quarta-feira, 19 de maio de 2010

A devota, de Caetano Sordi

Naqueles dias, em que o mundo conhecido parecia ter sido colocado de cabeça para baixo, apenas uma consternação habitava os pensamentos de Fermín Arantza: conduzir a mãe, pela última vez, à Igreja de Santiago Apóstolo, em Amorebieta, para se confessar. Os dias que restavam para Suri Arantza na companhia dos vivos eram poucos. Os sinais disso eram tão evidentes quanto o rastro dos aviões alemães no céu: de uns tempos para cá, a velha mãe não aquietava a língua um só segundo, destilando, do nascer ao pôr do sol, as cantilenas religiosas, en el “idioma”, que todos, num raio de duzentos quilômetros, saberiam acompanhar.

O problema que se interpunha na mente de Fermín era de ordem prática: o padre confessor havia sido transferido dois anos antes para Amorebieta. Padre Xoaquín, um dos poucos galegos conhecidos que aprenderam o idioma, era, na cabeça de sua mãe, autoridade inviolável em termos de confissão. Suri Arantza jamais se subordinaria aos conselhos de um padre mais jovem. Ainda mais se ele se recusasse a falar euskera e tivesse “aqueles olhos andaluzes” como tinha o então abade da capela local. Era de suma importância, portanto, que o bloqueio dos nacionalistas fosse atravessado para que sua mãe pudesse habitar a eternidade ao lado direito do Senhor.

Desde o dia em que eclodira a guerra, foram poucos os gentios do povoado que tinham visto jorrar sangue ou explosões de pólvora à sua frente. Protegido, à leste e ao sul, por umas colinas baixas; e a norte e à oeste pela coroa dentada do Cantábrico, o vilarejo, até então, havia sentido somente os efeitos secundários do fratricídio peninsular. Os racionamentos de comida e mantimentos já duravam um ano. Os aldeões já tinham se resignado a comer estritamente aquilo o que produziam, tratando produtos enlatados, bem como industrializados de toda sorte, sob o registro de bem-vindas exceções domingueiras. A situação piorara, entretanto, desde que os nacionalistas haviam bloqueado a Estrada Grande, na altura de Amorebieta, por volta do entardecer da quinta-feira de Pentecostes.

Levá-la seria de grande facilidade e simplicidade se a devota não estivesse acometida do furor cantinolento que a fazia repetir, uma atrás da outra, todas as cantigas de Igreja conhecidas em Euskadi, sem que nada, absolutamente nada fizesse-lhe parar. Pelas ordens do generalíssimo, todas as línguas peninsulares que não o castelhano estavam expressamente proibidas em território nacionalista. Mesmo que cruzasse o cerco conduzindo a mãe com sua demente cantoria, o simples fato de andar por Amorebieta ao seu lado poderia produzir graves problemas para ambos; e de problemas, Fermín Arantza já possuía a complicada vida da etxalde. Se todos os problemas do mundo fossem como aqueles da vida pastoril, por exemplo, recolher uma ovelha morta do leito de um rio, a existência seria significativamente menos complicada. Assim pensava Fermín Arantza toda vez que a polícia implicava com algum conhecido seu por chamar as coisas por seu nome de verdade.

Sim, na cabeça de Fermín Arantza, as coisas tinham nomes de verdade e nomes de mentira; os primeiros, evidentemente mais antigos e potentes que os segundos. Não havia motivo que o convencesse para chamar Donostia de San Sebastián, euskera de basco ou mesmo “vascuense” (palavra horrível ouvida de um sujeito local conhecido como “o gramático”), bem como a sagrada etxalde de “fazenda” e substituir o corriqueiro e fluido Egun On por um frio e cortadiço “Buenos dias”. Explicar-se em castelhano, assim como explicar o problema da sua mãe em castelhano para a soldadesca armada, era uma situação do mundo dos possíveis que nada agradava Fermín Arantza, justamente por ter de substituir as palavras autênticas pelas palavras mentirosas.

A Fermín Arantza, que nunca fora muito afeito à atmosfera citadina, restringir seus horizontes à cerca da etxalde nunca havia se configurado como um problema. Até mesmo visitar o povoado, distante a poucas léguas do seu portão, consistia para ele uma tarefa aborrecida, destas que se faz somente por se fazer. Desde que o irmão mais novo Ignacio – ou Iñaki, no idioma – havia partido para um convento em San Sebastián, a responsabilidade pela velha casa e a velha mãe tinha recaído totalmente sobre si. Suri Arantza, aos oitenta e quatro anos de idade, já não enxergava com a mesma eficiência com que alguns anos antes conseguia identificar grãos de milho fugidios nos interstícios das lajotas do assoalho; da mesma forma, seus movimentos, outrora tesos e certeiros, tinham definhado até os simples atos humanos de falar e respirar. Caminhar ainda lhe era possível, uns poucos passos, assim como conduzir a colher de sopa até a boca. Todos os dias, a velha dirigia-se até a latrina sozinha e, pacienciosamente, respeitava o imperativo de suas necessidades corporais. O pouco de autonomia que ainda possuía frente ao filho era celebrada diariamente neste ritual sem mais significações. Praticamente fundido às necessidades da mãe e da lida na etxalde, Fermín Arantza não tinha tempo algum para mulheres, jogar pelota, distribuir insultos etílicos na taverna e todas as atividades mundanas que consumiam o tempo dos varões ilhados pela guerra civil. Bonito e forte, não eram poucas as moças que viam nele um casamento promissor; belos e robustos filhos como Fermín e toda a estirpe dos Arantza, cuja presença naquele úmido vale do Cantábrico remontava ao tempo dos romanos ou dos visigodos. Os Arantza, assim como seus vizinhos Iturbide e os irascíveis Oyarzábal da outra margem do riacho (com os quais os Arantza sempre possuíram disputas demarcatórias), eram o que de mais antigo – depois das pedras – poderia ser encontrado entre aqueles montes tristes.

A velha passava os dias deitada numa cama antiga, que havia assistido ao parto de seus filhos, além de júbilos e infernos da vida conjugal. Da grande janela à sua frente, conseguia ter uma visão bastante ampla das terras da etxalde, embora não conseguisse mais distinguir dos vultos as suas formas essenciais. Fermín, após a lide no campo, passava longas horas velando a mãe, sentado em uma poltrona puída, como que antecipando um funeral.

- Levanta-te, menino, põe-te de pé. – ordenou Suri Arantza – o que está acontecendo lá embaixo, lá no rio? Olha com atenção.

- É uma ovelha, mamãe. – respondeu Fermín – Há tempos que está afogada.

Já se contavam três dias desde que a carcaça do animal havia sido trazida, pela correnteza, à margem do pequeno riacho lindeiro à etxalde dos Arantza. Nem Fermín nem os empregados da propriedade haviam tomado qualquer providência em relação àquilo. Pensaram, primeiramente, que os cachorros tratariam de fazer o trabalho sujo, deglutindo os restos da pobre ovelha como bendiria seu instinto ferino. Os ossos, posteriormente, poderiam ser guardados pelos homens para usufruto próprio. Em tempos de penúria como aqueles, a utilidade de todas coisas – até mesmo as mais absurdas e prescindíveis, em outras épocas – era ponderada com seriedade. “É quando o mundo parece se dilacerar”, pontificava Xabier Iturbide, velho amigo e vizinho dos Arantza, “que as coisas se revestem de mais dignidade”.

Os dias iam se seguindo e o sol se punha cada vez mais triste atrás dos dentes do Cantábrico; o fim de tarde vinha sempre acompanhado do monstruoso rufar das hélices alemãs. Fermín Arantza mal e mal comia, importunado como estava não só pelo problema da missa e da subseqüente confissão, mas também pela intermitente ladainha que se ouvia desde o dormitório da sua mãe. Por alguns momentos esquecia daquilo e era como se a fraquejada voz de Suri Arantza ditasse o ritmo do mundo; de fato, aquelas cantigas eram declamadas na língua do nome verdadeiro de todas as coisas, e nada mais adequado ao mundo e à vida do que o nome que cada coisa tem. No entanto, toda vez que se afastava um pouco da velha casa e podia desfrutar de um silêncio mais profundo, era como se outra voz, ainda mais verdadeira, independente dos homens e das suas guerras civis, falasse ao seu ouvido. Longe da mãe, longe de tudo, apenas na companhia dos grilos e dos imprevisíveis sons do vale e do riacho, era como se ouvisse um idioma mais autêntico que o idioma autêntico: o som das palavras sem boca, diretamente coladas nas coisas que definem.

Toda vez que retornava à casa e ao tecido sonoro produzido por Suri Arantza, Fermín sentia-se novamente jogado sobre a realidade. Aquela língua há pouco ouvida como que se dissipava novamente dentro do espectro das palavras corriqueiras, dentro do universo de nomes e verbos produzidos pelo idioma, a língua falada pela sua estirpe desde eras ancestrais. Volta e meia a mãe interrompia os cânticos e, mirando Fermín, fundo nos olhos, lhe perguntava:

- Levanta-te, menino, põe-te de pé. O que está acontecendo ali? Olha com atenção.

Não era mais a carcaça da ovelha que atraía seu olhar cansado. Ela já havia sido retirada. A persiana da janela mais próxima é que se mexia freneticamente, por causa do vento, dando secos murros na parede. Como era noite de lua cheia, portanto bastante clara, uma tímida luz vinha de fora. Esta luminosidade parca, acoplada ao vai-e-vem da persiana, produzia sombras fantasmagóricas no dormitório da devota.

- É o vento, mamãe. Tua janela está aberta.

Desde que Suri Arantza havia perdido boa parte da visão, Fermín também fazia as vezes de olhos para sua mãe. Aos vultos que ela via aqui e acolá – sobretudo aqueles do lado de fora da janela – ele dava a digna e honesta interpretação. “Vejo agora através das tuas palavras, Fermín”, dizia ela, sempre agradecida, nos momentos de lucidez em que cessava a cantoria. Eles eram diários e repetiam a mesma forma, como se um demônio meridiano tivesse implantado uma loucura sã, ou uma demência matemática no juízo da pobre velha.

Podia ser às cinco horas da tarde ou às sete horas da manhã. Variava. Fermín chegava ao quarto minutos antes e, silenciosamente, acomodava-se na poltrona de feltro, colocada ao lado do leito de sua mãe. A ladainha religiosa arrefecia lentamente e, de repente, após alguns segundos de calado suspense, ela dizia:

- Levanta-te, menino, põe-te de pé. Diz-me o que lá se vê. Diz-me com atenção.

