terça-feira, 3 de maio de 2011

A tulipa descartada (Guilherme Bica)

Descia as escadas da redação com a pressa de quem deixou para trás quatro provas de páginas ímpares e pares para revisar. Uma amiga dela me avisara que ela queria falar comigo, queria acertar tudo, saber se era isso mesmo, se tinha acabado daquele jeito, se já era o fim. Eu passei pela porta do prédio, ganhei a rua e vi Carmela sentada num daqueles toscos exemplares de mesa metálica que normalmente pertencem a botecos malcheirosos, mas ali preenchia a calçada em frente a uma sorveteria. E aquela imagem tão insólita de uma guria tão linda como Carmela recostada num objeto de invariável natureza ordinária, que dava sinais de gasto e perdia a cor branca nas laterais para denunciar a verdadeira pele de um cinza metálico escuro, aquela imagem me causou de pronto uma vulgar estranheza inicial.

Juntei-me a ela, puxando uma cadeira de uma mesa vizinha, e tentei um Oi para avaliar se me respondia. Ao que Carmela suspirou algo que não compreendi e obrigou-nos silenciosos por alguns segundos. E aquele silêncio poderia calar todos a nossa volta: os taxistas narradores de piadas obscenas, o cara engravatado da revenda de automóveis que anunciava a promoção do dia e até o carro de som num volume anormal que convidava a todos para a festa de sábado no clube.

E aí, eu perguntei pra ela, e aí ela sorriu aquele sorriso irônico que só ela sorri, mesmo que com quinze anos poucos saibam o que significa ironia, e me despejou uma centena de lamentos do tipo Tu não tava comigo?, Eu achei que a gente estava começando a se entender, mas agora já não sei, O que tu quer, afinal?, Tem que escolher!, Eu não vou dividir ninguém!, A gente parecia bem, e o tom agressivo foi minguando à medida que ela começou a encolher os lábios para não chorar e eu não me lembro das outras reclamações pertinentes de Carmela, só recordo que tentei pegar em sua mão e fui repelido rapidamente.

Ela voltou a ficar muda e a única coisa que se movia nela era a franja bem aparada, dividida ao meio, expondo a testa e balançando pouco com o vento que não decidia se vinha ou ia embora. Parecia que só eu via a discrepância daquele relacionamento incipiente que não deveria vingar. Eu na faculdade, eu estagiando, eu tomando cerveja, vodca, uísque, eu lendo Neruda, Nassar, Faulkner, eu ouvindo Tom, Chico, Vinicius, eu vendo Glauber, Godard, Antonioni, eu distante tantos anos do colégio. Ela denunciada pela juventude da camisa verde e larga desenhada pelo brasão da escola que encobria o seio esquerdo, ela vestida com a calça preta do uniforme juvenil ainda no corpo, ela refém de toda aquela limpeza que nos tornava tão afastados, a limpeza na boca, nos dentes, nos braços, cabelos e até na voz.

Na volta da mesa da qual recendia uma tensão lúgubre e lúbrica ao mesmo tempo, as sete amigas de Carmela me julgavam e mimetizavam o sorriso irônico, mas sem a propriedade da boca verdadeira. E me deu uma vontade de contrariar tudo o que eu havia demonstrado sem palavras nas últimas semanas – as ligações não atendidas, as mensagens não respondidas –, e me ajoelhar ao lado de Carmela para pedir desculpas e dizer que ela era a mais bela guria que eu já havia conhecido, que eu não estava nem aí para eu ter vinte e quatro e ela nove anos a menos, que tudo daria certo daqui pra frente.

Mas não dava. E foi o que eu disse. Carmela, não dá! Sei que ela ficou surpresa. Porque aqueles olhos cor de tijolo claro e o corpo em sublimada adolescência e fulminado com justificada sede por todos os homens pelos quais ela cruzava – e ela alcançava a idade de tomar consciência disso – não estavam acostumados à rejeição. A minha feiúra discreta cometia a insolência de descartar a beleza de tulipa de Carmela. Ela se recompôs, amparada pelas amigas, e me disse Se mudar de idéia, me avisa, e aquela frase eu sabia que traria comigo por muito tempo ainda, tanto que estou eu aqui a escrever sobre ela, impelido talvez por uma esperança ingênua de que um dia ela leia estas linhas e reflita na pele de um espelho honesto com sua beleza aquele mesmo sorriso limpo e irônico, mas agora com outro sentido, mais autônomo e consciente.

Elas deixaram a sorveteria e encaminharam-se para a esquina, Carmela com os braços entrelaçados nas amigas. Ainda tive tempo de subir as escadas, correr até a sala de meu chefe e esticar o pescoço para fora da janela e vê-la sorrindo e me esquecendo, antes de sumir atrás de um ônibus que resolveu aparecer justo naquele momento inoportuno.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Noturno (Gecy Belmonte)

O vento bate com força nas árvores em frente a varanda do quarto. Nuvens escuras se superpõem rápidas, prenunciando tempestade. Nenhuma estrela no céu. Pela janela entram riscas de luz vindas do poste que ilumina a rua. Ele fecha os olhos com força. Precisa dormir cedo e parar de fazer manha, esta é a determinação dos pais.

Ao lado da cama pode enxergá-lo no escuro, os olhos esbugalhados brilham e o bafo fétido dele está bem próximo. Cobre a cabeça com o edredom, o aperto no peito volta e a respiração escorrega fina pela traquéia até chegar à boca e ao nariz, sente o suor gelado molhar as mãos e os pés. Precisa resistir, inspirar e expirar bem devagar (isso ajuda), não fazer barulho, ele deve acreditar que está dormindo. Ou morto, assim o deixará em paz.

Mas como fazer para ficar ali, com o medo crescendo, crescendo. Sabe que não dará conta por muito tempo. Quer cumprir a ordem dos pais para não mudar para o quarto deles no meio da noite, ir atrás da mãe, como passou a fazer nos últimos meses. Mas o pavor que sente ali, sozinho, no escuro, é maior que o temor do castigo no dia seguinte. Retira as cobertas, coloca as pernas para fora, primeiro uma, depois a outra. Levanta-se, tem os passos abafados pelo carpete, assim não há risco de despertá-lo. Quer a mãe, só ela consegue acalmá-lo quando o pânico noturno chega.

Alcança a porta, gira o trinco com cuidado e saí. Deixa o inimigo lá, fechado, com os brinquedos, os livros que adora e as figuras do Super Homem que ornamentam as paredes azuis do quarto. Pode ser que, quando despertar, ele se distraia e não vá atrás dele. Corre descalço até o quarto dos pais, ao fundo do corredor, e abre a porta de mansinho. Não há ninguém.

Ouve vozes que vêm do escritório, no andar de cima da casa. Dirige-se para lá, sobe os degraus de dois em dois. A porta está fechada. Escuta a voz alterada da mãe e do pai, e para. Eles gritam um com o outro. O barulho da chuva que começou a cair o impede de ouvir o que dizem. Assusta-se, isso nunca aconteceu antes. Enquanto está ali, criando coragem para entrar, percebe um ruído vindo da parte debaixo. É ele, deve ter acordado e está à sua procura, é capaz de sentir seu arrastar paquidérmico rumo às escadas.

Quer a mãe, precisa dela e não ficará ali, parado, no piso frio. Empurra a porta, os pais viram-se surpresos, cessam a discussão, mas a fratura está exposta, sem sangue, só o osso partido ao meio. Corre para o colo da mãe e percebe que ela chora. Não um choro comum, mas um tipo mais fundo, como um soluço para dentro, lágrimas escorrendo pela face. O pai, em pé, do outro lado da mesa, olha os dois sem saber o que fazer, mas também está triste, tem os ombros caídos, parece mais velho sob a luz branca do escritório.

A mãe o abraça com força, beija seu rosto, seus cabelos. Está tremendo, tem uma certa aflição nos dedos. Por um momento ele aquiesce no enrosco morno e seguro. Pode escutar a batida dos corações, os ritmos de ambos se fundem, mãe e filho são um só, fitas de dupla face. Entende que algo muito grave está acontecendo, quer perguntar mas falta coragem (se não souber pode ser que o não-dito não se realize e que a possibilidade dessa coisa ruim se estanque). Agarra-se ainda mais ao pescoço da mãe, não consegue chorar ou emitir som, o ar começa a faltar, pensa que vai morrer (mas crianças não morrem, viram estrelas). Quer sair dali, quer levar o pai e a mãe juntos, os três no aconchego da grande cama de casal, para onde está acostumado a fugir, mesmo correndo o risco de ser levado de volta para o seu quarto no meio da noite ou de ficar de castigo no dia seguinte.

