<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449</id><updated>2011-12-21T17:02:56.953-08:00</updated><title type='text'>Gostei Muito</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>43</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-5134769492787990042</id><published>2011-08-17T16:15:00.000-07:00</published><updated>2011-08-17T16:15:06.244-07:00</updated><title type='text'>O stripper (Mariano Mendonça Neto)</title><content type='html'>&lt;br /&gt;O meu negócio é tirar a roupa. Ficar de sunga e escancarar os dentes para as coroas. Tudo é feito de maneira profissional. Gilete para depilar e academia todo o dia. Não gosto da depilação, mas é o meu trabalho. Dostoievski entenderia. Leio sempre o mestre russo. Entre uma e outra apresentação avanço nas páginas de seus romances. Reconheço que minha classe é de iletrados. Homens toscos. Embrutecidos pela musculatura avantajada. Dependemos desta estética apolínea. Trabalhamos com o olhar, com o desejo, com o imaginário das pessoas. Sou free lancer. Faço shows em casas noturnas e atendo na casa das clientes. Antes das apresentações, um banquinho de cozinha me basta. Fico ali, vestido de comodoro, de índio apache, de bombeiro, lendo os romances, esperando para entrar em cena. Minha vida profissional de stripper começou por acaso. Trabalhava numa destas livrarias de shopping. Nos intervalos fumava um cigarrinho, lia um livro. Daiane, minha colega, fazia o mesmo. “Olha, Paulo. Presta atenção. Os caras escreveram demais. É muita ideia, muita sacanagem. Não dá para ler tudo de bom que foi escrito. Escolhe só o filé mignon. A carne de pescoço, o Sidney Sheldon deixa no balaio.” Assim foi feito. Às vezes eu pisava na bola. Daiane me encontrava com um Paulo Coelho, com um Dan Brown. Aí eu tinha que ouvir. “Porra, eu já falei. Lê os russos, os franceses, os caras que cagam grosso.” Daiane havia conhecido um professor universitário que a iniciara na grande literatura. Se o professor comia? Eu não comi. Mas graças a Daiane meu vocabulário aumentou. E foi também graças a ela que pude desenvolver minha arte. Estava no almoxarifado, coçando o saco, lendo “Crime e Castigo“ quando Daiane me perguntou: “Paulo, você vai quebrar um galho para mim. Tirando esse monte de cabelo do seu peito, você serve. Tem o tipo apropriado para o serviço.” Nesta época, eu estava matando cachorro a grito. Recebia o salário da livraria que quase não pagava o aluguel da pensão. Daiane fazia bicos de vez em quando. Trabalhava de garçonete ou recepcionista em feiras agrícolas. Sabia o caminho das pedras. “Olhe, Paulo, eu vou te dar um endereço. Você vai fazer uma substituição. O cara adoeceu, pegou uma pereba no tico. Estão precisando de alguém com o teu porte. Alguém com músculos e alguma iniciativa. Vai lá que acaba entrando um trocado.” Imaginei logo o tapete vermelho estendido, pessoas agitadas na fila e eu duro que nem uma estaca, fazendo a segurança de um bar. Mas a encrenca era maior. “Pensa bem, Paulo. É só tirar a roupa e fazer cara de gostoso. Um bando de mulheres insaciáveis querendo se divertir. É só isso.” Eu quis ponderar sem muita convicção. “Eu sou um pouco tímido. Não sei se levo jeito para a coisa.” “Paulo, é pegar ou largar. Tem uma grana boa.” Peguei o endereço e li: “Rua das Acácias 98. Falar com o Baixinho.” Perguntei ainda para Daiane se eu tinha que levar alguma roupa especial, vestir algo mais adequado. “Não, Paulo. A jogada é ficar nu. Entendeu? Nu, porra!” Terminado o expediente, peguei o ônibus e me acomodei no fundo. Fiquei observando as pessoas. Seus silêncios, suas dissimulações. O velho russo gostaria de sentar a bunda no plástico, numa temperatura de 40 graus e eviscerar a alma dos homens. Dostoievski era batuta. Sua narrativa caótica, seus personagens desesperados, sua religiosidade inalcançável eram também ferramentas de um stripper. Uma espécie de stripper da alma humana. Um revelador, um exibicionista do melhor e do pior do espírito humano. Mas, ali, naquele momento, era o suor bruto que se revelava. E um ou outro espertinho dando uma coxeada nas balconistas e estudantes que voltavam para casa. Consegui ler mais algumas páginas do romance antes de descer na parada. Fui caminhando tranquilo pela rua. Eu conseguira dar uma lavada nas axilas e renovara o desodorante. Para enganar a torcida. Estava anoitecendo e não foi difícil encontrar o endereço que Daiane me dera. Uma luz forte iluminava o painel onde se lia “Lady’s Club”. No guichê, uma velhinha de cabelo azul tricotava algo. Levantou os olhos, que também eram azuis, e perguntou: “Trouxeram a cidra? Não vão me quebrar as garrafas. Eu esperava vocês mais cedo. É pelo corredor ao lado. Cuidado com o cachorro!” ”Sou o substituto. Foi a Daiane quem me mandou.” “Baixinho, o rapaz que veio substituir o Marcelão chegou.” Logo a porta se abriu e um sujeito que parecia um halterofilista em miniatura surgiu na minha frente. “Está atrasado. Entra logo que eu tenho que explicar o nosso esquema.” Entrei no salão e o Baixinho me puxou pela manga. Era um bar com mesas e cadeiras. Estavam dispostas ao redor de uma passarela que partia de um pequeno palco ao fundo. Caixas de som estavam estrategicamente localizadas pelo salão. Uma escadinha dava acesso à passarela. Baixinho subiu com dificuldade, mas subiu. “Presta atenção, pois não tem mistério. Hoje a função é para despedida de solteira. São meninas de família, pessoas educadas, distintas. Vai tirando a roupa devagarzinho, com manha, vaselinando no olhar. Dá uma requebradinha e tira uma perna da calça, dá outra requebradinha, tira a outra. Botão de camisa é mais um detalhe. Ajoelha e oferece o botãozinho para as clientes abrirem. Porra, esse teu peito tem cabelo prá caralho. Parece um urso!” Cheguei a me examinar. Estava lendo um romance forte, denso. Nunca se sabe. Mas estava tudo igual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos pelo palco e entramos naquilo que poderia ser chamado de camarim. Três sujeitos conversavam animadamente. Baixinho fez as apresentações e continuou o seu curso rápido para stripper. “Tocou a música e já entra dançando. Não raciocina. Entra rebolando, sem afobação. Vai se soltando aos poucos, sem pressa. Vocês entram juntos na primeira música, depois vem o número solo. Aí tira tudo, cueca, sunga, lente de contato, o que for. Ô Luizão, alcança aí a roupa de gladiador romano.” O Luizão era um cara alto, forte, com uma barba que lembrava o Falcon. Abriu o armário e puxou lá de dentro um cabide com umas tiras de couro. Era o equipamento de gladiador. Baixinho pegou a fantasia e a avaliou por instantes. “Vai funcionar. Essa aqui é para o primeiro número. O smoking, ali na cadeira, é para a apresentação solo. Vamos arrebentar essa noite.” Peguei o cabide e comecei a me fantasiar de stripper. Os outros dois caras vieram me oferecer um gole de cachaça. Partilhavam uma garrafa que já estava pela metade “Caralho, ô meu. Repara nesse peito, Gledson. O cara é um porco-espinho!” Gledson fez uma cara de espanto. Pegou um frasco que estava no armário e me entregou. “Coloca essa loção na pele, no corpo todo. É loção de amêndoas. É para dar um brilho debaixo da luz. Não vai me gastar todo o frasco.” Logo percebi o movimento frenético do salão. Nossas freguesas começavam a chegar. O ruído era intenso. Foi Luizão quem tomou a iniciativa. Pediu para que déssemos as mãos em círculo. Uma pequena oração foi feita, quase que sussurrada. Havia entrega e concentração naquela modesta homília. Instantes depois já estaríamos nus, plenamente nus. A corrente se fortalecera. Estávamos prontos. O Baixinho voltou e fez a sua última recomendação. “Olha, o troço não tem segredo. Faz o que eles fizerem. Vai imitando o Luizão. Olha para o público e ri, ri muito. Na hora do smoking, abusa um pouquinho mais. Provoca que vai abrir e não abre. Prá arriar as calças também. Não entrega o ouro de cara. Vai arriando com classe, com estilo.” Foi então que comecei a refletir um pouco. Meu desejo era entrar logo naquele salão, tirar a roupa e sair correndo com a grana no bolso. Sem muita frescura. Apenas entrar e ficar nu. Mas logo eu descobriria a arte de tantalizar. Soltar a isca com paciência. Cultivar o olhar alheio através de um encantamento sinuoso, uma hipnose lasciva que promete, mas não realiza. É duro quando se é jovem. Há tanto para se aprender. E logo eu aprenderia, digamos, na carne. Começamos a ouvir a voz do Baixinho no sistema de som. Fazia as primeiras apresentações e garantia uma noite inesquecível. Uma despedida de solteira sem voltas. As freguesas gritavam, batiam os pés, assobiavam com força. Eu sabia. A partir dali, não tinha volta. Eu estava enrascado. O sistema de som largou a primeira música. Entramos os quatro no palquinho balançando as bundas no ritmo acelerado. Entrei por último e acabei ficando na ponta direita, jogando recuado. Fui seguindo a rapaziada, embromando ali com as tiras de couro. De vez em quando, um de nós avançava na passarela e rebolava um pouco. Tirava o traje de combate e ajoelhava no milho. Ficava ali fazendo biquinho para as freguesas. Um ou outro trocado era enfiado na sunga. Peguei logo o jeito. Avancei decidido pela passarela e encarnei o gladiador romano. Era comigo mesmo. Já fui tirando o saiote, o dólmã de couro e se tivesse lentes de contato tirava também. As freguesas deliravam com a minha performance. Comecei a inventar novos passos de dança. Ampliava o movimento dos quadris e oferecia o sexo com impudica irresponsabilidade. Os gritos aumentavam a cada passo, a cada provocação que eu fazia. Consegui ouvir o Baixinho no microfone. ”Pode tocar, mas não arranca pedaço! Esse é o fabuloso elenco do Lady`s Club! Artistas renomados, com experiência internacional.“ Fomos para o camarim e logo vesti o smoking. Na minha vez, já entrei esparramando as pernas, gingando com malícia e estendendo as mãos para as clientes. Baixinho estava na plateia, ao lado da garota que se despedia dos bons tempos. O mestre de cerimônia usou o microfone de novo. Pedia que eu descesse até eles. Queriam minha presença ali, bem pertinho. Desci pela escadinha e me aproximei da garota. Fui fazendo um gingado malemolente, bem debochado. Cheguei perto e lasquei um beijo na boca. Um beijo bem molhado. E ainda ofereci os botões da camisa para que fossem violados. Logo tinha mais gente em volta metendo a mão. Queriam mesmo era arrancar um naco do bacana aqui. Não tive dúvida. Puxei a garota pela mão e a levei para a passarela. Lá em cima realizei os últimos movimentos de minha apresentação. Fiquei dançando nu, me esparramando em volta dela. Os aplausos vieram em seguida. Curvei-me ao estilo dos atores de teatro tal qual um menestrel desnudo. Desejei boa sorte à futura noiva e retirei-me de cena como um experiente stripper. Na coxia, Luizão esperava-me com um robe de chambre e uma taça de cidra. “Fez tudo certo, campeão. Já pode fazer parte da trupe.” Peguei a taça e fui para o camarim. Meus colegas se revezavam agora nas apresentações. Trocavam de roupa e voltavam rápido para o palco. Sentei numa poltrona toda esburacada por pontas de cigarros. Fui relaxando até que acabei tirando uma pestana. De repente acordei e vi Baixinho diante de mim. “Foi bom. Se quer continuar, vai ter que usar um Presto Barba nesse peito. Vamos lá, rapaz. Todo mundo já foi embora.” Puxei um cigarrinho e fiquei ali fumando, pensando na vida. A noite fora lucrativa e isso me bastava. A velhota do cabelo azul apareceu de repente. Estávamos sozinhos no teatro. “É uma pouca vergonha! Com o troço todo para fora! Essa juventude não respeita mais nada! Veste, veste logo a calça e vai embora.” Vesti minha roupa e deixei a velhota cacarejando no meio das fantasias. A noite estava quente e soprava uma leve brisa. Eu tinha recebido o suficiente para pegar um táxi. Levantei o dedão e o carro estacionou na calçada. Sentei ao lado do motorista e dei as coordenadas. O taxista queria conversa. Falava das manchas solares, dos mistérios da superfície de Marte, da teoria do caos. “E aí os caras dizem que até um prego pode mudar toda a tua vida e...” Fez uma pausa para frear diante do semáforo. Aproveitei e perguntei: “Você quer ouvir uma boa história?”. O taxista silenciou. “Bom, é sobre um cara que mata uma velhota. O cara é bom, sabe das coisas. Mas ocorre um lance que ele não tinha previsto. O nome dele é Raskolnikof e ele não tinha medo.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-5134769492787990042?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/5134769492787990042/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2011/08/o-stripper-mariano-mendonca-neto.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5134769492787990042'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5134769492787990042'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2011/08/o-stripper-mariano-mendonca-neto.html' title='O stripper (Mariano Mendonça Neto)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-2878526039132575573</id><published>2011-05-03T11:19:00.000-07:00</published><updated>2011-05-03T11:19:30.270-07:00</updated><title type='text'>A tulipa descartada (Guilherme Bica)</title><content type='html'>Descia as escadas da redação com a pressa de quem deixou para trás quatro provas de páginas ímpares e pares para revisar. Uma amiga dela me avisara que ela queria falar comigo, queria acertar tudo, saber se era isso mesmo, se tinha acabado daquele jeito, se já era o fim. Eu passei pela porta do prédio, ganhei a rua e vi Carmela sentada num daqueles toscos exemplares de mesa metálica que normalmente pertencem a botecos malcheirosos, mas ali preenchia a calçada em frente a uma sorveteria. E aquela imagem tão insólita de uma guria tão linda como Carmela recostada num objeto de invariável natureza ordinária, que dava sinais de gasto e perdia a cor branca nas laterais para denunciar a verdadeira pele de um cinza metálico escuro, aquela imagem me causou de pronto uma vulgar estranheza inicial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juntei-me a ela, puxando uma cadeira de uma mesa vizinha, e tentei um Oi para avaliar se me respondia. Ao que Carmela suspirou algo que não compreendi e obrigou-nos silenciosos por alguns segundos. E aquele silêncio poderia calar todos a nossa volta: os taxistas narradores de piadas obscenas, o cara engravatado da revenda de automóveis que anunciava a promoção do dia e até o carro de som num volume anormal que convidava a todos para a festa de sábado no clube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí, eu perguntei pra ela, e aí ela sorriu aquele sorriso irônico que só ela sorri, mesmo que com quinze anos poucos saibam o que significa ironia, e me despejou uma centena de lamentos do tipo Tu não tava comigo?, Eu achei que a gente estava começando a se entender, mas agora já não sei, O que tu quer, afinal?, Tem que escolher!, Eu não vou dividir ninguém!, A gente parecia bem, e o tom agressivo foi minguando à medida que ela começou a encolher os lábios para não chorar e eu não me lembro das outras reclamações pertinentes de Carmela, só recordo que tentei pegar em sua mão e fui repelido rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela voltou a ficar muda e a única coisa que se movia nela era a franja bem aparada, dividida ao meio, expondo a testa e balançando pouco com o vento que não decidia se vinha ou ia embora. Parecia que só eu via a discrepância daquele relacionamento incipiente que não deveria vingar. Eu na faculdade, eu estagiando, eu tomando cerveja, vodca, uísque, eu lendo Neruda, Nassar, Faulkner, eu ouvindo Tom, Chico, Vinicius, eu vendo Glauber, Godard, Antonioni, eu distante tantos anos do colégio. Ela denunciada pela juventude da camisa verde e larga desenhada pelo brasão da escola que encobria o seio esquerdo, ela vestida com a calça preta do uniforme juvenil ainda no corpo, ela refém de toda aquela limpeza que nos tornava tão afastados, a limpeza na boca, nos dentes, nos braços, cabelos e até na voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na volta da mesa da qual recendia uma tensão lúgubre e lúbrica ao mesmo tempo, as sete amigas de Carmela me julgavam e mimetizavam o sorriso irônico, mas sem a propriedade da boca verdadeira. E me deu uma vontade de contrariar tudo o que eu havia demonstrado sem palavras nas últimas semanas – as ligações não atendidas, as mensagens não respondidas –, e me ajoelhar ao lado de Carmela para pedir desculpas e dizer que ela era a mais bela guria que eu já havia conhecido, que eu não estava nem aí para eu ter vinte e quatro e ela nove anos a menos, que tudo daria certo daqui pra frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não dava. E foi o que eu disse. Carmela, não dá! Sei que ela ficou surpresa. Porque aqueles olhos cor de tijolo claro e o corpo em sublimada adolescência e fulminado com justificada sede por todos os homens pelos quais ela cruzava – e ela alcançava a idade de tomar consciência disso – não estavam acostumados à rejeição. A minha feiúra discreta cometia a insolência de descartar a beleza de tulipa de Carmela. Ela se recompôs, amparada pelas amigas, e me disse Se mudar de idéia, me avisa, e aquela frase eu sabia que traria comigo por muito tempo ainda, tanto que estou eu aqui a escrever sobre ela, impelido talvez por uma esperança ingênua de que um dia ela leia estas linhas e reflita na pele de um espelho honesto com sua beleza aquele mesmo sorriso limpo e irônico, mas agora com outro sentido, mais autônomo e consciente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas deixaram a sorveteria e encaminharam-se para a esquina, Carmela com os braços entrelaçados nas amigas. Ainda tive tempo de subir as escadas, correr até a sala de meu chefe e esticar o pescoço para fora da janela e vê-la sorrindo e me esquecendo, antes de sumir atrás de um ônibus que resolveu aparecer justo naquele momento inoportuno.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-2878526039132575573?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/2878526039132575573/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2011/05/tulipa-descartada-guilherme-bica.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2878526039132575573'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2878526039132575573'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2011/05/tulipa-descartada-guilherme-bica.html' title='A tulipa descartada (Guilherme Bica)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-3249563481311981787</id><published>2011-04-14T10:48:00.001-07:00</published><updated>2011-04-14T10:48:37.248-07:00</updated><title type='text'>Noturno (Gecy Belmonte)</title><content type='html'>O vento bate com força nas árvores em frente a varanda do quarto. Nuvens escuras se superpõem rápidas, prenunciando tempestade. Nenhuma estrela no céu. Pela janela entram riscas de luz vindas do poste que ilumina a rua. Ele fecha os olhos com força. Precisa dormir cedo e parar de fazer manha, esta é a determinação dos pais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao lado da cama pode enxergá-lo no escuro, os olhos esbugalhados brilham e o bafo fétido dele está bem próximo. Cobre a cabeça com o edredom, o aperto no peito volta e a respiração escorrega fina pela traquéia até chegar à boca e ao nariz, sente o suor gelado molhar as mãos e os pés. Precisa resistir, inspirar e expirar bem devagar (isso ajuda), não fazer barulho, ele deve acreditar que está dormindo. Ou morto, assim o deixará em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como fazer para ficar ali, com o medo crescendo, crescendo. Sabe que não dará conta por muito tempo. Quer cumprir a ordem dos pais para não mudar para o quarto deles no meio da noite, ir atrás da mãe, como passou a fazer nos últimos meses. Mas o pavor que sente ali, sozinho, no escuro, é maior que o temor do castigo no dia seguinte. Retira as cobertas, coloca as pernas para fora, primeiro uma, depois a outra. Levanta-se, tem os passos abafados pelo carpete, assim não há risco de despertá-lo. Quer a mãe, só ela consegue acalmá-lo quando o pânico noturno chega. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alcança a porta, gira o trinco com cuidado e saí. Deixa o inimigo lá, fechado, com os brinquedos, os livros que adora e as figuras do Super Homem que ornamentam as paredes azuis do quarto. Pode ser que, quando despertar, ele se distraia e não vá atrás dele. Corre descalço até o quarto dos pais, ao fundo do corredor, e abre a porta de mansinho. Não há ninguém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouve vozes que vêm do escritório, no andar de cima da casa. Dirige-se para lá, sobe os degraus de dois em dois. A porta está fechada. Escuta a voz alterada da mãe e do pai, e para. Eles gritam um com o outro. O barulho da chuva que começou a cair o impede de ouvir o que dizem. Assusta-se, isso nunca aconteceu antes. Enquanto está ali, criando coragem para entrar, percebe um ruído vindo da parte debaixo. É ele, deve ter acordado e está à sua procura, é capaz de sentir seu arrastar paquidérmico rumo às escadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer a mãe, precisa dela e não ficará ali, parado, no piso frio. Empurra a porta, os pais viram-se surpresos, cessam a discussão, mas a fratura está exposta, sem sangue, só o osso partido ao meio. Corre para o colo da mãe e percebe que ela chora. Não um choro comum, mas um tipo mais fundo, como um soluço para dentro, lágrimas escorrendo pela face. O pai, em pé, do outro lado da mesa, olha os dois sem saber o que fazer, mas também está triste, tem os ombros caídos, parece mais velho sob a luz branca do escritório. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe o abraça com força, beija seu rosto, seus cabelos. Está tremendo, tem uma certa aflição nos dedos. Por um momento ele aquiesce no enrosco morno e seguro. Pode escutar a batida dos corações, os ritmos de ambos se fundem, mãe e filho são um só, fitas de dupla face. Entende que algo muito grave está acontecendo, quer perguntar mas falta coragem (se não souber pode ser que o não-dito não se realize e que a possibilidade dessa coisa ruim se estanque). Agarra-se ainda mais ao pescoço da mãe, não consegue chorar ou emitir som, o ar começa a faltar, pensa que vai morrer (mas crianças não morrem, viram estrelas). Quer sair dali, quer levar o pai e a mãe juntos, os três no aconchego da grande cama de casal, para onde está acostumado a fugir, mesmo correndo o risco de ser levado de volta para o seu quarto no meio da noite ou de ficar de castigo no dia seguinte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai, por fim, começa a dizer alguma coisa, mas ele não escuta. No canto do escritório, perto da estante cheia de livros e documentos, vê a mala grande que ele usa sempre para viajar. Está pronta. Do outro lado da porta, ainda fechada, sabe que o inimigo o alcançou, resfolegante pelo esforço de subir a escada. A chuva e o vento tornam-se mais fortes, ouve o estrondo de um trovão e o de um transformador que se rompe, bem perto. A luz se apaga. Sem velas ou lanterna, os três ficam ali, mudos, no escuro. O silêncio faz a noite tornar-se mais lúgubre, medos guardados afloram, sente que todos os monstros maus estão presentes na pequena sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agarra-se mais ao pescoço da mãe, quer retê-la para sempre. O pai diz para se acalmar, garante que não há porque ter medo, enquanto usa o celular para jogar um pouco de claridade sobre a mesa, na direção deles. Em minutos a luz retorna. O pai diz que está na hora de ir, pega a mala, as chaves do carro, o paletó, dá-lhe um beijo na cabeça e parte, prometendo sempre vir vê-lo. Mal olha para a mãe, cujo rosto se mantém paralisado, como se as lágrimas que rolam viessem de outra face que não a sua. Sabe que o pai não voltará, embora não entenda bem o que está se passando. Não sabe o que fazer, não quer que o pai vá embora, mas, ao mesmo tempo, fica contente, não será mais castigado, a mãe, agora, é somente sua.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-3249563481311981787?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/3249563481311981787/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2011/04/noturno-gecy-belmonte.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3249563481311981787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3249563481311981787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2011/04/noturno-gecy-belmonte.html' title='Noturno (Gecy Belmonte)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-2009829351660439259</id><published>2011-01-20T10:53:00.001-08:00</published><updated>2011-01-20T10:53:57.641-08:00</updated><title type='text'>Zaaap! (Marcel Citro)</title><content type='html'>“Como vocês podem ver, lá embaixo existem vestígios de estruturas, de edifícios... Esta cidade provavelmente foi construída próxima a uma bacia hidrográfica. Lembrem-se, falamos há pouco que já existiu água aqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É claro que havia urbes mais importantes, mais sofisticadas na superfície estéril que vocês vêem agora: Emissões de rádio mencionam lugares que protagonizaram os eventos mais marcantes da época que antecedeu o colapso. Hoje, ‘Pequim’ e ‘NY’ são termos vazios de sentido, mas grande parte das ondas captadas vieram destes locais. As últimas, inclusive, foram enviadas de NY. De qualquer maneira, estamos neste ponto do planeta e não em qualquer outro porque aqui se situa a cidade melhor preservada. Chamava-se Porto Alegre.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estão vendo, ao longo do leito seco daquele rio? As edificações estavam dispostas na sua margem direita, em sentido longitudinal. Por favor, aproximem um pouco mais os seus visores halogêneos: viram? Chamavam-se edifícios. Assim como os mais fortes exploravam os mais fracos, os habitantes desta cidade também moravam uns sobre os outros, não sabemos ainda os critérios que utilizavam para definir cada posição. Há bastante controvérsia sobre o modo como interagiam estas pessoas, há os que sustentam que alguns viviam diretamente sobre o solo, e até mesmo embaixo dele.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estudos revelaram que havia também construções menores, habitadas por um grupo familiar individualizado. Não sabemos se estas estruturas isoladas era um indício de abundância ou não. De qualquer forma, destas construções menores quase nada restou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou explicando enquanto vocês observam. Só há três certezas sobre esta civilização: comiam pedaços de animais mortos, utilizavam o ar como meio de propagação de várias línguas faladas – lembrem-se, falar era valer-se de um aparelho fonador para produzir vibrações em estruturas grosseiras chamadas cordas vocais – e adotavam um denominador comum de troca chamado ‘dinheiro’. Na verdade, era mais do que um denominador, constituía-se na religião mais influente aí embaixo. A maioria destas pessoas pautava sua vida em função dele, colocava sua obtenção como tarefa primordial a ser executada por todos os grupamentos celulares, acima de tudo e de todos”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou projetando agora uma halografia multidimensional do conteúdo do disco que encontramos na sonda espacial Voyager... isso é a imagem de um ser humano...curioso, não é? Aqui, imagens de outros planetas deste sistema solar, eles detinham uma tecnologia ainda bastante embrionária quando ocorreu o colapso. Procuramos muito a imagem deste...deste deus nas diversas faixas de cobre do disco, mas não encontramos nada que pudesse se enquadrar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Será que não era justamente isso, o dinheiro, que determinava o lugar de cada um nos edifícios que estamos vendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É possível. Pesquisas demonstraram que a maioria dos seres humanos vivia em lugares improváveis. Parece que o determinante para isso teria sido justamente a falta de dinheiro. O que não é de estranhar, um dos poucos estudos extensos realizados neste planeta, logo depois de termos encontrado a Voyager, revelava que dez por cento da população da terra controlava oitenta por cento dos recursos. Não é à toa que a civilização acabou por colapsar por completo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o colapso aconteceu com aquela história do estrondo ou do...como era mesmo a palavra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bem lembrado! Na última transmissão de rádio que detectamos, alguém citando outro ser humano chamado T.S. Eliot declarou que o mundo não iria acabar com um estrondo, mas com um gemido. Não sabemos exatamente o que é um gemido, mas parece bastante poético, não é?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom, pelo jeito não há mais questionamentos. Estou percebendo que todos estão concentrados nas observações, mas tenho que avisá-los que nosso tempo aqui acabou. Ainda temos que visitar, neste quadrante, os anéis de saturno, a nebulosa de Órion e as anãs-vermelhas perto do quasar oeste”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas afinal de contas, isso tudo acabou com um estrondo, ou com o tal de gemido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“ Ah, isso não sabemos...nunca iremos saber. Mas foi algo muito, muito rápido.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alguma coisa tipo Zaaap?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Exatamente. Zaaap!”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-2009829351660439259?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/2009829351660439259/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2011/01/zaaap-marcel-citro.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2009829351660439259'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2009829351660439259'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2011/01/zaaap-marcel-citro.html' title='Zaaap! (Marcel Citro)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-4374994962593834295</id><published>2010-12-23T09:46:00.000-08:00</published><updated>2010-12-23T09:46:14.381-08:00</updated><title type='text'>O assessor (Guilherme Castro)</title><content type='html'>Antes de conhecer o doutor Herculano, meu ofício era tomar mate com halls na praça, todo santo dia. Acordava seis, seis e meia, punha a chaleira no fogão, limpava a bomba com um grampo espichado, deixava a erva inchar na cuia, tudo preparado pra ver o Bom Dia Rio Grande tranquilo; oito, oito e meia, saía. Até a praça dava o quê?, quatro, cinco quadras. Passava na padaria e comprava um pacote de halls preto - gosto de chupar halls e tomar mate, dá um choquezinho dentro da boca que é bem bom -, daí tomava meu mate olhando o movimento. Quando não tinha mais bala pra chupar, ia pra casa. Fritava um bife, cozinhava arroz, almoçava tranquilo. Matava duas cumbucas de arroz-de-leite e voltava à praça. Tudo normal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Defronte à Câmara de Vereadores de Canoa Branca tem um banco, ali eu sentava. Via a chegada dos vereadores, quando tinha sessão. Quando não tinha, assistia a chegada dos funcionários, dava no mesmo; importante importante era o movimento. Certo dia, o Beto, um vereador que fazia questão de ir de bicicleta pra Câmara – tá que o partido proibisse mostrar carro na frente da Câmara, mas ele que era exibido – me disse que o doutor Herculano queria gente pra Assessor. Não que precisasse de dinheiro, tenho uma casinha alugada que me basta, todo caso fui até o gabinete do doutor e perguntei sobre esse negócio de ser Assessor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez uma cara de agora é que me lembro e me mandou ficar à vontade. Sentei. Abri a mateira. Sevei um mate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabes bater à máquina, Brizola?”. Me chamam assim pelas sobrancelhas, sempre esfiapadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Com um dedo, doutor”, fui sincero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Me conta das tuas experiências, então”, ele prosseguiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha... Ultimamente tenho mais é tomado mate na praça, doutor.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então és um AMH.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sou?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Analista de Movimento Humano”, me explicou o doutor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, claro”, achei interessante essa coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Joice, me tira um coelhinho da cartola, sim?”, pelo telefone, ele pediu à secretária, que logo apareceu com uma folha datilografada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Assina aqui, meu Assessor”, me disse ele, riscando um xis no pé da página &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Termo de Posse, dizia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assinei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora espera que eu te chamo, tá?”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria saber do salário, quanto era, mas como ele não tocou no assunto, e nem eu, ficou por isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei à praça, tinha a térmica ainda pela metade, isso dava o quê?, cinco, seis mates.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Dia seguinte: seis, seis e meia, acordei. Aqueci água, pus erva pra inchar, limpei a bomba, Sidney Sheldon na mateira; pra mim, escritor é Sidney Sheldon; vi o Bom Dia Rio Grande tranquilo: ia chover em Pelotas. Bom, oito, oito e meia, saí. Tudo normal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei no banco e logo vi o doutor Herculano chegar à Câmara. Gritei: “Ô, chefe!” Com as mãos, me mandou esperar; o portão, que fechava sozinho, me foi retirando o doutor de vista. Pensei: bom, mas que sou Assessor, isso eu sou, pra mim papel assinado é o que conta. Segui tomando meu mate e chupando halls. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um mês, mais ou menos, eu gritei ô, chefe! quando via o doutor chegar à Câmara; e ele, com as mãos, me dizia: calma, Brizola! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, tomava meu mate e lia Sidney Sheldon bem na parte dum incêndio alucinante quando ouvi ele me chamar. Fui até o gabinete. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Grande Brizola!”, me recebeu com festa. “Joice, traz uns coelhinhos, sim?”. A Joice trouxe. Três. Desenhou o mesmo xis no pé das folhas: Folha-ponto, dizia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Assina aqui, meu Assessor!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assinei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E aqui.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assinei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mais aqui”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo assinadinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Te chamo em seguida, fica tranquilo”, ele disse, e já me deu as costas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas continuei ali, parado, esperando alguma ordem, sei lá, alguma coisa. Então ele tapou o bocal do celular e disse vai embora com outras palavras: “fica tranquilo!”, foi o que ele disse. De fato fiquei, pra mim papel assinado é o que vale, e nesse dia assinei três coelhinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Não sou de me queixar, mas teve a primeira vez. É que fim do mês recebia em casa dez pacotes de erva-mate e cinco de halls como salário; conseguia me manter o quê?, vinte, vinte e um dias, nem isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui ao gabinete. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá me faltando erva, doutor”, desembuchei, todo corajoso. Foi mais fácil que pensei: me deu um aumento na hora; fecharia os trinta e um dias folgado; a partir daí, mês de trinta sobrava o quê?, um pacote inteiro de erva. Ganhando mais, hora de mostrar trabalho, pensei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gravador eu já tinha, um portátil da Gradiente; o crachá, mandei imprimir colorido na Canoa Press. Ficou assim: AMH em cima, Assessor embaixo, num canto a minha foto três por quatro de terno e gravata. A partir daí, se perguntassem qual era o meu ofício, eu respondia: sou Assessor do Doutor Herculano, e ainda mostrava o crachá pra quem não acreditasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Um dia o doutor mandou dizer pelo Beto que era pra eu me tocar a Pelotas. Me entregou um celular e uma cartola cheia de coelhinhos. Missão de Estado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cueca, meia, camisa, calça de brim, japona, três ou quatro potes de Minancora – pra mim, desodorante é Minancora -, joguei tudo na mala; a mateira já carregava, e o crachá: raramente tirava do pescoço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mando teu salário pelo ônibus, fica tranquilo”, me disse o Beto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei no Embaixador. O ônibus não passava de oitenta, isso dava o quê?, três horas, três horas e meia até Pelotas. Ultrapassado o pórtico de Canoa Branca, os campos de arroz surgiram no para-brisa, um verde uniforme lindo de se ver; nessa hora senti pena de, por causa do meu novo ofício, ter de sair de lá, eu que só deixei a cidade uma vez, quando precisei trazer uma tia-avó de Camaquã e fui dar em Jaguarão. Todo caso, vida de Assessor é assim, dura, devia eu desconfiar. Passando o Texaco, fechei a cortina, começava eu a sonhar e um piparote do cobrador me acordou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já estamos chegando?”, perguntei, meio dormindo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai pra onde, Brizola?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pelotas”, respondi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nem do Taim passamos”, ele respondeu. “São vinte reais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O doutor havia me dado o quê?, cem, cento e vinte, mais umas quantas bolsas de supermercado com erva e halls. Um adiantamento, exigência minha. Paguei os vinte e virei pro lado. Tranquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Pelotas, como toda cidade grande, tem mais auto que gente. Na rodoviária é uma quantidade de táxi esperando, realmente, que tu pague uma fortuna pra meio-metro de corrida. Me nego. Mesmo. Dar dinheiro eu pra taxista? Saí a pé e achei o Naite Pelotense, um hotel em conta, pegado à rodoviária, bem bonzinho: quinze cruzeiros o pernoite, direito a café da manhã e tudo: pão torrado, café preto, iogurte e uma banana. (Quando que eu ia tomar iogurte, e de garrafinha?) Paguei dois pernoites adiantados à Baronesa, proprietária e moradora do Naite. No quarto, escondi a cartola mais a mateira dentro do boxe, por segurança. E fui dormir com o celular preso ao elástico da cueca, também por segurança; pânico de cidade grande. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seis, seis e meia, levantei. Crachá no pescoço, gravador com pilha nova que era pro relatório não desandar na minha primeira manhã pelotense. Não vi o Bom dia Rio Grande - no Naite só tinha rádio -, tomei café, iogurte, e escondi a banana na mateira, pra mais tarde. Oito, oito e meia, perguntei à Baronesa onde era a praça da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A mais próxima?”, me perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, tem mais de uma...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, daqui? Umas doze quadras”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisa muito complicada, e longe, quase que uma Canoa Branca inteira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvi relaxar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei na frente do hotel numa cadeira de praia. Sevei o mate. Logo a Baronesa abriu outra cadeira ao lado. “Posso?”, perguntou. E eu vou negaciar? Sevei um mate pra ela. Dia seguinte sevei outro. Fui sevando, sevando, todos os mates que ela pedia eu sevava. Às vezes colocava capim cidró na térmica, só porque ela pedia; tava em Pelotas mesmo... Nenhum conhecido vendo é a conta; porque pra mim, mate, só com halls. Mas tinha uns olhos puxados, a Baronesa, tinha uma boca graúda ela, uma bunda que me segurava pra não beliscar quando passava rebolando. A gente foi se conhecendo melhor e, no decorrer do quê?, mês, mês e meio, já chamava ela de Barô, só Barô. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com mulher no meio a coisa fica mais profissional, organizada, é inevitável isso. Foi ideia dela: passar a limpo e fichar os relatórios em pastinhas: por turno, dia, mês, ano. Foi ideia minha: fixar uma placa de bronze na frente do Naite: Unidade de AMH, dizia. Ela que pagou. Outra ideia, nossa: grampear cartões de visita nos recibos dos hóspedes, que, aliás, eram praticamente dois: seu Alexandre, vendedor itinerante de alpargatas, e eu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resgatamos uma escrivaninha de compensado abandonada no porão do Naite. Duas, três pinceladas de tinta branca, ficou como nova. Placa na parede, cartões na praça, unidade pronta. Tirei então da cartola uns quantos coelhinhos pra Barô assinar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que que é isso?”, perguntou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fica tranquila”, eu disse, “é coisa séria”. Beijei a testa dela. Ela amoleceu e começou a assinar, um por um, como uma boa fêmea deve ser, obediente. Todos devidamente assinados, tomei-lhe os coelhinhos e guardei na cartola. “Te ligo em seguida, minha Assessora”, disse, apressado, porque o Embaixador saía em quê?, uma hora, hora e meia no máximo. Saí a pé; táxi me nego.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-4374994962593834295?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/4374994962593834295/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/12/o-assessor-guilherme-castro.