do mestrado de Vitória, que Morales reputava como algo menor, que deveria ficar no passado. Mesmo que não quisesse admitir, às vezes, voltava a pensar no assunto, ultimamente, com maior freqüência e intensidade crescente, acompanhada por imagens horríveis, obscenas e inimagináveis onde a mulher o traía com um colega de curso.
Chegaram em casa perto da uma da manhã; cedo para quem pretendia se divertir como nunca, como dissera Vitória ao chegar no salão de baile. Corpos cansados e cabelos com o cheiro da noite. Quem nunca foi a uma festa, em um ambiente fechado, talvez estranhe, mas, de resto, é assim mesmo, é ficar poucos minutos e a roupa, os cabelos e as narinas cheiram a cigarro e a suor.
O anormal era a tensão calada que os envolvia sempre que ficavam juntos. Morales havia tomado algumas doses de uísque. Não apreciava as bebidas destiladas, mas influenciado pelas companhias agradáveis permitiu-se alguns excessos.
Sentaram-se na sala de estar. Vitória esparramou-se no sofá. Percebeu que o marido, com o passar dos anos, tornara-se um pouco mais introvertido. Recusara-se a dançar com ela, mas jantou e conversou com o amigo Sérgio e com dois militares e suas esposas com quem dividiram a mesa. Nada além disso. No fundo, Vitória sentiu-se um tanto desprezada, pois ele não se importou que ela dançasse duas músicas com o Sérgio, cuja acompanhante exibia uma barriga de sete meses. O fato lhe trouxe alguma frustração, pois gostaria de ter desfrutado da festa junto com Morales. Além disso, subitamente, ele anunciou que queria ir embora.
Vitória estava distraída entre as recordações recentes quando uma pergunta lhe trouxe para o presente.
“Gostou da festa?”
“O que é que houve? De repente, tu resolveu ir embora?”
“Não foi nada. Cansaço, só isso.”
“A comida estava quente e a bebida boa, não é?”
“Mais ou menos, mas a música... Desculpe, mas não deu pra dançar, faltava alguma coisa.”
“E o Sérgio, coitado. Ele não dança nada.”
Morales fez silêncio. Recuou, em segundos, cinco anos. Uma prática cada dia mais comum e dolorida. Relembrava a época em que Vitória estudava; o curso noturno, as horas em casa aguardando o retorno da esposa, o dia em que olhou entre as persianas do apartamento e a viu saindo de um carro vermelho. “Carona de um colega”, ela disse.
De olhos fechados, tentou recriar os fatos, reconstruir a história de outra forma, imaginando a si mesmo indo buscar a mulher na porta da faculdade, emprestando o carro e lhe dando dinheiro para que colocasse o automóvel em um estacionamento pago.
“Tome querida, não vá se atrasar... Ah, não, não peça carona pra esse cara... Ora, se não gosta de dirigir à noite, não tem problema, vou te buscar!”
Nesse momento, o relógio parecia paralisado. Morales poderia ficar uma hora remoendo e recriando imagens sem perceber. Ele sabia que aquilo não era bom, nem saudável, porém, não conseguia livrar-se do exercício infernal, das seqüências em reprise. Era verdade que nunca tivera a certeza inequívoca, definitiva e imutável do que ocorrera. Sabia que Vitória de uma hora para a outra havia desistido de prosseguir com os estudos. Sim, Morales reclamou das caronas. Mesmo que lhe fosse conveniente deixar de sair tarde para buscar Vitória, não podia concordar com aquilo. Um mal-estar havia se instalado naquele tempo. Morales não acreditava que um homem pudesse ser amigo de sua mulher. Ela era grande, como ele gostava. Seios firmes. Pernas rijas. Olhos castanhos. Cabelos longos e bem cuidados. Sempre vaidosa com as roupas e com o corpo. Não estava enganado ao expor aqueles temores para Vitória. Essa era a sua convicção. É claro que jamais havia pretendido prejudicar a esposa em seus projetos, não a proibira de fazer o que quisesse, mas não admitia ser iludido.
O certo era que ao final ainda persistia a interrogação, a dúvida e a insegurança que andava surda entre os dois. Porém, sem qualquer aviso, em meio ao diálogo despretensioso durante o começo de madrugada, tudo aflorou como se aquela noite, perdida no passado, estivesse suspensa no tempo.
“Aquele teu colega... Ele dança bem?”
“Quem? O Fred? O do curso?”
“Tu ainda lembras?”
“Nem penso nele.”
“Ele dança?”
“Como posso saber? Nunca dancei com ele.”
“Mas tu saiu com ele!”
“Não... Olha, nós já conversamos sobre isso.”
“Eu preciso... Por favor.”
“O quê? Não aconteceu nada. Nada demais.”
“Como nada? Ele tentou. Isso tu tens que admitir. Já faz tempo, eu sei. Mas, somos adultos, pode falar”.
“Não. Vamos deixar como está. Não há nada pra contar, querido.”
“Vitória, meu bem, nós não precisamos de segredos. Eu nunca escondi nada, não é? Me conta, por favor. Nós nem vamos ver mais aquele cara.”
A mulher ficou um instante em silêncio. Para Morales foi a eternidade. Ele fixou o olhar nela, depois passeou pelo sofá, contou os quadradinhos no desenho do tapete e refez o caminho de volta. Quadradinhos, tapete, sofá, rosto da mulher.
“Bem... Tá certo. Tu não vais ficar brabo? Já faz muito tempo...”
“Tudo bem, afinal, sou eu quem quer saber.”
Morales procurava manter-se calmo, mas em seu íntimo crescia um sentimento sufocado. As malditas imagens em velocidades surpreendentes se reproduziam uma após a outra. Vitória sorrindo, o carro vermelho, Fred, o casal se beijando, Fred dirigindo com a mão sobre a perna da mulher, os dois rindo dele, Morales espreitando atrás da persiana, Clara de vestido amarelo correndo em uma praça.
“Ele me beijou... Nós nos beijamos... Só isso. Nada mais.”
Ele permaneceu quieto por alguns momentos. Precisava digerir a notícia, processá-la, absorvê-la e controlar a luta entre o instinto de preservação da auto-estima e o desejo de saber o que ocorreu.
“O que mais tu tens pra me contar?”
“Não aconteceu mais nada, já disse. Não fomos além disso. Só um beijo e nada mais.”
“Só isso? Tu achas pouco, então?”
“Calma, amor, nem penso mais nele. Não foi nada sério. Eu errei, eu sei.”
Vitória reviu a noite em que retornou para casa de carona com o colega. Os olhos e o tom de voz de Morales eram os mesmos. Ela pressentiu que viveria a mesma cena e as mesmas indagações que agora ecoavam em sua cabeça. “Quem é aquele cara, Vitória? Onde vocês andaram? Sabes que horas são?” A repetição da antiga trama. Os punhos fechados do marido, o chute na cadeira da sala que voou contra a porta da rua, a voz quase inaudível.
“Meu Deus, o que mais aconteceu? Eu acho que sou um trouxa, isso sim.”
“Não faz assim, Morales. Foi só um beijo.”
“Pra mim, já é o suficiente... Tu não tens noção? Um beijo. NEM AS PUTAS BEIJAM. UM BEIJO É MAIS ÍNTIMO DO QUE UMA TREPADA.”
Vitória não sabia o que fazer. O tempo parecia desandar. Tudo aquilo deveria ter acabado há muito tempo. Ela procurou apoiar-se na razão. Levantou-se do sofá, tentou abraçar Morales, demonstrar que tudo estava bem. Ela tocou os seus lábios nos dele, que ficaram imóveis.