O pai, por fim, começa a dizer alguma coisa, mas ele não escuta. No canto do escritório, perto da estante cheia de livros e documentos, vê a mala grande que ele usa sempre para viajar. Está pronta. Do outro lado da porta, ainda fechada, sabe que o inimigo o alcançou, resfolegante pelo esforço de subir a escada. A chuva e o vento tornam-se mais fortes, ouve o estrondo de um trovão e o de um transformador que se rompe, bem perto. A luz se apaga. Sem velas ou lanterna, os três ficam ali, mudos, no escuro. O silêncio faz a noite tornar-se mais lúgubre, medos guardados afloram, sente que todos os monstros maus estão presentes na pequena sala.

Agarra-se mais ao pescoço da mãe, quer retê-la para sempre. O pai diz para se acalmar, garante que não há porque ter medo, enquanto usa o celular para jogar um pouco de claridade sobre a mesa, na direção deles. Em minutos a luz retorna. O pai diz que está na hora de ir, pega a mala, as chaves do carro, o paletó, dá-lhe um beijo na cabeça e parte, prometendo sempre vir vê-lo. Mal olha para a mãe, cujo rosto se mantém paralisado, como se as lágrimas que rolam viessem de outra face que não a sua. Sabe que o pai não voltará, embora não entenda bem o que está se passando. Não sabe o que fazer, não quer que o pai vá embora, mas, ao mesmo tempo, fica contente, não será mais castigado, a mãe, agora, é somente sua.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Zaaap! (Marcel Citro)

“Como vocês podem ver, lá embaixo existem vestígios de estruturas, de edifícios... Esta cidade provavelmente foi construída próxima a uma bacia hidrográfica. Lembrem-se, falamos há pouco que já existiu água aqui.”

“É claro que havia urbes mais importantes, mais sofisticadas na superfície estéril que vocês vêem agora: Emissões de rádio mencionam lugares que protagonizaram os eventos mais marcantes da época que antecedeu o colapso. Hoje, ‘Pequim’ e ‘NY’ são termos vazios de sentido, mas grande parte das ondas captadas vieram destes locais. As últimas, inclusive, foram enviadas de NY. De qualquer maneira, estamos neste ponto do planeta e não em qualquer outro porque aqui se situa a cidade melhor preservada. Chamava-se Porto Alegre.”

“Estão vendo, ao longo do leito seco daquele rio? As edificações estavam dispostas na sua margem direita, em sentido longitudinal. Por favor, aproximem um pouco mais os seus visores halogêneos: viram? Chamavam-se edifícios. Assim como os mais fortes exploravam os mais fracos, os habitantes desta cidade também moravam uns sobre os outros, não sabemos ainda os critérios que utilizavam para definir cada posição. Há bastante controvérsia sobre o modo como interagiam estas pessoas, há os que sustentam que alguns viviam diretamente sobre o solo, e até mesmo embaixo dele.”

“Estudos revelaram que havia também construções menores, habitadas por um grupo familiar individualizado. Não sabemos se estas estruturas isoladas era um indício de abundância ou não. De qualquer forma, destas construções menores quase nada restou.”

“Vou explicando enquanto vocês observam. Só há três certezas sobre esta civilização: comiam pedaços de animais mortos, utilizavam o ar como meio de propagação de várias línguas faladas – lembrem-se, falar era valer-se de um aparelho fonador para produzir vibrações em estruturas grosseiras chamadas cordas vocais – e adotavam um denominador comum de troca chamado ‘dinheiro’. Na verdade, era mais do que um denominador, constituía-se na religião mais influente aí embaixo. A maioria destas pessoas pautava sua vida em função dele, colocava sua obtenção como tarefa primordial a ser executada por todos os grupamentos celulares, acima de tudo e de todos”.



“Estou projetando agora uma halografia multidimensional do conteúdo do disco que encontramos na sonda espacial Voyager... isso é a imagem de um ser humano...curioso, não é? Aqui, imagens de outros planetas deste sistema solar, eles detinham uma tecnologia ainda bastante embrionária quando ocorreu o colapso. Procuramos muito a imagem deste...deste deus nas diversas faixas de cobre do disco, mas não encontramos nada que pudesse se enquadrar”.

- Será que não era justamente isso, o dinheiro, que determinava o lugar de cada um nos edifícios que estamos vendo?

“É possível. Pesquisas demonstraram que a maioria dos seres humanos vivia em lugares improváveis. Parece que o determinante para isso teria sido justamente a falta de dinheiro. O que não é de estranhar, um dos poucos estudos extensos realizados neste planeta, logo depois de termos encontrado a Voyager, revelava que dez por cento da população da terra controlava oitenta por cento dos recursos. Não é à toa que a civilização acabou por colapsar por completo.”

- E o colapso aconteceu com aquela história do estrondo ou do...como era mesmo a palavra?

“Bem lembrado! Na última transmissão de rádio que detectamos, alguém citando outro ser humano chamado T.S. Eliot declarou que o mundo não iria acabar com um estrondo, mas com um gemido. Não sabemos exatamente o que é um gemido, mas parece bastante poético, não é?”





“Bom, pelo jeito não há mais questionamentos. Estou percebendo que todos estão concentrados nas observações, mas tenho que avisá-los que nosso tempo aqui acabou. Ainda temos que visitar, neste quadrante, os anéis de saturno, a nebulosa de Órion e as anãs-vermelhas perto do quasar oeste”.

- Mas afinal de contas, isso tudo acabou com um estrondo, ou com o tal de gemido?

“ Ah, isso não sabemos...nunca iremos saber. Mas foi algo muito, muito rápido.”

- Alguma coisa tipo Zaaap?

“Exatamente. Zaaap!”

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O assessor (Guilherme Castro)

Antes de conhecer o doutor Herculano, meu ofício era tomar mate com halls na praça, todo santo dia. Acordava seis, seis e meia, punha a chaleira no fogão, limpava a bomba com um grampo espichado, deixava a erva inchar na cuia, tudo preparado pra ver o Bom Dia Rio Grande tranquilo; oito, oito e meia, saía. Até a praça dava o quê?, quatro, cinco quadras. Passava na padaria e comprava um pacote de halls preto - gosto de chupar halls e tomar mate, dá um choquezinho dentro da boca que é bem bom -, daí tomava meu mate olhando o movimento. Quando não tinha mais bala pra chupar, ia pra casa. Fritava um bife, cozinhava arroz, almoçava tranquilo. Matava duas cumbucas de arroz-de-leite e voltava à praça. Tudo normal.

Defronte à Câmara de Vereadores de Canoa Branca tem um banco, ali eu sentava. Via a chegada dos vereadores, quando tinha sessão. Quando não tinha, assistia a chegada dos funcionários, dava no mesmo; importante importante era o movimento. Certo dia, o Beto, um vereador que fazia questão de ir de bicicleta pra Câmara – tá que o partido proibisse mostrar carro na frente da Câmara, mas ele que era exibido – me disse que o doutor Herculano queria gente pra Assessor. Não que precisasse de dinheiro, tenho uma casinha alugada que me basta, todo caso fui até o gabinete do doutor e perguntei sobre esse negócio de ser Assessor.

Fez uma cara de agora é que me lembro e me mandou ficar à vontade. Sentei. Abri a mateira. Sevei um mate.

“Sabes bater à máquina, Brizola?”. Me chamam assim pelas sobrancelhas, sempre esfiapadas.

“Com um dedo, doutor”, fui sincero.

“Me conta das tuas experiências, então”, ele prosseguiu.

“Olha... Ultimamente tenho mais é tomado mate na praça, doutor.”

“Então és um AMH.”

“Sou?”

“Analista de Movimento Humano”, me explicou o doutor.

“Sim, claro”, achei interessante essa coisa.

“Joice, me tira um coelhinho da cartola, sim?”, pelo telefone, ele pediu à secretária, que logo apareceu com uma folha datilografada.

“Assina aqui, meu Assessor”, me disse ele, riscando um xis no pé da página

Termo de Posse, dizia.

Assinei.

“Agora espera que eu te chamo, tá?”.

Queria saber do salário, quanto era, mas como ele não tocou no assunto, e nem eu, ficou por isso.

Voltei à praça, tinha a térmica ainda pela metade, isso dava o quê?, cinco, seis mates.

*

Dia seguinte: seis, seis e meia, acordei. Aqueci água, pus erva pra inchar, limpei a bomba, Sidney Sheldon na mateira; pra mim, escritor é Sidney Sheldon; vi o Bom Dia Rio Grande tranquilo: ia chover em Pelotas. Bom, oito, oito e meia, saí. Tudo normal.

Sentei no banco e logo vi o doutor Herculano chegar à Câmara. Gritei: “Ô, chefe!” Com as mãos, me mandou esperar; o portão, que fechava sozinho, me foi retirando o doutor de vista. Pensei: bom, mas que sou Assessor, isso eu sou, pra mim papel assinado é o que conta. Segui tomando meu mate e chupando halls.

Por um mês, mais ou menos, eu gritei ô, chefe! quando via o doutor chegar à Câmara; e ele, com as mãos, me dizia: calma, Brizola!

