quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Calma, já vai passar (Augusto Britto)

Tudo começou quando ele disse que tava com dor, mas acho que a própria vida já dói tanto que aquilo me passou despercebido. Tá doendo, tá doendo, ele continuava repetindo todo dia, e eu, com pena – um pouco dele, um pouco de mim mesma –, dizia: calma, mano, já vai passar, toda dor uma hora passa. Essa frase era repetida constantemente lá em casa. Sempre tem alguém sofrendo, e o tempo sempre passa pra sarar uma dor que não sara nunca. Mas até há pouco eu acreditava que a dor sumia, que a gente um dia ia ser feliz, e por isso continuava repetindo que já ia passar, como conforto pra mim e pra ele. Quando ele disse que tava com dor pela primeira vez eu achei que fosse a dor do filho que vê seus pais se separando, e – como irmã mais velha – eu tentei cuidar dele, dar amparo e carinho. Mas quanto mais eu abraçava o mano mais ele reclamava de dor, e eu ficava sem saber o que fazer, perdida diante de toda aquela situação. O pai e a mãe brigando constantemente, e eu tendo que cuidar do mano, sem saber nem cuidar de mim mesma, que tinha tantas outras preocupações; mas eu tinha que esquecer de tudo, eu sabia, e proteger a gente como dava. Eu reparei um dia em um quadro que ele tinha posto no nosso quarto, e perguntei o que que era, e ele respondeu, é uma foto da Austrália, mana, o irmão do Pedrinho tá lá agora, é bem longe daqui e é tri bonito, e eu olhei pra ele e percebi o quanto ele tava sofrendo com tudo aquilo, como ele tava tentando fugir de tudo de todas as maneiras, e ele continuava, será que um dia a gente vai poder ir pra lá, mana, será que lá o pai e a mãe vão conseguir parar de brigar?, e eu fiquei sem reação; quis dizer o que eu achava, que tem coisas impossíveis, que tem lugares – e sonhos – inalcançáveis, mas silenciei; não podia falar isso pra ele, eu tinha que cuidar dele e dar esperanças, por isso eu respondi, um dia a gente pode ir pra lá, mano, não sei se a mãe e o pai vão, mas eu te prometo que um dia eu te levo pra lá. Eu abracei ele forte, como única coisa que eu podia fazer, e ele de novo repetiu a reclamação, tá doendo, mana, tá doendo muito, e eu, já sem voz e soluçando, disse, vai passar, mano, tudo passa. A gente sempre foi muito unido, mas naqueles últimos tempos a gente tava muito mais próximo, porque ficava sempre nós dois sozinhos, abraçados, enquanto o pai e a mãe brigavam, e eu tentava tapar o ouvido do mano ou falar qualquer coisa pra ele não ouvir nada, mas eram gritos muito altos da mãe, eram berros incessantes do pai, e a gente ficava ali, sofrendo, sozinho. Nossa amizade se intensificava a partir do sofrimento que aumentava e aumentava e não parava nunca, apesar da frase sempre latente de que a dor passa, e que tudo ia passar. Quando o pai e a mãe começavam a discutir sem parar eu levava o mano pra passear, a gente ia no cinema, tomar sorvete, caminhar, só pra tentar fugir um pouco daquilo tudo, mas nunca dava pra fugir, ele sempre perguntava por que que isso tava acontecendo, por que o pai e a mãe tavam brigando tanto, e eu nunca sabia o que responder. E ele cada vez mais falava que tava doendo, e eu me irritava, porque tava doendo em mim também, mas eu tinha que ser forte e aguentar por nós dois, porque eu era mais velha e me sentia responsável. Mas minha força era abraçar ele e tentar não chorar, pra depois chorar sozinha e sofrer sem ter ninguém pra me ajudar, porque a mãe tava já sofrendo muito com a separação, e não queria saber de ninguém, muito menos do pai, aquele filho da puta que me traiu todos esses anos, ela dizia, e me deixou aqui tendo que cuidar de vocês sozinha, mas eu já tinha idade pra perceber que não era bem assim, que ela não tava cuidando da gente, que na verdade eu tava sozinha com o mano e a gente era quem mais sofria por causa de tudo aquilo. E no final de todos os dias era assim: eu e o mano chorávamos sozinhos e unidos, ouvindo a mãe gritando do quarto ódios pra sala e pro pai, que mandava ela calar a boca e dormir, porque no outro dia ele ia ter que acordar cedo e trabalhar pra sustentar a gente, e a resposta da mãe ele nunca ouvia, porque era uma resposta doída em lágrimas e gemidos, e porque o pai nunca foi bom em ouvir o que se fala baixinho. E o mano sempre antes de dormir repetia, tá doendo, mana, tá doendo, e eu às vezes fingia dormir e não respondia, outras vezes abraçava ele, porque achava que isso era só o que eu podia fazer. Eu me sentia tão impotente e abandonada e infeliz e confusa que não me dei conta de que eu podia fazer alguma coisa. Mas logo eu, uma guria de dezessete anos, que sofria tanto com tudo o que tava acontecendo, que tinha que pensar no que eu ia fazer da vida, em como passar em medicina no vestibular, em como me ajudar, tinha que ajudar o mano, dar carinho pra ele, e ainda mudar alguma coisa? Não tinha como eu mudar nada. Já tá dormindo, mana?, ele me perguntava, e eu ouvia que ele não conseguia não chorar, mas eu não falava nada: queria dormir, queria estar dormindo. Mãe, o mano tá com dor, ele não para de reclamar, eu falava pra ela no almoço, o único momento em que eu podia falar com ela, mas eu ouvia sempre a mesma resposta, agora não, eu acabei de acordar, tou com dor de cabeça, outra hora a gente conversa. Era fácil pra ela falar aquilo, não era ela que ouvia ele reclamar o dia inteiro de dor, não era ela que tava sofrendo por ver ele sofrendo, não era ela que pensava nele, que tinha que sair do cursinho no meio da tarde pra ir buscar ele no colégio porque ele tava com muita dor – assim eu não ia nem ter chances de passar em medicina, a mãe sabia, mas parecia que ela não dava bola, parecia que só existia ela e só ela que tava sofrendo –; não era ela que via ele chorando e não podia fazer nada, e chegava no colégio dele pra ouvir da diretora que ele tava com muita dor na perna, que era melhor levar ele no médico, eu, com dezessete anos, que tinha que estudar pro vestibular, buscar e levar ele no colégio, sair com ele, cuidar dele e ainda por cima sofrer, como é que eu ia fazer tudo isso?, mas a diretora não tava mais ouvindo, ninguém tava ouvindo, e o mano tava chorando muito, dava uma pena, e mesmo assim eu não podia fazer nada, e só naquele momento que eu olhei pra ele e vi que ele tava magrinho, que ele parecia tá sem forças. Por que tu não disse que a dor era na perna, guri?, eu perguntei irritada, mas depois me arrependi, porque o coitado do mano tava sofrendo muito, dava pra ver, e eu tinha que cuidar dele, e não colocar a culpa nele, e quando ele disse, porque eu não queria te incomodar, eu chorei e não soube mais o que fazer, porque vi que na verdade era ele que tava cuidando de mim esse tempo todo, e disse, desculpa, mano, eu vou te levar pro médico, tudo vai passar, tudo passa, daqui a pouco tu vai tá bem de novo, tudo vai dar certo, mas eu falava aquilo sem convicção nenhuma, porque eu aos poucos tava me dando conta de que talvez a dor não passasse nunca: que talvez a vida fosse mesmo doída desse jeito, pra sempre. A gente chegou em casa e o pai e a mãe tavam brigando, mas o mano era mais importante que a briga infinita deles, por isso eu tentei interromper, disse, mãe, pai, mas eles me mandaram calar a boca, disseram que era pra gente ir pro quarto ou sair de casa, pra eu levar o mano pra algum lugar, mas eu disse que não dava – eles não queriam ouvir –, não dava – eles não queriam ouvir –, não dava, e eu já tava quase chorando quando eles perceberam que tinha alguma coisa errada, e eu falei gaguejando que o mano tava com dor, que algum deles ia ter que nos levar pro hospital, e eles fizeram silêncio quando eu disse essa palavra. Dava pra ver que eles não sabiam o que fazer – acho que eles nunca souberam o que fazer. Eu levo vocês, o pai disse, tá tudo bem contigo?, ele perguntou pro mano com uma indiferença que me assustou, e aquilo tudo me doía cada vez mais, especialmente quando o mano respondeu tranquilamente, tá, pai, se tu não quiser me levar agora não precisa, pode acabar de conversar com a mãe, não quero atrapalhar vocês, e aquela consciência e lucidez do mano me atordoaram, e eu olhei com nojo pro pai e pra mãe e não soube de onde ele tinha tirado aquele respeito, porque eles nunca tinham pensado senão neles mesmos, e eu senti asco quando o pai respondeu, não tem problema, vamo lá, a conversa com a tua mãe já acabou, como se só por causa da incomunicabilidade dos dois ele ia ser pai e pensar na gente. No carro eu fui atrás com o mano, como se o pai fosse só o motorista mesmo, como se fosse só nós dois no mundo e a gente fosse enfrentar tudo sozinhos – sempre sempre sozinhos –, mas apesar da solidão eu já me sentia melhor, a gente tava indo resolver aquele problema, e quando o mano colocou a cabeça no meu peito e disse baixinho, pra que só eu ouvisse, tá doendo, mana, eu abracei ele com amor e respondi, calma, mano, a gente tá indo pro médico, ele vai te curar, tudo vai passar, já, já, repetindo sempre a mesma ideia desgastada, mas que naquele momento me pareceu – mais do que nunca – verdade, e deve ter parecido pro mano também, porque ele deu um sorriso, e a gente ficou ali, sabendo que tudo ia passar, que a dor ia enfim passar. Quando a gente chegou no hospital, o pai foi direto falando que queria um médico, porque o filho dele tava com muita dor e não podia esperar mais, e eu fiquei pensando se era o mano que não podia esperar mais ou ele que queria que tudo acabasse logo pra poder voltar pra casa de uma vez. É só preencher a ficha e aguardar, a mulher disse, e eu logo entendi que quem ia preencher a ficha era eu, e o pai falou mesmo, preenche essa ficha que eu vou no banheiro, filha, e se virou pro mano e passou a mão na cabeça dele e disse, pode ficar tranquilo, filhão, o médico já vai nos chamar, e saiu e deixou a gente ali, sozinhos. O ambiente era tenso, e eu comecei a ficar aflita, parecia que tudo exalava dor, e isso deve ter lembrado o mano da dor dele também, porque ele disse, tá doendo, tá doendo, e eu respondi que já ia passar, que eu ia preencher a ficha e o médico ia nos chamar a qualquer momento, que tudo ia ficar bem, só que dessa vez a ideia me soou ridícula e falsa, mas era a única que eu sabia e podia falar, e eu tinha que dar segurança pra ele, mesmo que eu me sentisse a pessoa mais insegura naquele momento, e eu disse, senta aqui, mano, eu vou entregar a ficha pra moça ali, e fui, enquanto o mano ficou quietinho, e quando eu virei pra trás me deu uma pena de ver ele sozinho e corri pra poder voltar logo pra ele, porque ele só tinha a mim, eu não podia decepcionar o mano, eu tinha que cuidar dele, e eu voltei e abracei ele, e logo depois o pai voltou, e depois mais o médico nos chamou, e eu tava agoniada com aquele hospital e aquela gente doente indo de um lado pro outro, e a minha vontade foi de ir correndo, mas o mano tava com dor, por isso a gente foi devagarinho, e eu falei como que falando pra mim