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4374994962593834295'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4374994962593834295'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/12/o-assessor-guilherme-castro.html' title='O assessor (Guilherme Castro)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-4935225159571476913</id><published>2010-12-09T10:16:00.000-08:00</published><updated>2010-12-09T10:16:00.614-08:00</updated><title type='text'>Calma, já vai passar (Augusto Britto)</title><content type='html'>Tudo começou quando ele disse que tava com dor, mas acho que a própria vida já dói tanto que aquilo me passou despercebido. Tá doendo, tá doendo, ele continuava repetindo todo dia, e eu, com pena – um pouco dele, um pouco de mim mesma –, dizia: calma, mano, já vai passar, toda dor uma hora passa. Essa frase era repetida constantemente lá em casa. Sempre tem alguém sofrendo, e o tempo sempre passa pra sarar uma dor que não sara nunca. Mas até há pouco eu acreditava que a dor sumia, que a gente um dia ia ser feliz, e por isso continuava repetindo que já ia passar, como conforto pra mim e pra ele. Quando ele disse que tava com dor pela primeira vez eu achei que fosse a dor do filho que vê seus pais se separando, e – como irmã mais velha – eu tentei cuidar dele, dar amparo e carinho. Mas quanto mais eu abraçava o mano mais ele reclamava de dor, e eu ficava sem saber o que fazer, perdida diante de toda aquela situação. O pai e a mãe brigando constantemente, e eu tendo que cuidar do mano, sem saber nem cuidar de mim mesma, que tinha tantas outras preocupações; mas eu tinha que esquecer de tudo, eu sabia, e proteger a gente como dava. Eu reparei um dia em um quadro que ele tinha posto no nosso quarto, e perguntei o que que era, e ele respondeu, é uma foto da Austrália, mana, o irmão do Pedrinho tá lá agora, é bem longe daqui e é tri bonito, e eu olhei pra ele e percebi o quanto ele tava sofrendo com tudo aquilo, como ele tava tentando fugir de tudo de todas as maneiras, e ele continuava, será que um dia a gente vai poder ir pra lá, mana, será que lá o pai e a mãe vão conseguir parar de brigar?, e eu fiquei sem reação; quis dizer o que eu achava, que tem coisas impossíveis, que tem lugares – e sonhos – inalcançáveis, mas silenciei; não podia falar isso pra ele, eu tinha que cuidar dele e dar esperanças, por isso eu respondi, um dia a gente pode ir pra lá, mano, não sei se a mãe e o pai vão, mas eu te prometo que um dia eu te levo pra lá. Eu abracei ele forte, como única coisa que eu podia fazer, e ele de novo repetiu a reclamação, tá doendo, mana, tá doendo muito, e eu, já sem voz e soluçando, disse, vai passar, mano, tudo passa. A gente sempre foi muito unido, mas naqueles últimos tempos a gente tava muito mais próximo, porque ficava sempre nós dois sozinhos, abraçados, enquanto o pai e a mãe brigavam, e eu tentava tapar o ouvido do mano ou falar qualquer coisa pra ele não ouvir nada, mas eram gritos muito altos da mãe, eram berros incessantes do pai, e a gente ficava ali, sofrendo, sozinho. Nossa amizade se intensificava a partir do sofrimento que aumentava e aumentava e não parava nunca, apesar da frase sempre latente de que a dor passa, e que tudo ia passar. Quando o pai e a mãe começavam a discutir sem parar eu levava o mano pra passear, a gente ia no cinema, tomar sorvete, caminhar, só pra tentar fugir um pouco daquilo tudo, mas nunca dava pra fugir, ele sempre perguntava por que que isso tava acontecendo, por que o pai e a mãe tavam brigando tanto, e eu nunca sabia o que responder. E ele cada vez mais falava que tava doendo, e eu me irritava, porque tava doendo em mim também, mas eu tinha que ser forte e aguentar por nós dois, porque eu era mais velha e me sentia responsável. Mas minha força era abraçar ele e tentar não chorar, pra depois chorar sozinha e sofrer sem ter ninguém pra me ajudar, porque a mãe tava já sofrendo muito com a separação, e não queria saber de ninguém, muito menos do pai, aquele filho da puta que me traiu todos esses anos, ela dizia, e me deixou aqui tendo que cuidar de vocês sozinha, mas eu já tinha idade pra perceber que não era bem assim, que ela não tava cuidando da gente, que na verdade eu tava sozinha com o mano e a gente era quem mais sofria por causa de tudo aquilo. E no final de todos os dias era assim: eu e o mano chorávamos sozinhos e unidos, ouvindo a mãe gritando do quarto ódios pra sala e pro pai, que mandava ela calar a boca e dormir, porque no outro dia ele ia ter que acordar cedo e trabalhar pra sustentar a gente, e a resposta da mãe ele nunca ouvia, porque era uma resposta doída em lágrimas e gemidos, e porque o pai nunca foi bom em ouvir o que se fala baixinho. E o mano sempre antes de dormir repetia, tá doendo, mana, tá doendo, e eu às vezes fingia dormir e não respondia, outras vezes abraçava ele, porque achava que isso era só o que eu podia fazer. Eu me sentia tão impotente e abandonada e infeliz e confusa que não me dei conta de que eu podia fazer alguma coisa. Mas logo eu, uma guria de dezessete anos, que sofria tanto com tudo o que tava acontecendo, que tinha que pensar no que eu ia fazer da vida, em como passar em medicina no vestibular, em como me ajudar, tinha que ajudar o mano, dar carinho pra ele, e ainda mudar alguma coisa? Não tinha como eu mudar nada. Já tá dormindo, mana?, ele me perguntava, e eu ouvia que ele não conseguia não chorar, mas eu não falava nada: queria dormir, queria estar dormindo. Mãe, o mano tá com dor, ele não para de reclamar, eu falava pra ela no almoço, o único momento em que eu podia falar com ela, mas eu ouvia sempre a mesma resposta, agora não, eu acabei de acordar, tou com dor de cabeça, outra hora a gente conversa. Era fácil pra ela falar aquilo, não era ela que ouvia ele reclamar o dia inteiro de dor, não era ela que tava sofrendo por ver ele sofrendo, não era ela que pensava nele, que tinha que sair do cursinho no meio da tarde pra ir buscar ele no colégio porque ele tava com muita dor – assim eu não ia nem ter chances de passar em medicina, a mãe sabia, mas parecia que ela não dava bola, parecia que só existia ela e só ela que tava sofrendo –; não era ela que via ele chorando e não podia fazer nada, e chegava no colégio dele pra ouvir da diretora que ele tava com muita dor na perna, que era melhor levar ele no médico, eu, com dezessete anos, que tinha que estudar pro vestibular, buscar e levar ele no colégio, sair com ele, cuidar dele e ainda por cima sofrer, como é que eu ia fazer tudo isso?, mas a diretora não tava mais ouvindo, ninguém tava ouvindo, e o mano tava chorando muito, dava uma pena, e mesmo assim eu não podia fazer nada, e só naquele momento que eu olhei pra ele e vi que ele tava magrinho, que ele parecia tá sem forças. Por que tu não disse que a dor era na perna, guri?, eu perguntei irritada, mas depois me arrependi, porque o coitado do mano tava sofrendo muito, dava pra ver, e eu tinha que cuidar dele, e não colocar a culpa nele, e quando ele disse, porque eu não queria te incomodar, eu chorei e não soube mais o que fazer, porque vi que na verdade era ele que tava cuidando de mim esse tempo todo, e disse, desculpa, mano, eu vou te levar pro médico, tudo vai passar, tudo passa, daqui a pouco tu vai tá bem de novo, tudo vai dar certo, mas eu falava aquilo sem convicção nenhuma, porque eu aos poucos tava me dando conta de que talvez a dor não passasse nunca: que talvez a vida fosse mesmo doída desse jeito, pra sempre. A gente chegou em casa e o pai e a mãe tavam brigando, mas o mano era mais importante que a briga infinita deles, por isso eu tentei interromper, disse, mãe, pai, mas eles me mandaram calar a boca, disseram que era pra gente ir pro quarto ou sair de casa, pra eu levar o mano pra algum lugar, mas eu disse que não dava – eles não queriam ouvir –, não dava – eles não queriam ouvir –, não dava, e eu já tava quase chorando quando eles perceberam que tinha alguma coisa errada, e eu falei gaguejando que o mano tava com dor, que algum deles ia ter que nos levar pro hospital, e eles fizeram silêncio quando eu disse essa palavra. Dava pra ver que eles não sabiam o que fazer – acho que eles nunca souberam o que fazer. Eu levo vocês, o pai disse, tá tudo bem contigo?, ele perguntou pro mano com uma indiferença que me assustou, e aquilo tudo me doía cada vez mais, especialmente quando o mano respondeu tranquilamente, tá, pai, se tu não quiser me levar agora não precisa, pode acabar de conversar com a mãe, não quero atrapalhar vocês, e aquela consciência e lucidez do mano me atordoaram, e eu olhei com nojo pro pai e pra mãe e não soube de onde ele tinha tirado aquele respeito, porque eles nunca tinham pensado senão neles mesmos, e eu senti asco quando o pai respondeu, não tem problema, vamo lá, a conversa com a tua mãe já acabou, como se só por causa da incomunicabilidade dos dois ele ia ser pai e pensar na gente. No carro eu fui atrás com o mano, como se o pai fosse só o motorista mesmo, como se fosse só nós dois no mundo e a gente fosse enfrentar tudo sozinhos – sempre sempre sozinhos –, mas apesar da solidão eu já me sentia melhor, a gente tava indo resolver aquele problema, e quando o mano colocou a cabeça no meu peito e disse baixinho, pra que só eu ouvisse, tá doendo, mana, eu abracei ele com amor e respondi, calma, mano, a gente tá indo pro médico, ele vai te curar, tudo vai passar, já, já, repetindo sempre a mesma ideia desgastada, mas que naquele momento me pareceu – mais do que nunca – verdade, e deve ter parecido pro mano também, porque ele deu um sorriso, e a gente ficou ali, sabendo que tudo ia passar, que a dor ia enfim passar. Quando a gente chegou no hospital, o pai foi direto falando que queria um médico, porque o filho dele tava com muita dor e não podia esperar mais, e eu fiquei pensando se era o mano que não podia esperar mais ou ele que queria que tudo acabasse logo pra poder voltar pra casa de uma vez. É só preencher a ficha e aguardar, a mulher disse, e eu logo entendi que quem ia preencher a ficha era eu, e o pai falou mesmo, preenche essa ficha que eu vou no banheiro, filha, e se virou pro mano e passou a mão na cabeça dele e disse, pode ficar tranquilo, filhão, o médico já vai nos chamar, e saiu e deixou a gente ali, sozinhos. O ambiente era tenso, e eu comecei a ficar aflita, parecia que tudo exalava dor, e isso deve ter lembrado o mano da dor dele também, porque ele disse, tá doendo, tá doendo, e eu respondi que já ia passar, que eu ia preencher a ficha e o médico ia nos chamar a qualquer momento, que tudo ia ficar bem, só que dessa vez a ideia me soou ridícula e falsa, mas era a única que eu sabia e podia falar, e eu tinha que dar segurança pra ele, mesmo que eu me sentisse a pessoa mais insegura naquele momento, e eu disse, senta aqui, mano, eu vou entregar a ficha pra moça ali, e fui, enquanto o mano ficou quietinho, e quando eu virei pra trás me deu uma pena de ver ele sozinho e corri pra poder voltar logo pra ele, porque ele só tinha a mim, eu não podia decepcionar o mano, eu tinha que cuidar dele, e eu voltei e abracei ele, e logo depois o pai voltou, e depois mais o médico nos chamou, e eu tava agoniada com aquele hospital e aquela gente doente indo de um lado pro outro, e a minha vontade foi de ir correndo, mas o mano tava com dor, por isso a gente foi devagarinho, e eu falei como que falando pra mim mesma, não precisa ter pressa, se for pra ficar bem a gente pode esperar o tempo que for, não tem problema, mas não tava tudo bem, eu sabia, e o médico examinou o mano e disse que ele ia ter que fazer uma radiografia pra ver o que que tinha acontecido, e eu acompanhei ele, sempre em silêncio, eu e ele, e o pai ficou perguntando sem parar coisas inúteis pro médico – acho que foi só naquele momento que ele se deu conta de que tinha um filho e que ele tava doente. O mano fez a radiografia e a gente ficou sentado esperando o resultado, sem saber o que esperar, e eu tava com muito medo, e abraçava o mano, eu e ele sentados, e o pai ali, de pé, e eu percebi que ele tava louco por um cigarro, mas agora devia tá com vergonha de deixar os filhos sozinhos, tava andando de um lado pro outro, como que um acompanhante somente, um motorista, porque a dor não tava nele, ele tava sofrendo só agora, a dor tava no nosso abraço, no mano, na perna do mano, mas já ia passar, já, já, ia passar, só que ele não me perguntava mais e eu também não falava nada – o silêncio como um pacto, espantando o que não se quer ouvir. O médico nos chamou de volta, agora com a radiografia, e eu entrei na sala apavorada, e acho que o mano percebeu, porque ele apertou forte a minha mão e disse, agora a dor vai passar, mana, a gente vai voltar pra casa, mas logo quando a gente se sentou eu vi na cara do médico que não tava tudo bem, e quando eu vi uma radiografia, mesmo sem entender nada do que ali era mostrado, eu soube de imediato que as coisas não iam passar, que o mano ia continuar sentindo dor, e quando o médico falou em tumor eu fui fraca e chorei, e o mano, que não tava entendendo nada, disse, calma, mana, calma, e eu me senti pior ainda, porque era ele que me amparava e cuidava de mim de novo, e o pai perguntou, como assim tumor, doutor?, câncer?, e o médico respondeu que sim, que a princípio era o que mostrava a radiografia, que o mano ia ter que ficar ali internado pra no outro dia já fazer uma biópsia pra comprovar e ver com qual tumor especificamente o mano tava, porque não dava mais pra perder tempo, e eu ouvia aquilo tudo com dor, era uma notícia doída, e eu fiquei muito preocupada com o mano, porque ele não tava entendendo direito que que tava acontecendo, mas eu não podia explicar pra ele, não podia dizer, mano, tu tá muito mal, não, eu tinha que ser forte e passar confiança pra ele, mas já não sabia mais fazer isso, não sabia mais fazer isso, não sabia mais fazer nada. Por mais absurdo que pudesse parecer nos falaram que a gente tava com sorte, porque naquela noite tinha um quarto vago pro mano ficar. O pai tava completamente atordoado, não sabia o que fazer, e eu ia resolvendo tudo enquanto ele ficava feito um abobado do meu lado, e já no quarto eu me irritei, pai, liga pra mãe e avisa tudo pra ela, vai lá fora que aqui pega mal o celular, eu queria era ficar a sós com o mano, e o pai foi correndo, certamente louco pra fumar um cigarro e pensar no que tava acontecendo, e foi bom, porque ali ele não ia ajudar em nada, e pelo menos ele se dava conta do problema do mano, e a gente ficou sozinho ali, e eu não sabia o que falar, até que o mano falou, relaxa, mana, a dor já tá diminuindo, e era ele de novo cuidando de mim, eu não podia admitir isso, e eu dei a mão pra ele sem saber como ajudar, como amparar ele, eu, tão angustiada com aquilo, e só consegui dizer, desculpa, mano, e ele ficou em silêncio, e eu chorei naquele quarto de hospital que me sufocava, que nos sufocava, e o mano chorou também, e éramos nós dois, sozinhos, chorando diante daquela situação cada vez mais doída, e ficamos nós dois um esperando que o outro dissesse o que nós dois queríamos tanto ouvir mas ninguém dizia: nada passava, nada ia passar, e a gente tinha medo dessa certeza, e o pai logo depois voltou com a mãe, e os dois entraram chorando e abraçando o mano, e eu imaginei uma cena em que dois pais disputam amor em beijos e abraços, querendo cada qual se mostrar mais doído com a dor do filho, se importando sempre com aquela briga que não acabava nunca, enquanto o mano – e eu chorava só de pensar nisso – talvez acabasse, e como era injusto tudo aquilo que acontecia naquele quarto, e eu me irritava e queria logo que eles fossem embora e nos deixassem os dois ali, como sempre sozinhos, e eu odiava eles naquele momento, colocava a culpa de tudo neles, que tinham me impedido de ver tudo antes, mas também sentia uma culpa doída em mim e pedia desculpa, desculpa, desculpa pro mano sem dizer, só apertando a mão dele e olhando bem no fundo dos olhos molhados de lágrimas dele, e aquele retrato era um retrato doído, cuja dor eu sabia que não se extinguiria nunca. Quando tava acabando o horário de visitas uma discussão se instalou no quarto – uma discussão que pela maneira com que era travada já há muito vinha sendo ensaiada: quem dormiria no hospital?, só que a resposta pra mim o pro mano era óbvia, não tinha como ser diferente, mas pro pai e pra mãe não, e parecia que a discussão não era só pra responder a pergunta, era pra responder quem era o melhor pai, mas o mano – com uma sabedoria que me deixou atônita – entendeu isso, e quis logo resolver tudo, não precisam discutir, eu quero que a mana fique, ele disse, e eles me olharam como que se dando conta da obviedade da questão, como que se dando conta de que eles ali não ajudariam em nada, mas isso eles não devem ter pensado, eles nunca pensavam, e saíram mudos, e ficamos, de novo, eu e o mano, sozinhos, pra encarar mais uma noite doída de choro, mas que ia doer muito mais que qualquer outra noite, e eu sabia que eu não ia conseguir dormir, mas tentei pelo menos fazer com que o mano dormisse, ia ser bom pra ele, mas ele não parecia com sono, e mesmo assim eu apaguei as luzes e deitei no sofá dando boa noite pra ele, mas logo depois – ele sabia também que eu não ia dormir nem ia fingir que dormia – ele perguntou, mana, sabe o que que eu tava pensando?, e eu tive medo de perguntar por uma resposta que eu não sabia qual era, mas sabia doída, no quê?, eu perguntei finalmente, e ele respondeu, tava pensando que a gente podia ir pra Austrália quando eu sair do hospital, o Pedrinho me disse que o irmão dele falou que lá é tri legal, e eu abafei meu choro no cobertor, e ele continuou, que que tu acha, mas deve ter se dado conta de que eu chorava, porque ficou em silêncio por um bom tempo esperando uma resposta que eu não sabia qual, mas eu tinha que responder, e falei, sim, mano, tá combinado, quando a gente sair daqui a gente vai, cuidando pra não revelar tristeza na voz, e ele disse, e a gente vai poder surfar lá, mana?, quando eu melhorar da perna eu vou querer surfar lá, porque parece que lá é tri bom de surfar, e eu respondi que sim, mas que por enquanto o melhor era dormir pra ficar bem descansado pro outro dia. E no dia seguinte cedo vieram pro nosso quarto pra levar o mano pra fazer o procedimento, e eu fiquei apreensiva sozinha, sentindo falta da companhia dele e temendo a falta que eu fazia pra ele, e o médico depois veio nos informar – pro pai e pra mãe, que tavam ali de novo – que o resultado ia sair em no máximo dois dias e que ia dizer exatamente qual o tumor que o mano tinha e a partir disso o tratamento que ia ser feito, e aquelas quarenta e oito horas foram absurdamente desgastantes, nós, que há muito esperávamos que tudo passasse, sabíamos que quanto mais o tempo passava mais tudo piorava, e tínhamos medo do resultado que ia chegar, e eu fiquei o tempo todo com medo, esperando, e não pensei em momento algum em tudo que tava me fazendo sofrer antes, porque quando acontece uma coisa assim a gente revê o que nos dói, e a mãe ficava ali toda hora também, saía só de noite, e o pai ia sempre que podia, quando não tava trabalhando – ou com a vagabunda, a mãe continuava repetindo, mas nem eu nem o mano dávamos bola mais – e eu chorava frequentemente, e o mano também tava sofrendo muito, aqueles dias foram horríveis como nenhum outro dia tinha sido antes, apesar de todas as dores doídas até então, e quando o médico chegou com o resultado as batidas do meu coração emudeceram qualquer palavra que eu pudesse querer falar, e eu escutei quieta ele falando que o tumor era agressivo, que se chamava Sarcoma de Ewing, e que era um tumor ósseo de péssimo prognóstico, e que, como tumor agressivo, o tratamento também tinha que ser agressivo, e que portanto, como o tumor tava localizado na tíbia, ele ia ter que amputar a perna do mano pra poder tratar e retirar o foco do tumor, tentando impedir uma metástase que era extremamente perigosa, e a mãe ouvia tudo aquilo como se só agora entendesse que o filho dela tava morrendo, e eu ouvia aquilo quieta, impotente até pra falar, estática, e o mano não entendia direito, porque ele perguntou chorando, eu vou perder a perna, mana?, e o médico disse que sim, que ia ter que amputá-la assim que desse, e que depois o mano ia ser encaminhado para um oncologista pra iniciar a quimioterapia, e o mano não parava de chorar ouvindo aquilo, e eu abracei ele e depois a mãe nos abraçou, e o médico saiu nos deixando ali, completamente abatidos, e foi nesse momento que o pai chegou e voltou toda a choradeira, e eu não queria que aquilo acontecesse, ninguém queria, mas tinha que ser, e a gente ficou no quarto – o sofrimento em um abraço unido – esperando algum milagre, mas não veio, veio só o médico no dia seguinte falando que a sala de operação já tava pronta, que ele ia ter que ser levado pra fazer o procedimento, e aquilo tudo era muito doído, eu tava chorando muito, e ele foi, enquanto a gente ficou numa sala de espera, esperando não sei o quê, porque nada significava mais nada naquele momento, eu não sabia mais o que fazer, e o médico voltou pra falar que a operação já tinha sido finalizada e que em breve a gente ia poder entrar na sala de recuperação, que era onde o mano tava, por um tempo, só pra ver como ele tava, falar um pouco com ele, e aquele tempo era só angústia, e eu só vi que o tempo tava passando quando o médico voltou e falou que se a gente quisesse a gente podia entrar na sala de recuperação agora, e a gente entrou lá pra ver ele sem a perna, sem a perna, sem a perna, e a gente não sabia como reagir, eu tentei transmitir confiança, mas a quem eu queria enganar?, tudo era horrível, ele tava morrendo, ia morrer, e eu chorava muito, a dor não passava pra ninguém, só piorava, era tudo mentira, tudo falso, e o mano me chamou pra perto e sussurrou no meu ouvido que tava doendo, que continuava doendo, e eu perguntei onde, e ele respondeu que continuava doendo a perna, a perna que tinha sido amputada continuava doendo e que tava doendo muito, muito mais do que antes, e eu olhei pra ele e sofri, porque não consegui falar pra ele o que ele queria tanto ouvir, não tive coragem de dizer que já ia passar, que toda dor uma hora passa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-4935225159571476913?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/4935225159571476913/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/12/calma-ja-vai-passar-augusto-britto.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4935225159571476913'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4935225159571476913'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/12/calma-ja-vai-passar-augusto-britto.html' title='Calma, já vai passar (Augusto Britto)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-5427229785731537176</id><published>2010-11-25T08:42:00.000-08:00</published><updated>2010-11-25T08:43:37.761-08:00</updated><title type='text'>Pequenos milagres (Berenice Rheinheimer)</title><content type='html'>Não podia evitar: tinha pavor de aves. Pombas, patos, araras, sabiás ou flamingos; não importava o tipo, o fato é que padecia deste medo há muitos anos, como se sua própria existência dependesse de manter distância das penosas. Tentou, sem sucesso, algo que lhe ajudasse a encontrar a coragem perdida há tantos anos. Fez análise, tomou florais, submeteu-se a simpatias e até freqüentou um terreiro de candomblé, tudo sem resultado. Seu pânico continuava tão inabalável, que Celeste acabou por seguir o conselho do último terapeuta, de aceitar e conviver com seus temores. Era complicado, precisava evitar os parques, vitrines de pet shops e até propagandas de televisão, sequer a imagem de um pássaro conseguia suportar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi consciente de suas limitações que pisou no terraço naquela manhã. O assombro era maior que o medo. Precisava saber o que era aquilo se debatendo na piscina suja. Celeste herdara a cobertura, mas por seus hábitos noturnos, motivados pela fobia, quase não usava a parte externa do imóvel. Ali jaziam vasos, desprovidos de qualquer verde, plenos de terra seca que levantava vôo com facilidade, criando poças barrentas ao menor chuvisco. Junto ao deck de ardósia encardida, havia uma pequena piscina, mantida com água apenas para não danificar a fibra, a qual Celeste mandava limpar uma ou duas vezes por ano. Por este motivo, o corriqueiro era que a água se encontrasse verde e mal cheirosa. Sob a luz mansa de um dia nublado, Celeste teve dificuldade em distinguir o que se lamentava na água rasa e apodrecida. Viu que era um negro, muito escuro, de tez quase azulada, caído de lado e apesar de seu empenho, não conseguia levantar-se, porque não equilibrava suas grandes asas. Parecia um mendigo de cabelos muito brancos e olhos de catarata. Suas asas imundas boiavam no charco repleto de limo em que a piscina havia se transformado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celeste rendeu-se ao impossível, tinha de admitir tratar-se de um anjo. A possibilidade do divino não amenizava o inconveniente: havia penas espalhadas por todo deck. Com esforço, o anjo conseguiu erguer-se um pouco e sentar na borda da piscina, o que fez Celeste gritar. Alheio, não tomou conhecimento da presença dela, e falou. Pronunciou algo que ela não pode compreender, talvez uma língua antiga, a voz rouca e mansa de anjo confabulando. Refeita da surpresa, compreendeu que era necessária uma atitude. Pegou a peneira da piscina e cutucou a criatura, enxotando-a. Só conseguiu fazê-lo porque entre ela e o anjo havia a longa distância do comprimento da haste de alumínio. O máximo que logrou, para seu desespero, foi fazer o anjo bater as asas peladas, perdendo o pouco de penas que lhe restavam. Ela decidiu entrar, estava atrasada. Talvez ao longo do dia, aquilo (seria mesmo um anjo?, perguntou para si mesma) desaparecesse. Ele não surgiu do nada? Então o fenômeno podia repetir-se. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final do dia, na entrada do edifício, o síndico a esperava com o semblante contrariado. Reclamou da água escura que respingou durante roda a tarde, sujando os vidros dos andares inferiores. Ignorou quando Celeste tentou falar da inesperada visita, apenas frisou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vazamentos dentro do imóvel são de responsabilidade do condômino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celeste praguejou, irritada com a inutilidade de um anjo sem milagre, entrou em casa decidida a seguir as orientações da vigilância sanitária. Orientações antes negligenciadas, mas agora tinha a esperança de que o aversivo usado para espantar os mosquitos da dengue pudesse também afastar o anjo. Então jogou dez quilos de sal grosso dentro da piscina. Tinha muitos pacotes em casa: cada vez que recebia uma notificação, comprava os dois quilos de sal recomendados, mas adiava as saídas no terraço, esquecendo-se de usá-lo. Assim como com os cutucões, num estupor de peru, o anjo ignorou Celeste. Ela começou a chorar, gritando xingamentos nada devotos, e furiosa, não percebeu a ausência do medo quando algumas penas voaram em redemoinho. Resolveu dormir um pouco, no outro dia poderia pedir auxílio a algum religioso: reverendo, professor de catequese ou, talvez, alguém da Universal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após poucas horas de sono desassossegado, acordou preocupada. E se aquilo resolvesse entrar no apartamento? E se chamasse outros como ele, saídos de algum tipo de geriatria do reino dos céus? Andou até a sala e espiou pelo vidro, o anjo continuava sentado no deck, as pernas penduradas dentro da piscina e as asas desplumadas jogadas no piso. Num destempero típico da madrugada, Celeste lançou para perto da piscina três frascos acesos de Jimo fumegante. A única conseqüência foi fazer o ser alado tossir e espumar. Arrependida, Celeste estava a ponto de chamar a Eco Salva, quando os estertores do anjo diminuíram. Bastou que ele, com a mão em concha, lavasse o rosto na água escura. Depois, iniciou um ritual como quem se benze, o tronco e as asas num balanço ritmado, molhava os dedos na água e passava-os pela testa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vencida, Celeste voltou a se deitar, aceitando o que o céu lhe impunha. Se fosse o caso de ter um anjo domesticado, qual outra solução, senão aceitar? Com o passar dos dias, acostumou-se com a presença de mais alguém em casa, mesmo que o anjo permanecesse alienado. Alimentava-se de larvas crescidas na piscina, também de pequenos insetos ou trevos e outras ervas daninhas que insistiam em brotar da terra seca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda semana ela capitulou e ofereceu a ele uma cesta de frutas, e como prova definitiva sua rendição, um envelope com sua matrícula no curso de esperanto. Contou ao anjo que começaria a frequentar as aulas na semana seguinte. Ele a olhou pela primeira vez e deu-lhe um sorriso de dois dentes. Celeste sentou-se no banco de madeira, já sem verniz. Não se lembrava de ter passado mais de cinco minutos no terraço na última década. Viu no tronco que fora uma palmeira, uma orquídea pronta para florir. Olhou o pergolado vazio e sentiu falta da lágrima- de- cristo de antigamente. Os vasos de temperos ainda tinham as placas pintadas por sua mãe. Celeste fez questão de olhá-las de perto: hortelã, alecrim, manjericão. Teve saudades dos aromas de sua infância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu com pressa e voltou carregada de mudas de flores, sementes de ervas aromáticas, adubo e um grande regador. Sob o olhar do anjo, pôs-se a repovoar os vasos, disposta a restituir a vida do lugar. Ainda tinha guardados os bebedouros de beija- flor de seu pai: pendurou-os, e também as casinhas de madeira que as curruíras ocupavam na primavera. Descobriu duas bromélias sobreviventes e, em cima da treliça que um dia sustentou uma buganvília, um ninho de sabiás. A fêmea trazia no bico a refeição dos filhotes, uma minhoca ainda se contorcendo. Satisfeita com os pequenos milagres do cotidiano, afastou-se para permitir que a mãe alimentasse a prole, enquanto ela se punha a adubar as mudas recém plantadas. Viu que o anjo se movimentava. Num arrastar de asas ele suspendia o regador, ajudando Celeste em sua tarefa de cuidar das folhagens.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-5427229785731537176?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/5427229785731537176/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/11/pequenos-milagres-berenice-rheineimer.html#comment-form' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5427229785731537176'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5427229785731537176'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/11/pequenos-milagres-berenice-rheineimer.html' title='Pequenos milagres (Berenice Rheinheimer)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-3759996592003056518</id><published>2010-10-28T10:10:00.000-07:00</published><updated>2010-10-28T10:10:13.997-07:00</updated><title type='text'>Travessia (Gustavo Grandi)</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;“I do desire we may be better strangers.”&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(William Shakespeare: As You Like It)&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cleide sorria enquanto os desconhecidos rapazes da loja entravam na casa carregando a geladeira nova. “Pode deixar aqui mesmo, ainda preciso limpar o lugar onde ela vai ficar.” O carregador concordou com a cabeça, atento aos movimentos loiros do cabelo de Cleide. “Bonita”, comentaria depois com o colega. Sebastião não estava em casa. A mulher recebeu a entrega, assinou e despediu-se dos carregadores acenando com o pano de prato. Depois sentou-se num banco da cozinha e ficou olhando para a geladeira, imaginando o que faria com cada compartimento. “Deve ser o dobro da outra”, pensou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A outra, a geladeira velha, já estava no pátio quando chegou a nova. Ainda funcionava. “E o que fazemos com ela?”, perguntara Cleide ainda na loja, enquanto escolhiam. “Vai ser um presente para a tua mãe”, respondera Sebastião. A mãe de Cleide morava sozinha do outro lado da rua, recebendo assim visitas freqüentes do casal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela manhã, Sebastião acordara mais cedo para arrastar sozinho a geladeira velha até o portão. Chegou atrasado no emprego: a tarefa lhe tomou o dobro do tempo que tinha planejado. Entre suas vendas, pensou algumas vezes na aquisição, no tempo que passaria pagando as prestações, na excitação da esposa quando fecharam a compra. Quando chegou em casa, ela o recebeu no portão. “Veio?”, perguntou. “Veio”, respondeu Cleide procurando o brilho verde nos olhos do marido. “Um negrão de olhos verdes”, dissera para a mãe logo que se conheceram. Depois do estranhamento, a sogra aprovara o genro, dizendo à filha que o havia imaginado pelo menos um palmo mais alto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A geladeira velha repousaria no pátio por aquela noite; no outro dia atravessaria a rua para ocupar a garagem da mãe de Cleide. “Falo com o Walmor”, disse Sebastião. “Ele me ajuda a carregar.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, vestiu-se e foi direto à casa ao lado interromper o chimarrão solitário do vizinho madrugador. “O senhor não me ajudaria a atravessar a rua com a geladeira, seu Walmor?”, pediu depois de dar bom-dia. “Muito pesada?”, perguntou o militar, sério, enquanto livrava-se da cuia para poder apertar as juntas dos dedos grossos. “Trabalho para dois”, sorriu Sebastião. “Te ajudo sim”, declarou Walmor. E, cruzando os braços: “Pode ser no fim de semana?” Sebastião tinha pensado em resolver isso já hoje, mas disfarçou e respondeu sorrindo que “Claro, não tem pressa, quando o senhor puder.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;“Vivere per sempre&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;Ci vuole coraggio&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;Datti al giardinaggio&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;Dei fiori del male”&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(Baustelle:Baudelaire)&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Quando Sebastião e Cleide se casaram e compraram a casa naquela rua, Walmor e a família já moravam ali havia muito tempo. O tenente aposentado, um descendente de alemães nascido no interior, morava na cidade desde os dezoito, quando entrou para o quartel. Sua força física não vinha só do serviço militar: a enxada já lhe havia moldado os braços antes que deixasse o campo. Forte no corpo e conservador nas idéias, contrastava com o ambiente urbano como um broche de veludo contrastaria com a sua farda, hoje guardada no roupeiro, longe dos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua aposentadoria veio antes do esperado. O processo iniciara havia pouco tempo e já era a terceira vez que Walmor chegava em casa praguejando por causa do major que estava sempre embriagado. “Imagina que ontem eu tive que mandar o sargento descarregar a pistola dele, de medo que machucasse alguém”, dizia à esposa. “Como chegou a ser major é uma coisa que eu jamais vou entender.” Os comentários ficavam mais ácidos a cada dia, até a noite a em que o tenente Walmor entrou em casa em silêncio. A esposa lhe perguntou o que queria jantar. “Matei o major Aírton”, foi a resposta. O grito não teve coragem de ferir as cordas vocais da mulher e os tímpanos do marido. A confissão foi recebida pelo respeito das esposas prudentes. Resignou-se a entrar no quarto, fechar a porta e chorar em silêncio. “Legítima defesa”, dissera o mesmo sargento que tinha descarregado a arma do alcoólatra, única testemunha. “Ele entrou na sala cambaleando, pegou a arma e começou a brincar com ela apontada pro tenente.” Foi absolvido. Ainda assim, havia matado um superior, devia ser afastado do quartel. Aceleraram seu processo de aposentadoria, negando-lhe, porém, o aumento de salário que recebem os oficiais quando se aposentam. “Dois mil reais por mês”, disse Walmor à esposa. “Isso é o que me custou aquele gambá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos depois, mudavam-se para a casa ao lado Cleide e Sebastião. Iam-se embora os vizinhos antigos, gente que não se despediu de Walmor por causa de uma árvore de cinamomo. O tenente tinha um jardim, adquirira com a aposentadoria esse passatempo. Passava tardes inteiras envolvido com as plantas, ora cuidando com os dedos grossos das flores frágeis, ora martelando na escada ornamental de madeira. A mesma árvore que dava sombra para os antecessores do casal enchia de folhas e galhos o jardim do tenente. Ainda que a sujeira caísse do lado de cá, o tronco ficava do lado de lá do muro, fora do terreno do militar. Na quinta vez que tentou convencê-los a derrubarem a árvore, Walmor não conteve um soco que fez o vizinho cair batendo a cabeça no tronco que causara a discórdia. Dali até a mudança foram quarenta dias. Logo que viu o casal chegando, o militar foi falar com Sebastião, pedir permissão para cortar a árvore. Sebastião pensou na sombra, depois pensou que no futuro queria ter uma piscina e paz com os vizinhos. Passou a tarde seguinte ajudando Walmor e mais meia dúzia de militares a serrar através de um tronco que mal podia ser abraçado por duas pessoas. Fizeram uma pausa, e Cleide trouxe uma jarra de cerveja para os homens. Seu cabelo loiro brilhava como a bebida, pensou Sebastião, feliz. Orgulhava-se de perceber que os olhos daquele velho tenente alvejavam sua esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No próximo domingo, enquanto Walmor assava um churrasco para os filhos e netos, sua esposa pensava na prestatividade do vizinho novo. “Ele ficou a tarde inteira ajudando vocês?”, perguntou. O tenente confirmou. “Por que tu não dás um pouco de churrasco pro casal?”, perguntou a esposa. “Ele parece gostar de carne branca”, respondeu com um esgar. “Quê?” “Nada. Leva o espeto de frango pra eles”, respondeu o marido. A mulher obedeceu, mas a frase não a abandonou durante a semana que se seguiu. No outro domingo, quando os filhos já tinham ido embora, ela entrou na sala e encarou o marido. “Se ele fosse branco tu tinhas atirado?”, perguntou. Como resposta recebeu um tapa que a pôs deitada. Walmor saiu de casa e foi beber cachaça no bar. Durante as três doses, ficou sentado em silêncio, olhando para as mãos. Quando voltou, a esposa já dormia virada para a parede. Olhou para a mulher por um tempo, deu meia-volta e caminhou até o seu jardim. Sentou-se na escada ornamental entre as flores para apertar as juntas dos dedos grossos. Com a luz dos postes da rua, podia ver que o jardim não estava mais contaminado por galhos e folhas de cinamomo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Pela terceira vez na semana, o despertador arrancou Sebastião da cama antes do habitual. Era um sábado nublado, fresco. Foi novamente até a casa de Walmor e percebeu antes de bater palmas que o carro não estava na garagem. A esposa do tenente atendeu ao chamado. “Ele foi visitar a irmã”, gritou da janela. “Volta só à noite.” “Tudo bem”, respondeu Sebastião, convencido de ter visto indulgência na expressão da mulher. O sol se fora e Walmor não vinha. Foi só quando, deitado, tentava dormir, que Sebastião ouviu o barulho do carro entrando na garagem do vizinho, tarde demais para cobrar a ajuda prometida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relógio não precisou acordar Sebastião mais cedo no domingo. Dormira mal toda a noite, e quando amanheceu não fez mais nenhum esforço para adormecer novamente. Levantou-se da cama, vestiu-se e foi à casa de Walmor, passando pela geladeira que já estava ali havia quatro noites . “Ele foi à missa”, gritou novamente a mulher, desta vez com clara desaprovação da atitude do marido. Quando voltou, o tenente trazia sacolas de carne e um saco de carvão. Sebastião não teve coragem de interromper o rito dominical do vizinho. Ao fim da tarde, quando os filhos do militar foram embora, Walmor foi ao bar, desta vez para passar horas bebendo. Quando Sebastião o viu voltar, já de noite, mal conseguia caminhar. Ao ser cumprimentado por um berro ébrio, Sebastião se limitou a olhar para Cleide e dizer: “Amanhã eu peço para o Márcio.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Então saiu da cama na segunda-feira e foi comer uma laranja no quintal, sentado em uma cadeira de praia ao lado da geladeira, que começava a demonstrar sinais do tempo que passara ao relento. Esperava que Márcio, o vizinho do outro lado, saísse para o trabalho. Queria abordá-lo para pedir a ajuda que Walmor não lhe dera, mas em seus pensamentos nasceu também uma secreta esperança de que Márcio lhe oferecesse carona. Surgiu mirrada, fraca, e foi-se alimentando de lembranças em que Sebastião era sempre gentil com o vizinho, ainda que não se falassem muito. Na hora em que Márcio saía de casa, agitando com os dedos o cabelo molhado e pendurando o paletó no banco do carona, já não era mais uma esperança: tornara-se um mero reconhecimento de que qualquer outra postura seria rude. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da janela de casa, Cleide viu Sebastião se precipitar em direção ao carro de Márcio, enquanto este disfarçava o susto, cumprimentava e esperava que o vizinho falasse, justificasse a abordagem sem precedentes. Cleide via o marido que falava e apontava ora para a geladeira, ora para a casa da mãe. Márcio, com as mãos no volante, mantinha o semblante simpático e demonstrava pressa. Quando Sebastião entrou em casa, disse: “Ele trabalha até tarde hoje, mas me ajuda amanhã”. Cleide concordou com a cabeça e produziu da geladeira nova os ingredientes para o café da manhã, que o marido tomou apressado, regulado pelo horário do ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;“I’m waiting in this cell because I have to know&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;Have I been guilty all this time?”&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;(Pink Floyd: The Wall)&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Um pessimista que passasse tempo suficiente na casa de Márcio podia chegar ao extremo de acreditar na utopia da família feliz. Cumprimentavam-se na cozinha com bons-dias ensolarados, comiam frutas de uma mesa colorida e riam juntos da inteligência inesperada do filho de quatro anos. O trabalho do casal já rendia o suficiente para planejarem a compra de uma casa maior. A jovem esposa previa um segundo filho, mas Márcio, ao se imaginar criando irmãos, enxergava uma possível semelhança com seu próprio pai, sob quem crescera junto com um caçula. “Uma vez o velho me deu uma surra”, gritava para ser ouvido entre as gargalhadas dos amigos “porque eu tinha apanhado de uma garotinha do meu colégio. A gente nunca esquece apanhar duas vezes no mesmo dia!”, dizia, limpando as lágrimas que soem acompanhar o riso sonoro. Homem macio, pouco mais de trinta anos, Márcio produzia o brilho que emana dos homens que ainda não se entediaram da própria capacidade de sustentar a família. Caminhava de duas maneiras: durante a semana flutuava veloz, com a elegância que as roupas sociais lhe davam ao corpo saudável; quando trazia o filho pela mão, flanava lento como um turista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A família convivia em casa à noite e saía nos fins de semana, para fazer coisas que fazem famílias iniciantes. Márcio não trabalhava nas manhãs de terças e sextas-feiras, usava esse tempo para praticar natação. Chegava cedo, nadava por uma hora e ia para o chuveiro, onde chegava a passar três horas aproveitando o prazer que a água quente lhe dava. Podia até parar de nadar, pensava, mas não imaginava uma semana sem os longos banhos na academia. Tornaram-se um hábito tão forte, que com freqüência se pegava devaneando no trabalho sobre os chuveiros do vestiário. Quando saía do banho antes do meio-dia, comprava alguma coisa para a esposa antes de almoçar. Uma edição ilustrada de Confissões de uma Máscara foi o presente que mais lhe dera prazer oferecer à mulher. Ela era japonesa por parte de mãe, justificara. Precisava conhecer a literatura de suas origens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Sebastião e Cleide ocuparam a casa ao lado, Márcio foi o primeiro a recebê-los na rua. Conversou por mais de uma hora com o casal, falando sobre como a rua era tranquila e seu filho logo poderia brincar com as outras crianças. Semanas depois, numa sexta-feira em que Márcio saía de casa para ir nadar, olhou do carro para as pernas de Sebastião. Passou segundos mirando o vizinho que saíra de casa de bermuda para tirar o lixo, antes de ir para o trabalho. Logo percebeu o ridículo de estar parado na calçada, com o motor ligado, olhando para as coxas de outro homem. Foi sair, deixou o carro apagar. Dirigiu até a academia pensando que se tivesse pernas tão fortes teria mais impulso na piscina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o sol da manhã de sábado, Márcio despertou depois da esposa. Foi até a cozinha e a encontrou à mesa, de pernas cruzadas, comendo uma maçã. Sentou-se também ele. “E então, com quem era?” a mulher o olhava com malícia. “O quê?” “O sonho que tu tiveste essa noite. Achas que eu não ouvi como ficou a tua respiração?” Márcio corou violentamente. Tinha um medo vivo de falar dormindo desde que seu irmão lhe perguntara por que insultava o pai no sono. “Vamos, fala.” Ela sorria, mostrando-se compreensível. “Quero saber quem é essa mulher que toma meu lugar de noite!” Agora ela ria, afetando uma brincadeira exagerada. Márcio encarava o prato, sentindo o rosto incandescer. “Não tem mulher nenhuma”, murmurou. Ela gargalhou: “Ah, claro, quer dizer então que tu tens esse tipo de sonho com homem!” No mesmo momento, todo o sangue que há pouco se apressara em ocupar os vasos de seu rosto abandonou Márcio a uma palidez hospitalar. A esposa percebeu e ficou séria. Não soube o que fazer por alguns segundos, depois se levantou e foi para o quarto do filho dizendo “Vamos ver como está o pequeno dorminhoco”. Ficou olhando o menino que dormia. Quando ele acordou, foi carregado pela mãe até a cozinha, entre cócegas e risadas. Márcio olhou para os dois e sorriu, levantando com dificuldade os olhos do prato vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidiram passar o sábado na casa dos sogros de Márcio. Ligaram para avisar que lhes levariam o neto para uma visita e foram almoçar em família. Depois do almoço, o avô dormia, e a avó ensinava o filho a fazer dobraduras de papel. Márcio segurava a mão da esposa, mas o casal não se olhava. Em casa, à noite, a mulher o olhou com bondade e o beijou. Dormiram abraçados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A terça-feira chegou para ameaçar com chuva sólida a geladeira velha, agora coberta por uma lona. Sebastião sequer pensou em falar com o vizinho sobre a possibilidade de realizar o trabalho com aquele tempo. No outro dia, de tempo bom, quando Sebastião acordou, Márcio já saíra. Voltou à noite apenas para pôr a família no carro e sair novamente, sem sequer olhar para o vizinho que o esperava ao lado da geladeira. Sebastião não quis chamá-lo, sua pressa era clara já desde a maneira com que estacionou o carro na calçada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Márcio saía para o trabalho na quinta-feira, Sebastião esperava por ele no portão, com a lona embaixo do braço. Entre gentil e tímido, Sebastião interrogou o vizinho sobre a ajuda. Márcio, de dentro do carro, respondeu: “Eu preciso trabalhar. Não sustento a minha família carregando eletrodomésticos.” Antes que pudesse reagir à aspereza, Sebastião viu o carro passando o sinal fechado e dobrando a esquina. Caminhou lento até seu pátio, fechou o portão e parou em frente à geladeira, cuja pintura já descascava.