Para a mulher do vizinho Iturbide, o ritual diário não passava de mais uma manifestação do sagrado coração de Cristo, indício de que Suri Arantza necessitava o quanto antes se confessar para sua redenção. Tais coisas oprimiam o coração de Fermín como um cruel torniquete. Antes que achasse uma solução viável para o problema, temia enlouquecer de vez. O vento que sopra do Mar Cantábrico em direção à península, assim que bate nas encostas de Navarra, retorna sobre Euskadi com a úmida força de uma resignação abatida. Em todas as direções que olhava, Fermín Arantza via indícios de seu mundo acabando. A ovelha que encontrara em seu riacho, tomara ciência posteriormente, havia sido abatida por fogo humano, impiedoso. Da guerra das pessoas, também os bichos estavam padecendo. A guerra chegara naquele ponto do mundo que quase ninguém havia conseguido transpor. A língua de Fermín e das ladainhas da sua mãe só havia resistido por força destas contingências, meio naturais, meio humanas, que preservam resquícios da fundação do mundo aqui e acolá. Assim que terminasse a guerra, temia Fermín, também terminaria a sorte de sua gente.

A ininterrupta corrente das efemérides era cada vez mais permeada pela angústia de Fermín e ritmados pela cantilena a São Tiago Apóstolo, às Virgens de Covadonga e Begoña, Santo Antônio e São Sebastião. Os Iturbide, comovidos com a situação do rapaz, trataram então de emprestar-lhe um bem valioso, para que pudesse ouvir, de quando em quando, outras melodias que não aquelas da sua mãe. O enorme rádio de botões circulares foi posicionado ao lado da cama de Suri Arantza, para que também ela pudesse variar um pouco a monotonia dos pensamentos. Naquela altura dos acontecimentos, qualquer mudança de tom representaria um temporário alívio.

Pois que os resultados de tal empresa não foram os melhores, tendo em vista os planos ainda vivos na cabeça de Fermín de cruzar o cerco dos soldados e chegar ao Padre Xabier a tempo de operar a salvação da alma materna. Após um estafante dia de trabalho na plantação contígua à casa da etxalde, Fermín Arantza levou à mãe, como de costume, uma pequena ração de leite, biscoitos e café. Ao entrar no quarto, deparou-se não com as costumeiras cantorias religiosas, mas algo muito pior; muito mais difícil de ser aceito e passar imperceptível pelos aquilinos ouvidos da soldadesca. Com força surpreendente para uma velha entrevada, Suri Arantza, um tom acima da sua voz normal, cantarolava as malditas palavras:

Eusko gudariak gara


Euskadi askatzego


Gerturi daukagu odola


Bere aldez emateko...

Fermín Arantza conhecia muito bem aquela melodia. Quando a sua mãe ainda freqüentava o baile dos humanos sãos, ele volta e meia se dirigia, após as lides na propriedade, para a única cantina do povoado, tendo como objetivo consumir uns tragos. De quando em quando, gente de Bilbao aparecia propalando, numa ridícula versão pomposa do idioma, idéias tão absurdas quanto imaginar um morto insepulto feliz. Era um fato, conhecido e acreditado, que Fermín Arantza nunca gostara muito de gastar sua língua com castelhano e com a gente que o falava naturalmente. Todavia, reconhecia como sacrossanta a união das foralidades de sua gente e Reis Católicos. Questionar tais coisas parecia, para sua mente aldeã, tão sacrílegas quanto jogar aos porcos o sangue eucarístico. Uma das grandes irritações suas com o mundo daqueles dias era justamente o fato dele parecer estar se dilacerando através da suspensão destes liames sagrados; a fidelidade a certos princípios estava impressa em sua alma. “Quando ovelhas mortas aparecem boiando em riachos e pobres velhas são impedidas de se confessar, é porque tudo, absolutamente tudo está perdendo lentamente o seu sentido” – assim dissera Fermín Arantza para o amigo Iturbide, um pouco antes de regressar à casa depois de se aconselhar sobre a novidade da mãe.

O fato preocupante não era agora o idioma em si: era o conteúdo das novas ladainhas da sua mãe. Fermín conseguia imaginar com perfeição a sua carroça avançando pela estrada, sua mãe escondida como podia, nada conseguindo abafar a cantilena que vem da sua boca. O primeiro soldado os aborda. Do fundo da carroça se escuta:

Eusko gudariak gara


Euskadi askatzeko...


Nós somos os soldados bascos


Que a Euskadi libertaremos...

Os soldados entendem rudimentos do idioma. Em todo caso, mesmo não o entendendo, saberiam identificar a melodia republicana. Maldito dia em que os Iturbide haviam lhe emprestado aquele rádio. Melhor seria que os franquistas escutassem Done Jakue e “santo santo santo é o Senhor” do que aquelas palavras que ele mesmo não via razão de serem. A própria palavra gudariak não existia na sua língua normal, herdada dos avós e bisavós. Como bem lhe informaram alguns, tratava-se de mais um dos verbetes criados pela gente de Bilbao para falar de coisas que no mundo de antanho não existiam, mas que como a pólvora, a espingarda, a metralhadora de repetição e a bomba de fósforo, passaram a habitar o mundo das coisas conhecidas e demandavam nomes para si.

Em meio a tudo isso, chegara o frio, e Suri Arantza fora acometida de uma violenta gripe que a colocou por algumas semanas mais próxima da morte do que da vida. Paradoxalmente, a doença acabou dando a Fermín Arantza uns dias de paz, uma vez que a cantoria - agora política - e não religiosa, havia trazido para a etxalde novamente o calar-se das coisas inertes. Temia, no entanto, que a mãe retornasse do silêncio proferindo outras verborragias, quem sabe insultos e palavrões. O medo acabou não se concretizando, mas assim que retornara ao pouco de lucidez que lhe restava, Suri Arantza apenas lhe perguntou:

- Levanta-te menino, põe-te de pé. O que é esta claridade lá fora?

- É a neve, mamãe. O inverno chegou.

Fermín apreciava muito o brancor gelado que cobria os campos naquela época do ano, mas em tempos difíceis, nada pior do que a chegada do frio. O racionamento de víveres tinha se tornado ainda mais cruel. Os nacionalistas que bloqueavam a Estrada Grande haviam organizado, na semana anterior, uma campanha de recolhimento de todo tipo de tecido e peles, nas etxalde dos arredores, para o esforço de guerra. A propriedade dos Arantza não havia ficado de fora. Fermín e os empregados conseguiram esconder apenas uns casacos seus e umas mantas puídas de velhos tempos, de modo que patrão e empregados – os homens – faziam um rodízio semanal de agasalhos para organizar a penúria de modo mais ou menos decente. Na visita dos soldados, Fermín escondera a mãe no galinheiro, para que os castelhanos não ouvissem seus cantares revolucionários. Por vezes sentia toda aquela situação como ridícula, mas há muito as coisas perdiam sua seriedade e modo grave de ser.

Assim que foram embora, percebera que um dos soldados deixara um enorme pala vermelho com as insíginias dos Reis Católicos sobre as almofadas do sofá. “Bem feito, filho da puta”, pensara de si para si em foro íntimo, e ajuntou a nova coberta ao leito da doente mãe. A gente do povoado tornara-se, naquele inverno, uma pequena população de inventores. A miséria fizera com que os objetos ainda não consumidos pelos esforço de guerra se tornassem polivalentes, servindo em todos os lares para muito mais funções do que aquelas em vista das quais vieram ao mundo. Esta situação derivou numa mudança de mentalidade por parte do vizinho Iturbide, que abandonara sua doutrina da dignidade ampliada dos objetos em tempos difíceis e adotara a máxima de que, por força da matança sem sentido, “os objetos haviam todos se prostituído”.

Assim que a primavera deu os primeiros indícios da sua chegada, colorindo pouco a pouco o campo da etxalde com pequeninas flores branco-e-amarelas, Suri Arantza pareceu um pouco mais disposta e aventurou-se para além da cama em passos tímidos e contidos, debruçando-se sobre o parapeito da janela. Fazia tempo que não via o mundo desde aquela perspectiva. Embora conseguisse mirar o exterior desde a sua cama, daquele ponto de vista o mundo de fora ocupava todo espectro do visível, por pior que fossem suas capacidades de distinguir a realidade dos borrões que via aqui e ali. Fermín Arantza a observava desde a poltrona com uma pequena alegria estampada na alma; freqüente nos momentos em que a mãe cessava o torpor melódico e retornava ao mundo das conversações normais.

- Levanta-te, menino, põe-te de pé. O que é isto que se move lá?

Fermín levantou-se um tanto abruptamente. Da poltrona, via uma figura humana crescendo em direção à casa desde o exterior. Cambaleava. E parecia estender a mão. Da janela, pode enxergar melhor. Antes de correr para fora, respondera:

- Mamãe, é um rapaz que chega à nossa casa. Parece exausto!

- Dê ao moço água e pão. Casa com visita, casa com Deus.

Fermín não parecia tão disposto a seguir à risca o ancestral preceito da sua mãe. Naqueles dias, uma visita também poderia significar o inferno de uma casa. Saiu para encontrá-lo, portanto, bastante receoso. Sempre tinha um revólver no coldre por precaução. Ao dar-se de cara com o visitante, percebeu que não se tratava nem de um galego, nem de um castelhano, cântabro ou basco; o surrado uniforme denunciava ser ele um membro das brigadas, inimigo dos nacionalistas e possivelmente estrangeiro. De fato, seus louros cabelos de visigodo e os profundos olhos azuis denunciavam qualquer coisa nórdica; para efeito de satisfação identitária, Fermín decidiu considerá-lo um alemão.

- Que queres aqui? – perguntou em castelhano.

- Água. Comida. – respondeu o visitante, possivelmente dando voz à metade do seu vocabulário em espanhol.

- Me acompanhe.

Fermín sentiu que o gesto para segui-lo havia sido mais eficiente que as palavras ditas.

Conduziu-o até a cozinha. Lá, preparou café forte e deu-lhe duas fatias de pão branco; um punhado de manteiga, o pote de açúcar. “Presunto?”, “Agradecido”. “Geléia?”, “Deus lhe pague”. Para si, Fermín serviu-se de café com um bocado de leite. Percebeu que fazia três anos que não dividia a ampla mesa de madeira com alguém de fora da etxalde.

- Brigadas?

- Sim – assentiu o outro.

- Como você veio parar aqui? Não há um bloqueio dos nacionalistas logo aqui a frente?

- Amorebieta caiu. Divisão italiana matou tudo nacionalista, pá, pá, pá! – esclareceu o visitante, gesticulando, com forte sotaque germânico – Eu perdi meu Kommandant. Escondido na floresta... dois dias caminhando até casa de bom homem.