Um dia, tomava meu mate e lia Sidney Sheldon bem na parte dum incêndio alucinante quando ouvi ele me chamar. Fui até o gabinete.

“Grande Brizola!”, me recebeu com festa. “Joice, traz uns coelhinhos, sim?”. A Joice trouxe. Três. Desenhou o mesmo xis no pé das folhas: Folha-ponto, dizia.

“Assina aqui, meu Assessor!”.

Assinei.

“E aqui.”

Assinei.

“Mais aqui”

Tudo assinadinho.

“Te chamo em seguida, fica tranquilo”, ele disse, e já me deu as costas.

Mas continuei ali, parado, esperando alguma ordem, sei lá, alguma coisa. Então ele tapou o bocal do celular e disse vai embora com outras palavras: “fica tranquilo!”, foi o que ele disse. De fato fiquei, pra mim papel assinado é o que vale, e nesse dia assinei três coelhinhos.

*

Não sou de me queixar, mas teve a primeira vez. É que fim do mês recebia em casa dez pacotes de erva-mate e cinco de halls como salário; conseguia me manter o quê?, vinte, vinte e um dias, nem isso.

Fui ao gabinete.

“Tá me faltando erva, doutor”, desembuchei, todo corajoso. Foi mais fácil que pensei: me deu um aumento na hora; fecharia os trinta e um dias folgado; a partir daí, mês de trinta sobrava o quê?, um pacote inteiro de erva. Ganhando mais, hora de mostrar trabalho, pensei.

O gravador eu já tinha, um portátil da Gradiente; o crachá, mandei imprimir colorido na Canoa Press. Ficou assim: AMH em cima, Assessor embaixo, num canto a minha foto três por quatro de terno e gravata. A partir daí, se perguntassem qual era o meu ofício, eu respondia: sou Assessor do Doutor Herculano, e ainda mostrava o crachá pra quem não acreditasse.

*

Um dia o doutor mandou dizer pelo Beto que era pra eu me tocar a Pelotas. Me entregou um celular e uma cartola cheia de coelhinhos. Missão de Estado.

Cueca, meia, camisa, calça de brim, japona, três ou quatro potes de Minancora – pra mim, desodorante é Minancora -, joguei tudo na mala; a mateira já carregava, e o crachá: raramente tirava do pescoço.

“Mando teu salário pelo ônibus, fica tranquilo”, me disse o Beto.

Fiquei mesmo.

Entrei no Embaixador. O ônibus não passava de oitenta, isso dava o quê?, três horas, três horas e meia até Pelotas. Ultrapassado o pórtico de Canoa Branca, os campos de arroz surgiram no para-brisa, um verde uniforme lindo de se ver; nessa hora senti pena de, por causa do meu novo ofício, ter de sair de lá, eu que só deixei a cidade uma vez, quando precisei trazer uma tia-avó de Camaquã e fui dar em Jaguarão. Todo caso, vida de Assessor é assim, dura, devia eu desconfiar. Passando o Texaco, fechei a cortina, começava eu a sonhar e um piparote do cobrador me acordou.

“Já estamos chegando?”, perguntei, meio dormindo.

“Vai pra onde, Brizola?”

“Pelotas”, respondi.

“Nem do Taim passamos”, ele respondeu. “São vinte reais”.

O doutor havia me dado o quê?, cem, cento e vinte, mais umas quantas bolsas de supermercado com erva e halls. Um adiantamento, exigência minha. Paguei os vinte e virei pro lado. Tranquilo.

*

Pelotas, como toda cidade grande, tem mais auto que gente. Na rodoviária é uma quantidade de táxi esperando, realmente, que tu pague uma fortuna pra meio-metro de corrida. Me nego. Mesmo. Dar dinheiro eu pra taxista? Saí a pé e achei o Naite Pelotense, um hotel em conta, pegado à rodoviária, bem bonzinho: quinze cruzeiros o pernoite, direito a café da manhã e tudo: pão torrado, café preto, iogurte e uma banana. (Quando que eu ia tomar iogurte, e de garrafinha?) Paguei dois pernoites adiantados à Baronesa, proprietária e moradora do Naite. No quarto, escondi a cartola mais a mateira dentro do boxe, por segurança. E fui dormir com o celular preso ao elástico da cueca, também por segurança; pânico de cidade grande.

Seis, seis e meia, levantei. Crachá no pescoço, gravador com pilha nova que era pro relatório não desandar na minha primeira manhã pelotense. Não vi o Bom dia Rio Grande - no Naite só tinha rádio -, tomei café, iogurte, e escondi a banana na mateira, pra mais tarde. Oito, oito e meia, perguntei à Baronesa onde era a praça da cidade.

“A mais próxima?”, me perguntou.

“Ah, tem mais de uma...”

“Olha, daqui? Umas doze quadras”.

Coisa muito complicada, e longe, quase que uma Canoa Branca inteira.

Resolvi relaxar.

Sentei na frente do hotel numa cadeira de praia. Sevei o mate. Logo a Baronesa abriu outra cadeira ao lado. “Posso?”, perguntou. E eu vou negaciar? Sevei um mate pra ela. Dia seguinte sevei outro. Fui sevando, sevando, todos os mates que ela pedia eu sevava. Às vezes colocava capim cidró na térmica, só porque ela pedia; tava em Pelotas mesmo... Nenhum conhecido vendo é a conta; porque pra mim, mate, só com halls. Mas tinha uns olhos puxados, a Baronesa, tinha uma boca graúda ela, uma bunda que me segurava pra não beliscar quando passava rebolando. A gente foi se conhecendo melhor e, no decorrer do quê?, mês, mês e meio, já chamava ela de Barô, só Barô.

Com mulher no meio a coisa fica mais profissional, organizada, é inevitável isso. Foi ideia dela: passar a limpo e fichar os relatórios em pastinhas: por turno, dia, mês, ano. Foi ideia minha: fixar uma placa de bronze na frente do Naite: Unidade de AMH, dizia. Ela que pagou. Outra ideia, nossa: grampear cartões de visita nos recibos dos hóspedes, que, aliás, eram praticamente dois: seu Alexandre, vendedor itinerante de alpargatas, e eu.

Resgatamos uma escrivaninha de compensado abandonada no porão do Naite. Duas, três pinceladas de tinta branca, ficou como nova. Placa na parede, cartões na praça, unidade pronta. Tirei então da cartola uns quantos coelhinhos pra Barô assinar.

“Que que é isso?”, perguntou.

“Fica tranquila”, eu disse, “é coisa séria”. Beijei a testa dela. Ela amoleceu e começou a assinar, um por um, como uma boa fêmea deve ser, obediente. Todos devidamente assinados, tomei-lhe os coelhinhos e guardei na cartola. “Te ligo em seguida, minha Assessora”, disse, apressado, porque o Embaixador saía em quê?, uma hora, hora e meia no máximo. Saí a pé; táxi me nego.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Calma, já vai passar (Augusto Britto)