mesma, não precisa ter pressa, se for pra ficar bem a gente pode esperar o tempo que for, não tem problema, mas não tava tudo bem, eu sabia, e o médico examinou o mano e disse que ele ia ter que fazer uma radiografia pra ver o que que tinha acontecido, e eu acompanhei ele, sempre em silêncio, eu e ele, e o pai ficou perguntando sem parar coisas inúteis pro médico – acho que foi só naquele momento que ele se deu conta de que tinha um filho e que ele tava doente. O mano fez a radiografia e a gente ficou sentado esperando o resultado, sem saber o que esperar, e eu tava com muito medo, e abraçava o mano, eu e ele sentados, e o pai ali, de pé, e eu percebi que ele tava louco por um cigarro, mas agora devia tá com vergonha de deixar os filhos sozinhos, tava andando de um lado pro outro, como que um acompanhante somente, um motorista, porque a dor não tava nele, ele tava sofrendo só agora, a dor tava no nosso abraço, no mano, na perna do mano, mas já ia passar, já, já, ia passar, só que ele não me perguntava mais e eu também não falava nada – o silêncio como um pacto, espantando o que não se quer ouvir. O médico nos chamou de volta, agora com a radiografia, e eu entrei na sala apavorada, e acho que o mano percebeu, porque ele apertou forte a minha mão e disse, agora a dor vai passar, mana, a gente vai voltar pra casa, mas logo quando a gente se sentou eu vi na cara do médico que não tava tudo bem, e quando eu vi uma radiografia, mesmo sem entender nada do que ali era mostrado, eu soube de imediato que as coisas não iam passar, que o mano ia continuar sentindo dor, e quando o médico falou em tumor eu fui fraca e chorei, e o mano, que não tava entendendo nada, disse, calma, mana, calma, e eu me senti pior ainda, porque era ele que me amparava e cuidava de mim de novo, e o pai perguntou, como assim tumor, doutor?, câncer?, e o médico respondeu que sim, que a princípio era o que mostrava a radiografia, que o mano ia ter que ficar ali internado pra no outro dia já fazer uma biópsia pra comprovar e ver com qual tumor especificamente o mano tava, porque não dava mais pra perder tempo, e eu ouvia aquilo tudo com dor, era uma notícia doída, e eu fiquei muito preocupada com o mano, porque ele não tava entendendo direito que que tava acontecendo, mas eu não podia explicar pra ele, não podia dizer, mano, tu tá muito mal, não, eu tinha que ser forte e passar confiança pra ele, mas já não sabia mais fazer isso, não sabia mais fazer isso, não sabia mais fazer nada. Por mais absurdo que pudesse parecer nos falaram que a gente tava com sorte, porque naquela noite tinha um quarto vago pro mano ficar. O pai tava completamente atordoado, não sabia o que fazer, e eu ia resolvendo tudo enquanto ele ficava feito um abobado do meu lado, e já no quarto eu me irritei, pai, liga pra mãe e avisa tudo pra ela, vai lá fora que aqui pega mal o celular, eu queria era ficar a sós com o mano, e o pai foi correndo, certamente louco pra fumar um cigarro e pensar no que tava acontecendo, e foi bom, porque ali ele não ia ajudar em nada, e pelo menos ele se dava conta do problema do mano, e a gente ficou sozinho ali, e eu não sabia o que falar, até que o mano falou, relaxa, mana, a dor já tá diminuindo, e era ele de novo cuidando de mim, eu não podia admitir isso, e eu dei a mão pra ele sem saber como ajudar, como amparar ele, eu, tão angustiada com aquilo, e só consegui dizer, desculpa, mano, e ele ficou em silêncio, e eu chorei naquele quarto de hospital que me sufocava, que nos sufocava, e o mano chorou também, e éramos nós dois, sozinhos, chorando diante daquela situação cada vez mais doída, e ficamos nós dois um esperando que o outro dissesse o que nós dois queríamos tanto ouvir mas ninguém dizia: nada passava, nada ia passar, e a gente tinha medo dessa certeza, e o pai logo depois voltou com a mãe, e os dois entraram chorando e abraçando o mano, e eu imaginei uma cena em que dois pais disputam amor em beijos e abraços, querendo cada qual se mostrar mais doído com a dor do filho, se importando sempre com aquela briga que não acabava nunca, enquanto o mano – e eu chorava só de pensar nisso – talvez acabasse, e como era injusto tudo aquilo que acontecia naquele quarto, e eu me irritava e queria logo que eles fossem embora e nos deixassem os dois ali, como sempre sozinhos, e eu odiava eles naquele momento, colocava a culpa de tudo neles, que tinham me impedido de ver tudo antes, mas também sentia uma culpa doída em mim e pedia desculpa, desculpa, desculpa pro mano sem dizer, só apertando a mão dele e olhando bem no fundo dos olhos molhados de lágrimas dele, e aquele retrato era um retrato doído, cuja dor eu sabia que não se extinguiria nunca. Quando tava acabando o horário de visitas uma discussão se instalou no quarto – uma discussão que pela maneira com que era travada já há muito vinha sendo ensaiada: quem dormiria no hospital?, só que a resposta pra mim o pro mano era óbvia, não tinha como ser diferente, mas pro pai e pra mãe não, e parecia que a discussão não era só pra responder a pergunta, era pra responder quem era o melhor pai, mas o mano – com uma sabedoria que me deixou atônita – entendeu isso, e quis logo resolver tudo, não precisam discutir, eu quero que a mana fique, ele disse, e eles me olharam como que se dando conta da obviedade da questão, como que se dando conta de que eles ali não ajudariam em nada, mas isso eles não devem ter pensado, eles nunca pensavam, e saíram mudos, e ficamos, de novo, eu e o mano, sozinhos, pra encarar mais uma noite doída de choro, mas que ia doer muito mais que qualquer outra noite, e eu sabia que eu não ia conseguir dormir, mas tentei pelo menos fazer com que o mano dormisse, ia ser bom pra ele, mas ele não parecia com sono, e mesmo assim eu apaguei as luzes e deitei no sofá dando boa noite pra ele, mas logo depois – ele sabia também que eu não ia dormir nem ia fingir que dormia – ele perguntou, mana, sabe o que que eu tava pensando?, e eu tive medo de perguntar por uma resposta que eu não sabia qual era, mas sabia doída, no quê?, eu perguntei finalmente, e ele respondeu, tava pensando que a gente podia ir pra Austrália quando eu sair do hospital, o Pedrinho me disse que o irmão dele falou que lá é tri legal, e eu abafei meu choro no cobertor, e ele continuou, que que tu acha, mas deve ter se dado conta de que eu chorava, porque ficou em silêncio por um bom tempo esperando uma resposta que eu não sabia qual, mas eu tinha que responder, e falei, sim, mano, tá combinado, quando a gente sair daqui a gente vai, cuidando pra não revelar tristeza na voz, e ele disse, e a gente vai poder surfar lá, mana?, quando eu melhorar da perna eu vou querer surfar lá, porque parece que lá é tri bom de surfar, e eu respondi que sim, mas que por enquanto o melhor era dormir pra ficar bem descansado pro outro dia. E no dia seguinte cedo vieram pro nosso quarto pra levar o mano pra fazer o procedimento, e eu fiquei apreensiva sozinha, sentindo falta da companhia dele e temendo a falta que eu fazia pra ele, e o médico depois veio nos informar – pro pai e pra mãe, que tavam ali de novo – que o resultado ia sair em no máximo dois dias e que ia dizer exatamente qual o tumor que o mano tinha e a partir disso o tratamento que ia ser feito, e aquelas quarenta e oito horas foram absurdamente desgastantes, nós, que há muito esperávamos que tudo passasse, sabíamos que quanto mais o tempo passava mais tudo piorava, e tínhamos medo do resultado que ia chegar, e eu fiquei o tempo todo com medo, esperando, e não pensei em momento algum em tudo que tava me fazendo sofrer antes, porque quando acontece uma coisa assim a gente revê o que nos dói, e a mãe ficava ali toda hora também, saía só de noite, e o pai ia sempre que podia, quando não tava trabalhando – ou com a vagabunda, a mãe continuava repetindo, mas nem eu nem o mano dávamos bola mais – e eu chorava frequentemente, e o mano também tava sofrendo muito, aqueles dias foram horríveis como nenhum outro dia tinha sido antes, apesar de todas as dores doídas até então, e quando o médico chegou com o resultado as batidas do meu coração emudeceram qualquer palavra que eu pudesse querer falar, e eu escutei quieta ele falando que o tumor era agressivo, que se chamava Sarcoma de Ewing, e que era um tumor ósseo de péssimo prognóstico, e que, como tumor agressivo, o tratamento também tinha que ser agressivo, e que portanto, como o tumor tava localizado na tíbia, ele ia ter que amputar a perna do mano pra poder tratar e retirar o foco do tumor, tentando impedir uma metástase que era extremamente perigosa, e a mãe ouvia tudo aquilo como se só agora entendesse que o filho dela tava morrendo, e eu ouvia aquilo quieta, impotente até pra falar, estática, e o mano não entendia direito, porque ele perguntou chorando, eu vou perder a perna, mana?, e o médico disse que sim, que ia ter que amputá-la assim que desse, e que depois o mano ia ser encaminhado para um oncologista pra iniciar a quimioterapia, e o mano não parava de chorar ouvindo aquilo, e eu abracei ele e depois a mãe nos abraçou, e o médico saiu nos deixando ali, completamente abatidos, e foi nesse momento que o pai chegou e voltou toda a choradeira, e eu não queria que aquilo acontecesse, ninguém queria, mas tinha que ser, e a gente ficou no quarto – o sofrimento em um abraço unido – esperando algum milagre, mas não veio, veio só o médico no dia seguinte falando que a sala de operação já tava pronta, que ele ia ter que ser levado pra fazer o procedimento, e aquilo tudo era muito doído, eu tava chorando muito, e ele foi, enquanto a gente ficou numa sala de espera, esperando não sei o quê, porque nada significava mais nada naquele momento, eu não sabia mais o que fazer, e o médico voltou pra falar que a operação já tinha sido finalizada e que em breve a gente ia poder entrar na sala de recuperação, que era onde o mano tava, por um tempo, só pra ver como ele tava, falar um pouco com ele, e aquele tempo era só angústia, e eu só vi que o tempo tava passando quando o médico voltou e falou que se a gente quisesse a gente podia entrar na sala de recuperação agora, e a gente entrou lá pra ver ele sem a perna, sem a perna, sem a perna, e a gente não sabia como reagir, eu tentei transmitir confiança, mas a quem eu queria enganar?, tudo era horrível, ele tava morrendo, ia morrer, e eu chorava muito, a dor não passava pra ninguém, só piorava, era tudo mentira, tudo falso, e o mano me chamou pra perto e sussurrou no meu ouvido que tava doendo, que continuava doendo, e eu perguntei onde, e ele respondeu que continuava doendo a perna, a perna que tinha sido amputada continuava doendo e que tava doendo muito, muito mais do que antes, e eu olhei pra ele e sofri, porque não consegui falar pra ele o que ele queria tanto ouvir, não tive coragem de dizer que já ia passar, que toda dor uma hora passa.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Pequenos milagres (Berenice Rheinheimer)