Não havia mais controle; Morales não podia parar. O que antes era uma suspeita, uma micro-certeza, tornava-se real. A mulher o traíra. A vergonha de ser um homem enganado tornava ridícula a história de casal feliz propagandeada entre os amigos. Talvez isso fosse até motivo de piada, talvez todos soubessem do caso. Ele ruminava em silêncio se agira corretamente. Reprovava a si mesmo por não ter interferido logo quando suspeitou. Deveria ter ido falar com ele, esperá-la na calçada, ameaçá-lo, se necessário. Mas não sabia até onde poderia ir. Ninguém desejaria estar em tal situação. Quem, nessas circunstâncias, saberia o que fazer? Logo Vitória, tão doce, tão bela e inteligente. Não queria acreditar. Um beijo, para ele, era muito mais importante que o sexo. Era pessoal, lascivo e, ao mesmo tempo, terno.
Morales sentia como se tivesse levado uma bofetada. Com um empurrão afastou Vitória.
“Ele colocou a língua na tua boca.”
“Por favor, chega.”
“Já imagino o que aconteceu depois...”
Morales apanhou as chaves e dirigiu-se à porta.
“Aonde tu vais?”
“Não interessa!”
Ele entrou no carro e rodou sem rumo. A bebida, o movimento, a dor de cabeça e a confirmação de Vitória o fizeram vomitar. Conseguiu estacionar e colocar a cabeça para fora. Agora, a realidade era material, definida. A suspeita soterrada, o esquecimento fingido pelo regular exercício de retirar da memória havia sido desvelado. O choque com a verdade; o tijolo atirado contra a vidraça.
Morales seguiu em frente, andou por vários lugares. Passou pela Farrapos e se viu entrando em uma das casas de shows da avenida. Pegaria uma qualquer para fazer a sua vulgar vingança. Desistiu, pois não teria como deletar a história daquele jeito. Terminou na Lima e Silva. Uma mesinha de ferro na calçada, público variado, jovens, bêbados, pessoas comuns e, também, gente estranha. Todos conversavam, sorriam sem preocupações, sem amores ou infidelidades.
Pediu uma cerveja, que permaneceu intacta até que a espuma quase sumisse e o líquido ficasse morno. O dia já ameaçava clarear quando Morales fez um sinal para o garçom. Num minuto, trouxe-lhe um copo com gelo, limão e uma bebida mais forte que ele sorveu em pequenos goles para alcançar a coragem que sabia não possuir. Quem o olhasse à distância não teria ideia do que se passava. Ele parecia tranquilo. Absolutamente sereno.
Morales não podia esperar mais. Pediu a conta, largou duas notas sobre a mesa e levantou-se. Enquanto andava quase tropeçou numa pessoa deitada sob uma marquise. A manhã nascia gelada e dois cachorros estavam encostados ao homem coberto de jornais, entre sacos, entulho e garrafas de plástico. Poderia ficar ali, cair em qualquer canto. Quase desejou não ser mais lembrado, esquecer-se de quem era e de como estava a sua vida.
Ele precisava reunir forças para voltar para casa. Pensou na filha, Clara, que possuía as feições da mãe. Era linda e ficaria mais bonita quando crescesse. Aos domingos, gostava de apanhar o jornal e deitar-se com o pai. Pedia que Morales lesse o Caderno de Televisão, as tiras dos quadrinhos. A menina viera ao mundo depois daquela pequena tragédia conjugal. Ela, na certa, ignorava os fatos; tão pequena, tão inocente e sem culpa. Sim, alguém tinha de ser o culpado, alguém tinha que ser o responsável por aquilo.
Domingo. O sol já ia alto. Morales estacionou o carro e entrou no prédio. Abriu a porta com cuidado. O jornal havia sido colocado sob o tapete. Foi até o quarto e viu que a porta estava entreaberta. Vitória, deitada de lado, parecia dormir. Ele desejava um banho, um pouco de privacidade e alguma coragem. Tirou a roupa e abriu o chuveiro, regulando para que ficasse bem quente. Os vapores e o calor aconchegante do jato d’água na nuca fizeram com que relaxasse por um momento, mas a imagem projetada ainda era a mesma: Vitória murmurando abraçada a um outro homem sem rosto. Mais! Mais! Mais! Ele ouvia mentalmente quando abriu os olhos e pensou como as coisas haviam saído dos trilhos; sabia que estava errado e que, de alguma forma, tinha falhado, que não compreendera a mulher. Talvez ele não tivesse agido corretamente e, talvez, fosse ele o culpado, mas agora não havia mais nada que pudesse modificar. De repente, ouviu a mulher do lado de fora.
“Morales, tudo bem?”
“Que é?”
“Está tudo bem, querido?”
“Já vou.”
Nenhuma outra palavra foi dita. Depois de secar o corpo, Morales saiu do banheiro, foi para o quarto e viu a mulher sob os lençóis. Rapidamente, deitou-se para se encostar em Vitória. Ela voltou-se para ele e com suavidade passou a mão em seu rosto tenso. Ele tentou resistir, manteve-se imóvel, contudo não a afastou. Esperou quieto e ela, sem dizer uma palavra, acomodou-se sobre seu corpo.
Morales não pôde deixar de lembrar do outro. Em como teria acontecido, naqueles encontros que povoavam a sua imaginação e, estranhamente, um desejo insano se instalou. Vitória deu-lhe um beijo ardente, cheio de paixão e piedade, enquanto comandava as ações e os quadris. Quando não pode mais suportar, abraçou-a e quase juntos tiveram um orgasmo.
A esposa, em seguida, aninhou-se em seu ombro. Morales lentamente permitiu que os pensamentos fossem se apagando. Afrouxou os músculos doloridos até que adormeceu para sonhar que voava de braços abertos sobre a cidade. Ele via o movimento nas ruas, as luzes das casas e dos edifícios, enxergava os rostos conhecidos, as pessoas andando nas calçadas, e sabia que ninguém poderia vê-lo ou tocá-lo. Sentia-se leve.
A mulher, depois da faculdade de pedagogia, obteve aprovação em um concurso público e passou a trabalhar em uma escola de ensino médio. Alimentou planos para prosseguir os estudos a fim de entrar no corpo docente da universidade do Estado. O projeto se desfez nos primeiros meses após o retorno à vida acadêmica; os motivos foram o ciúme e a gravidez. Por isso, por vezes, sentia-se como castigada. A estagnação em sua vida profissional e o casamento, um tanto tedioso, ainda que o marido fosse um bom homem, a aborreciam. Daí imaginar que o tal baile serviria como uma chance de diminuir a tensão cotidiana.
Morales presumia que ele e Vitória entendiam com perfeição um ao outro, ao menos no que é possível para um casal maduro se entender. Na visão dos amigos era o modelo do casamento perfeito, as pessoas acreditavam naquilo e os dois, segundo ele pensava, gostavam de ser vistos assim. Além disso, Morales supunha que compreendia a si mesmo – o que podia fazer, até onde seria tolerado, o que lhe era proibido, quais as medidas que deveria tomar diante de determinados fatos; tudo por achar que conhecia muito bem as suas possibilidades e as suas limitações. Mais do que tudo, julgava gozar de elevado conceito na categoria de marido, cujo padrão conseguira ao longo dos anos, pois não se furtava de lavar a louça, acordar a mulher com um café na cama, presenteá-la de surpresa, só para vê-la satisfeita.
Os dois diziam se considerar um casal pleno, exceto por uma única ponta de tristeza por conta da interrupção do mestrado de Vitória, que Morales reputava como algo menor, que deveria ficar no passado. Mesmo que não quisesse admitir, às vezes, voltava a pensar no assunto, ultimamente, com maior freqüência e intensidade crescente, acompanhada por imagens horríveis, obscenas e inimagináveis onde a mulher o traía com um colega de curso.
Chegaram em casa perto da uma da manhã; cedo para quem pretendia se divertir como nunca, como dissera Vitória ao chegar no salão de baile. Corpos cansados e cabelos com o cheiro da noite. Quem nunca foi a uma festa, em um ambiente fechado, talvez estranhe, mas, de resto, é assim mesmo, é ficar poucos minutos e a roupa, os cabelos e as narinas cheiram a cigarro e a suor.