Tudo começou quando ele disse que tava com dor, mas acho que a própria vida já dói tanto que aquilo me passou despercebido. Tá doendo, tá doendo, ele continuava repetindo todo dia, e eu, com pena – um pouco dele, um pouco de mim mesma –, dizia: calma, mano, já vai passar, toda dor uma hora passa. Essa frase era repetida constantemente lá em casa. Sempre tem alguém sofrendo, e o tempo sempre passa pra sarar uma dor que não sara nunca. Mas até há pouco eu acreditava que a dor sumia, que a gente um dia ia ser feliz, e por isso continuava repetindo que já ia passar, como conforto pra mim e pra ele. Quando ele disse que tava com dor pela primeira vez eu achei que fosse a dor do filho que vê seus pais se separando, e – como irmã mais velha – eu tentei cuidar dele, dar amparo e carinho. Mas quanto mais eu abraçava o mano mais ele reclamava de dor, e eu ficava sem saber o que fazer, perdida diante de toda aquela situação. O pai e a mãe brigando constantemente, e eu tendo que cuidar do mano, sem saber nem cuidar de mim mesma, que tinha tantas outras preocupações; mas eu tinha que esquecer de tudo, eu sabia, e proteger a gente como dava. Eu reparei um dia em um quadro que ele tinha posto no nosso quarto, e perguntei o que que era, e ele respondeu, é uma foto da Austrália, mana, o irmão do Pedrinho tá lá agora, é bem longe daqui e é tri bonito, e eu olhei pra ele e percebi o quanto ele tava sofrendo com tudo aquilo, como ele tava tentando fugir de tudo de todas as maneiras, e ele continuava, será que um dia a gente vai poder ir pra lá, mana, será que lá o pai e a mãe vão conseguir parar de brigar?, e eu fiquei sem reação; quis dizer o que eu achava, que tem coisas impossíveis, que tem lugares – e sonhos – inalcançáveis, mas silenciei; não podia falar isso pra ele, eu tinha que cuidar dele e dar esperanças, por isso eu respondi, um dia a gente pode ir pra lá, mano, não sei se a mãe e o pai vão, mas eu te prometo que um dia eu te levo pra lá. Eu abracei ele forte, como única coisa que eu podia fazer, e ele de novo repetiu a reclamação, tá doendo, mana, tá doendo muito, e eu, já sem voz e soluçando, disse, vai passar, mano, tudo passa. A gente sempre foi muito unido, mas naqueles últimos tempos a gente tava muito mais próximo, porque ficava sempre nós dois sozinhos, abraçados, enquanto o pai e a mãe brigavam, e eu tentava tapar o ouvido do mano ou falar qualquer coisa pra ele não ouvir nada, mas eram gritos muito altos da mãe, eram berros incessantes do pai, e a gente ficava ali, sofrendo, sozinho. Nossa amizade se intensificava a partir do sofrimento que aumentava e aumentava e não parava nunca, apesar da frase sempre latente de que a dor passa, e que tudo ia passar. Quando o pai e a mãe começavam a discutir sem parar eu levava o mano pra passear, a gente ia no cinema, tomar sorvete, caminhar, só pra tentar fugir um pouco daquilo tudo, mas nunca dava pra fugir, ele sempre perguntava por que que isso tava acontecendo, por que o pai e a mãe tavam brigando tanto, e eu nunca sabia o que responder. E ele cada vez mais falava que tava doendo, e eu me irritava, porque tava doendo em mim também, mas eu tinha que ser forte e aguentar por nós dois, porque eu era mais velha e me sentia responsável. Mas minha força era abraçar ele e tentar não chorar, pra depois chorar sozinha e sofrer sem ter ninguém pra me ajudar, porque a mãe tava já sofrendo muito com a separação, e não queria saber de ninguém, muito menos do pai, aquele filho da puta que me traiu todos esses anos, ela dizia, e me deixou aqui tendo que cuidar de vocês sozinha, mas eu já tinha idade pra perceber que não era bem assim, que ela não tava cuidando da gente, que na verdade eu tava sozinha com o mano e a gente era quem mais sofria por causa de tudo aquilo. E no final de todos os dias era assim: eu e o mano chorávamos sozinhos e unidos, ouvindo a mãe gritando do quarto ódios pra sala e pro pai, que mandava ela calar a boca e dormir, porque no outro dia ele ia ter que acordar cedo e trabalhar pra sustentar a gente, e a resposta da mãe ele nunca ouvia, porque era uma resposta doída em lágrimas e gemidos, e porque o pai nunca foi bom em ouvir o que se fala baixinho. E o mano sempre antes de dormir repetia, tá doendo, mana, tá doendo, e eu às vezes fingia dormir e não respondia, outras vezes abraçava ele, porque achava que isso era só o que eu podia fazer. Eu me sentia tão impotente e abandonada e infeliz e confusa que não me dei conta de que eu podia fazer alguma coisa. Mas logo eu, uma guria de dezessete anos, que sofria tanto com tudo o que tava acontecendo, que tinha que pensar no que eu ia fazer da vida, em como passar em medicina no vestibular, em como me ajudar, tinha que ajudar o mano, dar carinho pra ele, e ainda mudar alguma coisa? Não tinha como eu mudar nada. Já tá dormindo, mana?, ele me perguntava, e eu ouvia que ele não conseguia não chorar, mas eu não falava nada: queria dormir, queria estar dormindo. Mãe, o mano tá com dor, ele não para de reclamar, eu falava pra ela no almoço, o único momento em que eu podia falar com ela, mas eu ouvia sempre a mesma resposta, agora não, eu acabei de acordar, tou com dor de cabeça, outra hora a gente conversa. Era fácil pra ela falar aquilo, não era ela que ouvia ele reclamar o dia inteiro de dor, não era ela que tava sofrendo por ver ele sofrendo, não era ela que pensava nele, que tinha que sair do cursinho no meio da tarde pra ir buscar ele no colégio porque ele tava com muita dor – assim eu não ia nem ter chances de passar em medicina, a mãe sabia, mas parecia que ela não dava bola, parecia que só existia ela e só ela que tava sofrendo –; não era ela que via ele chorando e não podia fazer nada, e chegava no colégio dele pra ouvir da diretora que ele tava com muita dor na perna, que era melhor levar ele no médico, eu, com dezessete anos, que tinha que estudar pro vestibular, buscar e levar ele no colégio, sair com ele, cuidar dele e ainda por cima sofrer, como é que eu ia fazer tudo isso?, mas a diretora não tava mais ouvindo, ninguém tava ouvindo, e o mano tava chorando muito, dava uma pena, e mesmo assim eu não podia fazer nada, e só naquele momento que eu olhei pra ele e vi que ele tava magrinho, que ele parecia tá sem forças. Por que tu não disse que a dor era na perna, guri?, eu perguntei irritada, mas depois me arrependi, porque o coitado do mano tava sofrendo muito, dava pra ver, e eu tinha que cuidar dele, e não colocar a culpa nele, e quando ele disse, porque eu não queria te incomodar, eu chorei e não soube mais o que fazer, porque vi que na verdade era ele que tava cuidando de mim esse tempo todo, e disse, desculpa, mano, eu vou te levar pro médico, tudo vai passar, tudo passa, daqui a pouco tu vai tá bem de novo, tudo vai dar certo, mas eu falava aquilo sem convicção nenhuma, porque eu aos poucos tava me dando conta de que talvez a dor não passasse nunca: que talvez a vida fosse mesmo doída desse jeito, pra sempre. A gente chegou em casa e o pai e a mãe tavam brigando, mas o mano era mais importante que a briga infinita deles, por isso eu tentei interromper, disse, mãe, pai, mas eles me mandaram calar a boca, disseram que era pra gente ir pro quarto ou sair de casa, pra eu levar o mano pra algum lugar, mas eu disse que não dava – eles não queriam ouvir –, não dava – eles não queriam ouvir –, não dava, e eu já tava quase chorando quando eles perceberam que tinha alguma coisa errada, e eu falei gaguejando que o mano tava com dor, que algum deles ia ter que nos levar pro hospital, e eles fizeram silêncio quando eu disse essa palavra. Dava pra ver que eles não sabiam o que fazer – acho que eles nunca souberam o que fazer. Eu levo vocês, o pai disse, tá tudo bem contigo?, ele perguntou pro mano com uma indiferença que me assustou, e aquilo tudo me doía cada vez mais, especialmente quando o mano respondeu tranquilamente, tá, pai, se tu não quiser me levar agora não precisa, pode acabar de conversar com a mãe, não quero atrapalhar vocês, e aquela consciência e lucidez do mano me atordoaram, e eu olhei com nojo pro pai e pra mãe e não soube de onde ele tinha tirado aquele respeito, porque eles nunca tinham pensado senão neles mesmos, e eu senti asco quando o pai respondeu, não tem problema, vamo lá, a conversa com a tua mãe já acabou, como se só por causa da incomunicabilidade dos dois ele ia ser pai e pensar na gente. No carro eu fui atrás com o mano, como se o pai fosse só o motorista mesmo, como se fosse só nós dois no mundo e a gente fosse enfrentar tudo sozinhos – sempre sempre sozinhos –, mas apesar da solidão eu já me sentia melhor, a gente tava indo resolver aquele problema, e quando o mano colocou a cabeça no meu peito e disse baixinho, pra que só eu ouvisse, tá doendo, mana, eu abracei ele com amor e respondi, calma, mano, a gente tá indo pro médico, ele vai te curar, tudo vai passar, já, já, repetindo sempre a mesma ideia desgastada, mas que naquele momento me pareceu – mais do que nunca – verdade, e deve ter parecido pro mano também, porque ele deu um sorriso, e a gente ficou ali, sabendo que tudo ia passar, que a dor ia enfim passar. Quando a gente chegou no hospital, o pai foi direto falando que queria um médico, porque o filho dele tava com muita dor e não podia esperar mais, e eu fiquei pensando se era o mano que não podia esperar mais ou ele que queria que tudo acabasse logo pra poder voltar pra casa de uma vez. É só preencher a ficha e aguardar, a mulher disse, e eu logo entendi que quem ia preencher a ficha era eu, e o pai falou mesmo, preenche essa ficha que eu vou no banheiro, filha, e se virou pro mano e passou a mão na cabeça dele e disse, pode ficar tranquilo, filhão, o médico já vai nos chamar, e saiu e deixou a gente ali, sozinhos. O ambiente era tenso, e eu comecei a ficar aflita, parecia que tudo exalava dor, e isso deve ter lembrado o mano da dor dele também, porque ele disse, tá doendo, tá doendo, e eu respondi que já ia passar, que eu ia preencher a ficha e o médico ia nos chamar a qualquer momento, que tudo ia ficar bem, só que dessa vez a ideia me soou ridícula e falsa, mas era a única que eu sabia e podia falar, e eu tinha que dar segurança pra ele, mesmo que eu me sentisse a pessoa mais insegura naquele momento, e eu disse, senta aqui, mano, eu vou entregar a ficha pra moça ali, e fui, enquanto o mano ficou quietinho, e quando eu virei pra trás me deu uma pena de ver ele sozinho e corri pra poder voltar logo pra ele, porque ele só tinha a mim, eu não podia decepcionar o mano, eu tinha que cuidar dele, e eu voltei e abracei ele, e logo depois o pai voltou, e depois mais o médico nos chamou, e eu tava agoniada com aquele hospital e aquela gente doente indo de um lado pro outro, e a minha vontade foi de ir correndo, mas o mano tava com dor, por isso a gente foi devagarinho, e eu falei como que falando pra mim mesma, não precisa ter pressa, se for pra ficar bem