Não podia evitar: tinha pavor de aves. Pombas, patos, araras, sabiás ou flamingos; não importava o tipo, o fato é que padecia deste medo há muitos anos, como se sua própria existência dependesse de manter distância das penosas. Tentou, sem sucesso, algo que lhe ajudasse a encontrar a coragem perdida há tantos anos. Fez análise, tomou florais, submeteu-se a simpatias e até freqüentou um terreiro de candomblé, tudo sem resultado. Seu pânico continuava tão inabalável, que Celeste acabou por seguir o conselho do último terapeuta, de aceitar e conviver com seus temores. Era complicado, precisava evitar os parques, vitrines de pet shops e até propagandas de televisão, sequer a imagem de um pássaro conseguia suportar.


Foi consciente de suas limitações que pisou no terraço naquela manhã. O assombro era maior que o medo. Precisava saber o que era aquilo se debatendo na piscina suja. Celeste herdara a cobertura, mas por seus hábitos noturnos, motivados pela fobia, quase não usava a parte externa do imóvel. Ali jaziam vasos, desprovidos de qualquer verde, plenos de terra seca que levantava vôo com facilidade, criando poças barrentas ao menor chuvisco. Junto ao deck de ardósia encardida, havia uma pequena piscina, mantida com água apenas para não danificar a fibra, a qual Celeste mandava limpar uma ou duas vezes por ano. Por este motivo, o corriqueiro era que a água se encontrasse verde e mal cheirosa. Sob a luz mansa de um dia nublado, Celeste teve dificuldade em distinguir o que se lamentava na água rasa e apodrecida. Viu que era um negro, muito escuro, de tez quase azulada, caído de lado e apesar de seu empenho, não conseguia levantar-se, porque não equilibrava suas grandes asas. Parecia um mendigo de cabelos muito brancos e olhos de catarata. Suas asas imundas boiavam no charco repleto de limo em que a piscina havia se transformado.

Celeste rendeu-se ao impossível, tinha de admitir tratar-se de um anjo. A possibilidade do divino não amenizava o inconveniente: havia penas espalhadas por todo deck. Com esforço, o anjo conseguiu erguer-se um pouco e sentar na borda da piscina, o que fez Celeste gritar. Alheio, não tomou conhecimento da presença dela, e falou. Pronunciou algo que ela não pode compreender, talvez uma língua antiga, a voz rouca e mansa de anjo confabulando. Refeita da surpresa, compreendeu que era necessária uma atitude. Pegou a peneira da piscina e cutucou a criatura, enxotando-a. Só conseguiu fazê-lo porque entre ela e o anjo havia a longa distância do comprimento da haste de alumínio. O máximo que logrou, para seu desespero, foi fazer o anjo bater as asas peladas, perdendo o pouco de penas que lhe restavam. Ela decidiu entrar, estava atrasada. Talvez ao longo do dia, aquilo (seria mesmo um anjo?, perguntou para si mesma) desaparecesse. Ele não surgiu do nada? Então o fenômeno podia repetir-se.

No final do dia, na entrada do edifício, o síndico a esperava com o semblante contrariado. Reclamou da água escura que respingou durante roda a tarde, sujando os vidros dos andares inferiores. Ignorou quando Celeste tentou falar da inesperada visita, apenas frisou:

- Vazamentos dentro do imóvel são de responsabilidade do condômino.

Celeste praguejou, irritada com a inutilidade de um anjo sem milagre, entrou em casa decidida a seguir as orientações da vigilância sanitária. Orientações antes negligenciadas, mas agora tinha a esperança de que o aversivo usado para espantar os mosquitos da dengue pudesse também afastar o anjo. Então jogou dez quilos de sal grosso dentro da piscina. Tinha muitos pacotes em casa: cada vez que recebia uma notificação, comprava os dois quilos de sal recomendados, mas adiava as saídas no terraço, esquecendo-se de usá-lo. Assim como com os cutucões, num estupor de peru, o anjo ignorou Celeste. Ela começou a chorar, gritando xingamentos nada devotos, e furiosa, não percebeu a ausência do medo quando algumas penas voaram em redemoinho. Resolveu dormir um pouco, no outro dia poderia pedir auxílio a algum religioso: reverendo, professor de catequese ou, talvez, alguém da Universal.

Após poucas horas de sono desassossegado, acordou preocupada. E se aquilo resolvesse entrar no apartamento? E se chamasse outros como ele, saídos de algum tipo de geriatria do reino dos céus? Andou até a sala e espiou pelo vidro, o anjo continuava sentado no deck, as pernas penduradas dentro da piscina e as asas desplumadas jogadas no piso. Num destempero típico da madrugada, Celeste lançou para perto da piscina três frascos acesos de Jimo fumegante. A única conseqüência foi fazer o ser alado tossir e espumar. Arrependida, Celeste estava a ponto de chamar a Eco Salva, quando os estertores do anjo diminuíram. Bastou que ele, com a mão em concha, lavasse o rosto na água escura. Depois, iniciou um ritual como quem se benze, o tronco e as asas num balanço ritmado, molhava os dedos na água e passava-os pela testa.

Vencida, Celeste voltou a se deitar, aceitando o que o céu lhe impunha. Se fosse o caso de ter um anjo domesticado, qual outra solução, senão aceitar? Com o passar dos dias, acostumou-se com a presença de mais alguém em casa, mesmo que o anjo permanecesse alienado. Alimentava-se de larvas crescidas na piscina, também de pequenos insetos ou trevos e outras ervas daninhas que insistiam em brotar da terra seca.

Na segunda semana ela capitulou e ofereceu a ele uma cesta de frutas, e como prova definitiva sua rendição, um envelope com sua matrícula no curso de esperanto. Contou ao anjo que começaria a frequentar as aulas na semana seguinte. Ele a olhou pela primeira vez e deu-lhe um sorriso de dois dentes. Celeste sentou-se no banco de madeira, já sem verniz. Não se lembrava de ter passado mais de cinco minutos no terraço na última década. Viu no tronco que fora uma palmeira, uma orquídea pronta para florir. Olhou o pergolado vazio e sentiu falta da lágrima- de- cristo de antigamente. Os vasos de temperos ainda tinham as placas pintadas por sua mãe. Celeste fez questão de olhá-las de perto: hortelã, alecrim, manjericão. Teve saudades dos aromas de sua infância.

Saiu com pressa e voltou carregada de mudas de flores, sementes de ervas aromáticas, adubo e um grande regador. Sob o olhar do anjo, pôs-se a repovoar os vasos, disposta a restituir a vida do lugar. Ainda tinha guardados os bebedouros de beija- flor de seu pai: pendurou-os, e também as casinhas de madeira que as curruíras ocupavam na primavera. Descobriu duas bromélias sobreviventes e, em cima da treliça que um dia sustentou uma buganvília, um ninho de sabiás. A fêmea trazia no bico a refeição dos filhotes, uma minhoca ainda se contorcendo. Satisfeita com os pequenos milagres do cotidiano, afastou-se para permitir que a mãe alimentasse a prole, enquanto ela se punha a adubar as mudas recém plantadas. Viu que o anjo se movimentava. Num arrastar de asas ele suspendia o regador, ajudando Celeste em sua tarefa de cuidar das folhagens.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Travessia (Gustavo Grandi)

“I do desire we may be better strangers.”
(William Shakespeare: As You Like It)


Cleide sorria enquanto os desconhecidos rapazes da loja entravam na casa carregando a geladeira nova. “Pode deixar aqui mesmo, ainda preciso limpar o lugar onde ela vai ficar.” O carregador concordou com a cabeça, atento aos movimentos loiros do cabelo de Cleide. “Bonita”, comentaria depois com o colega. Sebastião não estava em casa. A mulher recebeu a entrega, assinou e despediu-se dos carregadores acenando com o pano de prato. Depois sentou-se num banco da cozinha e ficou olhando para a geladeira, imaginando o que faria com cada compartimento. “Deve ser o dobro da outra”, pensou.