O anormal era a tensão calada que os envolvia sempre que ficavam juntos. Morales havia tomado algumas doses de uísque. Não apreciava as bebidas destiladas, mas influenciado pelas companhias agradáveis permitiu-se alguns excessos.
Sentaram-se na sala de estar. Vitória esparramou-se no sofá. Percebeu que o marido, com o passar dos anos, tornara-se um pouco mais introvertido. Recusara-se a dançar com ela, mas jantou e conversou com o amigo Sérgio e com dois militares e suas esposas com quem dividiram a mesa. Nada além disso. No fundo, Vitória sentiu-se um tanto desprezada, pois ele não se importou que ela dançasse duas músicas com o Sérgio, cuja acompanhante exibia uma barriga de sete meses. O fato lhe trouxe alguma frustração, pois gostaria de ter desfrutado da festa junto com Morales. Além disso, subitamente, ele anunciou que queria ir embora.
Vitória estava distraída entre as recordações recentes quando uma pergunta lhe trouxe para o presente.
“Gostou da festa?”
“O que é que houve? De repente, tu resolveu ir embora?”
“Não foi nada. Cansaço, só isso.”
“A comida estava quente e a bebida boa, não é?”
“Mais ou menos, mas a música... Desculpe, mas não deu pra dançar, faltava alguma coisa.”
“E o Sérgio, coitado. Ele não dança nada.”
Morales fez silêncio. Recuou, em segundos, cinco anos. Uma prática cada dia mais comum e dolorida. Relembrava a época em que Vitória estudava; o curso noturno, as horas em casa aguardando o retorno da esposa, o dia em que olhou entre as persianas do apartamento e a viu saindo de um carro vermelho. “Carona de um colega”, ela disse.
De olhos fechados, tentou recriar os fatos, reconstruir a história de outra forma, imaginando a si mesmo indo buscar a mulher na porta da faculdade, emprestando o carro e lhe dando dinheiro para que colocasse o automóvel em um estacionamento pago.
“Tome querida, não vá se atrasar... Ah, não, não peça carona pra esse cara... Ora, se não gosta de dirigir à noite, não tem problema, vou te buscar!”
Nesse momento, o relógio parecia paralisado. Morales poderia ficar uma hora remoendo e recriando imagens sem perceber. Ele sabia que aquilo não era bom, nem saudável, porém, não conseguia livrar-se do exercício infernal, das seqüências em reprise. Era verdade que nunca tivera a certeza inequívoca, definitiva e imutável do que ocorrera. Sabia que Vitória de uma hora para a outra havia desistido de prosseguir com os estudos. Sim, Morales reclamou das caronas. Mesmo que lhe fosse conveniente deixar de sair tarde para buscar Vitória, não podia concordar com aquilo. Um mal-estar havia se instalado naquele tempo. Morales não acreditava que um homem pudesse ser amigo de sua mulher. Ela era grande, como ele gostava. Seios firmes. Pernas rijas. Olhos castanhos. Cabelos longos e bem cuidados. Sempre vaidosa com as roupas e com o corpo. Não estava enganado ao expor aqueles temores para Vitória. Essa era a sua convicção. É claro que jamais havia pretendido prejudicar a esposa em seus projetos, não a proibira de fazer o que quisesse, mas não admitia ser iludido.
O certo era que ao final ainda persistia a interrogação, a dúvida e a insegurança que andava surda entre os dois. Porém, sem qualquer aviso, em meio ao diálogo despretensioso durante o começo de madrugada, tudo aflorou como se aquela noite, perdida no passado, estivesse suspensa no tempo.
“Aquele teu colega... Ele dança bem?”
“Quem? O Fred? O do curso?”
“Tu ainda lembras?”
“Nem penso nele.”
“Ele dança?”
“Como posso saber? Nunca dancei com ele.”
“Mas tu saiu com ele!”
“Não... Olha, nós já conversamos sobre isso.”
“Eu preciso... Por favor.”
“O quê? Não aconteceu nada. Nada demais.”
“Como nada? Ele tentou. Isso tu tens que admitir. Já faz tempo, eu sei. Mas, somos adultos, pode falar”.
“Não. Vamos deixar como está. Não há nada pra contar, querido.”
“Vitória, meu bem, nós não precisamos de segredos. Eu nunca escondi nada, não é? Me conta, por favor. Nós nem vamos ver mais aquele cara.”
A mulher ficou um instante em silêncio. Para Morales foi a eternidade. Ele fixou o olhar nela, depois passeou pelo sofá, contou os quadradinhos no desenho do tapete e refez o caminho de volta. Quadradinhos, tapete, sofá, rosto da mulher.
“Bem... Tá certo. Tu não vais ficar brabo? Já faz muito tempo...”
“Tudo bem, afinal, sou eu quem quer saber.”
Morales procurava manter-se calmo, mas em seu íntimo crescia um sentimento sufocado. As malditas imagens em velocidades surpreendentes se reproduziam uma após a outra. Vitória sorrindo, o carro vermelho, Fred, o casal se beijando, Fred dirigindo com a mão sobre a perna da mulher, os dois rindo dele, Morales espreitando atrás da persiana, Clara de vestido amarelo correndo em uma praça.
“Ele me beijou... Nós nos beijamos... Só isso. Nada mais.”
Ele permaneceu quieto por alguns momentos. Precisava digerir a notícia, processá-la, absorvê-la e controlar a luta entre o instinto de preservação da auto-estima e o desejo de saber o que ocorreu.
“O que mais tu tens pra me contar?”
“Não aconteceu mais nada, já disse. Não fomos além disso. Só um beijo e nada mais.”
“Só isso? Tu achas pouco, então?”
“Calma, amor, nem penso mais nele. Não foi nada sério. Eu errei, eu sei.”
Vitória reviu a noite em que retornou para casa de carona com o colega. Os olhos e o tom de voz de Morales eram os mesmos. Ela pressentiu que viveria a mesma cena e as mesmas indagações que agora ecoavam em sua cabeça. “Quem é aquele cara, Vitória? Onde vocês andaram? Sabes que horas são?” A repetição da antiga trama. Os punhos fechados do marido, o chute na cadeira da sala que voou contra a porta da rua, a voz quase inaudível.
“Meu Deus, o que mais aconteceu? Eu acho que sou um trouxa, isso sim.”
“Não faz assim, Morales. Foi só um beijo.”
“Pra mim, já é o suficiente... Tu não tens noção? Um beijo. NEM AS PUTAS BEIJAM. UM BEIJO É MAIS ÍNTIMO DO QUE UMA TREPADA.”
Vitória não sabia o que fazer. O tempo parecia desandar. Tudo aquilo deveria ter acabado há muito tempo. Ela procurou apoiar-se na razão. Levantou-se do sofá, tentou abraçar Morales, demonstrar que tudo estava bem. Ela tocou os seus lábios nos dele, que ficaram imóveis.
Não havia mais controle; Morales não podia parar. O que antes era uma suspeita, uma micro-certeza, tornava-se real. A mulher o traíra. A vergonha de ser um homem enganado tornava ridícula a história de casal feliz propagandeada entre os amigos. Talvez isso fosse até motivo de piada, talvez todos soubessem do caso. Ele ruminava em silêncio se agira corretamente. Reprovava a si mesmo por não ter interferido logo quando suspeitou. Deveria ter ido falar com ele, esperá-la na calçada, ameaçá-lo, se necessário. Mas não sabia até onde poderia ir. Ninguém desejaria estar em tal situação. Quem, nessas circunstâncias, saberia o que fazer? Logo Vitória, tão doce, tão bela e inteligente. Não queria acreditar. Um beijo, para ele, era muito mais importante que o sexo. Era pessoal, lascivo e, ao mesmo tempo, terno.