a gente pode esperar o tempo que for, não tem problema, mas não tava tudo bem, eu sabia, e o médico examinou o mano e disse que ele ia ter que fazer uma radiografia pra ver o que que tinha acontecido, e eu acompanhei ele, sempre em silêncio, eu e ele, e o pai ficou perguntando sem parar coisas inúteis pro médico – acho que foi só naquele momento que ele se deu conta de que tinha um filho e que ele tava doente. O mano fez a radiografia e a gente ficou sentado esperando o resultado, sem saber o que esperar, e eu tava com muito medo, e abraçava o mano, eu e ele sentados, e o pai ali, de pé, e eu percebi que ele tava louco por um cigarro, mas agora devia tá com vergonha de deixar os filhos sozinhos, tava andando de um lado pro outro, como que um acompanhante somente, um motorista, porque a dor não tava nele, ele tava sofrendo só agora, a dor tava no nosso abraço, no mano, na perna do mano, mas já ia passar, já, já, ia passar, só que ele não me perguntava mais e eu também não falava nada – o silêncio como um pacto, espantando o que não se quer ouvir. O médico nos chamou de volta, agora com a radiografia, e eu entrei na sala apavorada, e acho que o mano percebeu, porque ele apertou forte a minha mão e disse, agora a dor vai passar, mana, a gente vai voltar pra casa, mas logo quando a gente se sentou eu vi na cara do médico que não tava tudo bem, e quando eu vi uma radiografia, mesmo sem entender nada do que ali era mostrado, eu soube de imediato que as coisas não iam passar, que o mano ia continuar sentindo dor, e quando o médico falou em tumor eu fui fraca e chorei, e o mano, que não tava entendendo nada, disse, calma, mana, calma, e eu me senti pior ainda, porque era ele que me amparava e cuidava de mim de novo, e o pai perguntou, como assim tumor, doutor?, câncer?, e o médico respondeu que sim, que a princípio era o que mostrava a radiografia, que o mano ia ter que ficar ali internado pra no outro dia já fazer uma biópsia pra comprovar e ver com qual tumor especificamente o mano tava, porque não dava mais pra perder tempo, e eu ouvia aquilo tudo com dor, era uma notícia doída, e eu fiquei muito preocupada com o mano, porque ele não tava entendendo direito que que tava acontecendo, mas eu não podia explicar pra ele, não podia dizer, mano, tu tá muito mal, não, eu tinha que ser forte e passar confiança pra ele, mas já não sabia mais fazer isso, não sabia mais fazer isso, não sabia mais fazer nada. Por mais absurdo que pudesse parecer nos falaram que a gente tava com sorte, porque naquela noite tinha um quarto vago pro mano ficar. O pai tava completamente atordoado, não sabia o que fazer, e eu ia resolvendo tudo enquanto ele ficava feito um abobado do meu lado, e já no quarto eu me irritei, pai, liga pra mãe e avisa tudo pra ela, vai lá fora que aqui pega mal o celular, eu queria era ficar a sós com o mano, e o pai foi correndo, certamente louco pra fumar um cigarro e pensar no que tava acontecendo, e foi bom, porque ali ele não ia ajudar em nada, e pelo menos ele se dava conta do problema do mano, e a gente ficou sozinho ali, e eu não sabia o que falar, até que o mano falou, relaxa, mana, a dor já tá diminuindo, e era ele de novo cuidando de mim, eu não podia admitir isso, e eu dei a mão pra ele sem saber como ajudar, como amparar ele, eu, tão angustiada com aquilo, e só consegui dizer, desculpa, mano, e ele ficou em silêncio, e eu chorei naquele quarto de hospital que me sufocava, que nos sufocava, e o mano chorou também, e éramos nós dois, sozinhos, chorando diante daquela situação cada vez mais doída, e ficamos nós dois um esperando que o outro dissesse o que nós dois queríamos tanto ouvir mas ninguém dizia: nada passava, nada ia passar, e a gente tinha medo dessa certeza, e o pai logo depois voltou com a mãe, e os dois entraram chorando e abraçando o mano, e eu imaginei uma cena em que dois pais disputam amor em beijos e abraços, querendo cada qual se mostrar mais doído com a dor do filho, se importando sempre com aquela briga que não acabava nunca, enquanto o mano – e eu chorava só de pensar nisso – talvez acabasse, e como era injusto tudo aquilo que acontecia naquele quarto, e eu me irritava e queria logo que eles fossem embora e nos deixassem os dois ali, como sempre sozinhos, e eu odiava eles naquele momento, colocava a culpa de tudo neles, que tinham me impedido de ver tudo antes, mas também sentia uma culpa doída em mim e pedia desculpa, desculpa, desculpa pro mano sem dizer, só apertando a mão dele e olhando bem no fundo dos olhos molhados de lágrimas dele, e aquele retrato era um retrato doído, cuja dor eu sabia que não se extinguiria nunca. Quando tava acabando o horário de visitas uma discussão se instalou no quarto – uma discussão que pela maneira com que era travada já há muito vinha sendo ensaiada: quem dormiria no hospital?, só que a resposta pra mim o pro mano era óbvia, não tinha como ser diferente, mas pro pai e pra mãe não, e parecia que a discussão não era só pra responder a pergunta, era pra responder quem era o melhor pai, mas o mano – com uma sabedoria que me deixou atônita – entendeu isso, e quis logo resolver tudo, não precisam discutir, eu quero que a mana fique, ele disse, e eles me olharam como que se dando conta da obviedade da questão, como que se dando conta de que eles ali não ajudariam em nada, mas isso eles não devem ter pensado, eles nunca pensavam, e saíram mudos, e ficamos, de novo, eu e o mano, sozinhos, pra encarar mais uma noite doída de choro, mas que ia doer muito mais que qualquer outra noite, e eu sabia que eu não ia conseguir dormir, mas tentei pelo menos fazer com que o mano dormisse, ia ser bom pra ele, mas ele não parecia com sono, e mesmo assim eu apaguei as luzes e deitei no sofá dando boa noite pra ele, mas logo depois – ele sabia também que eu não ia dormir nem ia fingir que dormia – ele perguntou, mana, sabe o que que eu tava pensando?, e eu tive medo de perguntar por uma resposta que eu não sabia qual era, mas sabia doída, no quê?, eu perguntei finalmente, e ele respondeu, tava pensando que a gente podia ir pra Austrália quando eu sair do hospital, o Pedrinho me disse que o irmão dele falou que lá é tri legal, e eu abafei meu choro no cobertor, e ele continuou, que que tu acha, mas deve ter se dado conta de que eu chorava, porque ficou em silêncio por um bom tempo esperando uma resposta que eu não sabia qual, mas eu tinha que responder, e falei, sim, mano, tá combinado, quando a gente sair daqui a gente vai, cuidando pra não revelar tristeza na voz, e ele disse, e a gente vai poder surfar lá, mana?, quando eu melhorar da perna eu vou querer surfar lá, porque parece que lá é tri bom de surfar, e eu respondi que sim, mas que por enquanto o melhor era dormir pra ficar bem descansado pro outro dia. E no dia seguinte cedo vieram pro nosso quarto pra levar o mano pra fazer o procedimento, e eu fiquei apreensiva sozinha, sentindo falta da companhia dele e temendo a falta que eu fazia pra ele, e o médico depois veio nos informar – pro pai e pra mãe, que tavam ali de novo – que o resultado ia sair em no máximo dois dias e que ia dizer exatamente qual o tumor que o mano tinha e a partir disso o tratamento que ia ser feito, e aquelas quarenta e oito horas foram absurdamente desgastantes, nós, que há muito esperávamos que tudo passasse, sabíamos que quanto mais o tempo passava mais tudo piorava, e tínhamos medo do resultado que ia chegar, e eu fiquei o tempo todo com medo, esperando, e não pensei em momento algum em tudo que tava me fazendo sofrer antes, porque quando acontece uma coisa assim a gente revê o que nos dói, e a mãe ficava ali toda hora também, saía só de noite, e o pai ia sempre que podia, quando não tava trabalhando – ou com a vagabunda, a mãe continuava repetindo, mas nem eu nem o mano dávamos bola mais – e eu chorava frequentemente, e o mano também tava sofrendo muito, aqueles dias foram horríveis como nenhum outro dia tinha sido antes, apesar de todas as dores doídas até então, e quando o médico chegou com o resultado as batidas do meu coração emudeceram qualquer palavra que eu pudesse querer falar, e eu escutei quieta ele falando que o tumor era agressivo, que se chamava Sarcoma de Ewing, e que era um tumor ósseo de péssimo prognóstico, e que, como tumor agressivo, o tratamento também tinha que ser agressivo, e que portanto, como o tumor tava localizado na tíbia, ele ia ter que amputar a perna do mano pra poder tratar e retirar o foco do tumor, tentando impedir uma metástase que era extremamente perigosa, e a mãe ouvia tudo aquilo como se só agora entendesse que o filho dela tava morrendo, e eu ouvia aquilo quieta, impotente até pra falar, estática, e o mano não entendia direito, porque ele perguntou chorando, eu vou perder a perna, mana?, e o médico disse que sim, que ia ter que amputá-la assim que desse, e que depois o mano ia ser encaminhado para um oncologista pra iniciar a quimioterapia, e o mano não parava de chorar ouvindo aquilo, e eu abracei ele e depois a mãe nos abraçou, e o médico saiu nos deixando ali, completamente abatidos, e foi nesse momento que o pai chegou e voltou toda a choradeira, e eu não queria que aquilo acontecesse, ninguém queria, mas tinha que ser, e a gente ficou no quarto – o sofrimento em um abraço unido – esperando algum milagre, mas não veio, veio só o médico no dia seguinte falando que a sala de operação já tava pronta, que ele ia ter que ser levado pra fazer o procedimento, e aquilo tudo era muito doído, eu tava chorando muito, e ele foi, enquanto a gente ficou numa sala de espera, esperando não sei o quê, porque nada significava mais nada naquele momento, eu não sabia mais o que fazer, e o médico voltou pra falar que a operação já tinha sido finalizada e que em breve a gente ia poder entrar na sala de recuperação, que era onde o mano tava, por um tempo, só pra ver como ele tava, falar um pouco com ele, e aquele tempo era só angústia, e eu só vi que o tempo tava passando quando o médico voltou e falou que se a gente quisesse a gente podia entrar na sala de recuperação agora, e a gente entrou lá pra ver ele sem a perna, sem a perna, sem a perna, e a gente não sabia como reagir, eu tentei transmitir confiança, mas a quem eu queria enganar?, tudo era horrível, ele tava morrendo, ia morrer, e eu chorava muito, a dor não passava pra ninguém, só piorava, era tudo mentira, tudo falso, e o mano me chamou pra perto e sussurrou no meu ouvido que tava doendo, que continuava doendo, e eu perguntei onde, e ele respondeu que continuava doendo a perna, a perna que tinha sido amputada continuava doendo e que tava doendo muito, muito mais do que antes, e eu olhei pra ele e sofri, porque não consegui falar pra ele o que ele queria tanto ouvir, não tive coragem de dizer que já ia passar, que toda dor uma hora passa.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Pequenos milagres (Berenice Rheinheimer)