Enquanto o estrangeiro comia, Fermín Arantza reparava nas cicatrizes que seu corpo de normando sustentava, talvez como troféus. O sujeito comia como se nunca tivesse visto um prato de sopa em toda a sua vida. Tristes tempos, em que um mísero pedaço de pão provoca as mesmas reações que uma barra de ouro.

- O caminho agora está livre? Daqui até Amorebieta não há nacionalistas?

- Não. Amorebieta caiu. Kaputt. Wir haben es geschafft.

- Amigo – disse Arantza após respirar fundo – se você é grato pela minha solidariedade, gostaria de lhe pedir um favor. De gente honesta para gente honesta.

- Por favor.

- Escolte a mim e à minha mãe até a Igreja de São Tiago Apóstolo em Amorebieta. É questão de vida ou morte.

O outro não estava em condições de recusar qualquer pedido. Ao final da tarde já estavam com tudo pronto para a viagem. O coração de Fermín Arantza, pela primeira vez em anos, desde o início daquele cerco sem sentido, via-se pleno de alguma esperança. Cumpriria com orgulho sua função de bom filho: encomendaria de modo justo e decente a boa-morte de sua mãe. Viajariam durante a noite, por ser mais seguro. Embora os franquistas tivessem sido vergonhosamente abatidos por uma força tarefa de voluntários alemães, franceses, argentinos e italianos, era bem possível que alguns deles ainda perambulassem pela mata, humilhados e ansiosos por tomar o sangue de qualquer coisa que viesse a cruzar o seu caminho.

A carroça avançava lentamente pelo curso da Estrada Grande. Cada vez mais longe da etxalde, Fermín Arantza conseguia compreender melhor o estrago sobre o mundo que o fratricídio ibérico estava causando. Não havia árvore, não havia bicho, não havia casa arruinada ao longo do caminho que não gritasse: “salvem-me, pois também sou vítima desta barbárie”. Fermín pensou então em Cristo e o sagrado mistério do sacrifício. Se um homem morre pela humanidade inteira, por que em alguns casos a humanidade inteira parece morrer por força de uns poucos homens?

Os raios de sol já surgiam desde os cumes cantábricos quando sua diligência adentrara às portas da cidade recém tomada. Amorebieta ainda cheirava à peste; o fedor de pólvora, misturado com sangue e madeira queimada impregnava suas vias nasais. O estrangeiro, feliz pela retribuição paga, deixou-se ser levado mais uns metros pela carroça da família Arantza. Simpatizara com aquela velha louca, porém bondosa, que cantara a viagem inteira o hino da Internacional. Antes de se alistar em seu país natal, havia ouvido que não há lugar na península mais pitoresco e verdadeiro que aquelas terras do norte, espremidas entre o mar e a montanha, entre Deus e o Diabo, entre a Espada e a Cruz. Tal raça não parecia habitar a face da terra. Não, pelo menos, no mesmo registro que os demais povos ao redor. A viagem de escolta ao lado dos Arantza havia apenas confirmado esta impressão.

Das poucas ruas de Amorebieta não tomadas pela ocre lama da destruição, a praça central pareceu a Fermín Arantza a mais apropriada para estacionar a carroça e fazer descer, com segurança, sua pobre mãe. Dali até a igreja do Apóstolo eram uns poucos passos. Nada que as pernas de Suri Arantza, num sacrifício final, não estivessem aptas a fazer. Apesar do lento apagamento do mundo, o céu estava, naquele dia, assustadoramente azul. Traços brancos da aeronáutica alemã cruzavam sua imensidão lembrando aos mortais que o terror ainda persistia. Pelo menos para Suri Arantza, as coisas pareciam se encaminhar para um desfecho mais feliz.

Subitamente, mãe e filho escutaram zumbidos de todos os lados. Vozes, muitas vozes, gritavam ordens em duas, três, quatro, infinitas línguas, de infinitas partes do mundo; de todas as partes da Terra, ao menos, que haviam enviado um pouco da sua gente para ter suas vísceras expostas naquela guerra de horrores. “Viva a República!”, ouvia-se à esquerda; “Es lebt die spanischen Republik!”, assoprava o vento à direita; “Por Franco, por España!”, de todos os lados; até mesmo um familiar “Gora Euskal Herria! Gora Euskal Herria askatuta!” conseguiram captar. Os zumbidos das balas eram cada vez mais próximos. Sem poder apressar o passo, Fermín Arantza tentou cobrir a mãe como pôde, puxando-a de um lado para o outro, de porta em porta, janela em janela, procurando defender a ambos da rajada de chuva prateada que os atinge e desperta: ou bem enfrentam o trovejar da guerra, ou bem Suri Arantza morre sem se confessar.

De pronto, avistaram a Igreja de São Tiago Apóstolo cercada de anarquistas. Também ela havia sido tocada pelas balas. Do alto de um buraco na parede, outrora ocupado por um vitral, um soldado atirava na estátua de Cristo Rei. Rapidamente ele os avista, mãe e filho, Fermín coberto por um pala vermelho com a efígie dos Reis Católicos. Cumpridor de ordens, o soldado não titubeia. “Franquista!”, grita, e Suri Arantza suspende a respiração. Seus olhos não conseguem identificar nada mais que movimentos incertos, apenas a imagem de Fermín, jogado ao chão, destaca-se, visível, na tessitura do seu olhar.

- Levanta-te, menino. Põe-te de pé. O que está acontecendo aí frente? Que vozes são estas e que línguas são estas que eu não compreendo?

- É o mundo, mamãe. São as palavras novas, mamãe. Nem elas, nem o mundo, nos pertencem mais.

terça-feira, 11 de maio de 2010

CORPO FECHADO, de Isabelle Fontrin

Deitado de olhos abertos no escuro do quarto, Doca recheia a noite insone com desespero. O sofrimento se esparrama e se aprofunda há dois dias. O medo resseca-lhe a boca. O coração dispara ao ritmo da angústia. Leva a mão à barriga e constata que o ferimento continua sangrando; e a dor, insuportável. Gostaria de sair porta afora espantando o impossível. Imagina-se correndo ladeira abaixo, a descer o morro, pegar o asfalto e fazer a única coisa na qual é bom.

“Tocaiar um otário voltando num carrão da balada. Estraçalhar o vidro, fincar o berro na cara.”

Doca gostava mesmo era do poder que sentia ao ver o terror nos olhos de suas vítimas sem saber o que viria.

“Na paz, irmão! Leva tudo, mas me deixa.”

Quantas vezes ele ouviu estas palavras? Em vozes trêmulas, contraste com a firmeza de sua mão empunhando a arma que lhe dava coragem.

“E aí, caralho, quem pode mais? Hein? Hein?

E gritava:

“Passa tudo, passa tudo, porra!.”

Quanto mais se encolhiam mais aumentavam as ofensas de Doca.

“Irmão é o escambau, mané, quem é mermão aqui? Sou filho do demo, não tenho parceiro, faço meus trampo na proteção do Poderoso.”

E ele acreditava no que dizia.

Na dolorosa madrugada leva a mão ao peito em busca da proteção que traz pendurada ao pescoço desde menino, presente de Mãe Vânia, poderosa na magia negra, temida no morro. Doca nunca se esqueceu da noite em que ela o pegou pela mão e o levou onde ninguém entrava sozinho ou sem permissão. Ele sempre fora curioso do lugar, mas tinha medo do poder da mulher que a todos na comunidade impunha limites. Aos olhos infantis-de-menino-que-já-viu-de-tudo o lugar parecia aterrador.

Dezenas de estátuas bizarras abarrotavam o minúsculo quartinho nos fundos do barraco da batuqueira. Lugar sem janelas, repleto de sombras subindo pelas paredes de madeira podre, desenhadas pelas chamas das velas que faziam o ambiente sufocante. Cheiro de morte. Sua protetora, com hálito de cachaça, avisou-lhe:

“Desde hoje, meu fio, tu não precisa mais tê medo de nada nem de ninguém. Tô te dando a proteção de um Pai muito melhor do que o teu verdadeiro”.

Ela bebeu e deu de beber a ele, rodaram dentro do círculo pintado em carvão no piso, contornado pelas velas acesas, evocando palavras incompreensíveis ao menino. O ritual terminou com o sacrifício de um galo preto, retirado de um saco de estopa. O bicho teve o peito aberto em segundos pelos dedos de Mãe Vânia; o coração arrancado e colocado na pequena mão espalmada, ainda pulsante, quente, banhado em sangue. Doca lembra-se da sensação do músculo apertado, fechado entre seus dedos, o galo esperneando, como por magia, ainda conectado à vida que já não tinha. No final, recebeu um colar acompanhado da promessa-ameaça de nunca tirá-lo, um quadrado de couro preso a uma tira do mesmo material, recheado com misterioso conteúdo jamais conhecido.

“Tu tá protegido, guri. Ninguém mais mete a mão contigo. Chega de abusarem de ti porque é sozinho. Teu pai agora é o Poderoso. Fala pra todo mundo que eu disse isso. Nada de mal vai te acontecer, nem agora, nem no resto dos teus dias”.

E a partir daquele dia, a vida de Doca mudou mesmo. Ele se sentiu mais seguro, ninguém o incomodava, deixou de obedecer aos maiorais, como se seus donos fossem e passou a viver e ganhar a vida por ele.

“Um dia faço a mala e aí vou ter o que mereço.”

Era o que sempre esperava.

Agora, colada ao corpo suado do rapaz, a encardida guia permanecia como a finada Mãe Vânia ordenara. Na quente e sofrida noite havia inferno dentro do barraco e nas estranhas de Doca. Tinha 25 anos e nunca havia sido pego apesar das dezenas de mortes nas costas. Antes era parte do serviço, já há algum tempo lhe dava prazer.

“Passa os troféu aí e vaza filha da puta, vaza, senão te encho de pipoca”.

Esta oportunidade ele dava apenas aos que não se metiam a valentes. Colocava a grana, relógio, celular, tudo que pudesse virar pó, nos bolsos e se preparava para o próximo. Mudava de local, tinha os pontos perfeitos. Fazia como rotina.

“A fita é cabulosa. Ô, meu pai, me tira dessa!”

Há horas não conseguia mais se mexer, sem beber água, sem nada no estômago. Alternava momentos de lucidez e delírio. A febre e o vício consumindo dizimada energia. O calor, o calafrio, o ferimento podre, sangue se sobrepondo ao anterior, negro, seco.

“Passa tudo, passa tudo, passa tudo, puta do cão”

“Calma, calma, meu filho, estou indo para o trabalho, sou freira, que o Senhor esteja contigo”.