A outra, a geladeira velha, já estava no pátio quando chegou a nova. Ainda funcionava. “E o que fazemos com ela?”, perguntara Cleide ainda na loja, enquanto escolhiam. “Vai ser um presente para a tua mãe”, respondera Sebastião. A mãe de Cleide morava sozinha do outro lado da rua, recebendo assim visitas freqüentes do casal.

Naquela manhã, Sebastião acordara mais cedo para arrastar sozinho a geladeira velha até o portão. Chegou atrasado no emprego: a tarefa lhe tomou o dobro do tempo que tinha planejado. Entre suas vendas, pensou algumas vezes na aquisição, no tempo que passaria pagando as prestações, na excitação da esposa quando fecharam a compra. Quando chegou em casa, ela o recebeu no portão. “Veio?”, perguntou. “Veio”, respondeu Cleide procurando o brilho verde nos olhos do marido. “Um negrão de olhos verdes”, dissera para a mãe logo que se conheceram. Depois do estranhamento, a sogra aprovara o genro, dizendo à filha que o havia imaginado pelo menos um palmo mais alto.

A geladeira velha repousaria no pátio por aquela noite; no outro dia atravessaria a rua para ocupar a garagem da mãe de Cleide. “Falo com o Walmor”, disse Sebastião. “Ele me ajuda a carregar.”

Na manhã seguinte, vestiu-se e foi direto à casa ao lado interromper o chimarrão solitário do vizinho madrugador. “O senhor não me ajudaria a atravessar a rua com a geladeira, seu Walmor?”, pediu depois de dar bom-dia. “Muito pesada?”, perguntou o militar, sério, enquanto livrava-se da cuia para poder apertar as juntas dos dedos grossos. “Trabalho para dois”, sorriu Sebastião. “Te ajudo sim”, declarou Walmor. E, cruzando os braços: “Pode ser no fim de semana?” Sebastião tinha pensado em resolver isso já hoje, mas disfarçou e respondeu sorrindo que “Claro, não tem pressa, quando o senhor puder.”

***

“Vivere per sempre
Ci vuole coraggio
Datti al giardinaggio
Dei fiori del male”

(Baustelle:Baudelaire)


Quando Sebastião e Cleide se casaram e compraram a casa naquela rua, Walmor e a família já moravam ali havia muito tempo. O tenente aposentado, um descendente de alemães nascido no interior, morava na cidade desde os dezoito, quando entrou para o quartel. Sua força física não vinha só do serviço militar: a enxada já lhe havia moldado os braços antes que deixasse o campo. Forte no corpo e conservador nas idéias, contrastava com o ambiente urbano como um broche de veludo contrastaria com a sua farda, hoje guardada no roupeiro, longe dos olhos.

Sua aposentadoria veio antes do esperado. O processo iniciara havia pouco tempo e já era a terceira vez que Walmor chegava em casa praguejando por causa do major que estava sempre embriagado. “Imagina que ontem eu tive que mandar o sargento descarregar a pistola dele, de medo que machucasse alguém”, dizia à esposa. “Como chegou a ser major é uma coisa que eu jamais vou entender.” Os comentários ficavam mais ácidos a cada dia, até a noite a em que o tenente Walmor entrou em casa em silêncio. A esposa lhe perguntou o que queria jantar. “Matei o major Aírton”, foi a resposta. O grito não teve coragem de ferir as cordas vocais da mulher e os tímpanos do marido. A confissão foi recebida pelo respeito das esposas prudentes. Resignou-se a entrar no quarto, fechar a porta e chorar em silêncio. “Legítima defesa”, dissera o mesmo sargento que tinha descarregado a arma do alcoólatra, única testemunha. “Ele entrou na sala cambaleando, pegou a arma e começou a brincar com ela apontada pro tenente.” Foi absolvido. Ainda assim, havia matado um superior, devia ser afastado do quartel. Aceleraram seu processo de aposentadoria, negando-lhe, porém, o aumento de salário que recebem os oficiais quando se aposentam. “Dois mil reais por mês”, disse Walmor à esposa. “Isso é o que me custou aquele gambá.”

Anos depois, mudavam-se para a casa ao lado Cleide e Sebastião. Iam-se embora os vizinhos antigos, gente que não se despediu de Walmor por causa de uma árvore de cinamomo. O tenente tinha um jardim, adquirira com a aposentadoria esse passatempo. Passava tardes inteiras envolvido com as plantas, ora cuidando com os dedos grossos das flores frágeis, ora martelando na escada ornamental de madeira. A mesma árvore que dava sombra para os antecessores do casal enchia de folhas e galhos o jardim do tenente. Ainda que a sujeira caísse do lado de cá, o tronco ficava do lado de lá do muro, fora do terreno do militar. Na quinta vez que tentou convencê-los a derrubarem a árvore, Walmor não conteve um soco que fez o vizinho cair batendo a cabeça no tronco que causara a discórdia. Dali até a mudança foram quarenta dias. Logo que viu o casal chegando, o militar foi falar com Sebastião, pedir permissão para cortar a árvore. Sebastião pensou na sombra, depois pensou que no futuro queria ter uma piscina e paz com os vizinhos. Passou a tarde seguinte ajudando Walmor e mais meia dúzia de militares a serrar através de um tronco que mal podia ser abraçado por duas pessoas. Fizeram uma pausa, e Cleide trouxe uma jarra de cerveja para os homens. Seu cabelo loiro brilhava como a bebida, pensou Sebastião, feliz. Orgulhava-se de perceber que os olhos daquele velho tenente alvejavam sua esposa.

No próximo domingo, enquanto Walmor assava um churrasco para os filhos e netos, sua esposa pensava na prestatividade do vizinho novo. “Ele ficou a tarde inteira ajudando vocês?”, perguntou. O tenente confirmou. “Por que tu não dás um pouco de churrasco pro casal?”, perguntou a esposa. “Ele parece gostar de carne branca”, respondeu com um esgar. “Quê?” “Nada. Leva o espeto de frango pra eles”, respondeu o marido. A mulher obedeceu, mas a frase não a abandonou durante a semana que se seguiu. No outro domingo, quando os filhos já tinham ido embora, ela entrou na sala e encarou o marido. “Se ele fosse branco tu tinhas atirado?”, perguntou. Como resposta recebeu um tapa que a pôs deitada. Walmor saiu de casa e foi beber cachaça no bar. Durante as três doses, ficou sentado em silêncio, olhando para as mãos. Quando voltou, a esposa já dormia virada para a parede. Olhou para a mulher por um tempo, deu meia-volta e caminhou até o seu jardim. Sentou-se na escada ornamental entre as flores para apertar as juntas dos dedos grossos. Com a luz dos postes da rua, podia ver que o jardim não estava mais contaminado por galhos e folhas de cinamomo.

***

Pela terceira vez na semana, o despertador arrancou Sebastião da cama antes do habitual. Era um sábado nublado, fresco. Foi novamente até a casa de Walmor e percebeu antes de bater palmas que o carro não estava na garagem. A esposa do tenente atendeu ao chamado. “Ele foi visitar a irmã”, gritou da janela. “Volta só à noite.” “Tudo bem”, respondeu Sebastião, convencido de ter visto indulgência na expressão da mulher. O sol se fora e Walmor não vinha. Foi só quando, deitado, tentava dormir, que Sebastião ouviu o barulho do carro entrando na garagem do vizinho, tarde demais para cobrar a ajuda prometida.

O relógio não precisou acordar Sebastião mais cedo no domingo. Dormira mal toda a noite, e quando amanheceu não fez mais nenhum esforço para adormecer novamente. Levantou-se da cama, vestiu-se e foi à casa de Walmor, passando pela geladeira que já estava ali havia quatro noites . “Ele foi à missa”, gritou novamente a mulher, desta vez com clara desaprovação da atitude do marido. Quando voltou, o tenente trazia sacolas de carne e um saco de carvão. Sebastião não teve coragem de interromper o rito dominical do vizinho. Ao fim da tarde, quando os filhos do militar foram embora, Walmor foi ao bar, desta vez para passar horas bebendo. Quando Sebastião o viu voltar, já de noite, mal conseguia caminhar. Ao ser cumprimentado por um berro ébrio, Sebastião se limitou a olhar para Cleide e dizer: “Amanhã eu peço para o Márcio.”

***

Então saiu da cama na segunda-feira e foi comer uma laranja no quintal, sentado em uma cadeira de praia ao lado da geladeira, que começava a demonstrar sinais do tempo que passara ao relento. Esperava que Márcio, o vizinho do outro lado, saísse para o trabalho. Queria abordá-lo para pedir a ajuda que Walmor não lhe dera, mas em seus pensamentos nasceu também uma secreta esperança de que Márcio lhe oferecesse carona. Surgiu mirrada, fraca, e foi-se alimentando de lembranças em que Sebastião era sempre gentil com o vizinho, ainda que não se falassem muito. Na hora em que Márcio saía de casa, agitando com os dedos o cabelo molhado e pendurando o paletó no banco do carona, já não era mais uma esperança: tornara-se um mero reconhecimento de que qualquer outra postura seria rude.

Da janela de casa, Cleide viu Sebastião se precipitar em direção ao carro de Márcio, enquanto este disfarçava o susto, cumprimentava e esperava que o vizinho falasse, justificasse a abordagem sem precedentes. Cleide via o marido que falava e apontava ora para a geladeira, ora para a casa da mãe. Márcio, com as mãos no volante, mantinha o semblante simpático e demonstrava pressa. Quando Sebastião entrou em casa, disse: “Ele trabalha até tarde hoje, mas me ajuda amanhã”. Cleide concordou com a cabeça e produziu da geladeira nova os ingredientes para o café da manhã, que o marido tomou apressado, regulado pelo horário do ônibus.

***

“I’m waiting in this cell because I have to know
Have I been guilty all this time?”