Não podia evitar: tinha pavor de aves. Pombas, patos, araras, sabiás ou flamingos; não importava o tipo, o fato é que padecia deste medo há muitos anos, como se sua própria existência dependesse de manter distância das penosas. Tentou, sem sucesso, algo que lhe ajudasse a encontrar a coragem perdida há tantos anos. Fez análise, tomou florais, submeteu-se a simpatias e até freqüentou um terreiro de candomblé, tudo sem resultado. Seu pânico continuava tão inabalável, que Celeste acabou por seguir o conselho do último terapeuta, de aceitar e conviver com seus temores. Era complicado, precisava evitar os parques, vitrines de pet shops e até propagandas de televisão, sequer a imagem de um pássaro conseguia suportar.


Foi consciente de suas limitações que pisou no terraço naquela manhã. O assombro era maior que o medo. Precisava saber o que era aquilo se debatendo na piscina suja. Celeste herdara a cobertura, mas por seus hábitos noturnos, motivados pela fobia, quase não usava a parte externa do imóvel. Ali jaziam vasos, desprovidos de qualquer verde, plenos de terra seca que levantava vôo com facilidade, criando poças barrentas ao menor chuvisco. Junto ao deck de ardósia encardida, havia uma pequena piscina, mantida com água apenas para não danificar a fibra, a qual Celeste mandava limpar uma ou duas vezes por ano. Por este motivo, o corriqueiro era que a água se encontrasse verde e mal cheirosa. Sob a luz mansa de um dia nublado, Celeste teve dificuldade em distinguir o que se lamentava na água rasa e apodrecida. Viu que era um negro, muito escuro, de tez quase azulada, caído de lado e apesar de seu empenho, não conseguia levantar-se, porque não equilibrava suas grandes asas. Parecia um mendigo de cabelos muito brancos e olhos de catarata. Suas asas imundas boiavam no charco repleto de limo em que a piscina havia se transformado.

Celeste rendeu-se ao impossível, tinha de admitir tratar-se de um anjo. A possibilidade do divino não amenizava o inconveniente: havia penas espalhadas por todo deck. Com esforço, o anjo conseguiu erguer-se um pouco e sentar na borda da piscina, o que fez Celeste gritar. Alheio, não tomou conhecimento da presença dela, e falou. Pronunciou algo que ela não pode compreender, talvez uma língua antiga, a voz rouca e mansa de anjo confabulando. Refeita da surpresa, compreendeu que era necessária uma atitude. Pegou a peneira da piscina e cutucou a criatura, enxotando-a. Só conseguiu fazê-lo porque entre ela e o anjo havia a longa distância do comprimento da haste de alumínio. O máximo que logrou, para seu desespero, foi fazer o anjo bater as asas peladas, perdendo o pouco de penas que lhe restavam. Ela decidiu entrar, estava atrasada. Talvez ao longo do dia, aquilo (seria mesmo um anjo?, perguntou para si mesma) desaparecesse. Ele não surgiu do nada? Então o fenômeno podia repetir-se.

No final do dia, na entrada do edifício, o síndico a esperava com o semblante contrariado. Reclamou da água escura que respingou durante roda a tarde, sujando os vidros dos andares inferiores. Ignorou quando Celeste tentou falar da inesperada visita, apenas frisou:

- Vazamentos dentro do imóvel são de responsabilidade do condômino.

Celeste praguejou, irritada com a inutilidade de um anjo sem milagre, entrou em casa decidida a seguir as orientações da vigilância sanitária. Orientações antes negligenciadas, mas agora tinha a esperança de que o aversivo usado para espantar os mosquitos da dengue pudesse também afastar o anjo. Então jogou dez quilos de sal grosso dentro da piscina. Tinha muitos pacotes em casa: cada vez que recebia uma notificação, comprava os dois quilos de sal recomendados, mas adiava as saídas no terraço, esquecendo-se de usá-lo. Assim como com os cutucões, num estupor de peru, o anjo ignorou Celeste. Ela começou a chorar, gritando xingamentos nada devotos, e furiosa, não percebeu a ausência do medo quando algumas penas voaram em redemoinho. Resolveu dormir um pouco, no outro dia poderia pedir auxílio a algum religioso: reverendo, professor de catequese ou, talvez, alguém da Universal.

Após poucas horas de sono desassossegado, acordou preocupada. E se aquilo resolvesse entrar no apartamento? E se chamasse outros como ele, saídos de algum tipo de geriatria do reino dos céus? Andou até a sala e espiou pelo vidro, o anjo continuava sentado no deck, as pernas penduradas dentro da piscina e as asas desplumadas jogadas no piso. Num destempero típico da madrugada, Celeste lançou para perto da piscina três frascos acesos de Jimo fumegante. A única conseqüência foi fazer o ser alado tossir e espumar. Arrependida, Celeste estava a ponto de chamar a Eco Salva, quando os estertores do anjo diminuíram. Bastou que ele, com a mão em concha, lavasse o rosto na água escura. Depois, iniciou um ritual como quem se benze, o tronco e as asas num balanço ritmado, molhava os dedos na água e passava-os pela testa.

Vencida, Celeste voltou a se deitar, aceitando o que o céu lhe impunha. Se fosse o caso de ter um anjo domesticado, qual outra solução, senão aceitar? Com o passar dos dias, acostumou-se com a presença de mais alguém em casa, mesmo que o anjo permanecesse alienado. Alimentava-se de larvas crescidas na piscina, também de pequenos insetos ou trevos e outras ervas daninhas que insistiam em brotar da terra seca.