Como Doca adivinharia que a mulher de meia idade, miúda à sua frente era uma religiosa? Sem hábito, dirigindo sozinha na madrugada, em zona tão perigosa?

“Cala a boca, barata do caralho.”Tô na maior fissura passa tudo ou te colo o brinco. Não pensa que tu é outra.”

Doca falou que ela não era diferente dos demais, mas, achou que sim. Entrou no carro, tinha pressa, e cometeu o erro que cria de bandido nenhuma faria: baixou a guarda. Sentou-se no banco do carona; tentou arrancar das mãos da mulher a pasta que ela mantinha agarrada ao peito.

Um movimento brusco, e junto com ele, veio também uma inesperada mão, forte, ágil e na ponta desta, a bicuda que afundou na barriga de Doca com força descomunal. Uma só mortal estocada.

“Mas o que é isso, barata da porra, tu pirou?”

Na surpresa, foi só o que disse.

Pela porta aberta e com um empurrão certeiro foi atirado na calçada, caindo ao lado do carro que arrancou rápido, sem que ele tivesse tempo de reagir.

“Fica com Deus, meu filho. Que o Senhor te acompanhe.”

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Mamãe trabalhava à noite (Emir Ross)

Mamãe trabalhava à noite. “Cuide da maninha até eu voltar.” Sempre que faço sombras de lua, lembro-me dela. Ela só voltava na madrugada. Maninha chorava, maninha brincava. Mas eu nunca dormia.

Nossa vida era pacata e quase normal. Só agora sei que mamãe dormia nas manhãs, depois que eu saía para o colégio. “Pegou a merenda?” Eu não gostava muito dos sanduíches. Porém ela sempre preparava as fatias de pão com recheio antes de me acordar. Sinto o sabor até hoje, sabor de estômago cheio, temperado com saliva. Ela tinha, às vezes, marcas pelo corpo. Eram marcas de feijão para o almoço, de repolho com vinagre. Quando ela se distraía eu podia ver outras marcas; de remédios pra gripe, de tênis novo. Algumas custavam a sair. Outras sumiam no mesmo instante que eu as via. Pareciam as mais doídas.

Não lembro dela ter amigas. As visitas que recebia nalgumas tardes eram da tia, que gritava. “Quer matar a mãe do coração?”. A mãe que a tia falava era a vovó, que só foi lá em casa uma vez. Complicado identificar o rosto dela, mas posso perceber que ela usava roupas de avó, largas, balançando.

Difícil explicar porque essa rua lembra mamãe. Nunca caminhei por aqui com ela. Mas a calçada tem seu cheiro. Aparência de garoa, eis o que mamãe tinha. Garoa que chora, chora, chora. Mas nada molha. Talvez por isso sua maquilagem estivesse sempre impecável. E seus olhos tristes irradiavam brilho.

“Já pra dentro.” Dizia quando os meninos me chamavam de nomes estranhos. Eram nomes que usavam botas de cano alto. Casacos compridos de cores vistosas. Mamãe me abraçava. Maninha me olhava, a chupar o dedão, pois sempre deixava cair a chupeta e não sabia pedir que a ajuntássemos.

Mamãe era alta. Naquele tempo todos eram altos. Tinha o cabelo negro liso. Escorrido em direção ao queixo. E só usava brincos à noite; os colocava pouco antes de sair. Basta levantar os olhos e vejo seus brincos. Eles brilhavam aos raios da luz que vem dos poucos postes. Não é raro eu passar aqui. Mas sinto esses mistérios a cada piscar. Os carros que passam levam mamãe; e trazem de volta.

“Vamos menino, come logo que tenho de sair.” Porém nem sempre eu tinha vontade de jantar. Vez em quando, respirava fundo e saía. Me deixava lá. Então eu jantava uma sopa de ausência.

Primeira noite de mamãe em casa foi no meu aniversário. Meu primeiro aniversário foi aos sete anos. Mas não foram os colegas de classe. Nem a tia que eu não gostava. Nem a vó que eu não conhecia. Mas foi diferente ver a mãe em casa a noite inteira. Maninha encheu o nariz de merengue. Eu apaguei uma vela e ganhei um presente. Só depois fui ver que meu presente era uma marca inchada na coxa de mamãe.

“Agora vamos dormir.” E foi a única vez que maninha deixou o berço e eu deixei o sofá-cama para dormirmos os três juntos no colchão esticado no chão.

É sem sentido um homem parar à uma rua sozinho. Sentir garoa e olhar brincos e casacos largos. Mas vejo sentido em reparar mamãe e abrir os braços. E, de repente, faz sentido eu ver outra mamãe a acenar. E outra mamãe com sorriso largo. E também faz sentido aparecerem mais três mamães a mandarem-me entrar. E quando eu digo “Sim, mamãe.”, faz sentido apenas uma aproximar-se. Andar firme, andar ausente.

Mamãe sempre teve marcas pelo corpo. Eu não gostava delas. Eram marcas de tudo. E um dia haviam tantas marcas de tantas coisas que não havia mais pele original de mãe. “O que é isso, mãe?”. Ela me olhou demorado, virou o rosto pra maninha, depois voltou-se a mim e sacudiu meu corpo de menino já grande. “É a vida, filho.”

Nunca mais a vi. Em mim, também há uma marca. Que só eu posso ver. Uma marca que também cresce e refugia-se nesta rua. Por isso venho aqui. Para ver seus brincos, suas botas de cano alto, seu casaco de cor vistosa. Mas também vejo o que não quero ver. Marcas; muitas. Então visto-me apressado, para não ouvir as frases que fazem minha marca crescer. “Ande logo, tenho dois filhos para sustentar.”

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Dois graus centígrados (Rubem Mauro Machado)

Até domingo, tenho de matar 37 mil pessoas.

Está abafado, o suor brota na raiz dos cabelos, me inunda a testa, a nuca, o pescoço, não há como se habituar a esse maldito calor. Alguma dúvida? Nenhuma. Procedimento? O de sempre: chegada ao alvorecer, vias de fuga cercadas, não se deve deixar testemunha nem ter pena de ninguém, há sempre que vencer o impulso natural de querer se poupar as crianças. Certo? Certo.

– E o moral de seus homens, como está?

Hesito. O major Camilo curva-se um pouco para a frente, estreita os olhos, na leitura implacável de minhas reações. Estamos sempre sob avaliação.

– Em geral é bom, mas oscila – digo a verdade – O senhor sabe como é.

– Sei. Vou mandar um novo carregamento de Transformid.

Balanço a cabeça, em concordância. As malditas pílulas viciam, deixam os homens fora de si, enlouquecidos.

Passeio os olhos pela parede do QG forrado de mapas, num deles está circulado em vermelho o campo de refugiados a ser “apagado”, na nossa gíria. Noutros, estão assinalados alvos das demais unidades, em geral a média é de quatro incursões por mês para cada uma delas. A consumação de cada trabalho, mesmo com o nosso armamento moderno, exige horas e uma energia absurda. Armas bacteriológicas seriam mais discretas, mas seus efeitos poderiam se voltar contra nós. Bato continência, peço licença para me retirar. Quando estou saindo, o major grita:

– Ah sim, capitão, nem preciso dizer, a tropa vai ganhar uma remuneração extra por esse trabalho.

– Obrigado, major.

Pego o jipe elétrico, dirijo-me para o aquartelamento da UL Zeta, que comando. Todas as Unidades de Limpeza foram batizadas com uma letra do alfabeto grego, como Beta, Alfa, Gama, Delta e por aí vai. Alguns homens limpam armas no alpendre, outros jogam basquete na quadra de esportes, outros mais levantam pesos à sombra de uma árvore, são maneiras que têm de descarregar o estresse; eles detêm-se um momento ao me ver chegar, sabem que fui receber ordens, o que significa ação imediata. Matar, destruir, vira uma cachaça, uma necessidade, tem um componente quase orgástico; quando você arranca sangue, quer ver mais, sempre mais, alguns parecem não poder mais viver sem isso, o componente sádico muito forte dentro de nós. O problema é que a maioria, passada a orgia, entra em depressão, tem pesadelos à noite, todas as unidades registram elevado índice de suicídios.

Vou direto para o meu PC, desabo na poltrona, abro a blusa de brim, ligo o ventilador. Pego na caixa um lenço de papel, me ponho a limpar os óculos rayban. Mundo filho da puta. A culpa de tudo é a insaciável voracidade de nossa espécie: o leão, uma vez alimentado, deixa os restos da presa para o chacal; o homem não, quer mais, mais e mais, nunca se sacia. Sempre foi assim. Os políticos, que tanto desprezamos, sempre fizeram o jogo que no fundo queremos, daí vem a força que têm. E foi por isso que as tentativas, há pouco mais de trinta anos, de um acordo para deter o aquecimento global fracassaram. Ninguém, países desenvolvidos, em desenvolvimento, subdesenvolvidos, queria abrir mão de nada. Para fazer pasto para o gado, derrubaram-se florestas; e alguém desistiu de seus automóveis? Do consumo sem limites, como se as matérias primas fossem inesgotáveis? Como se a terra espoliada pudesse se renovar eternamente? Chaminés significam empregos, alegava-se; e quem não quer progresso? E mudar uma economia baseada em combustíveis fósseis seria contrariar poderosos interesses estabelecidos, seria mudar o eixo do poder. E assim, toneladas de CO2 continuaram a ser jogadas na atmosfera, resultando em mais aquecimento, num processo já quase irreversível. Vozes alertavam contra a insensatez, aqui, acolá; mas um bloco de gelo se desprendendo no Ártico, a milhares de quilômetros, parece um acontecimento remoto demais para perturbar o nosso cotidiano, para nos fazer crer em sua realidade, para nos obrigar a levantar da cadeira e tomar uma atitude. Verdade, os cientistas sempre souberam, o aquecimento da Terra é um acontecimento natural, cíclico, ao qual se sucede um resfriamento, alguns calculam que aconteça a cada vinte mil, 25 mil anos: a contribuição deletéria do homem na verdade não significa mais do que dois ou três graus no aumento da temperatura média do globo. Mas esses dois graus foram exatamente a gota que fez o copo transbordar, com a elevação dos mares e as catástrofes que daí decorreram. Pobre Havaí, pobre Holanda, pobre Indonésia.

Passo um lenço pela cara, pelo pescoço, bebo um copo de água gelada. Não estou com pressa de convocar os tenentes e sargentos, essa gente toda tão bem treinada e na expectativa aguda das novas ordens, homens escolhidos a dedo. Primeiro, preciso me recuperar desse cansaço que me esmaga. Quando chamá-los, preciso estar feroz e determinado, o maior erro de um comandante é demonstrar qualquer hesitação.