Morales sentia como se tivesse levado uma bofetada. Com um empurrão afastou Vitória.
“Ele colocou a língua na tua boca.”
“Por favor, chega.”
“Já imagino o que aconteceu depois...”
Morales apanhou as chaves e dirigiu-se à porta.
“Aonde tu vais?”
“Não interessa!”
Ele entrou no carro e rodou sem rumo. A bebida, o movimento, a dor de cabeça e a confirmação de Vitória o fizeram vomitar. Conseguiu estacionar e colocar a cabeça para fora. Agora, a realidade era material, definida. A suspeita soterrada, o esquecimento fingido pelo regular exercício de retirar da memória havia sido desvelado. O choque com a verdade; o tijolo atirado contra a vidraça.
Morales seguiu em frente, andou por vários lugares. Passou pela Farrapos e se viu entrando em uma das casas de shows da avenida. Pegaria uma qualquer para fazer a sua vulgar vingança. Desistiu, pois não teria como deletar a história daquele jeito. Terminou na Lima e Silva. Uma mesinha de ferro na calçada, público variado, jovens, bêbados, pessoas comuns e, também, gente estranha. Todos conversavam, sorriam sem preocupações, sem amores ou infidelidades.
Pediu uma cerveja, que permaneceu intacta até que a espuma quase sumisse e o líquido ficasse morno. O dia já ameaçava clarear quando Morales fez um sinal para o garçom. Num minuto, trouxe-lhe um copo com gelo, limão e uma bebida mais forte que ele sorveu em pequenos goles para alcançar a coragem que sabia não possuir. Quem o olhasse à distância não teria ideia do que se passava. Ele parecia tranquilo. Absolutamente sereno.
Morales não podia esperar mais. Pediu a conta, largou duas notas sobre a mesa e levantou-se. Enquanto andava quase tropeçou numa pessoa deitada sob uma marquise. A manhã nascia gelada e dois cachorros estavam encostados ao homem coberto de jornais, entre sacos, entulho e garrafas de plástico. Poderia ficar ali, cair em qualquer canto. Quase desejou não ser mais lembrado, esquecer-se de quem era e de como estava a sua vida.
Ele precisava reunir forças para voltar para casa. Pensou na filha, Clara, que possuía as feições da mãe. Era linda e ficaria mais bonita quando crescesse. Aos domingos, gostava de apanhar o jornal e deitar-se com o pai. Pedia que Morales lesse o Caderno de Televisão, as tiras dos quadrinhos. A menina viera ao mundo depois daquela pequena tragédia conjugal. Ela, na certa, ignorava os fatos; tão pequena, tão inocente e sem culpa. Sim, alguém tinha de ser o culpado, alguém tinha que ser o responsável por aquilo.
Domingo. O sol já ia alto. Morales estacionou o carro e entrou no prédio. Abriu a porta com cuidado. O jornal havia sido colocado sob o tapete. Foi até o quarto e viu que a porta estava entreaberta. Vitória, deitada de lado, parecia dormir. Ele desejava um banho, um pouco de privacidade e alguma coragem. Tirou a roupa e abriu o chuveiro, regulando para que ficasse bem quente. Os vapores e o calor aconchegante do jato d’água na nuca fizeram com que relaxasse por um momento, mas a imagem projetada ainda era a mesma: Vitória murmurando abraçada a um outro homem sem rosto. Mais! Mais! Mais! Ele ouvia mentalmente quando abriu os olhos e pensou como as coisas haviam saído dos trilhos; sabia que estava errado e que, de alguma forma, tinha falhado, que não compreendera a mulher. Talvez ele não tivesse agido corretamente e, talvez, fosse ele o culpado, mas agora não havia mais nada que pudesse modificar. De repente, ouviu a mulher do lado de fora.
“Morales, tudo bem?”
“Que é?”
“Está tudo bem, querido?”
“Já vou.”
Nenhuma outra palavra foi dita. Depois de secar o corpo, Morales saiu do banheiro, foi para o quarto e viu a mulher sob os lençóis. Rapidamente, deitou-se para se encostar em Vitória. Ela voltou-se para ele e com suavidade passou a mão em seu rosto tenso. Ele tentou resistir, manteve-se imóvel, contudo não a afastou. Esperou quieto e ela, sem dizer uma palavra, acomodou-se sobre seu corpo.
Morales não pôde deixar de lembrar do outro. Em como teria acontecido, naqueles encontros que povoavam a sua imaginação e, estranhamente, um desejo insano se instalou. Vitória deu-lhe um beijo ardente, cheio de paixão e piedade, enquanto comandava as ações e os quadris. Quando não pode mais suportar, abraçou-a e quase juntos tiveram um orgasmo.
A esposa, em seguida, aninhou-se em seu ombro. Morales lentamente permitiu que os pensamentos fossem se apagando. Afrouxou os músculos doloridos até que adormeceu para sonhar que voava de braços abertos sobre a cidade. Ele via o movimento nas ruas, as luzes das casas e dos edifícios, enxergava os rostos conhecidos, as pessoas andando nas calçadas, e sabia que ninguém poderia vê-lo ou tocá-lo. Sentia-se leve.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Minicontos (Esmeralda Kiefer)
Herança
Comprou um terreno no céu e deixou a conta para a filha.
Investimento
Converteu-se para seduzir o pretendente. Ganhou o inferno.
Injusta
Ao se inclinar para ouvir os amigos, desalinha a balança.
Com todo respeito
Ajeitou a gravata. Alisou o casaco. Colocou as flores.
Sinal
Perdeu o braço na parada do ônibus.
Lavanderia
Levou o rosto para passar.
Dividendos
Ganhou tempo. O marido morreu logo.
Classificados
Idoso, viúvo, com casa própria, procura irmã para ler o Evangelho.
Amor
Estava na cara que ela não enxergava bem, mas ele preferiu não ver.
Cegueira
O bebê não fitava ninguém. Mas a babá viu que os pais estavam cegos de amor.
Vingança
O vizinho careca trouxe tantos problemas que a síndica ficou grisalha.
Comprou um terreno no céu e deixou a conta para a filha.
Investimento
Converteu-se para seduzir o pretendente. Ganhou o inferno.
Injusta
Ao se inclinar para ouvir os amigos, desalinha a balança.
Com todo respeito
Ajeitou a gravata. Alisou o casaco. Colocou as flores.
Sinal
Perdeu o braço na parada do ônibus.
Lavanderia
Levou o rosto para passar.
Dividendos
Ganhou tempo. O marido morreu logo.
Classificados
Idoso, viúvo, com casa própria, procura irmã para ler o Evangelho.
Amor
Estava na cara que ela não enxergava bem, mas ele preferiu não ver.
Cegueira
O bebê não fitava ninguém. Mas a babá viu que os pais estavam cegos de amor.
Vingança
O vizinho careca trouxe tantos problemas que a síndica ficou grisalha.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Minicontos (Luiz Ohlson)
Diagnóstico
O médico deu-lhe um ano de vida. Devolveu no dia seguinte. Sem uso.
Jogatina
Feliz no jogo, infeliz no amor, suspirou, enquanto jogava a segunda esposa por sobre o parapeito.
Sintaxe
Tinha sérios problemas com o Português. De concordância, principalmente. Já com o Espanhol, seu amante...
Alguém explica?
– Doutor, eu sonhei que sua mulher me amava.
– Eu também – suspirou o psicanalista – eu também.
Debaixo da lona rasgada
Divertiu-se com as palhaçadas, temeu pela vida dos equilibristas, comoveu-se com os bichos. Fechou o jornal e foi ao circo.
Heróis e Mitos
1
– Como foi de viagem, querido?
– Nem te conto, Penélope, nem te conto.
2
– Sabe do Kronos?