(Pink Floyd: The Wall)

Um pessimista que passasse tempo suficiente na casa de Márcio podia chegar ao extremo de acreditar na utopia da família feliz. Cumprimentavam-se na cozinha com bons-dias ensolarados, comiam frutas de uma mesa colorida e riam juntos da inteligência inesperada do filho de quatro anos. O trabalho do casal já rendia o suficiente para planejarem a compra de uma casa maior. A jovem esposa previa um segundo filho, mas Márcio, ao se imaginar criando irmãos, enxergava uma possível semelhança com seu próprio pai, sob quem crescera junto com um caçula. “Uma vez o velho me deu uma surra”, gritava para ser ouvido entre as gargalhadas dos amigos “porque eu tinha apanhado de uma garotinha do meu colégio. A gente nunca esquece apanhar duas vezes no mesmo dia!”, dizia, limpando as lágrimas que soem acompanhar o riso sonoro. Homem macio, pouco mais de trinta anos, Márcio produzia o brilho que emana dos homens que ainda não se entediaram da própria capacidade de sustentar a família. Caminhava de duas maneiras: durante a semana flutuava veloz, com a elegância que as roupas sociais lhe davam ao corpo saudável; quando trazia o filho pela mão, flanava lento como um turista.

A família convivia em casa à noite e saía nos fins de semana, para fazer coisas que fazem famílias iniciantes. Márcio não trabalhava nas manhãs de terças e sextas-feiras, usava esse tempo para praticar natação. Chegava cedo, nadava por uma hora e ia para o chuveiro, onde chegava a passar três horas aproveitando o prazer que a água quente lhe dava. Podia até parar de nadar, pensava, mas não imaginava uma semana sem os longos banhos na academia. Tornaram-se um hábito tão forte, que com freqüência se pegava devaneando no trabalho sobre os chuveiros do vestiário. Quando saía do banho antes do meio-dia, comprava alguma coisa para a esposa antes de almoçar. Uma edição ilustrada de Confissões de uma Máscara foi o presente que mais lhe dera prazer oferecer à mulher. Ela era japonesa por parte de mãe, justificara. Precisava conhecer a literatura de suas origens.

Quando Sebastião e Cleide ocuparam a casa ao lado, Márcio foi o primeiro a recebê-los na rua. Conversou por mais de uma hora com o casal, falando sobre como a rua era tranquila e seu filho logo poderia brincar com as outras crianças. Semanas depois, numa sexta-feira em que Márcio saía de casa para ir nadar, olhou do carro para as pernas de Sebastião. Passou segundos mirando o vizinho que saíra de casa de bermuda para tirar o lixo, antes de ir para o trabalho. Logo percebeu o ridículo de estar parado na calçada, com o motor ligado, olhando para as coxas de outro homem. Foi sair, deixou o carro apagar. Dirigiu até a academia pensando que se tivesse pernas tão fortes teria mais impulso na piscina.

Sob o sol da manhã de sábado, Márcio despertou depois da esposa. Foi até a cozinha e a encontrou à mesa, de pernas cruzadas, comendo uma maçã. Sentou-se também ele. “E então, com quem era?” a mulher o olhava com malícia. “O quê?” “O sonho que tu tiveste essa noite. Achas que eu não ouvi como ficou a tua respiração?” Márcio corou violentamente. Tinha um medo vivo de falar dormindo desde que seu irmão lhe perguntara por que insultava o pai no sono. “Vamos, fala.” Ela sorria, mostrando-se compreensível. “Quero saber quem é essa mulher que toma meu lugar de noite!” Agora ela ria, afetando uma brincadeira exagerada. Márcio encarava o prato, sentindo o rosto incandescer. “Não tem mulher nenhuma”, murmurou. Ela gargalhou: “Ah, claro, quer dizer então que tu tens esse tipo de sonho com homem!” No mesmo momento, todo o sangue que há pouco se apressara em ocupar os vasos de seu rosto abandonou Márcio a uma palidez hospitalar. A esposa percebeu e ficou séria. Não soube o que fazer por alguns segundos, depois se levantou e foi para o quarto do filho dizendo “Vamos ver como está o pequeno dorminhoco”. Ficou olhando o menino que dormia. Quando ele acordou, foi carregado pela mãe até a cozinha, entre cócegas e risadas. Márcio olhou para os dois e sorriu, levantando com dificuldade os olhos do prato vazio.

Decidiram passar o sábado na casa dos sogros de Márcio. Ligaram para avisar que lhes levariam o neto para uma visita e foram almoçar em família. Depois do almoço, o avô dormia, e a avó ensinava o filho a fazer dobraduras de papel. Márcio segurava a mão da esposa, mas o casal não se olhava. Em casa, à noite, a mulher o olhou com bondade e o beijou. Dormiram abraçados.

***

A terça-feira chegou para ameaçar com chuva sólida a geladeira velha, agora coberta por uma lona. Sebastião sequer pensou em falar com o vizinho sobre a possibilidade de realizar o trabalho com aquele tempo. No outro dia, de tempo bom, quando Sebastião acordou, Márcio já saíra. Voltou à noite apenas para pôr a família no carro e sair novamente, sem sequer olhar para o vizinho que o esperava ao lado da geladeira. Sebastião não quis chamá-lo, sua pressa era clara já desde a maneira com que estacionou o carro na calçada.

Quando Márcio saía para o trabalho na quinta-feira, Sebastião esperava por ele no portão, com a lona embaixo do braço. Entre gentil e tímido, Sebastião interrogou o vizinho sobre a ajuda. Márcio, de dentro do carro, respondeu: “Eu preciso trabalhar. Não sustento a minha família carregando eletrodomésticos.” Antes que pudesse reagir à aspereza, Sebastião viu o carro passando o sinal fechado e dobrando a esquina. Caminhou lento até seu pátio, fechou o portão e parou em frente à geladeira, cuja pintura já descascava.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A poética do conto em word

Leitores do Blog,

para receber cópia de A poética do conto é preciso remeter-me um e-mail:

charleskiefer@uol.com.br

O texto está em word e mando o arquivo completo.

Só poderei fazer isso até o final deste ano, pois recentemente assinei com a Editora Leya o contrato de segunda edição. O livro será re-lançado em 2011 e a partir de janeiro do próximo ano, por força desse mesmo contrato, não poderei mais enviar o livro a ninguém.

Abraço,

CK

domingo, 26 de setembro de 2010

Catarse (Regina Maria Schneider)

Jesus caminhava calmamente pela Rua da Praia, em Porto Alegre, o jornal dobrado embaixo do braço, quando viu Judas, de terno Armani, todo engomado, gravata e tudo. O olhar de Judas era fixo, duro, sem afeto, a boca retorcida pelo sarcasmo. Andava sem olhar para os lados.

Então, Jesus, tocando–lhe de leve, falou:

– Como vai, Judas? Há quanto tempo...

Judas conhecia bem aquela voz doce, e teve um sobressalto de pavor, pior dos que sofria ao saber dos resultados da Bolsa de Valores. Virou-se rápido, e encontrou os suaves olhos do Senhor. Mal conseguindo murmurar alguma coisa, suando de nervoso, respondeu:

– Boa tarde – e ainda tentando disfarçar para livrar-se daquela situação embaraçosa, perguntou –. De onde mesmo o conheço?

– De um tempo bem longe, Judas, o da Crucificação...

– É verdade – respondeu Judas, mostrando reconhecê-lo por completo, estremecendo, entre envergonhado e constrangido.

Mas que encontro maldito, pensou, logo Ele, logo Ele... Entre tantos bilhões de homens no planeta, os chineses, os indianos, os africanos, logo Ele, ali, na mesma esquina da Rua dos Andradas. Que coincidência terrível e desagradável...

Porém Cristo, vestido com uma túnica branca, larga, de calças jeans, calçando sandálias de couro cru, o cabelo negro e comprido, alto, magro, o rosto encovado, os olhos brilhantes de sabedoria e amor, olhava-o com ternura. Parecia um hippie, e além de Judas, ninguém o reconheceria assim simples e humilde, e sem denotar qualquer atitude de Rei e Santo que era...

Judas não pôde fingir mais:

– Meu Jesus, eu sou indigno de receber a tua boa palavra. Eu fui um traidor, um homem de baixo caráter, um podre...

– Não fales assim, meu Irmão... Eu não esqueci o teu sofrimento, o teu desespero, o teu remorso... Tua vida passada, e quantas mais deves ter tido até hoje. Sei que foram dolorosas. Fiquei marcado em ti com meu sangue... Mas vamos tomar um cafezinho, assim conversamos mais à vontade.

Judas estava petrificado, não sabia o que fazer. O homem que traíra e que pagou com morte violenta por seu ato lhe falava com amor, compreensão, humildemente. Queria esquivar-se desse encontro, ser engolido pela terra, ali naquele momento, sumir, desaparecer, mas Jesus, com o semblante resplandecente, o hipnotizava, o atraía como havia sido antes, quando Judas O amava e O seguia. Lembrou os seus ensinamentos, o tempo em que pescavam juntos e sentavam para cear, distribuindo pão e peixe para o povo. Estava tão rígido e tenso que não conseguia se mexer, e Jesus sentiu isso. Pegou-o amavelmente pelo braço e convidou-o a ir a sua sala de trabalho, que ficava ali pertinho, no Edifício Annes Dias.

Lá chegando, abriu o amplo aposento, fez Judas sentar-se num sofá e serviu dois cafezinhos.

Judas continuava petrificado.

– Eu te matei – falou, olhando bem nos olhos de Jesus, pela primeira vez – Como pude? Eu, que conhecia a Tua doutrina, a Tua filosofia, as Tuas parábolas, as Tuas profecias, o Teu amor ao próximo, eu que Te amava mais do que a mim mesmo, vacilei, Te entreguei...

– Calma, Judas, o teu crime não foi o único na Humanidade. Teve Caim, em primeiro lugar, e outros crimes horrendos. Ainda hoje existem tantos que eu nem poderia lembrar todos, basta ler os jornais, as revistas...

– Aquele beijo – falou Judas – aquele beijo. Aquele beijo – repetia obsessivamente de cabeça baixa, balançado-a para lá e para cá –. Sabe Jesus, depois dele, nunca mais beijei ninguém na face. Nem os meus filhos, nem a minha mulher, nem minha mãe... Aquele beijo ficou cravado em mim como uma cicatriz. Pior, como um ferro incandescente no meu peito, que pulsa, que lateja, uma angústia que nunca se vai. Ainda hoje ele arde e me queima aqui dentro.