A verdade é que tudo foi previsto. O que não se esperava é que acontecesse tão depressa. Hoje aquele primeiro grande massacre, o de setembro de 2042, já foi assimilado, tornou-se um mero fato histórico, como a batalha de Salamina, a bomba de Hiroshima, o atentado a Nova York de setembro de 2001, poucos se lembram agora da comoção mundial que provocou, embora a grande maioria tratasse logo de buscar os argumentos que o justificavam. Desesperados pela fome e a sede, centenas de milhares de africanos, que haviam visto seus rios secarem, seus animais e colheitas morrerem na savana esturricada, como se à voz de um comando invisível, embarcaram num enxame de embarcações de todos os tamanhos e feitios em direção à Europa, encheram com elas o Mediterrâneo, que alguns órgãos de comunicação, com humor macabro, chamariam depois de Mar Vermelho. Cientes da catástrofe que se abateria sobre si, impotentes para impedir a enxurrada de miséria que se aproximava, as marinhas da França, Espanha, Itália e Portugal, numa ação conjunta, mandaram suas corvetas e fragatas varrerem para longe, para o fundo, para o inferno, aquela turba escura e esquálida, abafando seus gritos e seu espanto com a voz forte dos canhões e metralhadoras. E apenas podíamos então pressentir que aquela seria a primeira mortandade na série que se seguiria. Àquela altura, o nível dos oceanos não cessava de subir, engolindo em pouco tempo boa parte do Rio, Nova York, Xangai, Hong Kong, Marselha, Liverpool e outras centenas de metrópoles litorâneas, fazendo de Veneza um mito comparável ao da Atlântida. O Ártico encolheu na forma de um pequeno solidéu branco, países ilhéus do Pacífico sumiram do mapa, o Ceilão virou uma ilhota. Enquanto grandes porções do planeta convertiam-se num braseiro, outras, como a Inglaterra, congelavam por causa do desvio das correntes marítimas que amenizavam o clima. Com a produção agrícola e toda a economia mundial em colapso, multidões de refugiados climáticos vagavam de um lado para o outro, buscando uma quase impossível sobrevivência em meio à grande fome. Foi então que os países maiores fizeram aquele grande pacto secreto e foram criadas as unidades militares de extermínio. Não havia alternativa. A esterilização em massa não resolvia o problema da superpopulação, seus efeitos, muito demorados, serviam quando muito para travar o índice de crescimento populacional, nada mais que isso; e havia gente demais no planeta e comida de menos; chegou-se então à decisão fatal: para que um núcleo humano, afinal de contas, sejamos francos, a elite da humanidade, sobrevivesse, era preciso acabar o quanto antes com os excedentes, com aquelas multidões subnutridas empilhadas em acampamentos da periferia, que geravam doenças de toda espécie e eram uma ameaça o tempo todo de distúrbios, saques e invasões. E a escolha era uma só, lógica, imperativa até: o extermínio dos mais fracos, mais ignorantes, mais desprotegidos – os menos aptos.

Olho o relógio, depositado sobre o tampo da mesa. Um militar bem formado não discute ordens, cumpre-as. Vou chamar meu pessoal, repassar as instruções. É preciso não amolecer, não sentir pena, ressaltou o major. O novo alvo está estabelecido, a data também: o próximo ataque ocorrerá dentro de 48 horas, num réveillon em que fogos e gritos não serão de deleite. O pior são os gritos: atravessam as bolas de cera que entopem nossos ouvidos, continuam a ecoar depois de tudo terminado; por causa deles, muitos soldados preferem ouvir rock pesado enquanto trabalham. Depois, escavadeiras abrirão covas coletivas, tratores empurrarão os resíduos para dentro delas. Extenuados, embarcaremos em nossos helicópteros, regressaremos em silêncio para o quartel como zumbis, sacudidos por tremores, cada qual dono de suas próprias visões, à espera da próxima missão. Não fui eu que moldei este mundo. Ele não é o mundo que desejei para meus filhos. Mas que alternativa tenho eu?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Um mundo melhor (Sergio Faraco)

Para Jacob Klintowitz



"Na tragédia, não agem as personagens para imitar caracteres, mas assumem caracteres para afetuar certas ações." ARISTÓTELES, Poética, VI, 145-32



– Amanhã venho te buscar para o ensaio  – disse Russo.

Partiu o amigo, deixando-o no pórtico da galeria que ia dar no saguão do hotel. Absorto, não notou que o lugar, mal-iluminado, estaria deserto, não fosse um grupo de jovens, cinco ou seis rapazes e uma garota, em suspeito silêncio no recuo de uma vitrine.

Ao perceber que o olhavam, era tarde.

O bando o cercou.

Enquanto uns o imobilizavam, outros lhe vasculhavam os bolsos. Quis reagir, e a garota, uma loura sardenta de olhos claros que até então mantivera-se à parte, saltou à sua frente com uma faca. Cessou de se debater, mas isso não evitou que um dos rapazes o esmurrasse no nariz, que começou a sangrar.

– Não deixa melar o casaco – gritou a garota, e suas pupilas faiscavam na contraluz da vitrine.

Também roubaram os sapatos e a carteira. Antes da fuga, um safanão o derrubou. Ouviu vagamente a correria na direção da rua, mas não se moveu de imediato, menos por cautela do que por pasmo. Quando pôde levantar-se, algumas pessoas acorriam e o ajudaram a andar até a portaria do hotel. O nariz ainda sangrava, e o gerente, após certificar-se de que não estava tão mal, ofereceu-lhe um copo d'água e um lenço de papel.

– Quer que chame a polícia?

Não, não valia a pena.

– Não levaram cheques, cartões?

Tinham levado.

– Convém fazer a ocorrência e avisar seu banco.

Sem casaco, descalço, sem dinheiro e documentos, tomou o elevador com participantes de um seminário de lojistas, cidadãos de próspera aparência, com ternos alinhados e impecáveis colarinhos, que o relancearam como a uma parede, como se o não vissem.

À noite, quase não dormiu.

Ler era impossível.

Se fechava os olhos, via os jovens se acercando, a disposição deles, o olhar de aço da garota, o lampejo da faca, e ressentia o murro no nariz. Figurava a garota com ódio, depois se compadecia e ódio outra vez a estremecê-lo, então acendia a luz de cabeceira e sentava-se na cama, ofegante e a transbordar rancores. Quanta ironia, quanto escarmento em seu papel de vítima. Logo ele, um dramaturgo cujas obras a crítica iconizara como fotografias sem retoques das tumultuosas noites urbanas, a brutalidade tão crua quanto aberrantes os processos que a deflagravam. Contra esse conspícuo arauto da violência rebelavam-se seus arquétipos – uma cena burlesca em que os infantes de Cronos cometessem parricídio.

À lembrança do trabalho seguiu-se um conforto: não perdera a vida, como tantos, tampouco se ferira com gravidade e – um truísmo – continuava bem-parado em degrau muito acima daqueles sebentos que, mais dia, menos dia, acabariam na prisão ou a estertorar em periféricas sarjetas. Admitiu que a noite fora menos perversa do que poderia ter sido. Descontados o pequeno inchaço no nariz e o prejuízo material, uma bagatela, nada mudara. Era um autor bem-sucedido, o que lhe facultava, com um pouco mais de prudência, conservar-se distante daquele universo ignóbil, cuja utilidade em sua vida era tão-só a de papel-carbono. Não era assim que produzia suas exitosas peças, estereotipias do noticiário policial? A arte copiando a vida, como queria Sêneca? A vida como ela era, sim, trocando apenas de cenário: no lugar da rua escura, o palco enfumaçado à meia-luz.

E começou a se tranqüilizar.

E apagou a luz.

Pelas frestas da veneziana viu que clareava o dia, uma nova manhã após o árduo combate, e lembrou-se de Homero: Quando a aurora de róseos dedos, filha da manhã... E sem saber que a lembrança já era um sonho, dormiu até perto do meio-dia.

Almoçou no restaurante do hotel.

Dormiu novamente e, à meia-tarde, despertou indisposto. Ou não era bem isso, antes algo que o inquietava, que o estranhava. Como se mal se reconhecesse ou recém começasse verdadeiramente a se reconhecer, como se o incidente na galeria – que outra coisa haveria de ser? – lhe tivesse aberto um portal misterioso cujo limiar receasse atravessar, e surpreendeu-se murmurando algo que lhe vinha à lembrança nas horas de incerteza: Eu, o verme, reconhecendo este tecido de alma ausente...* E foi com um princípio de náusea que viu seu rosto no espelho da pia.

À noitinha, Russo veio buscá-lo. Cogitou de desistir do programa, fazer a mala e antecipar a passagem de volta, mas como poderia, se viera à cidade a convite, para ver o ensaio da peça de que era autor?

E foi e logo se aborreceu, a esgrimir com a absurda sensação de que o texto não lhe pertencia ou, se pertencesse, era produto de aquoso e insípido crisol que agora se esvaziara para dar lugar a outras e ainda ignotas misturas. Molestava-se também com as intervenções de Russo e as repetições de cada cena. Russo queria verossimilhança, e o protesto concernia, mas queria também que a representação ultrapassasse sua própria essência, ou seu limite. Chegou a gritar com um ator:

– Não quero representação, quero vida!

Mais vida? E ele ouviu aquilo como a um desaire, como se alguém, por certo ele mesmo em outra dimensão, com outro rosto e redescoberta alma presente, estivesse a lhe apontar o dedo acusador.

Após o ensaio, foram jantar no hotel.

Conversaram sobre a peça, sobre os atores e o que Russo deles exigia, e em dado momento o escritor, quase sem querer e com ligeira impaciência, viu-se observando que a arte obedecia a certas leis que se desavinham com a vida real: cada elemento precisava ter sua existência justificada e esta era a harmonia. A vida não era assim.

E acrescentou:

– Quando pedes menos representação e mais vida estás pedindo uma arte menor.

O outro abriu os braços.

– Que é isso? Crítica ou autocrítica? Agora descartas teu bem-amado Sêneca? Como podes pensar que um texto ou uma representação se aproximem da arte na mesma medida em que se afastem do que é real?

– Não foi o que eu quis dizer, ou foi, mas de outro modo. Não é uma questão de distâncias. A arte tem de ouvir, como Bilac disse a João do Rio, tem de ouvir e registrar todos os gritos, todas as queixas, todas as lamentações do rebanho humano. Mas é um registro como representação, não um fac-símile. Não te parece que essa enunciação de nosso príncipe, considerada isoladamente, está incompleta?