– Mandou dizer que hoje não volta mais.
3
– E o pagamento, Caronte?
– Adiantado e em dinheiro.
O médico deu-lhe um ano de vida. Devolveu no dia seguinte. Sem uso.
Jogatina
Feliz no jogo, infeliz no amor, suspirou, enquanto jogava a segunda esposa por sobre o parapeito.
Sintaxe
Tinha sérios problemas com o Português. De concordância, principalmente. Já com o Espanhol, seu amante...
Alguém explica?
– Doutor, eu sonhei que sua mulher me amava.
– Eu também – suspirou o psicanalista – eu também.
Debaixo da lona rasgada
Divertiu-se com as palhaçadas, temeu pela vida dos equilibristas, comoveu-se com os bichos. Fechou o jornal e foi ao circo.
Heróis e Mitos
1
– Como foi de viagem, querido?
– Nem te conto, Penélope, nem te conto.
2
– Sabe do Kronos?
– Mandou dizer que hoje não volta mais.
3
– E o pagamento, Caronte?
– Adiantado e em dinheiro.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
A civilização ocidental (Ricardo Silveira)
De início pensei em não ir, mas no horário e local marcado eu estava lá. Ele chegou antes de mim. Na sua frente um campari e uma garrafinha de água mineral. Tinha um olhar muito sério. Não parecia irritado. Eu estaria se fosse ele.
— Boa tarde, senhor Campelo.
— Boa tarde. Sente-se.
Ele me ofereceu a cadeira e esperou eu me acomodar para sentar-se. Vestia-se com classe. Calça de lã, camisa salmão, um colete xadrez e uma parca. Eu vinha do meu trabalho e vestia calça jeans, camisa e um casaco de couro marrom cujos bolsos internos estavam rasgados.
— O senhor pediu que eu viesse. Aqui estou eu, seu Campelo.
— É... Eu pedi sim. Bebe alguma coisa?
— Um carioca.
— Pensei que estivesse com vontade de beber uma bebida mais forte.
— O senhor tem razão. Eu quero um café expresso.
O comentário a respeito da bebida já era algum tipo de alfinetada? Ele estava surpreendentemente calmo.
— Pedi que viesse, pois acho que devemos conversar, senhor... Como é mesmo seu nome?
— Heitor.
— Heitor, tu és o amante de minha esposa, não?
— O que o senhor quer, seu Campelo? Não me chamou para este tipo de conversa. Eu não sou nenhum idiota e sei que o senhor tem mais o que fazer a esta hora.
— Claro que sabe. É neste horário que vocês se encontram, não? A propósito, vocês usam camisinha?
— Por favor, seu Campelo. Se a conversa continuar neste tom...
— Tudo bem. Mudemos o tom. Eu lhe pedi que viesse, pois quero conhecê-lo e fazer algumas perguntas.
— Antes do senhor perguntar, gostaria de lhe dizer... Bem, eu e a Camila... Nós nos amamos.
— Sim, ela me disse a mesma coisa.
— E quando a conheci eu não sabia que era casada. Ela não usa aliança.
— Ela não usa quando está sozinha. Comigo, ela sempre usou aliança.
Ele pegou o anel que estava em um dos bolsos do casaco e me estendeu.
— Veja, dê uma olhada.
Olhei de forma rápida e logo lhe entreguei.
— Não, observe com mais calma. Na parte interna da aliança está meu nome e a data de nosso casamento.
Olhei novamente e coloquei-a sobre a mesa. O garçom trouxe meu café.
— Isto aconteceu há sete anos. Eu sabia que não iria durar muito, mas na minha idade, um casamento com uma mulher vinte e oito anos mais nova é como renascer...
— Olha, seu Campelo. Eu vim até aqui afirmar para o senhor que eu amo muito a Camila. Não tinha a intenção de constrangê-lo e quando fiquei sabendo que ela era casada eu já estava apaixonado. Vim para dizer também que tomei uma decisão: ficarei com Camila apenas se houver separação. Não serei mais o amante. Se ela não me quiser e preferir ficar com o senhor não a verei nunca mais.
Seu Campelo deu um sorriso amarelo e bateu palmas com ironia.
— Muito bem, senhor Heitor. Belo discurso! E decidiu isto só agora, quando recebeu meu telefonema? Vocês estão juntos há oito meses!
— Bem, seu Campelo. O que eu tinha pra dizer está dito. A decisão agora é da Camila. Eu aceitarei o que ela decidir.
— E o que tu achas que ela irá decidir?
— Pergunte a ela.
— Eu já perguntei a ela. O que tu achas que ela decidiu?
— Bem... Não sei...
— Vamos, diga. Tu achas que ela vai pedir a separação? Hein?
— Eu realmente não sei. Não chegamos a conversar sobre isso. Eu fui surpreendido com seu telefonema e decidi sobre o que lhe falei no caminho para cá, mas é a minha decisão. E é definitiva.
— Tens idéia de como eu fiquei sabendo do caso de vocês?
Comecei a achar aquela conversa estranha. Seu Campelo agora tinha o rosto vermelho. Demonstrava visível irritação. Alguém neste mundo realmente me odiava.
— Olha, não estou mais interessado nesta conversa, seu Campelo. O senhor está se alterando e não vejo motivos para continuarmos.
— Eu não precisei contratar detetives. Tenho pessoas de minha confiança que fazem este tipo de serviço.
— O senhor andou me espionando?
— Não, eu não diria isso. Eu apenas estava cuidando do que é meu. Sei de cada passo de vocês dois nas últimas duas semanas, e sabe por que tu ainda caminhas e atende ao telefone? Por que eu queria ter esta conversa contigo.
— Quem o senhor pensa que é? Deus?
Ele deu uma gargalhada que foi ouvida por quase toda a cafeteria. Olhei para as mesas e, ao fundo, havia um homem de terno preto e óculos escuros que aparentava ler um jornal. Seu Campelo lentamente foi se restabelecendo da risada histriônica para então assumir uma carranca. Passou a falar cuspindo um pouco da saliva que juntou no canto dos lábios, como pequeníssimas porções de merengue.
— Deus? Não, eu não sou Deus. Eu sou corrupto! Entendeu? Corrupto! Iguais a mim está cheio por aí, mas eu sou um dos melhores, ou um dos piores. Fica a teu critério.
— Eu já ouvi falar de tua fama.
— Então por que se envolveu com minha esposa?
— Era isto que o senhor queria saber? Foi para isto que me chamou?
— Sinceramente? Sim. Queria conhecer o estúpido que teve a pretensão de me enfiar um par de guampas e ainda por cima não recuar diante de um convite para uma conversa comigo.
— Não tinha pensado por este ponto de vista. Achei que teríamos uma conversa civilizada e...
— Civilizada? Meu Deus! Tu és mais burro do que eu imaginava. A que tipo de civilização tu te referes?
— A civilização ocidental — falei meio gaguejando, sem muita convicção.
— Civilização ocidental?
Seu Campelo pegou com força um dos meus braços e o sacudiu.
— Olhe para os lados, seu idiota! Veja!
Olhei para a praça de alimentação e não notei nada de muito suspeito além do homem de preto. O shopping estava vazio àquela hora.
— Estás vendo? Não? Claro que não estás vendo. Tu não enxergas. Não percebes que te espreitam. Que o pouco que te resta de civilização é este cafezinho... E não tiveste nem a coragem de pedir uma bebida decente.
— Eu achei que...
— Cagalhão!
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Tempo suficiente de eu terminar meu café e ele seu campari.
— O senhor quer me dizer mais alguma coisa?
— Não, pode cair fora. Anda! Some da minha frente!
Levantei-me, mas ao girar sobre a cadeira lembrei de Camila.
— Onde ela está, seu Campelo?
Ele desfez a face rubra de ódio e empalideceu.
— Ela está em um lugar confortável.