– Cada um tinha que fazer o que estava escrito, Judas. Eu fiz a parte mais fácil: meu papel foi ser mutilado, torturado, morto pelo bem da Humanidade. A ti tocou a parte pior: a de trair um amigo, um companheiro de luta, para que as profecias fossem cumpridas. Estava escrito. Cada um teve que representar o seu papel. Tu foste uma vítima, te escolheram para traidor. Quanto a mim, eu só tive que morrer. Sofri, é verdade, mas o meu sofrimento não chegou nem perto dos teus remorsos. Quantas dezenas de séculos já se passaram desde a Paixão, e tu ainda estás te martirizando, como naquele dia em que fui preso. Não aguentaste a dor da culpa e te enforcaste no pé de figueira.

– Era o mínimo que eu tinha a fazer.

– É exatamente isso o que quero te dizer: tu foste o exemplo mais notável, mais concreto, mais real de que a traição mutila e derrota o ser humano. Ela deixa seqüelas irremediáveis na consciência. É um crime horrendo, pior talvez que o parricídio. Foi contigo que a Humanidade aprendeu esta lição.

– Mas o pecado continuou, Mestre, o homem não parou de trair. Acontece todos os dias, a toda hora, de várias maneiras.

– É verdade, Judas. Mas tu não avalias quantas pessoas deixam de cometer traições levadas pelos ensinamentos evangélicos que nós dois construímos juntos. Centenas de milhões de indivíduos na terra seguem a Palavra das Escrituras e não traem. Com o teu arrependimento, tu te redimiste e te tornaste um santo. Quanto aos que ainda traem chegará sua vez de compreender o mistério: eles não sabem o que fazem e reencarnarão em tantas vidas quanto forem necessárias para esse aprendizado. Estava escrito.

– Estava escrito – repetiu Judas resignadamente, como se tivesse, enfim, compreendido o seu papel.

Jesus, olhando-o tão tenso e contrito, disse:

– Deita-te no sofá, Judas, relaxa, estamos a sós aqui, podemos conversar à vontade.

Judas afrouxou a gravata, descalçou os sapatos. Sentia-se cansado e exaurido com aquele encontro inesperado. Estressava-o aquele jeito amável do homem que matara. Estirou-se no sofá com lassidão, tendo Jesus a sua esquerda, quase atrás de si, evitando aquele olhar que não suportava porque fazia lembrar-se de tudo. E, então, num átimo, compreendeu o que o Mestre tentava lhe dizer.

– Escrito! – gritou ele revoltado – Quer dizer então que eu fui usado, escolhido feito cobaia para cumprir um papel viciado, que já estava previsto, que alguém teria que fazer a qualquer custo, contanto que a profecia se cumprisse... Mas é claro, Tu mesmo o disseste, certa vez: “Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há de entregar". Tu sabias o tempo todo que seria eu o infeliz, o desgraçado. E o que fizeste para me ajudar? Nada, absolutamente nada. E me tornei, assim, a grande vítima da história, o bandido, o vil, o traidor, enquanto Tu foste a Vítima, o Mártir, o Salvador da Humanidade, o Santificado. A Bíblia é o livro que mais vende em todos os tempos, espalhando a Tua história, o Teu sacrifício. O Teu nome é respeitado em todo o mundo ocidental e até oriental, as crianças são batizadas com o Teu nome enquanto eu... Sou o símbolo da traição, o sinônimo mesmo disso. Eu fui o verme imundo para que o Teu nome se enchesse de glória. A vergonha e a impureza me tornaram desprezível, torpe, ignóbil, a verdadeira expressão da baixeza, da vileza, da degradação...

– Não te julgues com tanta severidade, Judas Iscariotes. E não penses que nada fiz para te ajudar. Rezei muito por ti no Getsemani, companheiro, mas a tua tentação foi mais forte do que a minha prece. E, além disso, na Última Ceia, avisei: "Em verdade, em verdade vos digo que um de vós, que come comigo, me há de entregar... O Filho do Homem vai, segundo está escrito dele, mas ai daquele homem por quem for entregue o Filho do Homem! Melhor fora a esse homem não ter nascido.” Eu te avisei, Filho!

Judas recordou o episódio e abaixou a cabeça em sinal de culpa.

– Mestre – disse ele – perdoa–me.

– Antes de eu morrer na cruz, meu amigo, tu já estavas perdoado. E, além do mais, estás idealizando demais a minha figura, eu somente fiz o que pude naquela época, era a minha obrigação. Naqueles tempos, eu tinha um pouco mais de luz do que os outros homens, e julguei compreender melhor a Humanidade, guiado pelos ensinamentos do Meu Pai. Então, pregar a minha fé foi uma coisa natural em mim, não pretendi te usar em qualquer sentido. Podes ter certeza que desempenhaste muito bem o papel que te coube. A traição ficou marcada na Humanidade como uma das coisas mais abjectas e vis que um ser humano pode cometer. Teu exemplo serviu para isso, para ensinar as pessoas a não trair. O teu suicídio transformou tua atitude na representação do arrependimento. Tu foste corajoso e forte ao te enforcares. Não precisas te sentir perseguido por isso.

– Mas por que eu, logo eu?

– E por que não tu, Judas? O que tu tinhas de melhor que outros para não poderes servir de traidor? Isso é uma onipotência tua. O de querer sempre ser o maior e o melhor.

Judas estremeceu e começou a chorar aos arrancos, sacudindo-se convulsivamente.

– Eu tinha o livre arbítrio, Jesus, eu podia ter me negado, escolheriam outro apóstolo, mas eu escutei o primeiro chamado, Satanás entrou em mim, botei olho grande naquele dinheiro, cedi ao primeiro impulso, não pensei muito e Te vendi!

– Foi – disse o Senhor.

Judas desesperou-se. De um salto, levantou, arrancou a gravata italiana, tirou o casaco de tweed, jogando-os no chão. Rasgou as vestes como se ainda vivesse em tempo bíblico. Arrancou os cabelos, arregalou os olhos, delirante, febril, doentio e transtornado. Debatendo-se, gritou o que pode de raiva, de angústia, de agonia. Depois, deitou-se novamente de bruços, exausto, chorando feito criança, aos solavancos, um menino mau arrependido diante da figura do pai.

Jesus o olhava com mansidão, sentado no outro sofá.

– Sabe, Rabi – falava Judas com a voz entrecortada – de tudo o que se passou, a tua prisão, a tua tortura, a coroa de espinhos, o teu sangue vertendo, tu arquejante ao peso da cruz, a chacota e o escárnio com que te trataram, a tua sede, o fel que bebeste, a tua própria morte, as tuas chagas, de tudo isso o que mais me doeu foi o meu próprio beijo. Meus lábios quentes e voluptuosos, viperinos, beijando tua face morna e inocente, tua carne humana... Ao longo desses dois mil anos, vivendo sempre dezenas de vidas sobre a terra, é aquele beijo que me martiriza, e me afoga. Trair, muitos e mais do que eu traíram, é humano, mas aquele beijo jamais poderei esquecer.

– Foi um beijo sujo, não é assim que tu o sentes, Judas ?

– Sim, um beijo covarde. Ele marcou irremediavelmente a minha laia, a minha corja, a minha árvore genealógica. Fiquei com o sinal de Caim... Sabe, Cristo, depois que te traí, repeti esse gesto muitas vezes. Por exemplo, fui Nero.

– Eu sei, Judas, eu fui Agripina...

– No Brasil, fui Joaquim Silvério dos Reis...

– Eu sei, Judas, eu fui Tiradentes.

– Eu fui Hitler.

– Eu sei, Judas, eu fui judeu.

– Eu fui da Klu Klux Klan.

– Eu fui Martin Luther King.

– Viste, viste Mestre? E além do mais, fui Stalin e Médici. Pinochet e Bush tem meu sangue.

– Eu sei, Judas. Fui o operário russo, o povo chileno, o árabe, o índio, o negro, o palestino, o cigano, o homossexual, o drogado, o presidiário, o brasileiro. E tu sempre estavas lá, do lado contrário ao meu.

– Meu problema é genético.

– Não sejas determinista, tu podes mudar essa maneira de ser.

– Sou filho de Caim. Faz parte da minha natureza.

– Estou aqui contigo, meu Filho, para que tu aprendas a mudar e, principalmente, a te perdoares, a refazeres tua vida, pois ainda voltarás muitas vezes à Terra. E hoje, o que fazes, que profissão exerces?

– Sou agiota. Extingo a vida do infeliz que me bate à porta todo o dia, do miserável que está endividado, atolado, sem saída. Sugo as suas últimas forças, abandonando-as somente quando estão esgotados e exangues e nada mais posso tirar delas. E Tu, Cristo, que fazes por aqui, nesta distante cidadezinha, perdida no Sul.

– Sou psicanalista. Tento ajudar as pessoas a viver um pouco melhor. A vida não é um peso só para ti. As pessoas que batem à minha porta procurando apoio, vêm assombradas pelo sofrimento, angústias, culpas, remorsos...

– Analista? Mas então este é Teu consultório? E este sofá não é mais do que um divã? Eu estou vivendo uma sessão de análise?

– Sim, Judas. Foi a maneira que encontrei para te ajudar, te escutando melhor, te deixando falar mais dos teus sentimentos...

Judas levantou-se, andou um pouco pela sala, viu o retrato de Freud na parede. Estava visivelmente mais aliviado. Deitou-se de novo no divã, ficou olhando o teto, silencioso, refletia sobre o que Jesus lhe dissera. Pensou em perdoar seus devedores, aliviar os juros altos que aplicava aos empréstimos. Precisava visitar um irmão aidético que não via há dois anos. Queria também beijar os filhos, tinha muito que fazer. Levantou-se.

Haviam se passado exatos 50 minutos.

Jesus também levantou. Estavam ombro a ombro, de homem para homem, face a face, e o abraço veio natural, espontâneo, necessário, irresistível. Ficaram assim abraçados por um longo tempo.

– Volto amanhã – disse Judas – na mesma hora, está bem? Foi bom falar, Meu Rabi, há quanto tempo eu não chorava? Há mais de dois mil anos. Foi emocionante estar aqui Contigo e saber que posso mudar para melhor. Eu ainda Te amo e muito, descobri isso agora. Aliás, nunca deixei de Te amar, mesmo quando cometi aquela loucura.