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-3759996592003056518?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/3759996592003056518/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/10/travessia-gustavo-grandi.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3759996592003056518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3759996592003056518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/10/travessia-gustavo-grandi.html' title='Travessia (Gustavo Grandi)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-5625801924970793274</id><published>2010-10-14T13:40:00.000-07:00</published><updated>2010-10-14T13:40:18.224-07:00</updated><title type='text'>A poética do conto em word</title><content type='html'>Leitores do Blog,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;para receber cópia de &lt;strong&gt;A poética do conto&lt;/strong&gt; é preciso remeter-me um e-mail:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:charleskiefer@uol.com.br"&gt;charleskiefer@uol.com.br&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O texto está em word e mando o arquivo completo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só poderei fazer isso até o final deste ano, pois recentemente assinei com a &lt;strong&gt;Editora Leya &lt;/strong&gt;o contrato de segunda edição. O livro será re-lançado em 2011 e a partir de janeiro do próximo ano, por força desse mesmo contrato, não poderei mais enviar o livro a ninguém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraço,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CK&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-5625801924970793274?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/5625801924970793274/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/10/poetica-do-conto-em-word.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5625801924970793274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5625801924970793274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/10/poetica-do-conto-em-word.html' title='A poética do conto em word'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-1858227431283273180</id><published>2010-09-26T10:12:00.000-07:00</published><updated>2010-09-26T10:12:19.731-07:00</updated><title type='text'>Catarse (Regina Maria Schneider)</title><content type='html'>Jesus caminhava calmamente pela Rua da Praia, em Porto Alegre, o jornal dobrado embaixo do braço, quando viu Judas, de terno Armani, todo engomado, gravata e tudo. O olhar de Judas era fixo, duro, sem afeto, a boca retorcida pelo sarcasmo. Andava sem olhar para os lados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, Jesus, tocando–lhe de leve, falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como vai, Judas? Há quanto tempo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Judas conhecia bem aquela voz doce, e teve um sobressalto de pavor, pior dos que sofria ao saber dos resultados da Bolsa de Valores. Virou-se rápido, e encontrou os suaves olhos do Senhor. Mal conseguindo murmurar alguma coisa, suando de nervoso, respondeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Boa tarde – e ainda tentando disfarçar para livrar-se daquela situação embaraçosa, perguntou –. De onde mesmo o conheço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– De um tempo bem longe, Judas, o da Crucificação...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É verdade – respondeu Judas, mostrando reconhecê-lo por completo, estremecendo, entre envergonhado e constrangido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que encontro maldito, pensou, logo Ele, logo Ele... Entre tantos bilhões de homens no planeta, os chineses, os indianos, os africanos, logo Ele, ali, na mesma esquina da Rua dos Andradas. Que coincidência terrível e desagradável...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém Cristo, vestido com uma túnica branca, larga, de calças jeans, calçando sandálias de couro cru, o cabelo negro e comprido, alto, magro, o rosto encovado, os olhos brilhantes de sabedoria e amor, olhava-o com ternura. Parecia um hippie, e além de Judas, ninguém o reconheceria assim simples e humilde, e sem denotar qualquer atitude de Rei e Santo que era... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Judas não pôde fingir mais:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Meu Jesus, eu sou indigno de receber a tua boa palavra. Eu fui um traidor, um homem de baixo caráter, um podre...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não fales assim, meu Irmão... Eu não esqueci o teu sofrimento, o teu desespero, o teu remorso... Tua vida passada, e quantas mais deves ter tido até hoje. Sei que foram dolorosas. Fiquei marcado em ti com meu sangue... Mas vamos tomar um cafezinho, assim conversamos mais à vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Judas estava petrificado, não sabia o que fazer. O homem que traíra e que pagou com morte violenta por seu ato lhe falava com amor, compreensão, humildemente. Queria esquivar-se desse encontro, ser engolido pela terra, ali naquele momento, sumir, desaparecer, mas Jesus, com o semblante resplandecente, o hipnotizava, o atraía como havia sido antes, quando Judas O amava e O seguia. Lembrou os seus ensinamentos, o tempo em que pescavam juntos e sentavam para cear, distribuindo pão e peixe para o povo. Estava tão rígido e tenso que não conseguia se mexer, e Jesus sentiu isso. Pegou-o amavelmente pelo braço e convidou-o a ir a sua sala de trabalho, que ficava ali pertinho, no Edifício Annes Dias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá chegando, abriu o amplo aposento, fez Judas sentar-se num sofá e serviu dois cafezinhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Judas continuava petrificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu te matei – falou, olhando bem nos olhos de Jesus, pela primeira vez – Como pude? Eu, que conhecia a Tua doutrina, a Tua filosofia, as Tuas parábolas, as Tuas profecias, o Teu amor ao próximo, eu que Te amava mais do que a mim mesmo, vacilei, Te entreguei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Calma, Judas, o teu crime não foi o único na Humanidade. Teve Caim, em primeiro lugar, e outros crimes horrendos. Ainda hoje existem tantos que eu nem poderia lembrar todos, basta ler os jornais, as revistas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aquele beijo – falou Judas – aquele beijo. Aquele beijo – repetia obsessivamente de cabeça baixa, balançado-a para lá e para cá –. Sabe Jesus, depois dele, nunca mais beijei ninguém na face. Nem os meus filhos, nem a minha mulher, nem minha mãe... Aquele beijo ficou cravado em mim como uma cicatriz. Pior, como um ferro incandescente no meu peito, que pulsa, que lateja, uma angústia que nunca se vai. Ainda hoje ele arde e me queima aqui dentro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Cada um tinha que fazer o que estava escrito, Judas. Eu fiz a parte mais fácil: meu papel foi ser mutilado, torturado, morto pelo bem da Humanidade. A ti tocou a parte pior: a de trair um amigo, um companheiro de luta, para que as profecias fossem cumpridas. Estava escrito. Cada um teve que representar o seu papel. Tu foste uma vítima, te escolheram para traidor. Quanto a mim, eu só tive que morrer. Sofri, é verdade, mas o meu sofrimento não chegou nem perto dos teus remorsos. Quantas dezenas de séculos já se passaram desde a Paixão, e tu ainda estás te martirizando, como naquele dia em que fui preso. Não aguentaste a dor da culpa e te enforcaste no pé de figueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Era o mínimo que eu tinha a fazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É exatamente isso o que quero te dizer: tu foste o exemplo mais notável, mais concreto, mais real de que a traição mutila e derrota o ser humano. Ela deixa seqüelas irremediáveis na consciência. É um crime horrendo, pior talvez que o parricídio. Foi contigo que a Humanidade aprendeu esta lição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas o pecado continuou, Mestre, o homem não parou de trair. Acontece todos os dias, a toda hora, de várias maneiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É verdade, Judas. Mas tu não avalias quantas pessoas deixam de cometer traições levadas pelos ensinamentos evangélicos que nós dois construímos juntos. Centenas de milhões de indivíduos na terra seguem a Palavra das Escrituras e não traem. Com o teu arrependimento, tu te redimiste e te tornaste um santo. Quanto aos que ainda traem chegará sua vez de compreender o mistério: eles não sabem o que fazem e reencarnarão em tantas vidas quanto forem necessárias para esse aprendizado. Estava escrito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estava escrito – repetiu Judas resignadamente, como se tivesse, enfim, compreendido o seu papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesus, olhando-o tão tenso e contrito, disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deita-te no sofá, Judas, relaxa, estamos a sós aqui, podemos conversar à vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Judas afrouxou a gravata, descalçou os sapatos. Sentia-se cansado e exaurido com aquele encontro inesperado. Estressava-o aquele jeito amável do homem que matara. Estirou-se no sofá com lassidão, tendo Jesus a sua esquerda, quase atrás de si, evitando aquele olhar que não suportava porque fazia lembrar-se de tudo. E, então, num átimo, compreendeu o que o Mestre tentava lhe dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Escrito! – gritou ele revoltado – Quer dizer então que eu fui usado, escolhido feito cobaia para cumprir um papel viciado, que já estava previsto, que alguém teria que fazer a qualquer custo, contanto que a profecia se cumprisse... Mas é claro, Tu mesmo o disseste, certa vez: “Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há de entregar". Tu sabias o tempo todo que seria eu o infeliz, o desgraçado. E o que fizeste para me ajudar? Nada, absolutamente nada. E me tornei, assim, a grande vítima da história, o bandido, o vil, o traidor, enquanto Tu foste a Vítima, o Mártir, o Salvador da Humanidade, o Santificado. A Bíblia é o livro que mais vende em todos os tempos, espalhando a Tua história, o Teu sacrifício. O Teu nome é respeitado em todo o mundo ocidental e até oriental, as crianças são batizadas com o Teu nome enquanto eu... Sou o símbolo da traição, o sinônimo mesmo disso. Eu fui o verme imundo para que o Teu nome se enchesse de glória. A vergonha e a impureza me tornaram desprezível, torpe, ignóbil, a verdadeira expressão da baixeza, da vileza, da degradação...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não te julgues com tanta severidade, Judas Iscariotes. E não penses que nada fiz para te ajudar. Rezei muito por ti no Getsemani, companheiro, mas a tua tentação foi mais forte do que a minha prece. E, além disso, na Última Ceia, avisei: "Em verdade, em verdade vos digo que um de vós, que come comigo, me há de entregar... O Filho do Homem vai, segundo está escrito dele, mas ai daquele homem por quem for entregue o Filho do Homem! Melhor fora a esse homem não ter nascido.” Eu te avisei, Filho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Judas recordou o episódio e abaixou a cabeça em sinal de culpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mestre – disse ele – perdoa–me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Antes de eu morrer na cruz, meu amigo, tu já estavas perdoado. E, além do mais, estás idealizando demais a minha figura, eu somente fiz o que pude naquela época, era a minha obrigação. Naqueles tempos, eu tinha um pouco mais de luz do que os outros homens, e julguei compreender melhor a Humanidade, guiado pelos ensinamentos do Meu Pai. Então, pregar a minha fé foi uma coisa natural em mim, não pretendi te usar em qualquer sentido. Podes ter certeza que desempenhaste muito bem o papel que te coube. A traição ficou marcada na Humanidade como uma das coisas mais abjectas e vis que um ser humano pode cometer. Teu exemplo serviu para isso, para ensinar as pessoas a não trair. O teu suicídio transformou tua atitude na representação do arrependimento. Tu foste corajoso e forte ao te enforcares. Não precisas te sentir perseguido por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas por que eu, logo eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E por que não tu, Judas? O que tu tinhas de melhor que outros para não poderes servir de traidor? Isso é uma onipotência tua. O de querer sempre ser o maior e o melhor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Judas estremeceu e começou a chorar aos arrancos, sacudindo-se convulsivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu tinha o livre arbítrio, Jesus, eu podia ter me negado, escolheriam outro apóstolo, mas eu escutei o primeiro chamado, Satanás entrou em mim, botei olho grande naquele dinheiro, cedi ao primeiro impulso, não pensei muito e Te vendi!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Foi – disse o Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Judas desesperou-se. De um salto, levantou, arrancou a gravata italiana, tirou o casaco de tweed, jogando-os no chão. Rasgou as vestes como se ainda vivesse em tempo bíblico. Arrancou os cabelos, arregalou os olhos, delirante, febril, doentio e transtornado. Debatendo-se, gritou o que pode de raiva, de angústia, de agonia. Depois, deitou-se novamente de bruços, exausto, chorando feito criança, aos solavancos, um menino mau arrependido diante da figura do pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesus o olhava com mansidão, sentado no outro sofá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sabe, Rabi – falava Judas com a voz entrecortada – de tudo o que se passou, a tua prisão, a tua tortura, a coroa de espinhos, o teu sangue vertendo, tu arquejante ao peso da cruz, a chacota e o escárnio com que te trataram, a tua sede, o fel que bebeste, a tua própria morte, as tuas chagas, de tudo isso o que mais me doeu foi o meu próprio beijo. Meus lábios quentes e voluptuosos, viperinos, beijando tua face morna e inocente, tua carne humana... Ao longo desses dois mil anos, vivendo sempre dezenas de vidas sobre a terra, é aquele beijo que me martiriza, e me afoga. Trair, muitos e mais do que eu traíram, é humano, mas aquele beijo jamais poderei esquecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Foi um beijo sujo, não é assim que tu o sentes, Judas ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim, um beijo covarde. Ele marcou irremediavelmente a minha laia, a minha corja, a minha árvore genealógica. Fiquei com o sinal de Caim... Sabe, Cristo, depois que te traí, repeti esse gesto muitas vezes. Por exemplo, fui Nero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei, Judas, eu fui Agripina...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– No Brasil, fui Joaquim Silvério dos Reis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei, Judas, eu fui Tiradentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu fui Hitler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei, Judas, eu fui judeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu fui da Klu Klux Klan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu fui Martin Luther King.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Viste, viste Mestre? E além do mais, fui Stalin e Médici. Pinochet e Bush tem meu sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei, Judas. Fui o operário russo, o povo chileno, o árabe, o índio, o negro, o palestino, o cigano, o homossexual, o drogado, o presidiário, o brasileiro. E tu sempre estavas lá, do lado contrário ao meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Meu problema é genético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sejas determinista, tu podes mudar essa maneira de ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sou filho de Caim. Faz parte da minha natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estou aqui contigo, meu Filho, para que tu aprendas a mudar e, principalmente, a te perdoares, a refazeres tua vida, pois ainda voltarás muitas vezes à Terra. E hoje, o que fazes, que profissão exerces?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sou agiota. Extingo a vida do infeliz que me bate à porta todo o dia, do miserável que está endividado, atolado, sem saída. Sugo as suas últimas forças, abandonando-as somente quando estão esgotados e exangues e nada mais posso tirar delas. E Tu, Cristo, que fazes por aqui, nesta distante cidadezinha, perdida no Sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sou psicanalista. Tento ajudar as pessoas a viver um pouco melhor. A vida não é um peso só para ti. As pessoas que batem à minha porta procurando apoio, vêm assombradas pelo sofrimento, angústias, culpas, remorsos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Analista? Mas então este é Teu consultório? E este sofá não é mais do que um divã? Eu estou vivendo uma sessão de análise?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim, Judas. Foi a maneira que encontrei para te ajudar, te escutando melhor, te deixando falar mais dos teus sentimentos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Judas levantou-se, andou um pouco pela sala, viu o retrato de Freud na parede. Estava visivelmente mais aliviado. Deitou-se de novo no divã, ficou olhando o teto, silencioso, refletia sobre o que Jesus lhe dissera. Pensou em perdoar seus devedores, aliviar os juros altos que aplicava aos empréstimos. Precisava visitar um irmão aidético que não via há dois anos. Queria também beijar os filhos, tinha muito que fazer. Levantou-se. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Haviam se passado exatos 50 minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesus também levantou. Estavam ombro a ombro, de homem para homem, face a face, e o abraço veio natural, espontâneo, necessário, irresistível. Ficaram assim abraçados por um longo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Volto amanhã – disse Judas – na mesma hora, está bem? Foi bom falar, Meu Rabi, há quanto tempo eu não chorava? Há mais de dois mil anos. Foi emocionante estar aqui Contigo e saber que posso mudar para melhor. Eu ainda Te amo e muito, descobri isso agora. Aliás, nunca deixei de Te amar, mesmo quando cometi aquela loucura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu também te amo, Judas, e muito. Eu vim pelos pecadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei, Mestre, obrigado. Quanto Te devo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesus olhou-o bem nos olhos, serenamente, e disse com fala mansa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Trinta moedas de prata.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-1858227431283273180?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/1858227431283273180/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/09/catarse-regina-maria-schneider.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/1858227431283273180'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/1858227431283273180'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/09/catarse-regina-maria-schneider.html' title='Catarse (Regina Maria Schneider)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-5139410910170928808</id><published>2010-08-26T12:10:00.000-07:00</published><updated>2010-09-02T12:01:13.071-07:00</updated><title type='text'>Melhor voltar para casa (Cláudia Baumgarten)</title><content type='html'>Querida, hoje eu acordei diferente. Tu sabes como as dores preenchem a vida. Mesmo eu ingerindo essa infinidade de pílulas coloridas, as dores continuam a me perseguir. Elas se tornaram as minhas leais companheiras. Elas te substituíram, Celeste. Os anos se tornaram mais difíceis sem tua presença. É viva a cena do dia em que a tiraram de mim: A violência de branco, o semblante amedrontado das crianças – o caçula Alfredo tinha apenas dez anos - e o olhar desconfiado dos criados. De todos, ficou só a filha da Firmina, que limpa a casa. E basta, não preciso mais dos outros. Ainda moro aqui no Solar dos Magalhães onde tudo se deteriora. As cortinas do nosso quarto não são mais tão claras e têm as marcas de visitas das traças; o colchão, uma vez macio e convidativo, tem manchas amarelecidas; os móveis não escondem as ranhuras causadas pelos cupins. Que saudade de tuas eau de toilette. Ao invés dos suaves aromas, a vulgaridade do mofo e da urina. Isso foi o que me sobrou e em nada lembra nossos áureos tempos onde tinham vez as viagens ao primeiro mundo, os amigos influentes e os socialmente importantes com suas generosas festas. Lembra quando oferecemos nosso apartamento em Paris para o governador Flores da Cunha? Ou quando hospedamos os filhos de Arthur e Elisa Klein? Quanto embaraço, em pleno estopim da guerra. Fazíamos parte do seleto círculo da alta sociedade porto-alegrense. Mas isso faz tanto tempo. Os que não morreram, se afastaram naturalmente. Bando de hipócritas! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossos filhos? Não falo com eles nem tenho notícias. Eu não telefono, eles também não. Eu não os visito, eles tampouco. Ainda lembro bem dos quatro correndo pela casa e tu, com a severidade doce de mãe, chamando-lhes a atenção aos bons modos de crianças bem educadas; os quinze anos de Celina em 1944, nossa última grande festa; Corina, coitada, não teve sua apresentação à sociedade. Estava sem a mãe e nunca me perdoou por isso. O Alfredo, em minhas divagações, parece nunca ter saído dos cueiros. Estou um pouco confuso. O dia de hoje foi exaustivo. Não sei se essas lembranças incluem o Geninho ou sou eu quem o resgata de algum porão sujo e o enxerta nelas. Até hoje não sei o seu paradeiro. Nossos filhos se afastaram de mim; não tiveram culpa. Deixem-me em paz! – gritei, certa vez. E eles me deixaram. Mas não fica preocupada, eu ainda tenho a Negrinha. Eu não sei o seu nome de batismo, nunca consegui gravá-lo na memória. Faço uma deferência ao seu tom de pele, nada mais. Toda vez que a chamo assim, arqueia uma das sobrancelhas, enrugando um pouco a testa. Acho que não gosta, mas eu não me importo. Ela é paga para cuidar de mim. Diz que faz curso superior de enfermagem, mas eu duvido. Desde quando negros entram na faculdade para estudar? Mu-la-ta, seu Eugênio. Negra, não. Ela sentencia, cheia de si. Parece ter saído do quadro do Di Cavalcanti que temos na biblioteca. Para mim não faz a menor diferença, eu não ligo a mínima para a cor da pele dela, desde que faça as coisas certinhas, não falte ao serviço e, o principal, que fale pouco, quase nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse que acordei diferente. Abri os olhos antes do ronco do despertador, um hábito que venho cultivando há algum tempo. Não gosto do barulho dos alarmes dos relógios, eu já experimentei e quebrei vários. Também não aprecio ser acordado pela enfermeira. Prefiro acordar sozinho, sempre a mesma hora. Hoje ele tentou aplicar o golpe baixo da falta de luz. Mas eu fui o vencedor, mais uma vez. Zombei dos seus enormes olhos vermelhos piscantes, pareciam tiques nervosos. Preciso dele porque consigo enxergar as horas mesmo sem os óculos. Malditos. Nunca sei onde os coloco, e vem a Negrinha e me entrega. Às vezes penso que ela os esconde de propósito, só para me irritar. Não consigo ler, cansa. Os olhos ardem, lacrimejam. A visão fica embaçada, tal qual a janela desse quarto, que nada se vê através. Tolerante, suporto a sofrível leitura do jornal pela minha cuidadora. Criatura esquisita. Já desisti de manter conversa com ela. Sua cultura se resume aos signos do zodíaco; na política seus comentários são carregados de um discurso esquerdista radical. Em outros tempos, seria liquidada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhei contigo noite passada, Celeste. Burlavas o esquema de segurança, passavas pelo portão de ferro e vinhas ao meu encontro, amável, sem dizer nada. Um vestido azul, pouco decotado, vestia teu pequenino corpo. Lúcida e radiante. O cabelo farto estava preso, apenas alguns fios se rebelavam caindo ao lado das orelhas ornadas pelos brincos de mamãe – aqueles que te dei no primeiro ano de casamento. Generosa, me estendeste a mão e eu te convidei para dançar. Deslizávamos ao som de Danúbio Azul quando percebi que o ritmo clássico deu lugar ao popular. O salão nobre do Clube do Comércio transformou-se numa gafieira desclassificada. Fiquei desajeitado, pois não sabia te conduzir. Tentei me desvencilhar de ti e pedir à orquestra que parasse com o insulto, mas não consegui, me seguravas forte e me conduzias ao sabor dos acordes frenéticos. O roçar das tuas coxas me causavam um prazer juvenil. Segurei teu corpo com mais firmeza enquanto sussurravas algo que não pude distinguir, o som no salão estava ensurdecedor. Meu corpo suava por todos os poros e o teu também. Um susto me acometeu quando visualizei outro rosto e não o teu. Era mais escuro, com feições mais fartas; os cabelos muito ondulados, negros. Os cheiros se misturaram e eu despertei suado, ofegante e com o pijama molhado. O sonho transformou-se em pesadelo. Engoli o orgulho e a vergonha, esperei a chegada da Negrinha com a bacia d’água para meu banho matinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É degradante essa hora. Detesto o contato em minhas partes íntimas. Ela me tocou de um jeito que mulher decente não tocaria. Uma despudorada, isso sim! Nesse momento, a Negrinha fica muito perto de mim. Dá até para sentir a sua morrinha. - Não tens tempo para te banhar? Não tem água quente em casa? – eu pergunto. Nesses dias frios é bem compreensível desprezar um banho dia e outro. Ela responde: Tomei sim, seu Eugênio. Tomei sim. Fez bico de passarinho e começou um assobio, afinado e insuportável, de uma canção que não sei qual é e nem desejo sabê-la. Já pensei em oferecer-lhe meu chuveiro para espantar a catinga, meu lar. O que pensarias disso, Celeste? Desisti e pedi para acelerar a dupla tortura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mesmo, eu disse que acordei diferente. Segura meus voos, depois de velho dei para devaneios impróprios. Desculpa, querida, manterei a compostura. As dores não me visitaram hoje, deram uma feliz trégua ao meu corpo. Eu já nem sabia o que era ficar sem dor. Pude levantar-me sozinho, sem o braço extra da Negrinha, porque ela sempre está por perto quando eu desperto. Ela escancarou um sorriso alvo – que dentes perfeitos, eu nunca havia reparado, ou talvez nunca tenha sorrido para mim – e disse: Muito bem, seu Eugênio. Muito bem. Pelo visto, o senhor acordou animado e de bom humor! Percebi que eu retribuía àquele meigo sorriso. A sua voz foi um convite à vida. Combinava com o dia ensolarado que fazia lá fora e que eu provoquei para entrar. Abri as janelas, um rastro de poeira dançante pode ser visto, e o sol aqueceu a tua cadeira de balanço. Há muito eu não respirava um ar tão fecundo, gelado, revigorante. Tive um desejo enorme de tomar o café da manhã na cozinha, não mais na cama, junto aos lençóis senis e amarrotados. Na cozinha, sobre uma toalha limpa, comer pão com manteiga e café bem forte. Mas o doutor proibiu, senhor, advertiu a petulante. Aos diabos, o doutor! – gritei. Enquanto me deleitava com tamanha fartura, Negrinha me observava atenta, enchendo vez em quando a cuia com água quente. Lembrei da minha meninice na estância de papai e das rodas de chimarrão com a peonada. Mamãe não gostava, achava um hábito subalterno e para não afrontá-la, nunca bebia em sua frente ou com os negros. Ela jamais me perdoaria se o fizesse. Acho que Negrinha teria sido escrava de dentro de casa se vivesse àquela época. O que tem a cor dela, Celeste? Não podemos ser preconceituosos nesses tempos modernos. Ouvi dizer que é crime. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quis sair daqui. As paredes do corredor que dá acesso à sala social, tomadas por quadros com fotografias desbotadas de cinco gerações dos Magalhães, pareciam estreitar-se. Pude até sentir a respiração daqueles que insistem não ser esquecidos, talvez fosse um convite para ficar ali estampado também. Senti medo, uma urgência em ver a vida além delas. Para aplacar o vento minuano que insistia em soprar, vesti o casaco de couro; de longe, petit pois, de perto, bolorento. Melhor se tivesse um poncho. À luz do dia, em plena rua, minhas pupilas diminuíram e me causaram vertigem. Segurei-me no braço da enfermeira, evitando a queda. Fomos à Praça Quintilhano. Está muito diferente daquela que frequentávamos, tem cerca e recebe visitantes pouco ilustres. O passeio trouxe à tona lembranças até então aprisionadas em um sótão escuro, revistas como um filme em preto e branco. Vi jovens abraçados nos bancos de madeira, crianças pulando alvoroçadas pelo gramado e seus cães correndo atrás... Pensei na brevidade da vida, da nossa vida. Engraçado, hoje as lembranças não doeram, ficaram coloridas de novo. Precisei sentar. O sol refletido no uniforme branco da Negrinha a deixou mais escura ainda. As suas mãos pousadas sobre os joelhos estavam bem feitas, unhas curtas e sem esmalte. Irias gostar, Celeste. Apesar do odor, ela parece asseada. Não trocamos uma palavra, mas nos entendemos muito bem. Foi o silêncio que evitou o abismo entre nós, ela sabia disso. Talvez seja mais inteligente que eu previra. Tanto faz, agora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas passaram e o estômago reclamou pelo almoço. Pretendia ser comensal dos Ávila, mas não sei se vivem ainda ou se me receberiam. Paramos num restaurante qualquer, com comida servida a num tal sistema de buffet. A Negrinha me ensinou como funcionava e me serviu, sem o menor requinte. Não havia garçom para nos servir, acreditas? Vi nos olhos dela o receio em relação ao que pedi para comer, mas ela nada disse. Minha doce cúmplice. Eu disse doce, Celeste? É que eu pensava em ti e no tempo que almoçávamos juntos. Lembra? Éramos muito felizes, não? Cometi o disparate de pedir um vinho e bebê-lo com ela. É triste beber sozinho. Pedi o melhor Cabernet Sauvignon que o lugar oferecia e degustei como se fosse um beijo há muito desejado. A língua deu uma travada ao primeiro contato com o rubro líquido. Eu o fiz dançar por todos os cantos da boca, amaciando o sabor. – O aroma é de especiarias e frutas vermelhas maduras, percebes? É o carvalho que dá o toque amadeirado. Os vinhos de guarda são envelhecidos em barricas de carvalho. – Ensinei à Negrinha um pouco da arte de Baco. Ela o bebeu com o mesmo interesse com que me escutava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meio da tarde chegou cedo demais. Pedi que me levasse ao teu encontro. Não! Eu não disse nada a ela. Fomos de táxi. O caminho até o Hospital São Pedro está tão diferente. Não reconheci minha cidade. Semáforos, automóveis, edificações modernas e altas, outras apenas rejuvenescidas. Não a vi crescer, prosperar. Há quanto tempo o senhor não sai de casa, seu Eugênio? Perguntou a Negrinha, admirada com a minha perplexidade. Vinte, trinta anos? Perdi as contas, meu bem. – respondi. Oh, não te aborrece, Celeste. Deve ter sido efeito do vinho, caso contrário, eu jamais a trataria com tamanha obscenidade. Quando cheguei em frente ao prédio de arquitetura neoclássica, que por muitos anos tem sido teu lar, estremeci. A decadência do manicômio fez espelho com a de nossa família. Quantas vidas destruídas... Geninho, estúpido ou inocente demais. Ainda não sei como classificá-lo. Hoje eu entrei. Não me viste? Eu sei que não, fui muito discreto. Estavas conversando com as nuvens, como fazias no dia em que te levaram de mim. Sim, eu chorei. Mas por piedade de mim, incapaz de entrar em teu mundo e sorrir contigo novamente. É melhor voltarmos para casa, seu Eugênio. Já fizemos muita extravagância hoje, sugeriu a outra, me levando pelo braço, me afastando de ti. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não queria retornar ao solar. Precisava me despedir do dia. Fui até a Usina do Gasômetro, às margens do lago Guaíba, que até ontem era rio. Sugestão dela, dizendo que lá apreciaríamos o mais belo por-do-sol do mundo. Fumei um cigarro. A fumaça percorreu sem resistência o caminho já desbravado até meus alvéolos. Envolto à névoa formada pelo ar expelido, transportei-me aos tempos de guri, no colégio. Meus primeiros pitos foram lá, no banheiro, escondido com mais uns três moleques. Já estava dependente quando fomos pegos pelo padre. Situação que resultou em mãos inchadas de tanta palmatória, uma suspensão de uma semana e um sermão do papai, sem falar da surra e do traseiro dolorido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era melhor voltar para casa. O vento, que continuava a soprar forte, fazia música e levava consigo o calor acumulado no dia. Desejei viajar com ele. Minhas mãos, então frias, foram aquecidas ao contato com as mãos macias de Negrinha. Quem visse de longe, à primeira vista, poderia crer que fôssemos amantes. Não havia mais tempo para isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;* * *&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Jacinta acordou sobressaltada com o insistente alarme do despertador do quarto contíguo. Perdera a hora. Vestiu às pressas o jaleco e correu até o quarto de seu paciente, pronta para receber uma bronca. Seu Eugênio não se encontrava na cama, como todas as manhãs. Estava sentado na cadeira de balanço – só corpo – próximo à janela, abraçado a um antigo álbum de família.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-5139410910170928808?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/5139410910170928808/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/08/melhor-voltar-para-casa-claudia.html#comment-form' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5139410910170928808'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5139410910170928808'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/08/melhor-voltar-para-casa-claudia.html' title='Melhor voltar para casa (Cláudia Baumgarten)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-2059919078697072036</id><published>2010-08-12T12:26:00.000-07:00</published><updated>2010-08-12T12:26:16.056-07:00</updated><title type='text'>O Cadáver (Ricardo de Albuquerque Müller)</title><content type='html'>Não sei se devo ou não acreditar nos meus olhos, se tenho a mente perturbada pela mais terrível solidão que um homem pode suportar. Esse cheiro de morte com o qual tenho convivido dia após dia tem me levado a um desespero que beira à loucura, onde não vejo saída nem na própria morte. Escrevo com a intenção de, ao relembrar os fatos, tentar encontrar uma lógica que me explique tudo por que venho passando, apesar de achar que estarei condenado a um lento e interminável martírio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havíamos passado ao largo das ilhas Cayman num dia de mar calmo e praticamente sem vento. Os turistas já haviam almoçado e a maioria estava no convés apreciando a paisagem. Devido ao cansaço, eu preferi ficar na cabine e tirar uma sesta. Foi com um duro golpe na cabeça que acordei e percebi que o navio afundava. Demorei alguns instantes para entender o que se passava, mas logo compreendi que a embarcação adernava para bombordo. Ouvi muitos gritos e um barulho infernal que deduzi ser o casco se partindo. Pela escotilha, vi homens ao mar e vários corpos boiando. Dois botes haviam sido lançados, mas com o desespero os passageiros foram subindo neles em número excessivo e desordenadamente, acabando por emborcá-los. Tentei abrir a porta da cabine, mas ela estava trancada. A escotilha também estava emperrada, e não consegui abri-la. Não achei nenhum objeto de metal ou de algum outro material resistente que pudesse servir para arrombar a porta. Fui tomado de um desespero sobre-humano e comecei a gritar e a chorar, dava socos e pontapés na porta e rezava. O navio continuou virando de lado até a porta da cabine ficar para baixo e a escotilha para cima. Depois, começou a afundar rapidamente e vi a água encobrir totalmente a pequena abertura circular, porém a cabine continuava totalmente seca, sem infiltração de água. Foram poucos minutos até o navio se chocar contra o fundo e estabilizar. Então, do barulho infernal sobreveio um silêncio ensurdecedor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recomposto, percebi que não estava sozinho. Havia um homem inerte e com a face completamente desfigurada dentro da cabine. Provavelmente tinha sofrido o traumatismo no momento em que o barco havia virado bruscamente. Palpei o pulso e logo vi que ele estava morto. Em seguida, tive náuseas e mal-estar, e precisei me virar de costas para o cadáver e respirar fundo. Permaneci nessa posição por alguns instantes e não conseguia imaginar como ele tinha surgido ao meu lado. Eu certamente havia entrado sozinho na cabine e a porta estava fechada. Então, criei coragem e me virei. Estendi o corpo e passei a examiná-lo mais detidamente. Havia um afundamento de face e múltiplos ferimentos que não permitiam reconhecê-lo. O lado direito do crânio apresentava uma grande contusão, com laceração no couro cabeludo que deixava entrever parte da massa encefálica entre os fragmentos ósseos. Procurei nos bolsos algum documento que pudesse identificá-lo, mas nada encontrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia uma hora que o navio havia afundado. Continuava tudo no mais absoluto silêncio. A única iluminação provinha da luz natural que iluminava o oceano e entrava pela pequena escotilha, num tremular inconstante e fantasmagórico. Deduzi que não poderíamos estar muito longe da superfície, pois a intensidade da luz era razoável. Contudo, não percebia nenhuma movimentação junto ao navio, nenhum sinal que indicasse que o naufrágio tivesse sido avistado por alguém. Tentei outras vezes sair desse local pequeno e oprimente, mas não tive sucesso. Enfim, desisti. Restava apenas aguardar um possível resgate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após seis horas o ar estava insuportavelmente quente e irrespirável, com uma emanação pestilenta proveniente do cadáver que já começava a se decompor. Não conseguia me afastar dele devido ao espaço exíguo. A noite já começava a despontar e as trevas invadiam pouco a pouco o cubículo, deixando-me extremamente aflito. Durante a longa espera até o amanhecer, eu permaneci acordado e com os olhos abertos, rodeado pelo mais profundo breu, sem me mexer, com medo de tropeçar no cadáver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte e nos outros foi a mesma tortura, o mesmo sacrifício pelo qual deve passar o condenado ao fogo eterno. Mas seria o demônio tão sádico e cruel? Teria isso a ver com a minha vida um tanto quanto desregrada? Estaria sendo eu punido pela bebida e outros vícios? Confesso que pensei seriamente no suicídio, mas não tinha como cometê-lo. Não pela falta de coragem, mas pela falta de meios materiais. Não comia e não bebia, mas o meu corpo nada pedia. E os dias e as noites se sucediam numa massacrante e interminável rotina. O que mudava era apenas a progressiva putrefação do cadáver, que inicialmente havia inchado e adquirido uma coloração esverdeada, para depois começar a liberar uma secreção escura e fétida, com formação de bolhas e perda de partes da pele e demais tecidos. Eu não tinha onde ficar a não ser sobre aqueles restos de matéria putrefata, com o meu corpo cheirando a morte, mas sem conseguir morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz um ano que ocorreu o naufrágio. Ninguém ainda apareceu para resgatar o navio. O cadáver que me acompanha — eu o batizei de Polinice — está praticamente reduzido a uma ossada. A luz fraca e tremulante e o escuro profundo e absoluto se intercalam numa sucessão infinita e torturante. Sinto que esta cabine é o meu túmulo onde jamais conseguirei descansar. E ninguém neste mundo poderá me responder a uma dúvida que me afligirá por toda a eternidade — poderia ser eu o cadáver?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-2059919078697072036?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/2059919078697072036/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/08/o-cadaver-ricardo-de-albuquerque-muller.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2059919078697072036'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2059919078697072036'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/08/o-cadaver-ricardo-de-albuquerque-muller.html' title='O Cadáver (Ricardo de Albuquerque Müller)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-3634489323598531997</id><published>2010-07-04T14:54:00.000-07:00</published><updated>2010-07-04T14:54:22.965-07:00</updated><title type='text'>Desabafo contra velhos decrépitos (Luara Pinto Minuzzi)</title><content type='html'>Vocês estão enxergando aquele velho decrépito sentado na poltrona feita especialmente para combinar com a imagem do dono (o que quer dizer, poltrona decrépita)? É claro que não estão enxergando. Como eu sou boba. Vocês não podem ver nada, apenas imaginar a partir das palavras que eu escrevo. Ou seja, se não confiarem em mim, o problema não é meu, já que os caros leitores dependem da narradora para ficar a par dos fatos, e não o contrário. Enfim, vocês não enxergam, mas acreditem quando eu digo que um velho decrépito está sentado em uma poltrona ainda mais decrépita. É a pura verdade. E o tal de velho decrépito finalmente dormiu após vários dias de vigília.