— O senhor jura pra mim que ela vai ficar bem?
Juramentos não valem nada, os do seu Campelo menos ainda, mas ele não me disse coisa alguma, apenas estendeu um braço e chamou a garçonete.
No caminho para o estacionamento tentei diversas vezes contatar Camila pelo celular. Inútil. Decidi ficar mais um tempo. No shopping há um guichê da rodoviária e comprei uma passagem para Montevidéu. Tinha pouco tempo e preferi não sair do shopping até a hora da partida do ônibus. Pensei em Camila. Tudo está acabado pra nós, infelizmente. Retornei à cafeteria. Seu Campelo não estava mais lá, tampouco o homem vestido de preto. Pedi uma dose de vinho do Porto. Tive dificuldade para beber, pois minhas mãos trêmulas não me obedeciam. Acho que vou ter tempo pra me recuperar no Uruguai... Meu Deus! Como eu estou cansado...
— Boa tarde, senhor Campelo.
— Boa tarde. Sente-se.
Ele me ofereceu a cadeira e esperou eu me acomodar para sentar-se. Vestia-se com classe. Calça de lã, camisa salmão, um colete xadrez e uma parca. Eu vinha do meu trabalho e vestia calça jeans, camisa e um casaco de couro marrom cujos bolsos internos estavam rasgados.
— O senhor pediu que eu viesse. Aqui estou eu, seu Campelo.
— É... Eu pedi sim. Bebe alguma coisa?
— Um carioca.
— Pensei que estivesse com vontade de beber uma bebida mais forte.
— O senhor tem razão. Eu quero um café expresso.
O comentário a respeito da bebida já era algum tipo de alfinetada? Ele estava surpreendentemente calmo.
— Pedi que viesse, pois acho que devemos conversar, senhor... Como é mesmo seu nome?
— Heitor.
— Heitor, tu és o amante de minha esposa, não?
— O que o senhor quer, seu Campelo? Não me chamou para este tipo de conversa. Eu não sou nenhum idiota e sei que o senhor tem mais o que fazer a esta hora.
— Claro que sabe. É neste horário que vocês se encontram, não? A propósito, vocês usam camisinha?
— Por favor, seu Campelo. Se a conversa continuar neste tom...
— Tudo bem. Mudemos o tom. Eu lhe pedi que viesse, pois quero conhecê-lo e fazer algumas perguntas.
— Antes do senhor perguntar, gostaria de lhe dizer... Bem, eu e a Camila... Nós nos amamos.
— Sim, ela me disse a mesma coisa.
— E quando a conheci eu não sabia que era casada. Ela não usa aliança.
— Ela não usa quando está sozinha. Comigo, ela sempre usou aliança.
Ele pegou o anel que estava em um dos bolsos do casaco e me estendeu.
— Veja, dê uma olhada.
Olhei de forma rápida e logo lhe entreguei.
— Não, observe com mais calma. Na parte interna da aliança está meu nome e a data de nosso casamento.
Olhei novamente e coloquei-a sobre a mesa. O garçom trouxe meu café.
— Isto aconteceu há sete anos. Eu sabia que não iria durar muito, mas na minha idade, um casamento com uma mulher vinte e oito anos mais nova é como renascer...
— Olha, seu Campelo. Eu vim até aqui afirmar para o senhor que eu amo muito a Camila. Não tinha a intenção de constrangê-lo e quando fiquei sabendo que ela era casada eu já estava apaixonado. Vim para dizer também que tomei uma decisão: ficarei com Camila apenas se houver separação. Não serei mais o amante. Se ela não me quiser e preferir ficar com o senhor não a verei nunca mais.
Seu Campelo deu um sorriso amarelo e bateu palmas com ironia.
— Muito bem, senhor Heitor. Belo discurso! E decidiu isto só agora, quando recebeu meu telefonema? Vocês estão juntos há oito meses!
— Bem, seu Campelo. O que eu tinha pra dizer está dito. A decisão agora é da Camila. Eu aceitarei o que ela decidir.
— E o que tu achas que ela irá decidir?
— Pergunte a ela.
— Eu já perguntei a ela. O que tu achas que ela decidiu?
— Bem... Não sei...
— Vamos, diga. Tu achas que ela vai pedir a separação? Hein?
— Eu realmente não sei. Não chegamos a conversar sobre isso. Eu fui surpreendido com seu telefonema e decidi sobre o que lhe falei no caminho para cá, mas é a minha decisão. E é definitiva.
— Tens idéia de como eu fiquei sabendo do caso de vocês?
Comecei a achar aquela conversa estranha. Seu Campelo agora tinha o rosto vermelho. Demonstrava visível irritação. Alguém neste mundo realmente me odiava.
— Olha, não estou mais interessado nesta conversa, seu Campelo. O senhor está se alterando e não vejo motivos para continuarmos.
— Eu não precisei contratar detetives. Tenho pessoas de minha confiança que fazem este tipo de serviço.
— O senhor andou me espionando?
— Não, eu não diria isso. Eu apenas estava cuidando do que é meu. Sei de cada passo de vocês dois nas últimas duas semanas, e sabe por que tu ainda caminhas e atende ao telefone? Por que eu queria ter esta conversa contigo.
— Quem o senhor pensa que é? Deus?
Ele deu uma gargalhada que foi ouvida por quase toda a cafeteria. Olhei para as mesas e, ao fundo, havia um homem de terno preto e óculos escuros que aparentava ler um jornal. Seu Campelo lentamente foi se restabelecendo da risada histriônica para então assumir uma carranca. Passou a falar cuspindo um pouco da saliva que juntou no canto dos lábios, como pequeníssimas porções de merengue.
— Deus? Não, eu não sou Deus. Eu sou corrupto! Entendeu? Corrupto! Iguais a mim está cheio por aí, mas eu sou um dos melhores, ou um dos piores. Fica a teu critério.
— Eu já ouvi falar de tua fama.
— Então por que se envolveu com minha esposa?
— Era isto que o senhor queria saber? Foi para isto que me chamou?
— Sinceramente? Sim. Queria conhecer o estúpido que teve a pretensão de me enfiar um par de guampas e ainda por cima não recuar diante de um convite para uma conversa comigo.
— Não tinha pensado por este ponto de vista. Achei que teríamos uma conversa civilizada e...
— Civilizada? Meu Deus! Tu és mais burro do que eu imaginava. A que tipo de civilização tu te referes?
— A civilização ocidental — falei meio gaguejando, sem muita convicção.
— Civilização ocidental?
Seu Campelo pegou com força um dos meus braços e o sacudiu.
— Olhe para os lados, seu idiota! Veja!
Olhei para a praça de alimentação e não notei nada de muito suspeito além do homem de preto. O shopping estava vazio àquela hora.
— Estás vendo? Não? Claro que não estás vendo. Tu não enxergas. Não percebes que te espreitam. Que o pouco que te resta de civilização é este cafezinho... E não tiveste nem a coragem de pedir uma bebida decente.
— Eu achei que...
— Cagalhão!
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Tempo suficiente de eu terminar meu café e ele seu campari.
— O senhor quer me dizer mais alguma coisa?
— Não, pode cair fora. Anda! Some da minha frente!
Levantei-me, mas ao girar sobre a cadeira lembrei de Camila.
— Onde ela está, seu Campelo?
Ele desfez a face rubra de ódio e empalideceu.
— Ela está em um lugar confortável.
— O senhor jura pra mim que ela vai ficar bem?
Juramentos não valem nada, os do seu Campelo menos ainda, mas ele não me disse coisa alguma, apenas estendeu um braço e chamou a garçonete.