– Eu também te amo, Judas, e muito. Eu vim pelos pecadores.

– Eu sei, Mestre, obrigado. Quanto Te devo?

Jesus olhou-o bem nos olhos, serenamente, e disse com fala mansa:

– Trinta moedas de prata.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Melhor voltar para casa (Cláudia Baumgarten)

Querida, hoje eu acordei diferente. Tu sabes como as dores preenchem a vida. Mesmo eu ingerindo essa infinidade de pílulas coloridas, as dores continuam a me perseguir. Elas se tornaram as minhas leais companheiras. Elas te substituíram, Celeste. Os anos se tornaram mais difíceis sem tua presença. É viva a cena do dia em que a tiraram de mim: A violência de branco, o semblante amedrontado das crianças – o caçula Alfredo tinha apenas dez anos - e o olhar desconfiado dos criados. De todos, ficou só a filha da Firmina, que limpa a casa. E basta, não preciso mais dos outros. Ainda moro aqui no Solar dos Magalhães onde tudo se deteriora. As cortinas do nosso quarto não são mais tão claras e têm as marcas de visitas das traças; o colchão, uma vez macio e convidativo, tem manchas amarelecidas; os móveis não escondem as ranhuras causadas pelos cupins. Que saudade de tuas eau de toilette. Ao invés dos suaves aromas, a vulgaridade do mofo e da urina. Isso foi o que me sobrou e em nada lembra nossos áureos tempos onde tinham vez as viagens ao primeiro mundo, os amigos influentes e os socialmente importantes com suas generosas festas. Lembra quando oferecemos nosso apartamento em Paris para o governador Flores da Cunha? Ou quando hospedamos os filhos de Arthur e Elisa Klein? Quanto embaraço, em pleno estopim da guerra. Fazíamos parte do seleto círculo da alta sociedade porto-alegrense. Mas isso faz tanto tempo. Os que não morreram, se afastaram naturalmente. Bando de hipócritas!

Nossos filhos? Não falo com eles nem tenho notícias. Eu não telefono, eles também não. Eu não os visito, eles tampouco. Ainda lembro bem dos quatro correndo pela casa e tu, com a severidade doce de mãe, chamando-lhes a atenção aos bons modos de crianças bem educadas; os quinze anos de Celina em 1944, nossa última grande festa; Corina, coitada, não teve sua apresentação à sociedade. Estava sem a mãe e nunca me perdoou por isso. O Alfredo, em minhas divagações, parece nunca ter saído dos cueiros. Estou um pouco confuso. O dia de hoje foi exaustivo. Não sei se essas lembranças incluem o Geninho ou sou eu quem o resgata de algum porão sujo e o enxerta nelas. Até hoje não sei o seu paradeiro. Nossos filhos se afastaram de mim; não tiveram culpa. Deixem-me em paz! – gritei, certa vez. E eles me deixaram. Mas não fica preocupada, eu ainda tenho a Negrinha. Eu não sei o seu nome de batismo, nunca consegui gravá-lo na memória. Faço uma deferência ao seu tom de pele, nada mais. Toda vez que a chamo assim, arqueia uma das sobrancelhas, enrugando um pouco a testa. Acho que não gosta, mas eu não me importo. Ela é paga para cuidar de mim. Diz que faz curso superior de enfermagem, mas eu duvido. Desde quando negros entram na faculdade para estudar? Mu-la-ta, seu Eugênio. Negra, não. Ela sentencia, cheia de si. Parece ter saído do quadro do Di Cavalcanti que temos na biblioteca. Para mim não faz a menor diferença, eu não ligo a mínima para a cor da pele dela, desde que faça as coisas certinhas, não falte ao serviço e, o principal, que fale pouco, quase nada.

Eu disse que acordei diferente. Abri os olhos antes do ronco do despertador, um hábito que venho cultivando há algum tempo. Não gosto do barulho dos alarmes dos relógios, eu já experimentei e quebrei vários. Também não aprecio ser acordado pela enfermeira. Prefiro acordar sozinho, sempre a mesma hora. Hoje ele tentou aplicar o golpe baixo da falta de luz. Mas eu fui o vencedor, mais uma vez. Zombei dos seus enormes olhos vermelhos piscantes, pareciam tiques nervosos. Preciso dele porque consigo enxergar as horas mesmo sem os óculos. Malditos. Nunca sei onde os coloco, e vem a Negrinha e me entrega. Às vezes penso que ela os esconde de propósito, só para me irritar. Não consigo ler, cansa. Os olhos ardem, lacrimejam. A visão fica embaçada, tal qual a janela desse quarto, que nada se vê através. Tolerante, suporto a sofrível leitura do jornal pela minha cuidadora. Criatura esquisita. Já desisti de manter conversa com ela. Sua cultura se resume aos signos do zodíaco; na política seus comentários são carregados de um discurso esquerdista radical. Em outros tempos, seria liquidada.

Sonhei contigo noite passada, Celeste. Burlavas o esquema de segurança, passavas pelo portão de ferro e vinhas ao meu encontro, amável, sem dizer nada. Um vestido azul, pouco decotado, vestia teu pequenino corpo. Lúcida e radiante. O cabelo farto estava preso, apenas alguns fios se rebelavam caindo ao lado das orelhas ornadas pelos brincos de mamãe – aqueles que te dei no primeiro ano de casamento. Generosa, me estendeste a mão e eu te convidei para dançar. Deslizávamos ao som de Danúbio Azul quando percebi que o ritmo clássico deu lugar ao popular. O salão nobre do Clube do Comércio transformou-se numa gafieira desclassificada. Fiquei desajeitado, pois não sabia te conduzir. Tentei me desvencilhar de ti e pedir à orquestra que parasse com o insulto, mas não consegui, me seguravas forte e me conduzias ao sabor dos acordes frenéticos. O roçar das tuas coxas me causavam um prazer juvenil. Segurei teu corpo com mais firmeza enquanto sussurravas algo que não pude distinguir, o som no salão estava ensurdecedor. Meu corpo suava por todos os poros e o teu também. Um susto me acometeu quando visualizei outro rosto e não o teu. Era mais escuro, com feições mais fartas; os cabelos muito ondulados, negros. Os cheiros se misturaram e eu despertei suado, ofegante e com o pijama molhado. O sonho transformou-se em pesadelo. Engoli o orgulho e a vergonha, esperei a chegada da Negrinha com a bacia d’água para meu banho matinal.

É degradante essa hora. Detesto o contato em minhas partes íntimas. Ela me tocou de um jeito que mulher decente não tocaria. Uma despudorada, isso sim! Nesse momento, a Negrinha fica muito perto de mim. Dá até para sentir a sua morrinha. - Não tens tempo para te banhar? Não tem água quente em casa? – eu pergunto. Nesses dias frios é bem compreensível desprezar um banho dia e outro. Ela responde: Tomei sim, seu Eugênio. Tomei sim. Fez bico de passarinho e começou um assobio, afinado e insuportável, de uma canção que não sei qual é e nem desejo sabê-la. Já pensei em oferecer-lhe meu chuveiro para espantar a catinga, meu lar. O que pensarias disso, Celeste? Desisti e pedi para acelerar a dupla tortura.

É mesmo, eu disse que acordei diferente. Segura meus voos, depois de velho dei para devaneios impróprios. Desculpa, querida, manterei a compostura. As dores não me visitaram hoje, deram uma feliz trégua ao meu corpo. Eu já nem sabia o que era ficar sem dor. Pude levantar-me sozinho, sem o braço extra da Negrinha, porque ela sempre está por perto quando eu desperto. Ela escancarou um sorriso alvo – que dentes perfeitos, eu nunca havia reparado, ou talvez nunca tenha sorrido para mim – e disse: Muito bem, seu Eugênio. Muito bem. Pelo visto, o senhor acordou animado e de bom humor! Percebi que eu retribuía àquele meigo sorriso. A sua voz foi um convite à vida. Combinava com o dia ensolarado que fazia lá fora e que eu provoquei para entrar. Abri as janelas, um rastro de poeira dançante pode ser visto, e o sol aqueceu a tua cadeira de balanço. Há muito eu não respirava um ar tão fecundo, gelado, revigorante. Tive um desejo enorme de tomar o café da manhã na cozinha, não mais na cama, junto aos lençóis senis e amarrotados. Na cozinha, sobre uma toalha limpa, comer pão com manteiga e café bem forte. Mas o doutor proibiu, senhor, advertiu a petulante. Aos diabos, o doutor! – gritei. Enquanto me deleitava com tamanha fartura, Negrinha me observava atenta, enchendo vez em quando a cuia com água quente. Lembrei da minha meninice na estância de papai e das rodas de chimarrão com a peonada. Mamãe não gostava, achava um hábito subalterno e para não afrontá-la, nunca bebia em sua frente ou com os negros. Ela jamais me perdoaria se o fizesse. Acho que Negrinha teria sido escrava de dentro de casa se vivesse àquela época. O que tem a cor dela, Celeste? Não podemos ser preconceituosos nesses tempos modernos. Ouvi dizer que é crime.

Quis sair daqui. As paredes do corredor que dá acesso à sala social, tomadas por quadros com fotografias desbotadas de cinco gerações dos Magalhães, pareciam estreitar-se. Pude até sentir a respiração daqueles que insistem não ser esquecidos, talvez fosse um convite para ficar ali estampado também. Senti medo, uma urgência em ver a vida além delas. Para aplacar o vento minuano que insistia em soprar, vesti o casaco de couro; de longe, petit pois, de perto, bolorento. Melhor se tivesse um poncho. À luz do dia, em plena rua, minhas pupilas diminuíram e me causaram vertigem. Segurei-me no braço da enfermeira, evitando a queda. Fomos à Praça Quintilhano. Está muito diferente daquela que frequentávamos, tem cerca e recebe visitantes pouco ilustres. O passeio trouxe à tona lembranças até então aprisionadas em um sótão escuro, revistas como um filme em preto e branco. Vi jovens abraçados nos bancos de madeira, crianças pulando alvoroçadas pelo gramado e seus cães correndo atrás... Pensei na brevidade da vida, da nossa vida. Engraçado, hoje as lembranças não doeram, ficaram coloridas de novo. Precisei sentar. O sol refletido no uniforme branco da Negrinha a deixou mais escura ainda. As suas mãos pousadas sobre os joelhos estavam bem feitas, unhas curtas e sem esmalte. Irias gostar, Celeste. Apesar do odor, ela parece asseada. Não trocamos uma palavra, mas nos entendemos muito bem. Foi o silêncio que evitou o abismo entre nós, ela sabia disso. Talvez seja mais inteligente que eu previra. Tanto faz, agora.