Na segunda semana ela capitulou e ofereceu a ele uma cesta de frutas, e como prova definitiva sua rendição, um envelope com sua matrícula no curso de esperanto. Contou ao anjo que começaria a frequentar as aulas na semana seguinte. Ele a olhou pela primeira vez e deu-lhe um sorriso de dois dentes. Celeste sentou-se no banco de madeira, já sem verniz. Não se lembrava de ter passado mais de cinco minutos no terraço na última década. Viu no tronco que fora uma palmeira, uma orquídea pronta para florir. Olhou o pergolado vazio e sentiu falta da lágrima- de- cristo de antigamente. Os vasos de temperos ainda tinham as placas pintadas por sua mãe. Celeste fez questão de olhá-las de perto: hortelã, alecrim, manjericão. Teve saudades dos aromas de sua infância.

Saiu com pressa e voltou carregada de mudas de flores, sementes de ervas aromáticas, adubo e um grande regador. Sob o olhar do anjo, pôs-se a repovoar os vasos, disposta a restituir a vida do lugar. Ainda tinha guardados os bebedouros de beija- flor de seu pai: pendurou-os, e também as casinhas de madeira que as curruíras ocupavam na primavera. Descobriu duas bromélias sobreviventes e, em cima da treliça que um dia sustentou uma buganvília, um ninho de sabiás. A fêmea trazia no bico a refeição dos filhotes, uma minhoca ainda se contorcendo. Satisfeita com os pequenos milagres do cotidiano, afastou-se para permitir que a mãe alimentasse a prole, enquanto ela se punha a adubar as mudas recém plantadas. Viu que o anjo se movimentava. Num arrastar de asas ele suspendia o regador, ajudando Celeste em sua tarefa de cuidar das folhagens.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Travessia (Gustavo Grandi)

“I do desire we may be better strangers.”
(William Shakespeare: As You Like It)


Cleide sorria enquanto os desconhecidos rapazes da loja entravam na casa carregando a geladeira nova. “Pode deixar aqui mesmo, ainda preciso limpar o lugar onde ela vai ficar.” O carregador concordou com a cabeça, atento aos movimentos loiros do cabelo de Cleide. “Bonita”, comentaria depois com o colega. Sebastião não estava em casa. A mulher recebeu a entrega, assinou e despediu-se dos carregadores acenando com o pano de prato. Depois sentou-se num banco da cozinha e ficou olhando para a geladeira, imaginando o que faria com cada compartimento. “Deve ser o dobro da outra”, pensou.

A outra, a geladeira velha, já estava no pátio quando chegou a nova. Ainda funcionava. “E o que fazemos com ela?”, perguntara Cleide ainda na loja, enquanto escolhiam. “Vai ser um presente para a tua mãe”, respondera Sebastião. A mãe de Cleide morava sozinha do outro lado da rua, recebendo assim visitas freqüentes do casal.

Naquela manhã, Sebastião acordara mais cedo para arrastar sozinho a geladeira velha até o portão. Chegou atrasado no emprego: a tarefa lhe tomou o dobro do tempo que tinha planejado. Entre suas vendas, pensou algumas vezes na aquisição, no tempo que passaria pagando as prestações, na excitação da esposa quando fecharam a compra. Quando chegou em casa, ela o recebeu no portão. “Veio?”, perguntou. “Veio”, respondeu Cleide procurando o brilho verde nos olhos do marido. “Um negrão de olhos verdes”, dissera para a mãe logo que se conheceram. Depois do estranhamento, a sogra aprovara o genro, dizendo à filha que o havia imaginado pelo menos um palmo mais alto.

A geladeira velha repousaria no pátio por aquela noite; no outro dia atravessaria a rua para ocupar a garagem da mãe de Cleide. “Falo com o Walmor”, disse Sebastião. “Ele me ajuda a carregar.”

Na manhã seguinte, vestiu-se e foi direto à casa ao lado interromper o chimarrão solitário do vizinho madrugador. “O senhor não me ajudaria a atravessar a rua com a geladeira, seu Walmor?”, pediu depois de dar bom-dia. “Muito pesada?”, perguntou o militar, sério, enquanto livrava-se da cuia para poder apertar as juntas dos dedos grossos. “Trabalho para dois”, sorriu Sebastião. “Te ajudo sim”, declarou Walmor. E, cruzando os braços: “Pode ser no fim de semana?” Sebastião tinha pensado em resolver isso já hoje, mas disfarçou e respondeu sorrindo que “Claro, não tem pressa, quando o senhor puder.”

***

“Vivere per sempre
Ci vuole coraggio
Datti al giardinaggio
Dei fiori del male”

(Baustelle:Baudelaire)


Quando Sebastião e Cleide se casaram e compraram a casa naquela rua, Walmor e a família já moravam ali havia muito tempo. O tenente aposentado, um descendente de alemães nascido no interior, morava na cidade desde os dezoito, quando entrou para o quartel. Sua força física não vinha só do serviço militar: a enxada já lhe havia moldado os braços antes que deixasse o campo. Forte no corpo e conservador nas idéias, contrastava com o ambiente urbano como um broche de veludo contrastaria com a sua farda, hoje guardada no roupeiro, longe dos olhos.

Sua aposentadoria veio antes do esperado. O processo iniciara havia pouco tempo e já era a terceira vez que Walmor chegava em casa praguejando por causa do major que estava sempre embriagado. “Imagina que ontem eu tive que mandar o sargento descarregar a pistola dele, de medo que machucasse alguém”, dizia à esposa. “Como chegou a ser major é uma coisa que eu jamais vou entender.” Os comentários ficavam mais ácidos a cada dia, até a noite a em que o tenente Walmor entrou em casa em silêncio. A esposa lhe perguntou o que queria jantar. “Matei o major Aírton”, foi a resposta. O grito não teve coragem de ferir as cordas vocais da mulher e os tímpanos do marido. A confissão foi recebida pelo respeito das esposas prudentes. Resignou-se a entrar no quarto, fechar a porta e chorar em silêncio. “Legítima defesa”, dissera o mesmo sargento que tinha descarregado a arma do alcoólatra, única testemunha. “Ele entrou na sala cambaleando, pegou a arma e começou a brincar com ela apontada pro tenente.” Foi absolvido. Ainda assim, havia matado um superior, devia ser afastado do quartel. Aceleraram seu processo de aposentadoria, negando-lhe, porém, o aumento de salário que recebem os oficiais quando se aposentam. “Dois mil reais por mês”, disse Walmor à esposa. “Isso é o que me custou aquele gambá.”

Anos depois, mudavam-se para a casa ao lado Cleide e Sebastião. Iam-se embora os vizinhos antigos, gente que não se despediu de Walmor por causa de uma árvore de cinamomo. O tenente tinha um jardim, adquirira com a aposentadoria esse passatempo. Passava tardes inteiras envolvido com as plantas, ora cuidando com os dedos grossos das flores frágeis, ora martelando na escada ornamental de madeira. A mesma árvore que dava sombra para os antecessores do casal enchia de folhas e galhos o jardim do tenente. Ainda que a sujeira caísse do lado de cá, o tronco ficava do lado de lá do muro, fora do terreno do militar. Na quinta vez que tentou convencê-los a derrubarem a árvore, Walmor não conteve um soco que fez o vizinho cair batendo a cabeça no tronco que causara a discórdia. Dali até a mudança foram quarenta dias. Logo que viu o casal chegando, o militar foi falar com Sebastião, pedir permissão para cortar a árvore. Sebastião pensou na sombra, depois pensou que no futuro queria ter uma piscina e paz com os vizinhos. Passou a tarde seguinte ajudando Walmor e mais meia dúzia de militares a serrar através de um tronco que mal podia ser abraçado por duas pessoas. Fizeram uma pausa, e Cleide trouxe uma jarra de cerveja para os homens. Seu cabelo loiro brilhava como a bebida, pensou Sebastião, feliz. Orgulhava-se de perceber que os olhos daquele velho tenente alvejavam sua esposa.

No próximo domingo, enquanto Walmor assava um churrasco para os filhos e netos, sua esposa pensava na prestatividade do vizinho novo. “Ele ficou a tarde inteira ajudando vocês?”, perguntou. O tenente confirmou. “Por que tu não dás um pouco de churrasco pro casal?”, perguntou a esposa. “Ele parece gostar de carne branca”, respondeu com um esgar. “Quê?” “Nada. Leva o espeto de frango pra eles”, respondeu o marido. A mulher obedeceu, mas a frase não a abandonou durante a semana que se seguiu. No outro domingo, quando os filhos já tinham ido embora, ela entrou na sala e encarou o marido. “Se ele fosse branco tu tinhas atirado?”, perguntou. Como resposta recebeu um tapa que a pôs deitada. Walmor saiu de casa e foi beber cachaça no bar. Durante as três doses, ficou sentado em silêncio, olhando para as mãos. Quando voltou, a esposa já dormia virada para a parede. Olhou para a mulher por um tempo, deu meia-volta e caminhou até o seu jardim. Sentou-se na escada ornamental entre as flores para apertar as juntas dos dedos grossos. Com a luz dos postes da rua, podia ver que o jardim não estava mais contaminado por galhos e folhas de cinamomo.