Então o que dissera, ou ao menos pensara, era que a vida, afinal, era o que era ou o que já tinha sido, um caótico enjambement de acasos, “uma história repleta de som e fúria, contada por um idiota” – como não lembrar essa clássica dedução? –, não um organismo ou um sistema que se provasse por ambicionar determinado fim. Ela não buscava o belo ideal, não buscava, como a arte, o mundo melhor. Quisera dizer, então, que a arte tinha de ser basicamente transformadora, e que seu desígnio não era se parecer com a realidade e sim corrigi-la. E acabava sendo – a verdadeira arte – uma imprescindível, primorosa e verossímil mentira. Ou não propriamente uma mentira, mas o que a realidade poderia ou deveria ser...

– ...se viver fosse uma arte.

Russo o olhou por um instante.

– Balzac?

– O belo ideal? Sim e não. Foi o que ele ouviu e acatou, dito pela mãe de Madame de Staël.

– Acho que entendo. Me serves uma sopa canônica, de Balzac a Schopenhauer, com pitadas quânticas e colherinhas de Shakespeare e Voltaire... não te faltou uma receita grega? Não era para tanto. Ou muito me engano ou, se me permites, sem que a comparação te ofenda, estás dando voltas como burro de olaria só para dizer que minha direção não te satisfaz.

– Só estamos discutindo, meu diretor. Nunca te contaram que a dialética da controvérsia favorece a digestão? – e tratou de mudar de assunto, relatando o que lhe ocorrera na véspera.

– O teu nariz... – observou Russo, sinceramente pesaroso. – E numa hora dessas, eu aqui a tagarelar sobre arte.

– Foi um incidente comum.

– E não terminou tão mal.

– Melhor foi o que veio depois.

– Como? Tem mais?

– Hoje à tarde saí, dei uma caminhada. Adivinha quem encontrei num trailer de cachorro-quente.

– Os ladrões!

– A loura.

– A loura!

– A loura sardenta, a da faca. Ela e um menino.

– Nossa, não sei o que eu faria.

Ele se aproximara e a agarrara pelos cabelos. E agora, sua putinha? O menino fugira, continuou, e imagina o espanto das pessoas ao redor, tentando compreender. E diante dele, aqueles olhos não mais implacáveis, olhos de medo e lágrimas de uma pobre menina assustada. E vira também naquele olhar uma saga de miséria e desespero – a versão dos derrotados, como o eram aqueles meninos. Que dos vencedores, como os engravatados do elevador, não obtinham sequer um átimo de reflexão, que dirá um gesto de compreensão, solidariedade e respeito humano.

– Vi nesse reencontro o teatro.

– Viste a vida, meu amigo. A vida como ela é.

– Não, o teatro. Acreditas se te disser que a soltei e fui embora?

Russo ergueu o cálice:

– Aos teus novos e indistintos conceitos não vou brindar, mas gostaria de fazê-lo à tua atitude. Um perfeito epílogo.

O outro brindou, com um ligeiro sorriso.

Mais tarde, quando se despediram à porta do hotel, ele ficou parado, vendo o amigo afastar-se pela galeria.

Um brinde impróprio, claro.

Perfeito epílogo? Ora...

Russo desprezara seus argumentos e acreditara piamente no reencontro com a garota – pensava ver nele a plausível harmonia, a absoluta comunhão entre arte e vida. Seus postulados se engrenavam, coerentes. Mas que pena essa coerência! Russo nem ao menos suspeitara de que aquele reencontro no trailer jamais acontecera e era tão-só uma correção literária do incidente – o mundo melhor –, isto é, a peça que um dia talvez pudesse escrever, desde que ele mesmo também se corrigisse, convertendo-se no autor que agora desejava ser.
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* Início do romance À beira do corpo, de Walmir Ayala (N. do E.)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Iluminação do cotidiano (Zélia Delacroix Farina)

Não houve tempo para nada. Para um grito ou uma expressão de espanto. Quando se deu conta, já estava no chão, a todo o comprimento, os cabelos libertos da touca que os domava, a roupa amarfanhada, um chinelo escada acima, outro se equilibrando na ponta do pé. Entre surpresa e aturdida. E na boca aquele gosto invasivo de saliva alheia. Não sabia ao certo se batera com a cabeça e tinha ficado meio inconsciente. O fato é que não havia mais ninguém ali. Somente latões de lixo, balde , esfregão. O que desabara sobre ela tinha a força de um vento de verão tardio, morno e intenso, um desses ventos capazes de soprar desatinos na cabeça dos viventes. Envolveu-a num inesperado misto de violência e delicadeza, buscando-lhe a boca com a boca, enquanto as mãos faziam o seu trabalho de busca e sujeição.

Foi com esforço que se recompôs, o corpo não lhe obedecia, as pernas desenhavam círculos no chão, recusando a postura vertical, a cabeça parecia esvaziada e poderia até pensar ter sofrido uma alucinação devido ao calor, não fosse aquele gosto persistente de saliva. Inúmeras vezes lavara a boca; em vão. O gosto era interminável; nem bom nem mau, estrangeiro. Era sábado, no prédio havia um mínimo de funcionários, como de costume em finais de semana; ninguém aparecera durante o seu período de atordoamento. Melhor assim. Sabia que nenhum daqueles empregados seria capaz de ato semelhante. Viviam todos no mesmo código. Se um deles a quisesse, por Deus, já lhe teria dito e a coisa teria rolado ou não, como tudo na vida. Não era dada a muitas conjeturas; quedava-se, por isso, estupefata. “Quem, nesse prédio de gente rica, podia me querer, logo eu tão diferente de todos eles? Só se fosse..., mas não, bobagem,será possível?, um senhor tão distinto.” O fato é que era objeto do desejo secreto de alguém, um desejo violento porque ansioso e tímido, deliciosamente desajeitado. O corpo não lhe doía, além daquele mínimo que se confunde com prazer. Sofrera um atentado à mesmice da sua vida. Como se num surrado baralho de cartas marcadas, surgisse, inexplicavelmente, uma carta extra: um coringa que talvez pudesse mudar a sua vida.

Para o doutor Nogueira e Silva,nada saíra como o que tinha sido planejado, aliás como costuma acontecer. A ideia era somente pegá-la de surpresa e dar-lhe um beijo na boca, e depois safar-se. Fugir para sempre ou por bastante tempo. Viver daquela lembrança tanto quanto fosse possível. Mudar de cidade, ir morar na praia, ficar uns tempos na casa do irmão. Algo assim meio infantil meio maroto; esconder-se depois de uma travessura e só voltar quando as coisas estão sossegadas. Mas ela, desafortunadamente, pelo inesperado da situação,escorregara no chão úmido e rolara abraçada por ele no piso gelado, desencadeando um desejo irrenunciável. Fato inconteste é que há muito sonhava com ela, dormindo e acordado. Para dizer a verdade, desde que a vira pela primeira vez, limpando as escadas do prédio. Ele, a quem jamais interessou saber quem eram os funcionários do edifício ou o que faziam ou deixavam de fazer, viu-se oscilar, corpo e mente, ante aquela visão. Como era possível uma criatura exercer sobre ele semelhante tirania, era-lhe um mistério. Talvez por ser leve e graciosa ao executar atividades tão servis. No seu entender até brutais para um físico tão delicado. Devia ser nova no ofício, logo percebera, o corpo flutuava dentro do uniforme, os gestos ainda não eram bruscos e automáticos como fatalmente se tornariam com o passar do tempo.Como entendido em arte, logo a classificara: era uma bailarina que dançava em inusitado palco para ninguém, ou melhor, somente para ele que havia descoberto o segredo. Sabia que já a conhecia de algum lugar e isto o intrigou por um bom tempo. Aquela sensação de “déjà vu” o invadia continuamente, logo ele que execrava esse tipo de percepção por achá-la própria de mentes fantasiosas . Certo dia , folheando ao acaso um livro da biblioteca , localizou-a. O sobressalto do reconhecimento, como se uma cortina deslizasse para a entrada da luz.Era ela, sem dúvida, a figura mais impressionante pintada por Degas, “A primeira bailarina”, do famoso quadro do pintor francês. Essa tela sempre o fascinara pela mobilidade, era um quadro vivo, a bailarina parece que voa como se quisesse escapar para a vida, atirar-se nos braços do público. E lograra mesmo fazê-lo, pensava ele um tanto assombrado,pagando o alto preço do anonimato e da servidão. As roupas grosseiras, os chinelos de borracha e a odiosa touca nada lhe roubavam, ao contrário, acentuavam ainda mais a beleza por conta do violento contraste. Fechou o livro com cuidado, antes arrancando a página que retratava a bailarina. Pensou em colocar moldura, pendurá-la na parede ; estaria assim sempre à vista. Mudou de idéia, não a queria para os olhos de qualquer um, resolveu carregá-la junto ao corpo: algo assim como um talismã, um porta-fortuna contra a insipidez em que se transformara a vida. Para tanto, executou elaborado plano: localizou um tatuador artista, de outra cidade bem distante naturalmente, que reproduziu a bailarina com maestria na região abaixo do mamilo esquerdo,onde o coração a fazia balançar.Pensava, entre divertido e maravilhado, que ela jamais poderia escapulir, estava nele para sempre, ainda que não pudesse suspeitar.

Nos primeiros tempos em que se conheceram , fingira ignorá-la,não mais que uma peça na engrenagem de limpeza do prédio, espiando-a, no entanto, freneticamente, pelo canto dos olhos. Ela, humilde, face abaixada, inclinava-se ainda mais à sua passagem para esconder os olhos e o embaraço. Tempos depois, um aceno comedido, de cabeça. E, mais tarde, um “Bom dia” , mais resmungado que dito. E,finalmente, um “ Bom dia, Teresa”.” Bom dia, doutor ”. Era o máximo de intimidade que se permitia.Descobrira na folha de pagamento do edifício que ela se chamava Teresinha, o que lhe causou contrariedade.Uma beleza maiúscula não admitia tal designação. Passou a nomeá-la Teresa, o que lhe garantiu a atenção da moça, surpresa duplamente: era nomeada e rebatizada. O dia só começava para ele quando, saindo para a caminhada matinal, a encontrava, sempre entregue à sua humilhante ocupação. Era o seu momento mais alto, um calor prazeroso se irradiava por todo o corpo e o mantinha assim, acima de todas as pequenas misérias da rotina e da idade. O respeitoso e esperado “bom dia, doutor” ficava dançando nos seus ouvidos, letra e melodia, indo e voltando.