As horas passaram e o estômago reclamou pelo almoço. Pretendia ser comensal dos Ávila, mas não sei se vivem ainda ou se me receberiam. Paramos num restaurante qualquer, com comida servida a num tal sistema de buffet. A Negrinha me ensinou como funcionava e me serviu, sem o menor requinte. Não havia garçom para nos servir, acreditas? Vi nos olhos dela o receio em relação ao que pedi para comer, mas ela nada disse. Minha doce cúmplice. Eu disse doce, Celeste? É que eu pensava em ti e no tempo que almoçávamos juntos. Lembra? Éramos muito felizes, não? Cometi o disparate de pedir um vinho e bebê-lo com ela. É triste beber sozinho. Pedi o melhor Cabernet Sauvignon que o lugar oferecia e degustei como se fosse um beijo há muito desejado. A língua deu uma travada ao primeiro contato com o rubro líquido. Eu o fiz dançar por todos os cantos da boca, amaciando o sabor. – O aroma é de especiarias e frutas vermelhas maduras, percebes? É o carvalho que dá o toque amadeirado. Os vinhos de guarda são envelhecidos em barricas de carvalho. – Ensinei à Negrinha um pouco da arte de Baco. Ela o bebeu com o mesmo interesse com que me escutava.

O meio da tarde chegou cedo demais. Pedi que me levasse ao teu encontro. Não! Eu não disse nada a ela. Fomos de táxi. O caminho até o Hospital São Pedro está tão diferente. Não reconheci minha cidade. Semáforos, automóveis, edificações modernas e altas, outras apenas rejuvenescidas. Não a vi crescer, prosperar. Há quanto tempo o senhor não sai de casa, seu Eugênio? Perguntou a Negrinha, admirada com a minha perplexidade. Vinte, trinta anos? Perdi as contas, meu bem. – respondi. Oh, não te aborrece, Celeste. Deve ter sido efeito do vinho, caso contrário, eu jamais a trataria com tamanha obscenidade. Quando cheguei em frente ao prédio de arquitetura neoclássica, que por muitos anos tem sido teu lar, estremeci. A decadência do manicômio fez espelho com a de nossa família. Quantas vidas destruídas... Geninho, estúpido ou inocente demais. Ainda não sei como classificá-lo. Hoje eu entrei. Não me viste? Eu sei que não, fui muito discreto. Estavas conversando com as nuvens, como fazias no dia em que te levaram de mim. Sim, eu chorei. Mas por piedade de mim, incapaz de entrar em teu mundo e sorrir contigo novamente. É melhor voltarmos para casa, seu Eugênio. Já fizemos muita extravagância hoje, sugeriu a outra, me levando pelo braço, me afastando de ti.

Ainda não queria retornar ao solar. Precisava me despedir do dia. Fui até a Usina do Gasômetro, às margens do lago Guaíba, que até ontem era rio. Sugestão dela, dizendo que lá apreciaríamos o mais belo por-do-sol do mundo. Fumei um cigarro. A fumaça percorreu sem resistência o caminho já desbravado até meus alvéolos. Envolto à névoa formada pelo ar expelido, transportei-me aos tempos de guri, no colégio. Meus primeiros pitos foram lá, no banheiro, escondido com mais uns três moleques. Já estava dependente quando fomos pegos pelo padre. Situação que resultou em mãos inchadas de tanta palmatória, uma suspensão de uma semana e um sermão do papai, sem falar da surra e do traseiro dolorido.

Era melhor voltar para casa. O vento, que continuava a soprar forte, fazia música e levava consigo o calor acumulado no dia. Desejei viajar com ele. Minhas mãos, então frias, foram aquecidas ao contato com as mãos macias de Negrinha. Quem visse de longe, à primeira vista, poderia crer que fôssemos amantes. Não havia mais tempo para isso.

* * *

Jacinta acordou sobressaltada com o insistente alarme do despertador do quarto contíguo. Perdera a hora. Vestiu às pressas o jaleco e correu até o quarto de seu paciente, pronta para receber uma bronca. Seu Eugênio não se encontrava na cama, como todas as manhãs. Estava sentado na cadeira de balanço – só corpo – próximo à janela, abraçado a um antigo álbum de família.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Cadáver (Ricardo de Albuquerque Müller)

Não sei se devo ou não acreditar nos meus olhos, se tenho a mente perturbada pela mais terrível solidão que um homem pode suportar. Esse cheiro de morte com o qual tenho convivido dia após dia tem me levado a um desespero que beira à loucura, onde não vejo saída nem na própria morte. Escrevo com a intenção de, ao relembrar os fatos, tentar encontrar uma lógica que me explique tudo por que venho passando, apesar de achar que estarei condenado a um lento e interminável martírio.

Havíamos passado ao largo das ilhas Cayman num dia de mar calmo e praticamente sem vento. Os turistas já haviam almoçado e a maioria estava no convés apreciando a paisagem. Devido ao cansaço, eu preferi ficar na cabine e tirar uma sesta. Foi com um duro golpe na cabeça que acordei e percebi que o navio afundava. Demorei alguns instantes para entender o que se passava, mas logo compreendi que a embarcação adernava para bombordo. Ouvi muitos gritos e um barulho infernal que deduzi ser o casco se partindo. Pela escotilha, vi homens ao mar e vários corpos boiando. Dois botes haviam sido lançados, mas com o desespero os passageiros foram subindo neles em número excessivo e desordenadamente, acabando por emborcá-los. Tentei abrir a porta da cabine, mas ela estava trancada. A escotilha também estava emperrada, e não consegui abri-la. Não achei nenhum objeto de metal ou de algum outro material resistente que pudesse servir para arrombar a porta. Fui tomado de um desespero sobre-humano e comecei a gritar e a chorar, dava socos e pontapés na porta e rezava. O navio continuou virando de lado até a porta da cabine ficar para baixo e a escotilha para cima. Depois, começou a afundar rapidamente e vi a água encobrir totalmente a pequena abertura circular, porém a cabine continuava totalmente seca, sem infiltração de água. Foram poucos minutos até o navio se chocar contra o fundo e estabilizar. Então, do barulho infernal sobreveio um silêncio ensurdecedor.

Recomposto, percebi que não estava sozinho. Havia um homem inerte e com a face completamente desfigurada dentro da cabine. Provavelmente tinha sofrido o traumatismo no momento em que o barco havia virado bruscamente. Palpei o pulso e logo vi que ele estava morto. Em seguida, tive náuseas e mal-estar, e precisei me virar de costas para o cadáver e respirar fundo. Permaneci nessa posição por alguns instantes e não conseguia imaginar como ele tinha surgido ao meu lado. Eu certamente havia entrado sozinho na cabine e a porta estava fechada. Então, criei coragem e me virei. Estendi o corpo e passei a examiná-lo mais detidamente. Havia um afundamento de face e múltiplos ferimentos que não permitiam reconhecê-lo. O lado direito do crânio apresentava uma grande contusão, com laceração no couro cabeludo que deixava entrever parte da massa encefálica entre os fragmentos ósseos. Procurei nos bolsos algum documento que pudesse identificá-lo, mas nada encontrei.

Fazia uma hora que o navio havia afundado. Continuava tudo no mais absoluto silêncio. A única iluminação provinha da luz natural que iluminava o oceano e entrava pela pequena escotilha, num tremular inconstante e fantasmagórico. Deduzi que não poderíamos estar muito longe da superfície, pois a intensidade da luz era razoável. Contudo, não percebia nenhuma movimentação junto ao navio, nenhum sinal que indicasse que o naufrágio tivesse sido avistado por alguém. Tentei outras vezes sair desse local pequeno e oprimente, mas não tive sucesso. Enfim, desisti. Restava apenas aguardar um possível resgate.

Após seis horas o ar estava insuportavelmente quente e irrespirável, com uma emanação pestilenta proveniente do cadáver que já começava a se decompor. Não conseguia me afastar dele devido ao espaço exíguo. A noite já começava a despontar e as trevas invadiam pouco a pouco o cubículo, deixando-me extremamente aflito. Durante a longa espera até o amanhecer, eu permaneci acordado e com os olhos abertos, rodeado pelo mais profundo breu, sem me mexer, com medo de tropeçar no cadáver.

No dia seguinte e nos outros foi a mesma tortura, o mesmo sacrifício pelo qual deve passar o condenado ao fogo eterno. Mas seria o demônio tão sádico e cruel? Teria isso a ver com a minha vida um tanto quanto desregrada? Estaria sendo eu punido pela bebida e outros vícios? Confesso que pensei seriamente no suicídio, mas não tinha como cometê-lo. Não pela falta de coragem, mas pela falta de meios materiais. Não comia e não bebia, mas o meu corpo nada pedia. E os dias e as noites se sucediam numa massacrante e interminável rotina. O que mudava era apenas a progressiva putrefação do cadáver, que inicialmente havia inchado e adquirido uma coloração esverdeada, para depois começar a liberar uma secreção escura e fétida, com formação de bolhas e perda de partes da pele e demais tecidos. Eu não tinha onde ficar a não ser sobre aqueles restos de matéria putrefata, com o meu corpo cheirando a morte, mas sem conseguir morrer.

Faz um ano que ocorreu o naufrágio. Ninguém ainda apareceu para resgatar o navio. O cadáver que me acompanha — eu o batizei de Polinice — está praticamente reduzido a uma ossada. A luz fraca e tremulante e o escuro profundo e absoluto se intercalam numa sucessão infinita e torturante. Sinto que esta cabine é o meu túmulo onde jamais conseguirei descansar. E ninguém neste mundo poderá me responder a uma dúvida que me afligirá por toda a eternidade — poderia ser eu o cadáver?