No caminho para o estacionamento tentei diversas vezes contatar Camila pelo celular. Inútil. Decidi ficar mais um tempo. No shopping há um guichê da rodoviária e comprei uma passagem para Montevidéu. Tinha pouco tempo e preferi não sair do shopping até a hora da partida do ônibus. Pensei em Camila. Tudo está acabado pra nós, infelizmente. Retornei à cafeteria. Seu Campelo não estava mais lá, tampouco o homem vestido de preto. Pedi uma dose de vinho do Porto. Tive dificuldade para beber, pois minhas mãos trêmulas não me obedeciam. Acho que vou ter tempo pra me recuperar no Uruguai... Meu Deus! Como eu estou cansado...
domingo, 7 de junho de 2009
Em que coincidentemente se reincide (Leila de Souza Teixeira)
você está coberta por um lençol verde encolhida no canto da sacada de um apartamento que não lembra de quem é mas sabe ser no sétimo andar de um edifício com a fachada feita de pastilhas azul-piscina. enquanto de olhos fechados passa a mão vagarosamente sobre as pastilhas imagina a piscina da casa da sua mãe onde você nada todo sábado de manhã chapada. e chapada agora sai do canto para sentir melhor o vento quente que sacode a grade da sacada do apartamento que você tenta tenta tenta lembrar de quem é mas não consegue pois lhe vem na memória apenas (porém nítido) o sete vermelho pintado na parede branca nítido ali “7” quando a porta do elevador abriu. aliás na memória também nítida a recordação de que no exato momento em que viu o sete pensou no filme em as pessoas trabalham no sétimo e meio andar porque antes do momento exato em que viu o sete você já se sentia como as pessoas do filme sufocadas por um meio pé direito e naquele exato momento riu como ri agora da nítida coincidência.
você resolve chegar bem perto da grade para sentir melhor o vento denso quente forte que de tão denso parece água e que espanta o sufocamento trazido por todas as lembranças do momento exato em que viu o sete vermelho. enquanto de olhos fechados encosta cintura para baixo na grade cintura para cima no vento imagina a água quente da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã bêbada. e bêbada agora desenrola desenrola desenrola o lençol verde que envolvia seu corpo pois não vê mais necessidade de estar enrolada em um lençol verde (ou a cor que fosse) já que essa coisa do vento mentindo ser água quente acabou com o frio que há bem pouco você sentia. aliás há bem pouco nesta manhã morna de verão você estranhamente pediu algo para se cobrir ao dono do apartamento que você mais estranhamente ainda não consegue identificar quem é nem na sua lembrança de ele parecendo não estranhar nada lhe dar um lençol verde antes de sair pela porta dizendo que iria comprar mais água e cigarro.
você cogita entrar na sala para ligar o rádio que há bem pouco enxergou através do vidro da porta da sacada porque neste exato momento qualquer voz mesmo que a voz de alguém que não esteja onde você está seria uma boa companhia. enquanto de olhos fechados gira o corpo em direção a porta de vidro imagina o silêncio embaixo da água da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã calada. e calada agora caminha até a porta de vidro mas a visão do sétimo andar e meio lhe oprime lhe oprime lhe oprime e você decide continuar em silêncio do lado de fora ouvindo só o som das coisas que o vento quente denso forte carrega para algum lugar que você não sabe qual. aliás saber para onde vão todas as coisas (e todas as pessoas) no sábado de manhã sempre mergulhou você em pensamentos porque você nunca conseguiu enxergar o motivo de ser convidada a visitar uma pessoa que vai embora quando você chega como se apesar do convite que ela própria fez não quisesse estar em sua companhia.
você escuta o barulho do que talvez seja uma sacola de plástico fundir-se com o barulho do que certamente é o sacolejo violento do lençol verde que segura com a mão desde que o vento quente denso forte tirou de você também o frio. enquanto de olhos fechados caminha para trás até encostar o corpo de novo na grade imagina os sons das coisas voando que se fundem violentamente quebrando o silêncio de vozes na piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã confusa. e confusa agora observa na porta de vidro o reflexo das coisas que voam passando por trás de você como o reflexo ondulado da bandeja que sua mãe segura com as mãos passando por trás de você sentada no trampolim. aliás o único lugar no qual você encontra sua mãe em um sábado de manhã quando a visita é no reflexo ondulado da água da piscina quando ela larga larga larga a bandeja amarga do suco ao seu lado antes de sair (e voltar talvez quando você não esteja mais lá) pelo portão dizendo que vai comprar mais suco e cigarro.
você contempla a dança do lençol verde por cima da coreografia de folhas de árvores trazidas da rua para cirandar freneticamente ao lado dos seus pés descalços no chão da sacada. enquanto de olhos fechados permite que o lençol verde denso forte gire de volta para a rua o seu corpo encostado na grade imagina seu pequeno corpinho girando na água quente da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã sedenta. e sedenta agora entre os vãos dos galhos frenéticos das árvores que dançam por cima da rua procura o dono do apartamento que talvez assim de cima você consiga identificar e que seria melhor que chegasse logo porque esta espera parece impacientar seu pé esquerdo que você encara ele pé esquerdo batendo freneticamente no chão da sacada. aliás você perdeu perdeu perdeu as contas de quantas vezes ficou encarando seu pequeno impaciente pezinho esquerdo batendo no trampolim durante o tempo em que chamava platéia (que dizia que ia logo mas nunca ia) para suas cambalhotas.
você evita fazer qualquer resistência quando o vento forte denso leva também o lençol verde que lhe cobria entre donos de apartamento sacolas de supermercado sensações de frio e folhas de árvores pois “ir embora” parece ser a ordem natural das coisas que lhe cercam aos sábados de manhã. enquanto de olhos fechados sente o pano suavemente se desprender dos seus dedos imagina as folhas verdes que desprendem das árvores plantadas ao redor da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã sozinha. e sozinha agora observa as nuvens mentindo que o prédio em frente se mexe e percebe que tudo se move se move se move ao seu redor como tudo se movia em torno de você (criança plantada de costas no trampolim) durante o tempo em que esperava sua mãe chegar para ver a cambalhota. aliás se movem mesmo o lençol verde que voa longe mais sacolas de supermercado as nuvens mentirosas mais folhas de árvores tudo salvo você nesta sacada esperando por suco água e cigarro.
você percebe que se as nuvens mentem que o prédio em frente se mexe devem mentir que o edifício com a fachada feita de pastilhas azul-piscina que tem um apartamento sabe-se lá de quem no qual você está se move também. enquanto com os olhos abertos senta na grade de costas para a rua imagina todas as coisas que giravam ao redor do trampolim da piscina da casa da sua mãe onde você esperava por horas todo sábado de manhã cansada. e cansada agora inclina inclina inclina bem o corpo para trás para ver se realmente as nuvens mentem que o edifício em que está se move mas logo pondera que talvez em um sábado de manhã como este as nuvens não mintam e o edifício realmente se mova. aliás em um sábado de manhã como este (como todos os outros) talvez ninguém minta nada e as pastilhas azuis da piscina a água quente densa forte o sétimo andar vermelho de meio pé direito tudo se mova em torno de você parada de costas no trampolim durante o tempo em que espera a platéia chegar para ver a cambalhota.
você percebe que se as nuvens mentem que o prédio em frente se mexe devem mentir que o vento forte denso leva também a dança do lençol verde por cima da coreografia de folhas de árvores trazidas da rua com o barulho do que certamente é o sacolejo violento do rádio que há bem pouco enxergou através do vidro forte que de tão denso parece água e que espanta o sufocamento trazido por todas as lembranças que não lembra de quem é mas sabe ser no sétimo andar de um edifício com a fachada feita de pastilhas azul-piscina.