Mas agora,sem querer, estragara tudo. Perdera o controle, logo ele, exemplo de cidadão, homem de bem, curador da Escola de Belas Artes. Chegara perto demais, era isso, aquele perto que não admite retirada. Caíra no torvelinho. E assim, perdera o que não queria perder. Não sabia o que a moça sabia; ou do que desconfiava. Desabara sobre ela sem dizer palavra. E se estivesse rindo dele, da sua pretensão, do seu desatino? E se todos no edifício já soubessem do ocorrido e estivessem planejando uma ação contra ele, atentado ao pudor, abuso, quem sabe até suspeita de senilidade? Que horror! E ainda mais, se sabendo que tinha sido ele, tendo certeza disso, ela já tivesse contado para o marido, amante, companheiro ou sei lá o quê? Poderia ser alvo de vingança, e bem merecida no seu entender. Sim, pois era inimaginável que ela não tivesse alguém; essa era situação para gente como ele, fruto ressequido à espera da queda. Sentia que adentrava terreno movediço, novidade na sua vida. Como agir para manter-se na superfície? Como passar por ela, novamente, e colher aquele mínimo de atenção , “Bom dia, doutor!”, sem ser paralisado pelo medo ou pela vergonha ou até, quem sabe, sem poder reprimir o desejo todo novo de repetir a loucura que tinha vivido com ela. Surpreendia em si mesmo o emergir de um desconhecido, de um outro que estivera sempre à espera.

Naquele dia, só voltou tarde da noite para casa, não queria correr o risco de revê-la ou de ouvir conversas de outros empregados ou moradores.Sabe-se lá o que realmente tinha acontecido a Teresa e o que ela dissera; ou calara. Por dois dias inteiros, não saiu do apartamento.Reclusão. Compasso de espera.Apenas escutava, ouvido rente à porta. Distinguia os sons habituais, risadas dos vizinhos, cumprimentos e até eventuais xingações entre marido e mulher. Isso, em outra situação, poderia ser puro divertimento para ele: um mundo se abria nesse seu novo posto de escuta. Mas um mundo que não o interessava mais,um mundo passivo; queria ser ator, ator principal, nunca é tarde. Conseguia inclusive apreender , ao longe, o roçar da vassoura no chão, a abertura dos sacos de lixo, o ritmado baque do esfregão contra o piso. Todavia não podia saber se era ela, a sua bailarina, a agente de tais ruídos. Teresa trabalhava somente na área de serviço, separada do prédio principal por pesada porta de vaivém, a porta corta-fogo: os sons chegavam, por essa razão, abafados, quase indistintos.

Aqueles dois dias de exílio voluntário, privado das caminhadas e do encontro com Teresa, lhe oprimiam o peito. Diariamente saía do apartamento à mesma hora, sem se desviar jamais do caminho habitual, aliás o menos provável para um morador. Utilizava sempre a área de serviço, onde se localizavam as escadas, os latões de lixo... e Teresa. Era uma doce disciplina que se impunha . Mas devia justificar-se continuamente perante vizinhos e funcionários, surpresos com a recusa ao conforto dos elevadores, logo ele um senhor de certa idade,dizendo que o fazia somente pelo exercício físico. “Doutor, espere um minutinho que já chamo o elevador, oito andares não é brincadeira.“ Ao que ele sempre respondia: “Não se preocupem comigo, sigo conselho médico, devo caminhar o máximo possível. Subir e descer escadas é um exercício completo. ” Sem dúvida, o fazia pelo exercício, porém totalmente desligado de qualquer recomendação médica; seguia , isso sim, a sua recomendação interior, aquela que está gravada a fogo em cada um de nós. Sabia que fatalmente a encontraria em um dos andares, entregue ao seu inconsciente bailado. Era um exercício de encantamento, surpreendê-la, vê-la e ser visto por ela.

No terceiro dia, após o desvario, não aguentou mais: ressurgiu.Com capricho, preparou-se para a caminhada, abriu a porta corta-fogo que dava para as escadas e, nada mais fixo que hora de empregado humilde, lá estava ela, precisamente no seu andar. Imobilizou-se, corpo e pensamento bloqueados. O coração solto,batendo como um martelo contra a tatuagem da bailarina; suor frio, boca seca. Excepcionalmente, ela não empunhava vassoura nem arrumava saco de lixo; estava imóvel, encostada na parede, mão na cintura, olhando para a porta, como se esperasse por ele. Pela primeira vez, um olhar direto, chama e labareda. O cabelo, entre preso e solto, estava liberto da touca. As mãos, sem as luvas grosseiras .O uniforme de brim cáqui, displicentemente aberto nos primeiros e nos dois últimos botões, assemelhava-se a um casulo de onde brotasse uma borboleta.E,no pé, a prova definitiva de que ele não se enganara a seu respeito, era mesmo a bailarina do quadro, a que trazia há tanto tempo gravada no peito: no lugar do indefectível chinelo , uma sapatilha branca, diáfana, de tela finíssima, que a deixava descalça e calçada a um só tempo, pronta para a dança do amor e do desejo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Rapsódia de um inseto (Vilson Ortiz)

1 – O contexto
"Um fosso profundo

faz do castelo

o rosto perfeito

– cruel e imaculado –

como um anjo devasso,

sedento de paz

e repleto de salas secretas...

onde fantasmas gargalham;

reclusos no espelho."



Ele recém escapara do ataque de uma aranha quando percebeu sons estranhamente articulados em sua mente. O mais desconcertan-te de tudo é que entendia o que aqueles ruídos mentais significavam. Porém, expandira sua psiquê de tal forma, atravéz de conceitos abs-tratos, que estranhava tudo a sua volta. E via tudo de forma diferente, com uma profundidade antes desconhecida, com significados que reduziam tudo a um padrão sonoro e imagético mental. Foi quando reparou no seu corpo: perdera as antenas, as asas rígidas e suas seis patas. Estava quase do tamanho da árvore que outrora fora seu univer-so. Tornara-se gigante. Apesar de todas as novidades, sua primeira atitude foi esmagar a aranha que o atacara no gramado. Olhava para o novo corpo e via alguns seres semelhantes perto de onde estava. No entanto, eles cobriam suas peles com trapos de tecidos coloridos.

Porém, para seu espanto, todos fugiam apavorados quando ele tentava pedir alguma explicação sobre sua nova condição. Sem entender porque todos o evitavam, resolveu fazer o que sabia: pulou sobre um senhor bem vestido. Lhe obrigaria a explicar o que devia fazer em sua nova forma de vida. Contudo, seu gesto causou confusão. Foi preso e levado para a delegacia. Os policiais lhe deram roupas e perguntaram o que ele fazia nu no parque. Pensou que finalmente receberia alguma explicação sobre sua metamorfose e contou ao delegado toda sua história. Este, achou tudo muito engraçado e lhe aconselhou a r-tornar para casa – recomendando que parasse de se drogar ou procurasse tratamento psiquiátrico. Desconsolado, caminhou até sua árvore. No parque, reparou que, usando roupas, seus semelhantes não o evitavam de imediato. Porém, os poucos que lhe escutavam, expulsavam-no após ele contar sua história.

Sentia fome, sensação que não lhe era estranha. Contudo, ninguém lhe dava de comer. Revirava as latas de lixo do parque, mas o que antes banqueteava com frenesi agora lhe repugnava. A noite se aproximava. O parque assumia tonalidades sombrias, diminuindo a eficiência de seus novos olhos, em relação aos antigos, melhor adaptados à pouca luz. As dores que sentia na barriga, devido à fome, aumentavam sua ansiedade – condição que conhecia desde os tempos de inseto. Desesperado, decidiu novamente fazer o que sabia – caçar comida. Armou-se com um galho de madeira resistente e surpreendeu um cão perdido, que farejava entre as árvores – o qual matou a pauladas. Mas não sabia como comeria aquilo. Tentou morder a pele dilacerada do animal. Porém, um de seus novos colegas de espécie – que observava tudo escondido, apresentou-se a ele e explicou que, se comesse a carne do cachorro crua, acabaria doente.

Seu novo conhecido lhe ensinou a fazer fogo, carnear a presa e depois assá-la. Ambos dividiram o churrasco, em torno da fogueira, que fizeram atrás das raízes de uma figueira. O ex-inseto reparou que aquele homem, que lhe ensinara tanto, vestia roupas rasgadas e sujas. Porém, foi o único que ouviu seu relato com atenção – até o fim. Depois de escutá-lo, o homem disse que se chamava Batista e lhe explicou sobre sua nova condição de vida – seria muito parecida com a anterior: teria de roubar para comer e fugir de predadores maiores, como a polícia. A grande diferença era que, a partir de então, não utilizaria garras ou tentáculos, mas esperteza. O mais estranho para o ex-inseto foi compreender que não precisava procurar comida – bastava possuir dinheiro. Batista não possuía dotes pedagógicos, e levou tempo até convencer seu conhecido que o novo mundo onde ele teria de viver era movido pelo dinheiro. Mostrar uma das poucas cédulas que carregava não ajudou, pois seu novo amigo viu pouca diferença entre ela e as folhas das árvores do parque.



2 – O observador


Juro a vocês. Precisam me ouvir. Sei que pareço um maluco – e que as roupas rasgadas que visto não ajudam os senhores a me respeitarem. Mas me dêem um pouco de crédito. Afinal, pelo que sei, sou o único que conhece toda a história do novo sócio que os senhores investigam. Mas, se os senhores duvidam da credibilidade deste mendigo que lhes fala, saibam que, antes de viver nas ruas, fui como um de vocês. Inclusive, me formei em jornalismo. E compreendo todo o asco que nutrem em relação a minha pessoa. Por que fui parar nas ruas? É difícil explicar. Teria de lhes descrever um longo processo de ruptura com minhas crenças – pois começou assim. Depois comigo mesmo. E o efeito dos remédios que me deram no hospital psiquiátrico. A solidão – coisas que os senhores temem e não querem ouvir. Sim, durante alguns períodos da vida perdi a sanidade – mas sempre consegui resgatá-la, pelo menos até agora. Querem que eu lhes conte a história do Gregório?! Não costumo trair amigos, mas ele nunca foi meu amigo e, quando não precisou mais de mim, simplesmente me descartou.

Os senhores precisam estar com a mente aberta – ou não acreditarão no que contarei. Imploro para que escutem o jornalista, e não o mendigo. E, se julgarem minha história digna, me consigam todo o dinheiro que prometeram, pois não agüento mais dormir nas calçadas. O conheci aqui, nesse mesmo parque, há seis anos – acho. Nas ruas o tempo passa de forma diferente – não sei explicar se mais rápido ou devagar. Mas o que isso importa? Conheci o Gregório nesse parque e, acreditem em mim, praticando o ato mais selvagem que já presenciei – e olha que vivo na rua... Ele matou um cachorro a pauladas e tentava devorá-lo cru – rasgando a pele com os dentes. Não sei de onde e-le veio – me contou uma história maluca: de que era um inseto e que se transformou em gente. Mas já vi tanto delírio que não o recriminei. Fui eu quem lhe ensinou tudo – inclusive a cozinhar a comida. Nem dinheiro ele conhecia e nem do nome lembrava. Fui eu quem lhe botou o nome de Gregório. Por quê? Por causa da história maluca que me contou sobre ser um inseto. Gregório era o personagem de um livro que li na juventude – A metamorfose, ou algo assim.