***

Pela terceira vez na semana, o despertador arrancou Sebastião da cama antes do habitual. Era um sábado nublado, fresco. Foi novamente até a casa de Walmor e percebeu antes de bater palmas que o carro não estava na garagem. A esposa do tenente atendeu ao chamado. “Ele foi visitar a irmã”, gritou da janela. “Volta só à noite.” “Tudo bem”, respondeu Sebastião, convencido de ter visto indulgência na expressão da mulher. O sol se fora e Walmor não vinha. Foi só quando, deitado, tentava dormir, que Sebastião ouviu o barulho do carro entrando na garagem do vizinho, tarde demais para cobrar a ajuda prometida.

O relógio não precisou acordar Sebastião mais cedo no domingo. Dormira mal toda a noite, e quando amanheceu não fez mais nenhum esforço para adormecer novamente. Levantou-se da cama, vestiu-se e foi à casa de Walmor, passando pela geladeira que já estava ali havia quatro noites . “Ele foi à missa”, gritou novamente a mulher, desta vez com clara desaprovação da atitude do marido. Quando voltou, o tenente trazia sacolas de carne e um saco de carvão. Sebastião não teve coragem de interromper o rito dominical do vizinho. Ao fim da tarde, quando os filhos do militar foram embora, Walmor foi ao bar, desta vez para passar horas bebendo. Quando Sebastião o viu voltar, já de noite, mal conseguia caminhar. Ao ser cumprimentado por um berro ébrio, Sebastião se limitou a olhar para Cleide e dizer: “Amanhã eu peço para o Márcio.”

***

Então saiu da cama na segunda-feira e foi comer uma laranja no quintal, sentado em uma cadeira de praia ao lado da geladeira, que começava a demonstrar sinais do tempo que passara ao relento. Esperava que Márcio, o vizinho do outro lado, saísse para o trabalho. Queria abordá-lo para pedir a ajuda que Walmor não lhe dera, mas em seus pensamentos nasceu também uma secreta esperança de que Márcio lhe oferecesse carona. Surgiu mirrada, fraca, e foi-se alimentando de lembranças em que Sebastião era sempre gentil com o vizinho, ainda que não se falassem muito. Na hora em que Márcio saía de casa, agitando com os dedos o cabelo molhado e pendurando o paletó no banco do carona, já não era mais uma esperança: tornara-se um mero reconhecimento de que qualquer outra postura seria rude.

Da janela de casa, Cleide viu Sebastião se precipitar em direção ao carro de Márcio, enquanto este disfarçava o susto, cumprimentava e esperava que o vizinho falasse, justificasse a abordagem sem precedentes. Cleide via o marido que falava e apontava ora para a geladeira, ora para a casa da mãe. Márcio, com as mãos no volante, mantinha o semblante simpático e demonstrava pressa. Quando Sebastião entrou em casa, disse: “Ele trabalha até tarde hoje, mas me ajuda amanhã”. Cleide concordou com a cabeça e produziu da geladeira nova os ingredientes para o café da manhã, que o marido tomou apressado, regulado pelo horário do ônibus.

***

“I’m waiting in this cell because I have to know
Have I been guilty all this time?”

(Pink Floyd: The Wall)

Um pessimista que passasse tempo suficiente na casa de Márcio podia chegar ao extremo de acreditar na utopia da família feliz. Cumprimentavam-se na cozinha com bons-dias ensolarados, comiam frutas de uma mesa colorida e riam juntos da inteligência inesperada do filho de quatro anos. O trabalho do casal já rendia o suficiente para planejarem a compra de uma casa maior. A jovem esposa previa um segundo filho, mas Márcio, ao se imaginar criando irmãos, enxergava uma possível semelhança com seu próprio pai, sob quem crescera junto com um caçula. “Uma vez o velho me deu uma surra”, gritava para ser ouvido entre as gargalhadas dos amigos “porque eu tinha apanhado de uma garotinha do meu colégio. A gente nunca esquece apanhar duas vezes no mesmo dia!”, dizia, limpando as lágrimas que soem acompanhar o riso sonoro. Homem macio, pouco mais de trinta anos, Márcio produzia o brilho que emana dos homens que ainda não se entediaram da própria capacidade de sustentar a família. Caminhava de duas maneiras: durante a semana flutuava veloz, com a elegância que as roupas sociais lhe davam ao corpo saudável; quando trazia o filho pela mão, flanava lento como um turista.

A família convivia em casa à noite e saía nos fins de semana, para fazer coisas que fazem famílias iniciantes. Márcio não trabalhava nas manhãs de terças e sextas-feiras, usava esse tempo para praticar natação. Chegava cedo, nadava por uma hora e ia para o chuveiro, onde chegava a passar três horas aproveitando o prazer que a água quente lhe dava. Podia até parar de nadar, pensava, mas não imaginava uma semana sem os longos banhos na academia. Tornaram-se um hábito tão forte, que com freqüência se pegava devaneando no trabalho sobre os chuveiros do vestiário. Quando saía do banho antes do meio-dia, comprava alguma coisa para a esposa antes de almoçar. Uma edição ilustrada de Confissões de uma Máscara foi o presente que mais lhe dera prazer oferecer à mulher. Ela era japonesa por parte de mãe, justificara. Precisava conhecer a literatura de suas origens.

Quando Sebastião e Cleide ocuparam a casa ao lado, Márcio foi o primeiro a recebê-los na rua. Conversou por mais de uma hora com o casal, falando sobre como a rua era tranquila e seu filho logo poderia brincar com as outras crianças. Semanas depois, numa sexta-feira em que Márcio saía de casa para ir nadar, olhou do carro para as pernas de Sebastião. Passou segundos mirando o vizinho que saíra de casa de bermuda para tirar o lixo, antes de ir para o trabalho. Logo percebeu o ridículo de estar parado na calçada, com o motor ligado, olhando para as coxas de outro homem. Foi sair, deixou o carro apagar. Dirigiu até a academia pensando que se tivesse pernas tão fortes teria mais impulso na piscina.

Sob o sol da manhã de sábado, Márcio despertou depois da esposa. Foi até a cozinha e a encontrou à mesa, de pernas cruzadas, comendo uma maçã. Sentou-se também ele. “E então, com quem era?” a mulher o olhava com malícia. “O quê?” “O sonho que tu tiveste essa noite. Achas que eu não ouvi como ficou a tua respiração?” Márcio corou violentamente. Tinha um medo vivo de falar dormindo desde que seu irmão lhe perguntara por que insultava o pai no sono. “Vamos, fala.” Ela sorria, mostrando-se compreensível. “Quero saber quem é essa mulher que toma meu lugar de noite!” Agora ela ria, afetando uma brincadeira exagerada. Márcio encarava o prato, sentindo o rosto incandescer. “Não tem mulher nenhuma”, murmurou. Ela gargalhou: “Ah, claro, quer dizer então que tu tens esse tipo de sonho com homem!” No mesmo momento, todo o sangue que há pouco se apressara em ocupar os vasos de seu rosto abandonou Márcio a uma palidez hospitalar. A esposa percebeu e ficou séria. Não soube o que fazer por alguns segundos, depois se levantou e foi para o quarto do filho dizendo “Vamos ver como está o pequeno dorminhoco”. Ficou olhando o menino que dormia. Quando ele acordou, foi carregado pela mãe até a cozinha, entre cócegas e risadas. Márcio olhou para os dois e sorriu, levantando com dificuldade os olhos do prato vazio.

Decidiram passar o sábado na casa dos sogros de Márcio. Ligaram para avisar que lhes levariam o neto para uma visita e foram almoçar em família. Depois do almoço, o avô dormia, e a avó ensinava o filho a fazer dobraduras de papel. Márcio segurava a mão da esposa, mas o casal não se olhava. Em casa, à noite, a mulher o olhou com bondade e o beijou. Dormiram abraçados.

***

A terça-feira chegou para ameaçar com chuva sólida a geladeira velha, agora coberta por uma lona. Sebastião sequer pensou em falar com o vizinho sobre a possibilidade de realizar o trabalho com aquele tempo. No outro dia, de tempo bom, quando Sebastião acordou, Márcio já saíra. Voltou à noite apenas para pôr a família no carro e sair novamente, sem sequer olhar para o vizinho que o esperava ao lado da geladeira. Sebastião não quis chamá-lo, sua pressa era clara já desde a maneira com que estacionou o carro na calçada.

Quando Márcio saía para o trabalho na quinta-feira, Sebastião esperava por ele no portão, com a lona embaixo do braço. Entre gentil e tímido, Sebastião interrogou o vizinho sobre a ajuda. Márcio, de dentro do carro, respondeu: “Eu preciso trabalhar. Não sustento a minha família carregando eletrodomésticos.” Antes que pudesse reagir à aspereza, Sebastião viu o carro passando o sinal fechado e dobrando a esquina. Caminhou lento até seu pátio, fechou o portão e parou em frente à geladeira, cuja pintura já descascava.