você resolve chegar bem perto da grade para sentir melhor o vento denso quente forte que de tão denso parece água e que espanta o sufocamento trazido por todas as lembranças do momento exato em que viu o sete vermelho. enquanto de olhos fechados encosta cintura para baixo na grade cintura para cima no vento imagina a água quente da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã bêbada. e bêbada agora desenrola desenrola desenrola o lençol verde que envolvia seu corpo pois não vê mais necessidade de estar enrolada em um lençol verde (ou a cor que fosse) já que essa coisa do vento mentindo ser água quente acabou com o frio que há bem pouco você sentia. aliás há bem pouco nesta manhã morna de verão você estranhamente pediu algo para se cobrir ao dono do apartamento que você mais estranhamente ainda não consegue identificar quem é nem na sua lembrança de ele parecendo não estranhar nada lhe dar um lençol verde antes de sair pela porta dizendo que iria comprar mais água e cigarro.
você cogita entrar na sala para ligar o rádio que há bem pouco enxergou através do vidro da porta da sacada porque neste exato momento qualquer voz mesmo que a voz de alguém que não esteja onde você está seria uma boa companhia. enquanto de olhos fechados gira o corpo em direção a porta de vidro imagina o silêncio embaixo da água da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã calada. e calada agora caminha até a porta de vidro mas a visão do sétimo andar e meio lhe oprime lhe oprime lhe oprime e você decide continuar em silêncio do lado de fora ouvindo só o som das coisas que o vento quente denso forte carrega para algum lugar que você não sabe qual. aliás saber para onde vão todas as coisas (e todas as pessoas) no sábado de manhã sempre mergulhou você em pensamentos porque você nunca conseguiu enxergar o motivo de ser convidada a visitar uma pessoa que vai embora quando você chega como se apesar do convite que ela própria fez não quisesse estar em sua companhia.
você escuta o barulho do que talvez seja uma sacola de plástico fundir-se com o barulho do que certamente é o sacolejo violento do lençol verde que segura com a mão desde que o vento quente denso forte tirou de você também o frio. enquanto de olhos fechados caminha para trás até encostar o corpo de novo na grade imagina os sons das coisas voando que se fundem violentamente quebrando o silêncio de vozes na piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã confusa. e confusa agora observa na porta de vidro o reflexo das coisas que voam passando por trás de você como o reflexo ondulado da bandeja que sua mãe segura com as mãos passando por trás de você sentada no trampolim. aliás o único lugar no qual você encontra sua mãe em um sábado de manhã quando a visita é no reflexo ondulado da água da piscina quando ela larga larga larga a bandeja amarga do suco ao seu lado antes de sair (e voltar talvez quando você não esteja mais lá) pelo portão dizendo que vai comprar mais suco e cigarro.
você contempla a dança do lençol verde por cima da coreografia de folhas de árvores trazidas da rua para cirandar freneticamente ao lado dos seus pés descalços no chão da sacada. enquanto de olhos fechados permite que o lençol verde denso forte gire de volta para a rua o seu corpo encostado na grade imagina seu pequeno corpinho girando na água quente da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã sedenta. e sedenta agora entre os vãos dos galhos frenéticos das árvores que dançam por cima da rua procura o dono do apartamento que talvez assim de cima você consiga identificar e que seria melhor que chegasse logo porque esta espera parece impacientar seu pé esquerdo que você encara ele pé esquerdo batendo freneticamente no chão da sacada. aliás você perdeu perdeu perdeu as contas de quantas vezes ficou encarando seu pequeno impaciente pezinho esquerdo batendo no trampolim durante o tempo em que chamava platéia (que dizia que ia logo mas nunca ia) para suas cambalhotas.
você evita fazer qualquer resistência quando o vento forte denso leva também o lençol verde que lhe cobria entre donos de apartamento sacolas de supermercado sensações de frio e folhas de árvores pois “ir embora” parece ser a ordem natural das coisas que lhe cercam aos sábados de manhã. enquanto de olhos fechados sente o pano suavemente se desprender dos seus dedos imagina as folhas verdes que desprendem das árvores plantadas ao redor da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã sozinha. e sozinha agora observa as nuvens mentindo que o prédio em frente se mexe e percebe que tudo se move se move se move ao seu redor como tudo se movia em torno de você (criança plantada de costas no trampolim) durante o tempo em que esperava sua mãe chegar para ver a cambalhota. aliás se movem mesmo o lençol verde que voa longe mais sacolas de supermercado as nuvens mentirosas mais folhas de árvores tudo salvo você nesta sacada esperando por suco água e cigarro.
você percebe que se as nuvens mentem que o prédio em frente se mexe devem mentir que o edifício com a fachada feita de pastilhas azul-piscina que tem um apartamento sabe-se lá de quem no qual você está se move também. enquanto com os olhos abertos senta na grade de costas para a rua imagina todas as coisas que giravam ao redor do trampolim da piscina da casa da sua mãe onde você esperava por horas todo sábado de manhã cansada. e cansada agora inclina inclina inclina bem o corpo para trás para ver se realmente as nuvens mentem que o edifício em que está se move mas logo pondera que talvez em um sábado de manhã como este as nuvens não mintam e o edifício realmente se mova. aliás em um sábado de manhã como este (como todos os outros) talvez ninguém minta nada e as pastilhas azuis da piscina a água quente densa forte o sétimo andar vermelho de meio pé direito tudo se mova em torno de você parada de costas no trampolim durante o tempo em que espera a platéia chegar para ver a cambalhota.
você percebe que se as nuvens mentem que o prédio em frente se mexe devem mentir que o vento forte denso leva também a dança do lençol verde por cima da coreografia de folhas de árvores trazidas da rua com o barulho do que certamente é o sacolejo violento do rádio que há bem pouco enxergou através do vidro forte que de tão denso parece água e que espanta o sufocamento trazido por todas as lembranças que não lembra de quem é mas sabe ser no sétimo andar de um edifício com a fachada feita de pastilhas azul-piscina.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Musa de Argila e De inteiro a metade (César Azevedo)
MUSA DE ARGILA
Disforme, por entre os dedos
Deslizas, matéria-prima.
Escorrem abaixo e acima
Teus excessos, meus segredos.
Na silhueta frágil e macia,
Nômade, navego milhas
Criando-te novas trilhas
A moldar minha fantasia.
Da lama te faço vida
Sabendo que vais embora.
Nem quero pensar agora
No instante da despedida.
Vai tua imagem, fica o rancor.
É só dinheiro o que me sobra
Da matéria, já feita obra
No ofício de escultor.
DE INTEIRO A METADE
Andou um tanto distante
Do caminho habitual
Imutável nada breve
Na terra plana e arada
Deixou o inerte gemido
Apagou culpa e pegadas
Do fastio criou desejo
Do deserto fez um rio
Traçou ambígua aventura
Provou o golpe repetido
Ao reinar em solo alheio
Seco em laços e governo
Arredou vales e montes
Em busca do que levava
O tempo todo consigo
E só faltou entender
Voltou tardio ao abrigo
Sinal vermelho na porta
Colou o rosto na escuta
E ao silêncio abandonou-se
Disforme, por entre os dedos
Deslizas, matéria-prima.
Escorrem abaixo e acima
Teus excessos, meus segredos.
Na silhueta frágil e macia,
Nômade, navego milhas
Criando-te novas trilhas
A moldar minha fantasia.
Da lama te faço vida
Sabendo que vais embora.
Nem quero pensar agora
No instante da despedida.
Vai tua imagem, fica o rancor.
É só dinheiro o que me sobra
Da matéria, já feita obra
No ofício de escultor.
DE INTEIRO A METADE
Andou um tanto distante
Do caminho habitual
Imutável nada breve
Na terra plana e arada
Deixou o inerte gemido
Apagou culpa e pegadas
Do fastio criou desejo
Do deserto fez um rio
Traçou ambígua aventura
Provou o golpe repetido
Ao reinar em solo alheio
Seco em laços e governo
Arredou vales e montes
Em busca do que levava
O tempo todo consigo
E só faltou entender
Voltou tardio ao abrigo
Sinal vermelho na porta
Colou o rosto na escuta
E ao silêncio abandonou-se
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