Como ele começou? No início roubávamos e pedíamos. Mas ele era muito rápido e forte. Cedo começou a assaltar e a vender pó nos bares próximos. No tempo em que traficou, eu ainda convivia com ele. O cara me dava medo – matava seus concorrentes sem a menor piedade. Percebi que era muito mais louco do que eu pensava. Acabei trabalhando com ele – vendendo erva, pois ele me considerava incompetente para vender pó. E foi assim: enquanto eu vendia maconha e era preso, ele se tornava o maior traficante da cidade. Mas ficou pouco tempo no ramo. Comprou uma empresa e começou a se dedicar aos negócios e à política... mas isso vocês devem saber. Querem saber de seu temperamento? Contei que ele matou um cachorro a pauladas? É, ele fazia o mesmo quando um de nós não correspondia ao que ele estava esperando. Vi, com meus olhos, ele executando dois caras com pauladas na cabeça. Primeiro batia no rosto – para defigurar e causar dor. Triturava carne e ossos – os caras não tinham mais rosto, só uma massa de carne homogênea. Era horrível. Depois, deixava eles assim por algumas horas – sofrendo. Finalmente matava, batendo em suas cabeças com o bastão. Não sei o que fazia com os corpos. Alguns diziam que ele os devorava no dia seguinte. Isso mesmo, comia carne humana. Louco ele era, mas não sei se chegava a tal ponto.

Sim. Ele era muito frio. Nada o emocionava ou comovia – dava a tudo uma finalidade prática e descartava o que lhe parecia desnecessário. Ainda não havia pensado no que vou lhes dizer, talvez seja apenas o delírio de um bêbado, mas ele parecia mesmo um inseto. Como na história em que me contou no dia em que o conheci. Nunca presencei uma demonstração de carinho – ele via o mundo como um inseto. A diferença é que era muito racional. Tinha uma inteligência assusta-dora – e sabia como convertê-la para fins práticos. Inclusive, não refle-tia ou se questionava. Usava toda sua inteligência para obter vantagens sobre os outros. Pegava tudo que lhe servia e descartava o que considerava inútil. Dizem – não sei – que como empresário ele faz muito sucesso. E eu acredito. Mas por favor: não contem a ele que me fizeram essas perguntas. Nem falem da história do inseto, pois não sei se ele a contou a outras pessoas... Claro. É evidente que temo por minha vida. Por menos que ela valha, é só o que me resta. E lhes garanto que ele não teria qualquer consideração por mim. Assim como não terá por vocês, quando se tornarem desnecessários a seus objetivos. Quanto a seus objetivos? Não sei. Nunca me disse o que queria. Nada o divertia – nem o que podia comprar com toda a grana que tinha. Acho que só o poder. Não! Não porque gostasse de mandar nas pessoas. Tenho a impressão de que tudo era apenas porque sentia medo. Só estando acima de todos ficava tranqüilo.



3 – O objeto

Dois meses sem o sol. Talvez séculos. E esse corpo estranho – restrito por regras falsas. Odeio toda essa gente, principalmente aqueles que me bajulam. Ao contrário dos que me agridem, os bajuladores querem me comer aos poucos – perna por perna. Já devoraram mi-nhas antenas. No espelho vejo um rosto estranho. Uma imagem que aparece nas revistas de negócios como outras: um dos dez homens mais ricos do país. E daí? Todos querem me derrubar, se vingar. Mais ainda os hipócritas que me procuram – que me chamam de “amigo”. Só aguardam o momento apropriado para me desferirem um bote fatal. Quase duas décadas fechado nesse mausoléu – que todos cobiçam. Nesse casarão cercado por bosques, câmeras e grades. Assas-sinando aranhas e formigas. Jogando na bolça de valores com o computador. Números. Números. Números e mais números – é tudo a que me reduzi. Cada vez mais rico, mais poderozo, mais invejado, mais só... cada vez menos complicado. E a evidência é arrasadora. Não que tivesse ilusões, mas nem prazer sinto. Semana passada torturei uma jovem até a morte. Levei dois dias para matá-la. Nem sua pele branca coberta de sangue – visão que alguns anos antes me encheria de orgulho – despertou qualquer emoção em minha mente. Foi puro desperdício de súplicas e gemidos. Naquela hora, nem os números me salvaram... Até eles revelaram-se malditos paradoxos.

Restam os corredores escuros e esse cômodos repletos de vazio – meu império. Se ao menos os móveis dançassem, ou se o piano me engolisse. Retornaria à selva, em seu interior infinito. Mas sequer posso invejar minha antiga condição. Não há nada mais crítico que viver no meio do caminho – com essa maldita racionalidade humana e com esse pragmatismo artrópode. Não sinto nada: afeto, ódio ou qualquer outro sentimento. Fico mais rico a cada dia, mas não tenho nada. Nem a mim. Sou estranho até para o espelho. Se pudesse, detonaria todas as bombas atômicas do mundo de uma só vez e acabaria com esse pesadelo. Daria um fim glorioso à angústia de bilhões – todos perdidos em labirintos semelhantes ao meu. Um espetáculo pirotécnico jamais visto como epílogo da história. Exterminá-los seria perfeito, sem qualquer sentimento: apenas átomos se descombinando para depois se combinarem de outras formas – menos miseráveis. Mas quem sou eu para julgar a miséria? O rei dos miseráveis? Sim, talvez, mas nunca o dos hipócritas. Mas seria a plenitude – sentir os átomos livres como cometas, saindo pala tangente e dirigindo-se ao nada, ao insondável, unindo-se a tudo em algum buraco negro. Que breve conforto infinito para minha alma mal sincretizada. Que ode aos cupins que devoram as fundações de nossos palácios...

Nunca acreditei na vida. Nada me difere das paredes desse ca-sarão que me exila dos sorrisos. Nem os criados podem me ver – eu odeio essa gentalha servil e traiçoeira. Só ocupam a ala de serviços – e me servem comida na sala de refeições sem que os veja. Tocam o sino – que indica que já serviram a comida e foram embora. Me sinto ligado a tudo, menos a esses vermes bípedes que ousam separar-se de tudo e centralizam o universo a sua volta. Mas nem os odiar consigo, pois entendo os mitos infames de que precisam se servir para continuarem vivendo sem desconfiarem que estão apenas sonhando con-sigo mesmos. E como desprezo suas ridículas personalidades – revestidas de ouro e recheadas de merda. Acho que apenas troquei facilidades: a vida descomplicada dos insetos, mas dura; por esse teatro, igualmente duro, mas adornado com castiçais reluzentes e pedrarias brilhantes. E o pior de tudo é que, quanto mais aceleram suas vidas, mais se aproximam de meus desertos – das taças que transbordam areia que bebo todas as noites enquanto contemplo a lua, da janela do quarto. E em poucas décadas serei o modelo de todo horror que espalharão no planeta. Mas por que me importaria? Que venham até onde estou e me libertem de suas lendas. Eis minha utopia, disfarçada de pragmatismo: o mundo será dos insetos – a revolução artrópode não pode mais ser contida. Me resta o consolo de que sou o século XXI.

Sim, me rebelei com a condição de objeto, imposta nas revistas de fofoca. Aqui estou, em minha mansão, vagando por corredores que parecem novos a cada dia. Porém, no meio de tantas relíquias artísticas – compradas ou roubadas – apenas um espelho, da mobília do rei Luis XIV, dá sentido a meu rosto. Todas as noites, antes de vagar no quintal, olho para ele por horas a fio – tentando captar-me. Mas, quanto mais focalizo a visão, mais meu rosto parece fugir – torna-se abstra-to. Como se também eu fosse apenas um arquétipo. Mas a muito desisti de buscar a sinceridade no reflexo: hoje tento apenas me comunicar com os cupins que devoram a moldura de madeira do espelho, entalhada com rigor e pintada com ouro. Eles me espiam de seus bura-cos, como se por eles vazassem lampejos divinos. E isso tudo me irrita muito, pois sou ateu. Duvido do primata estúpido que vejo – mas as frestas dos cupins compensam o meu horror. Já tentei conversar com o reflexo, mas ele me dizia palavras tão vãs que desisti. Era monstruoso. Desde então, tento me aproximar dos cupins – me comunicar com eles. Ajudar em sua tarefa. Devorar esse precioso espelho até sua últi-ma lasca, para sua imponência ser esquecida para sempre. Sei que eles me olham, me contemplam assombrados.

Nos primeiros anos me entreguei às bacantes. Esse casarão abrigou as mais famosas orgias da cidade. E, como continuava enriquecendo, ninguém se importava. Pelo contrário, recebia a nata da sociedade local – sedenta de prazeres proibidos. A cocaína pura circulava em bandejas de prata e era inalada pelos convidados em canudos do mais fino cristal de murano. Devorávamos tudo o que podíamos – enquanto nossos corpos agüentavam. Mas isso acabou me entediando. Transformou-se em uma espécie de ritual – quanto mais tentava modificá-lo, mais se aproximava de um padrão. Uma noite expulsei todos de casa e desde então vivo recluso – com meus cupins. Como me torno mais rico e poderoso a cada dia, todos respeitam minhas particularidades – “é um gênio dos negócios”; dizem. Caso estivesse empobrecendo, diriam que sou louco. Mas e daí?! – tal aprovação não me convence. Quanto mais me odeiam, mais me admiram. Minhas empresas agem como aranhas no mercado – e recebo prêmios humanitários. O que teria de fazer para que assumissem que me odeiam? Tudo o que faço revela que os desprezo – e, quanto mais os desprezo – mais me adoram. Mas nunca conseguiriam entender o que sinto, aprisionado em seu mundo de aparências – transformado em espetáculo. Sou um deus laico que deseja apenas esquecer todas as palavras e retornar ao labirinto incogniscível da relva noturna. Um Odisseu que deseja voltar à época em que devorava para existir – e bastava existir. Hoje, ao contrário, existo para devorar – e, até que eu devore tudo, existir nunca bastará. Se os cupins soubessem o que é a inveja – entenderiam o quanto os invejo.

Diário de um inseto, 20 de setembro de 2015.