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já contei quem é o velho decrépito? Não? Como eu sou mal-educada. Não me apresento, nem apresento meu marido. Pois é, esse velho decrépito é meu marido. Meu marido há tantos milênios que eu já até perdi as contas. Parei o cálculo nos 47 anos, 11 meses, 25 dias e 19 horas do nosso casamento e da noite na qual o velho decrépito (que, na época, não era velho, mas já mostrava indícios da decrepitude potencializada com a idade) tirou minha virgindade e minhas últimas alegrias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vocês estão notando como ele baba e ronca enquanto dorme? É claro que não. Mas se essa história fosse um filme, aí sim, tudo seria diferente. Os leitores (que se transformariam em espectadores) poderiam observar as pantufas ocres puídas e o chambre que já conheceu melhores dias em cores – pois eu não admitiria nada menos do que um filme em cores. Mas já sou uma senhora com certa idade e, quando se chega a essa certa idade, não é mais possível aprender as modernidades malucas dos jovens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, como eu ia dizendo, o velho decrépito afirmou sentir muita angústia pelos livros que não leria. Então, botou-se a ler e ler. Mas a insanidade dele atingiu o auge quando, entre lágrimas, confessou não ser capaz de dormir enquanto não terminasse uma obra. “Imagina morrer e deixar um livro pela metade”, o decrépito me disse. Então, após alguns dias sem sono, parando apenas para comer e ir ao banheiro (tudo com a minha ajuda, aliás, ajuda é eufemismo, pois só faltou que eu comesse e cagasse por ele, precisava fazer tudo, o velho decrépito não presta para mais nada), ele chegou à última página do tal de volume. E dormiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre ocupadíssimo com essa maldita literatura, o velho decrépito – o que me deixava doida, não, o mais correto seria escrever que ainda me deixa doida. Quanto tempo vocês imaginam que sobrava para mim e para as crianças (sete crianças, por sinal, porque tempo para fazer crianças o velho decrépito tinha suficiente)? Não precisam responder, pois se trata de uma questão retórica e eu também não ouviria as respostas, já que vocês lerão esses papéis em um tempo e espaço diferentes dos que eu escrevo. É, espaço até, por uma enorme coincidência, poderia ser o mesmo (se não se considerasse a palhaçada que o velho decrépito costumava dizer de uma pessoa nunca poder entrar no mesmo rio duas vezes, mas isso é coisa de gente vagabunda e desocupada com miolo mole). Porém, tempo, não. Tempo definitivamente não seria o mesmo. Mas divagações assim não interessam, desculpem essa senhora que já viveu demais e precisa desabafar. Eu também não responderei a questão acima formulada. Não é necessário. Não, para ser bem sincera, responderei sim, pois prometi a mim mesma que essa seria a minha vingança contra o velho decrépito. Como vocês já esperavam, eis aqui a solução do problema: nenhum, não sobrava nenhum tempo para a família dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu lembro uma vez na qual resolvi espiar um livro bonito com letras douradas. Vocês sabem como é, uma esposa dedicada e afetuosa busca aproximar-se do seu companheiro e, para me identificar mais com o velho decrépito, eu precisaria entender um pouco daquela papelada toda. Nada mais fácil para mim, alguém que sempre se mostrou inteligente e perspicaz. Decidi abrir em página aleatória e li um trecho. Meus cabelos arrepiavam-se mais e mais a cada palavra. A mulher passou a língua no seu peito, detendo-se no mamilo. Sentindo o ingurgitamento no baixo-ventre... Não, não continuarei, essa é uma história respeitável, escrita por uma senhora respeitável. Se transpus a passagem aqui é apenas para tornar a narrativa mais completa e realista para os meus leitores. Aquele velho decrépito. Eu sabia que não era à toa o seu gosto por esse monte de letrinhas enfiadas numa capa dura. Só podia ter sacanagem no meio. Velho decrépito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É difícil de acreditar que vocês não podem ouvir nem cheirar o velho. O som é tão alto e o odor, tão insuportável, que eu fico pensando ser possível que eles cheguem a outro tempo e outro espaço. Vocês não sabem tudo o que eu preciso agüentar. Já contei a vez na qual ele surtou durante um noticiário na televisão? A mocinha – aquela bonita dos cabelos curtos, sabem? – falava as neves do Kilimanjaro estão derretendo. Especialistas prevêem seu desaparecimento para os próximos 30 anos e as lágrimas do velho decrépito começaram a molhar a mesa onde ele estava apoiado. Eu, tola – não, tola, não, de boa-fé –, fiquei orgulhosa da preocupação do meu homem com a causa ecológica. Deveria ter desconfiado. Entre suspiros e fungadas, consegui entender o decrépito dizendo ele me fez acreditar que ao menos as neves do Kilimanjaro eram eternas. Então era isso, o velho, além de decrépito, burro, foi enganado por um escritor doido, pois bobagem assim só poderia ter sido escrita por um dos decrépitos profissionais. Era só o que me faltava. Velho decrépito, burro e bobão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comentei sobre como eu era muito mais feliz na casa dos meus pais? Minha memória às vezes falha. Se estou me repetindo, fiquem bem sentados aí lendo de novo esse episódio vivido por mim, pois uma narração assim pode servir de alerta para muitas jovenzinhas que se julgam extremamente espertas. Sim, eu vivia sem preocupações quando solteira. Conheci o velho decrépito, que na época me pareceu tão culto, e casei. Casar com homem culto não serve para nada. Ouçam, ou melhor, leiam o que eu digo. São muito bons na teoria, já na prática...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vocês juram não poder ouvir os roncos dele? Juram? Se bem... Eu também não estou escutando barulho nenhum. Estranho. Ia começar a reclamar apenas para manter o hábito, o que é sempre bom. Porém, a verdade é que tudo está silencioso. Meus leitores vão me perdoar, mas precisarei acabar por aqui, me angustia não saber se o decrépito está vivo ou morto. Já havia inclusive pensado em uma frase de impacto digna daqueles hippies lunáticos com obras publicadas. Vocês se impressionariam. Agora o velho me atrapalhou e eu não poderei deslumbrá-los como queria. Afinal, ele é um velho decrépito, mas é meu. O meu velho decrépito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-3634489323598531997?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/3634489323598531997/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/07/desabafo-contra-velhos-decrepitos-luara.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3634489323598531997'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3634489323598531997'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/07/desabafo-contra-velhos-decrepitos-luara.html' title='Desabafo contra velhos decrépitos (Luara Pinto Minuzzi)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-1079512168502548092</id><published>2010-05-30T09:23:00.000-07:00</published><updated>2010-05-30T09:23:51.362-07:00</updated><title type='text'>Recital dos mortos, de Nelson Rego</title><content type='html'>Tudo estava ruim, mas ficou pior depois que a televisão veio aqui e filmou seu Seis revirando os olhos e recitando sem parar os nomes dos mortos. No início, seu Seis fora apenas o mais doido entre os malucos já contratados por meu pai. Alguns são malucos. Outros, safados fingindo serem médiuns. Eu sei quando eles estão fingindo, eu sinto. E sei quando são doidos e acreditam de verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Seis nunca quis cobrar. Dizia que não se cobra por um dom dado por Deus, não tem preço. Queria jorrar como uma fonte de água pura para todos, era o que dizia. Meu pai convenceu ele a cobrar pelas consultas, em nome de manter a casa. Seu Seis concordou. Cobrava o valor da comissão paga a meu pai e mais um pouco, que era para custear alimentação, luz, essas coisas, já que decidiu ficar morando no quarto anexo ao consultório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai tem faro para negócios. Percebeu logo que seu Seis iria render muito. O outro médium, que trabalhava há meses no consultório, continuou atendendo, alternando-se com seu Seis. Por pouco tempo. Era um fingido, mas tinha alguma intuição e compreendeu que o melhor era ir para longe de seu Seis. Meu pai só tem olhos para dinheiro e não viu que, depois de dinheiro, seu Seis traria desgraça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive medo de seu Seis desde que botei os olhos nele pela primeira vez. Inchado como um cadáver, pensei isso. Nunca vi um cadáver dias depois da morte. Sei que é assim porque se fala muito na morte aqui em casa. Meu pai conta piadas e histórias de assombração, debocha. Achei seu Seis estufado como um cadáver apodrecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, achei que se tornava a cada dia um pouco maior. Sonhei uma vez que ele inchara até ocupar o tamanho inteiro da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu era pequena, os médiuns atendiam dentro de nossa casa. Ao perceber que o negócio iria prosperar, meu pai construiu o consultório nos fundos, no pátio. Seu Seis foi o primeiro que preferiu morar no quarto anexo. Movimento de pessoas querendo consultar sempre existiu. Mas só com seu Seis é que se formaram filas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas vinham de outros bairros e até de outras cidades. Depois da televisão, passaram a vir de todo o país. Antes, seu Seis dava consultas como qualquer outro médium, só que de um jeito mais impressionante. Revirar os olhos, ele sempre revirou. E os guinchos que solta, antes de falar com aquela voz que vem do fundo de uma caverna, também são os mesmos. O que mudou foi a mensagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Seis dava notícias dos mortos. As pessoas ficavam sabendo sobre os planos astrais em que eles recebiam lições, preparando-se para novas jornadas no mundo. Os mortos enviavam conselhos e súplicas, pediam que os vivos acendessem velas para afastar os demônios. As pessoas gostam de levar susto. Quanto mais gente saía de olhos arregalados e dando risadinhas nervosas do consultório, mais gente queria entrar na sala escura. Meu pai fazia fortuna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que a coisa começou. Seu Seis desandou a recitar listas de nomes e sobrenomes que ninguém sabia de quem eram. Mal-estar mesmo era causado pelo que ele dizia misturado com as listas. “A bala entrou pelo ouvido esquerdo, os miolos ficaram esparramados pelo chão”. As pessoas trocavam olhares. “A lataria degolou o velho, que nem assim morreu na hora, ficou ali, estrebuchando.” Ninguém entendia nada. “Quatorze anos, quatorze anos, não tinha mais do que quatorze anos.” Misturava essas frases sem nexo com as listas de nomes, repetia sem parar frases e listas. Só se acalmava ao nascer do sol, quando adormecia, recomeçando pelo meio da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessas horas todas falando, bebia apenas uns goles d’água e comia menos ainda, sem sair do transe. Nem por isso deixei de achar que ele continuava aumentando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As consultas pararam. Ainda vinham pessoas escutar, muitas até, mas ninguém pagava para ouvir listas intermináveis de nomes desconhecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De início, meu pai pensou que a coisa seria passageira e que, após, a fama de seu Seis iria aumentar mais ainda. Pensou que deixar as pessoas assistirem o transe enlouquecido incendiaria o falatório, seria boa propaganda para o estabelecimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois viu que não tinha jeito, seu Seis não voltaria às consultas rentáveis. Decidiu chamar o pessoal do hospício, para que tratassem de remover o médium, já que ninguém conhecia parente ou amigo de seu Seis que pudesse se encarregar disso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O azar foi que, no instante em que meu pai colocou a mão no fone para chamar o hospício, uma mulher gritou lá no consultório. Seu Seis dissera nome e sobrenome do sobrinho dela, Rogério Leandro de Oliveira, dissera e repetira, não havia como confundir. E completara com a informação – “baço perfurado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher estava histérica e o grupo que a acompanhava, agitado. Seu sobrinho morrera semanas antes num acidente de carro. Ele e outros três, bêbados, haviam se chocado contra a traseira de um caminhão. O ferimento fatal fora perfuração no baço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Anota os outros nomes, anota os nomes”, alguém gritava, no meio da confusão de todos falando, da mulher chorando, do seu Seis recitando sem parar. Meu pai, mudo e pálido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior foi em meia hora confirmado. Consultados os parentes das vítimas, três outros nomes correspondiam aos mortos no acidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas primeiras horas da manhã seguinte, já se formara uma pequena multidão na calçada em frente à casa. Meu pai não queria permitir que fossem escutar seu Seis, mas invadiram o pátio, espremeram-se no consultório, disseram que seu Seis pertencia a todos. Meu pai ameaçou chamar a polícia, mas não chamou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram ouvindo seu Seis. Haviam chamado parentes e amigos de pessoas mortas de maneira violenta. Anotaram as frases malucas e os nomes que seu Seis enfileirava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou o tempo. E nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai já estava esperançoso de que fossem embora frustrados. Mas aí aconteceu. Foi como gol marcado em estádio lotado. A vibração começou no consultório, prosseguiu pelo pátio e se alargou pela rua. O ajuntamento era um caldo grosso que a corrente de exclamações atravessava rápida. Andreia Soares, esse o nome reconhecido. Duas amigas dela estavam presentes. Quando seu Seis acrescentou “a facada atingiu o coração” e as duas confirmaram, foi nova gritaria. Até o anoitecer seu Seis marcou uma dezena de pontos, entre centenas de nomes recitados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram também de mortos os nomes não identificados? Para verificar isso, espalharam por todos os modos possíveis os nomes anotados e chamaram mais parentes e amigos de mortos a escutarem o recital. Em dois dias seu Seis alcançou uma centena de pontos. Multidão agigantada tomava a rua, invadia nosso pátio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daí os acontecimentos são conhecidos por todos. Veio a televisão e depois outras emissoras, e mais rádios e jornais. Seu Seis, meu pai e até eu viramos celebridades. A rua prosseguiu lotada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os jornalistas investigaram o passado de seu Seis a partir das informações que ele dera a meu pai. Seu verdadeiro nome seria José Santos. Teria quarenta e poucos anos. Haveria sido casado e comerciante no interior paulista. Há dez anos abraçara a missão a ele confiada por Deus, passando a percorrer o país em nome do Criador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada foi confirmado, seu Seis, que não tinha documentos de identidade, viera do nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tiveram todos que se contentar com a explicação que dera a meu pai sobre seu novo e sagrado nome, Seis: explicação nenhuma. Um segredo entre Deus e ele, segundo o próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Investigaram também a vida de meu pai. Quiseram saber se ele possuía outra renda além das comissões sobre as consultas. Meu pai lhes informou que era aposentado por invalidez. Por que invalidez, se era ainda moço e aparentava boa saúde? Perguntou-lhe um repórter com jeito desconfiado. Meu pai falou dos pulmões, puxou uma tossezinha para demonstrar e desconversou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algum vizinho soprou um boato e os repórteres foram averiguar na delegacia policial. Acho que subornaram funcionários para obter registros de denúncias contra meu pai, por estelionato. Coisas de sua mocidade. Nada fora provado, ele nunca estivera preso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, denúncias e a aposentadoria precoce, que colocaram sob suspeita, serviram para por lenha na fogueira das matérias que indagavam se a casa dos médiuns não explorava as crendices e as dores do povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém o povo já estava com a sua convicção formada. Para a multidão, seu Seis era mensageiro de Deus. Estava acima de meu pai, livre de contaminações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém soube explicar como, mas em poucos dias estabelecera-se um culto, com organizadores, regras e crença. Quando seu Seis dizia o nome de uma vítima de acidente, assalto ou outras violências, se parente ou amigo do morto estivesse naquele momento presente, valia por uma poderosa vela acesa no plano astral. Auxiliava a vítima a liberar-se do trauma e evoluir em seu karma. O benefício estendia-se aos vivos que houvessem testemunhado o momento em que a boca santificada de seu Seis pronunciara o nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí porque a romaria que tomava a rua e invadia o pátio tornara-se constante. Mães desesperadas, órfãos, legiões de sofredores faziam fila rezando em voz baixa. Esperavam horas pelos instantes em que estariam no grupo com permissão para entrar no humilde santuário de seu Seis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maioria saía da sala sem a recompensa desejada. Mas, a cada dia, diversos eram os que saíam exultantes, abençoados pela audição do nome aguardado. Dádiva completa era quando o nome vinha acompanhado do bônus extra da frase com informações exatas. “Derrapou na pista e capotou até descer pelo barranco”, e uma viúva desatava em prantos. “O ônibus bateu de frente contra o caminhão, a menina estava dormindo, sim, estava dormindo, estava dormindo a menina, ainda está para acordar, vai acordar no céu” – os avós iam embora enlaçados, rostos suavizados pelas lágrimas misturadas com o sorriso. “Dois tiros à queima-roupa, agonizou um dia inteiro”, os pais se retiravam quase dispostos a perdoar o assassino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Testemunhar que muitos eram abençoados incentivava os desafortunados a voltarem nos dias seguintes em busca da mesma dádiva. A crença afirmava que o consultório montado por um salafrário fora o lugar escolhido por Deus para abrigar a missão de seu Seis, num sinal dos misteriosos caminhos através dos quais se realiza a vontade divina. Na sala santa deveria permanecer seu Seis em transe, em respeito à vontade suprema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai bem que tentou chorar miséria, fazer-se de inocente e pedir uma moeda por visitante, mas percebeu em seguida que corria o risco de levar uma surra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os organizadores do novo culto colocavam ordem nas filas, controlavam o tempo de permanência dos grupos dentro da sala, anotavam nomes e sobrenomes recitados, divulgavam as listas, chamavam o povo. Providenciavam as flores e os incensos. Registravam as preces de agradecimento enviadas pelos sofredores. Revezavam-se dia e noite na vigília em torno de seu Seis. Baniram qualquer pagamento na entrada do consultório, em nome de romper com o passado suspeito da casa. Apenas aceitavam donativos dos abençoados com a escuta dos nomes queridos. Essas coisas todos sabem. Viram na televisão, escutaram no rádio, leram no jornal. Sabem que na rua surgiu e cresceu um comércio ambulante de flores, velas, pedras mágicas, retratinhos de seu Seis e camisetas estampadas com a imagem dele, livros de preces, escapulários, churrasquinhos e lanches rápidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabem que sou bonita, pois me viram na TV, dando entrevista na frente do portão da casa, declarando que gostaria que aquilo tudo terminasse, e que nunca seu Seis pronunciara nome e sobrenome de minha mãe na lista dos mortos. Assistiram, na reportagem que fizeram no colégio, a estúpida da minha professora dizendo que às vezes chegam até a ficarem assustados com minha inteligência, mas que a lástima é que poucas vezes estou disposta a esforçar-me e tirar melhores notas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E todos viram, ouviram, leram padres, pastores e líderes espíritas condenando o novo culto. Tomaram conhecimento de psiquiatras explicando que esquizofrênicos podem desenvolver uma memória psicótica, capaz de armazenar inacreditável quantidade de informações sobre o tema de sua obsessão. Acompanharam os jornalistas investigando os quatro mil nomes acertados por seu Seis e verificando que, quase todos, haviam tido suas mortes violentas noticiadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conhecem a controvérsia que se seguiu. Seu Seis fora leitor das páginas policiais em suas horas de folga do ofício mediúnico, antes de afundar no transe ininterrupto. Desde quando poderia estar acumulando informações? Por que não pronunciava nomes de pessoas mortas após sua entrada no transe definitivo? Seus poderes, por acaso, teriam data de validade? E aqueles outros nomes não confirmados, que formavam uma legião muito maior, quem eram? Nomes inventados? Essas evidências e perguntas sem respostas não indicariam que a explicação dada pelos psiquiatras seria verdadeira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Souberam do mesmo modo que suspeita alguma abalou o ardor dos novos crentes. Como seu Seis poderia lembrar de quatro mil nomes e sobrenomes e, de uma parte destes, saber informações precisas sobre as circunstâncias de suas mortes? Por que ter mais fé na possibilidade de uma fantástica memória do que no milagre da comunicação com os mortos? Quem explicaria a paz celestial que inundava os abençoados com a escuta dos nomes queridos? Viram, ouviram e leram organizadores do culto e parentes e amigos das vítimas dando testemunho de sua fé. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que não sabem era o que acontecia comigo. Nem o que se passou entre mim e seu Seis enquanto tudo definhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez foi no metrô. O trem estava atulhado de mortos. Sei que era imaginação minha. Mas não era imaginação do tipo que eu pudesse controlar. E era nítida. Nítida demais. A primeira vez foi no metrô. Depois aconteceu na rua, no supermercado, no ônibus, na sala de aula. Fui no estádio e ele estava lotado, de mortos. Fiquei olhando aquela gente ensangüentada, empilhada nas arquibancadas e pensei: esses são os que morreram em acidentes de trânsito no ano passado. Subi no elevador espremida entre rapazes de cabeças furadas, os que foram desovados no lixão durante o carnaval. Desci do ônibus cheio de suicidas. Não queria voltar ao metrô, mas fazer o quê? Não podia deixar de andar pela cidade e ver a multidão de cadáveres descendo as escadas para dentro das bocas negras das estações. E os trens? Eu me apavorava. Mas era até divertido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por quanto tempo se prolongaria o novo culto? Eu fazia cálculos. Lembrava de ter lido que, desde décadas, morriam trinta mil, quarenta, cinqüenta mil em acidentes de trânsito todo ano. Isso somava um milhão ou dois, por aí. Os mortos em assaltos, em disputas do tráfico, em brigas de rua ou de bar, em brigas de família, os esfaqueados, os fuzilados e os espancados eram o dobro dos mortos em acidentes de trânsito. Só nos festejos do último Ano-Novo haviam se ralado não sei quantos. E tinha mais uns punhados de soterrados por desabamentos, de fuzilados por engano pela polícia, de mulheres mortas depois ou mesmo antes de serem estupradas, sei lá. Seu Seis iria dizer os nomes de todos esses milhões? Eu duvidava, a tal da memória psicótica não poderia ser assim tão poderosa, nem poderia ter lido todas as páginas policiais, nem todos os mortos eram noticiados. Mas qual o número que ele teria conseguido guardar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deixava de ser engraçado voltar da escola e abrir passagem entre o grupo de defuntos que se apinhava no portão da casa, entrar e fazer meu lanche de final de tarde. Meu medo diminuía, até mesmo no trem. Em troca, crescia o tédio. Sempre ouvira falar em morrer de tédio, agora começava a entender que isso poderia ser mais do que um jeito de falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando alguém levaria seu Seis embora? Meu pai não ia no juiz pedir a remoção de seu Seis por medo de que os crentes, em represália, exigissem do poder púbico a revisão de sua aposentadoria. Eu não tinha para onde ir, casa que me recebesse. Na verdade, nem queria. Eu me consolava assistindo a desgraça de meu pai, sujeitando-se à situação por causa da aposentadoria mixuruca, temeroso não sei de quais outras represálias. Bem feito, pensava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabia que seu Seis sairia do transe quando esgotasse o estoque de mortos identificáveis. E quando isso acontecesse, algo mais aconteceria, eu sabia, sentia. Mas o quê? E quando? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adivinhava que continuaria enxergando mortos enquanto seu Seis morasse nas peças nos fundos da casa. Já não sentia medo. Nem no trem, espremida pela multidão sendo devorada pelos vermes. E deixara de achar engraçado. Tudo era hábito, não sentia nada. A única coisa que me interessava era saber quando seu Seis iria embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia tive uma iluminação. Minha pergunta estava errada. Não era quando. Era o quê. O que seu Seis queria para ir embora? Mal pensei isso e um defunto se virou para mim. Não posso dizer que me olhasse, já que no lugar dos olhos tinha a fenda aberta por uma machadada. Movia os lábios devagar, falava baixinho. Não consegui entender o que dizia, mas tive uma intuição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, como em todas, fui ao consultório. Depois que o expediente das visitas terminava, permaneciam com seu Seis apenas dois ou três dos organizadores. Revezavam-se na vigília de proteção ao santo, anotavam os nomes e frases que ele continuaria pronunciando até o nascer do sol. Eu levava bifes e arroz, sanduíches e café para eles. Essa era a forma que meu pai encontrara de ainda ganhar uns trocados com seu Seis. Negociara com os organizadores que eu providenciaria todas as noites as refeições e eles pagariam uma taxa pelo serviço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes eu permanecia na sala, observando seu Seis, enojada. Ele suava sempre, pegajoso, melento. Sentia cheiro de carne podre desprendendo-se do homem enorme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabia que seu Seis parara de alimentar-se apenas nos primeiros dias do transe profundo. Depois, durante a noite, em segredo, os vigilantes o alimentavam com parte das refeições que eu preparava com fartura, obedecendo à exigência deles. Ninguém me contara isso. Eu sabia. Para o público eles mantinham a imagem milagrosa de que seu Seis apenas ingeria goles d’água e quase nada de comida. Eu imaginava seu Seis cagando durante a madrugada e aqueles cretinos limpando o asqueroso em transe. Desejava que o consultório, o quarto, o banheiro pegassem fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era comum os vigilantes abandonarem a tarefa de anotar os nomes. Seu Seis repetia várias vezes as listas antes de iniciar novas. Os vigilantes cansavam. Retiravam-se para um canto, conversavam em voz baixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite permaneci mais tempo na sala. Sentada no chão diante de seu Seis esparramado sobre a poltrona, revirando os olhos, recitando as listas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Seis passou a pronunciar mais devagar os nomes, fazia breves intervalos. Os vigilantes prosseguiram em sua conversa em voz baixa, no canto da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eu vi. Seu Seis fixou seus olhos nos meus e moveu devagar os lábios. Não emitiu som, mas entendi o movimento. Ele pronunciara o nome de minha mãe. Retornou de imediato ao recital, no momento em que os vigilantes interromperam a conversa e voltaram seus rostos para nós, alertados pelo intervalo de silêncio mais prolongado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí da sala sem sentir paz celestial alguma por ter lido nos lábios repulsivos o nome de minha mãe, não me senti como os outros, que se consideravam abençoados pela audição de um nome aguardado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mim acontecera de modo diverso. E diferente deveria ser o significado do acontecido, pensei. Tive outra intuição. Passei a ler todos os dias as páginas policiais. No sexto dia aconteceu: a reportagem sobre uma mulher de nome e sobrenome iguais aos de minha mãe, assassinada de modo idêntico. Seu marido estava assistindo futebol na TV, à noite. Esvaziara todas as garrafas e queria mais. Não iria deixar de assistir o jogo para buscar as cervejas no bar, quadras adiante. Mandou a mulher, que sumiu no trajeto da rua escura. Encontraram seu corpo na manhã seguinte, num terreno baldio, degolada, de bermudas arriadas. A polícia confirmara que havia esperma em seu ânus. Do mesmo exato modo como meu pai mandara minha mãe para a morte, seis anos antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Seis não me dissera um nome do passado. Dissera o futuro. Pensei isso um minuto antes de escutar uma mudança no vozerio habitual que vinha da rua. Deixei o jornal sobre a mesa da cozinha. Lavei a louça do meio-dia antes de sair à rua. Não sentia pressa. Era reconfortante ouvir aquela mudança para um tom aflito nas conversas da multidão de peregrinos. Eu adivinhava qual seria a novidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui até os fundos. Minha entrada no consultório era sempre permitida pelos organizadores. Seu Seis interrompera o recital. Permanecia balançando devagar a cabeça, mirava o teto. Tinha uma mistura de riso silencioso e careta medonha na cara. Alguns peregrinos observavam a cena. Talvez agora enxergassem a verdade, eu pensava, olhando para seus rostos pasmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O recital de seu Seis nunca fora em solidariedade aos mortos. Ele sentia necessidade de estar rodeado de tanta dor. Sentia prazer. Eu sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prolongara com nomes falsos a expectativa pela audição dos nomes aguardados. Nenhuma vela fora acesa em outros planos pela salvação dos mortos, quando um nome fora recitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Seis é doido de atar. Mas não é apenas doido. Ele se comunica de verdade com alguma coisa. Demorei a entender isso. Foi só naquele momento, depois de ler que uma mulher de nome igual ao de minha mãe fora assassinada do mesmo modo, olhando para o riso medonho do monstro, que eu soube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhava para os rostos dos tolos, tentando adivinhar se eles enfim enxergariam a verdade. Mas, não. Eles estavam assustados. Perdidos. A verdade, eles não queriam encontrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que aconteceu depois todos assistiram na TV, ouviram no rádio, leram nos jornais. Sabem que o culto definhou, que agora poucas pessoas permanecem em frente à casa, esperançosas ainda de que seu Seis volte a recitar os mortos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabou o noticiário, e todos lembram dessa história, pois foi há menos de um mês que iniciou o declínio do culto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que nunca souberam é o que acontecia comigo. Eu retalhava porções de carne a cada noite, preparando os bifes que levava com arroz, sanduíches e cafés para os vigilantes, que alimentavam o santo em jejum. Minha mão tornava-se mais destra a cada noite, forte, ágil, incisiva no corte. A faca longa e afiada passara a ser um prolongamento de meus dedos. Eu me perguntava se o novo transe de seu Seis, sorrindo para o teto, seria profundo a ponto de impedi-lo de defender-se de um golpe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguia minha rotina. Continuava enxergando os mortos, amarrada ao tédio com cordões e laços fortes. Sei que era imaginação minha. Mas não era imaginação que eu pudesse controlar. Assistia o espetáculo. A diferença era que, agora, os mortos pareciam ter medo de mim. Não viravam em minha direção seus rostos. Mantinham distância respeitosa. Retiravam-se aos poucos do local em que eu estivesse. Até o metrô tornava-se rarefeito. Sei que era imaginação minha. Mas, nítida demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu levava as refeições todas as noites até os fundos. Os vigilantes não tinham mais o mesmo ânimo. Até dormir, dormiam. Ouvira eles comentando que esperariam mais uma semana ou duas. Se o santo não voltasse a recitar milagres, seria removido para o asilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai se lamentava pela perspectiva de perder a venda das refeições. Repetia para mim, como se esperasse que eu inventasse uma solução, que a credibilidade fora perdida, não seria possível reativar a casa com outros médiuns. Meu consolo era assistir seu tormento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prosseguia em minha rotina. Esperava por algo, sem saber o quê. Ficava observando seu Seis, uma noite após outra. Os imbecis dos vigilantes permaneciam conversando no fundo da sala. Dormiam. Eu me perguntava se, durante esse tempo todo, nenhum deles percebera que seu Seis continuara a crescer. Cada vez mais alto, mais inchado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as noites levava as refeições e permanecia um tempo diante do monstro. Ouvira os vigilantes comentando que não existiam motivos para adiar a remoção do seu Seis. Só que eu já não desejava isso. Não enquanto tudo não estivesse, de verdade, terminado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia, sentia, que deveria escrever sobre os acontecimentos. Escrevi isso tudo na noite retrasada, sem parar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem à noite o demônio falou em voz baixa comigo. Os vigilantes estavam distraídos no canto da sala, jogando baralho. Eu permanecia em pé diante de seu Seis, observando seu inchaço. Imaginava se ele não explodiria como um balão se fosse furado. Estava com os olhos fixos em seu estômago, saltado sob a camisa, quando senti um formigamento na testa. Antes mesmo de levantar a cabeça, adivinhara: o olhar de seu Seis estava cravado ali. Sei que não era apenas reflexo do único abajur aceso no canto da sala, havia mesmo um brilho próprio saindo de seu olhar, um brilho de coisa ruim. Seus olhos pareciam duas cabeças de cobras encarando-me desde cima. Seu olhar foi baixando. O monstro estava me admirando. Seu olhar deliciou-se com meu umbigo, deixado à mostra por minha calça de cintura baixa. Sua língua asquerosa fez movimentos para fora da boca como se lambesse, enquanto fixava meus pés descalços. Chupou meus dedinhos à distância, um por um. Ele demorou o olhar em meus peitos, salientes sob o tecido da camiseta branca. Então começou a mover os lábios em silêncio. Não consegui ler o que diziam. Aproximei-me para entender, mesmo sabendo que aconteceria o que aconteceu. A mão suada de carne podre acariciou meu braço, enquanto eu lia e relia nos lábios do pestilento o nome do meu pai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois vigilantes abobados nada viram. Mal responderam ao boa-noite que desejei ao me retirar. Nem perceberam que, na porta, ainda me virei para seu Seis e mandei para ele um beijo prolongado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não duvido mais de seus poderes. Sei que ele pode chamar forças obscuras para produzir acontecimentos. E entendi a troca que ele me propôs. Sei que ele pode prever o futuro. Mas não todo o futuro. Ele também se deixa cegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a noite em claro. Em alguns momentos pensei em recuar, porém me foi nítido que, quando fraquejava, o tédio, ou a raiva, ou o medo, sei lá, tornava-se tão grande e pavoroso que não sei se era uma enchente que vinha do fundo de mim para me afogar ou se era um mar de ondas gigantes vindo de fora, do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei outra noite em claro. Mas estou sem sono. Escrevo essas últimas linhas agora pela manhã. Meu pai tomou cerveja em vez de café. Saiu sem me dizer palavra. Notei que o bolso de sua calça estava estufado por um bolo de dinheiro e que a ponta de uma nota de cinqüenta estava à mostra. Ele já não sabe mais o que faz. Sempre se achou esperto, sequer percebe o quanto está débil. Foi jogar sinuca no boteco, fazer apostas. Em sua ilusão, pensa que vai voltar para casa com mais dinheiro do que saiu. Não vai voltar para casa. Vai ser assaltado. Vai reagir. Vai ser morto. Foi a última vez que o vi. Eu sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei da rua faz meia hora. Só vi as pessoas de sempre, as que vivem suas vidinhas. Os mortos desapareceram. Em instantes meu pai vai se juntar a eles. Minha mente está expandida. Compreendo tudo como nunca havia compreendido. Estou sem medo, sem sono. Estou desperta como jamais estive. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois vigilantes abobados bateram na porta da cozinha. Vieram me dizer que vão sair mais cedo. Os dois outros não demoram a chegar. Não preciso me preocupar com seu Seis, ele está dormindo um sono pesado, tão cedo não acorda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, os outros dois vigilantes vão demorar. Eu sei. Depois de todos esses meses, estaremos só eu e seu Seis na casa. Eu, aqui na cozinha. Ainda agora, retalhava a carne. Ele, lá nos fundos. Dormindo, acreditaram os dois abobados. Só eu e ele.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-1079512168502548092?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/1079512168502548092/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/05/recital-dos-mortos-de-nelson-rego.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/1079512168502548092'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/1079512168502548092'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/05/recital-dos-mortos-de-nelson-rego.html' title='Recital dos mortos, de Nelson Rego'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-2178863052120177054</id><published>2010-05-19T10:53:00.000-07:00</published><updated>2010-05-19T10:53:54.529-07:00</updated><title type='text'>A devota, de Caetano Sordi</title><content type='html'>Naqueles dias, em que o mundo conhecido parecia ter sido colocado de cabeça para baixo, apenas uma consternação habitava os pensamentos de Fermín Arantza: conduzir a mãe, pela última vez, à Igreja de Santiago Apóstolo, em Amorebieta, para se confessar. Os dias que restavam para Suri Arantza na companhia dos vivos eram poucos. Os sinais disso eram tão evidentes quanto o rastro dos aviões alemães no céu: de uns tempos para cá, a velha mãe não aquietava a língua um só segundo, destilando, do nascer ao pôr do sol, as cantilenas religiosas, en el “idioma”, que todos, num raio de duzentos quilômetros, saberiam acompanhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema que se interpunha na mente de Fermín era de ordem prática: o padre confessor havia sido transferido dois anos antes para Amorebieta. Padre Xoaquín, um dos poucos galegos conhecidos que aprenderam o idioma, era, na cabeça de sua mãe, autoridade inviolável em termos de confissão. Suri Arantza jamais se subordinaria aos conselhos de um padre mais jovem. Ainda mais se ele se recusasse a falar euskera e tivesse “aqueles olhos andaluzes” como tinha o então abade da capela local. Era de suma importância, portanto, que o bloqueio dos nacionalistas fosse atravessado para que sua mãe pudesse habitar a eternidade ao lado direito do Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde o dia em que eclodira a guerra, foram poucos os gentios do povoado que tinham visto jorrar sangue ou explosões de pólvora à sua frente. Protegido, à leste e ao sul, por umas colinas baixas; e a norte e à oeste pela coroa dentada do Cantábrico, o vilarejo, até então, havia sentido somente os efeitos secundários do fratricídio peninsular. Os racionamentos de comida e mantimentos já duravam um ano. Os aldeões já tinham se resignado a comer estritamente aquilo o que produziam, tratando produtos enlatados, bem como industrializados de toda sorte, sob o registro de bem-vindas exceções domingueiras. A situação piorara, entretanto, desde que os nacionalistas haviam bloqueado a Estrada Grande, na altura de Amorebieta, por volta do entardecer da quinta-feira de Pentecostes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levá-la seria de grande facilidade e simplicidade se a devota não estivesse acometida do furor cantinolento que a fazia repetir, uma atrás da outra, todas as cantigas de Igreja conhecidas em Euskadi, sem que nada, absolutamente nada fizesse-lhe parar. Pelas ordens do generalíssimo, todas as línguas peninsulares que não o castelhano estavam expressamente proibidas em território nacionalista. Mesmo que cruzasse o cerco conduzindo a mãe com sua demente cantoria, o simples fato de andar por Amorebieta ao seu lado poderia produzir graves problemas para ambos; e de problemas, Fermín Arantza já possuía a complicada vida da etxalde. Se todos os problemas do mundo fossem como aqueles da vida pastoril, por exemplo, recolher uma ovelha morta do leito de um rio, a existência seria significativamente menos complicada. Assim pensava Fermín Arantza toda vez que a polícia implicava com algum conhecido seu por chamar as coisas por seu nome de verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, na cabeça de Fermín Arantza, as coisas tinham nomes de verdade e nomes de mentira; os primeiros, evidentemente mais antigos e potentes que os segundos. Não havia motivo que o convencesse para chamar Donostia de San Sebastián, euskera de basco ou mesmo “vascuense” (palavra horrível ouvida de um sujeito local conhecido como “o gramático”), bem como a sagrada etxalde de “fazenda” e substituir o corriqueiro e fluido Egun On por um frio e cortadiço “Buenos dias”. Explicar-se em castelhano, assim como explicar o problema da sua mãe em castelhano para a soldadesca armada, era uma situação do mundo dos possíveis que nada agradava Fermín Arantza, justamente por ter de substituir as palavras autênticas pelas palavras mentirosas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Fermín Arantza, que nunca fora muito afeito à atmosfera citadina, restringir seus horizontes à cerca da etxalde nunca havia se configurado como um problema. Até mesmo visitar o povoado, distante a poucas léguas do seu portão, consistia para ele uma tarefa aborrecida, destas que se faz somente por se fazer. Desde que o irmão mais novo Ignacio – ou Iñaki, no idioma – havia partido para um convento em San Sebastián, a responsabilidade pela velha casa e a velha mãe tinha recaído totalmente sobre si. Suri Arantza, aos oitenta e quatro anos de idade, já não enxergava com a mesma eficiência com que alguns anos antes conseguia identificar grãos de milho fugidios nos interstícios das lajotas do assoalho; da mesma forma, seus movimentos, outrora tesos e certeiros, tinham definhado até os simples atos humanos de falar e respirar. Caminhar ainda lhe era possível, uns poucos passos, assim como conduzir a colher de sopa até a boca. Todos os dias, a velha dirigia-se até a latrina sozinha e, pacienciosamente, respeitava o imperativo de suas necessidades corporais. O pouco de autonomia que ainda possuía frente ao filho era celebrada diariamente neste ritual sem mais significações. Praticamente fundido às necessidades da mãe e da lida na etxalde, Fermín Arantza não tinha tempo algum para mulheres, jogar pelota, distribuir insultos etílicos na taverna e todas as atividades mundanas que consumiam o tempo dos varões ilhados pela guerra civil. Bonito e forte, não eram poucas as moças que viam nele um casamento promissor; belos e robustos filhos como Fermín e toda a estirpe dos Arantza, cuja presença naquele úmido vale do Cantábrico remontava ao tempo dos romanos ou dos visigodos. Os Arantza, assim como seus vizinhos Iturbide e os irascíveis Oyarzábal da outra margem do riacho (com os quais os Arantza sempre possuíram disputas demarcatórias), eram o que de mais antigo – depois das pedras – poderia ser encontrado entre aqueles montes tristes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A velha passava os dias deitada numa cama antiga, que havia assistido ao parto de seus filhos, além de júbilos e infernos da vida conjugal. Da grande janela à sua frente, conseguia ter uma visão bastante ampla das terras da etxalde, embora não conseguisse mais distinguir dos vultos as suas formas essenciais. Fermín, após a lide no campo, passava longas horas velando a mãe, sentado em uma poltrona puída, como que antecipando um funeral. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levanta-te, menino, põe-te de pé. – ordenou Suri Arantza – o que está acontecendo lá embaixo, lá no rio? Olha com atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É uma ovelha, mamãe. – respondeu Fermín – Há tempos que está afogada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já se contavam três dias desde que a carcaça do animal havia sido trazida, pela correnteza, à margem do pequeno riacho lindeiro à etxalde dos Arantza. Nem Fermín nem os empregados da propriedade haviam tomado qualquer providência em relação àquilo. Pensaram, primeiramente, que os cachorros tratariam de fazer o trabalho sujo, deglutindo os restos da pobre ovelha como bendiria seu instinto ferino. Os ossos, posteriormente, poderiam ser guardados pelos homens para usufruto próprio. Em tempos de penúria como aqueles, a utilidade de todas coisas – até mesmo as mais absurdas e prescindíveis, em outras épocas – era ponderada com seriedade. “É quando o mundo parece se dilacerar”, pontificava Xabier Iturbide, velho amigo e vizinho dos Arantza, “que as coisas se revestem de mais dignidade”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias iam se seguindo e o sol se punha cada vez mais triste atrás dos dentes do Cantábrico; o fim de tarde vinha sempre acompanhado do monstruoso rufar das hélices alemãs. Fermín Arantza mal e mal comia, importunado como estava não só pelo problema da missa e da subseqüente confissão, mas também pela intermitente ladainha que se ouvia desde o dormitório da sua mãe. Por alguns momentos esquecia daquilo e era como se a fraquejada voz de Suri Arantza ditasse o ritmo do mundo; de fato, aquelas cantigas eram declamadas na língua do nome verdadeiro de todas as coisas, e nada mais adequado ao mundo e à vida do que o nome que cada coisa tem. No entanto, toda vez que se afastava um pouco da velha casa e podia desfrutar de um silêncio mais profundo, era como se outra voz, ainda mais verdadeira, independente dos homens e das suas guerras civis, falasse ao seu ouvido. Longe da mãe, longe de tudo, apenas na companhia dos grilos e dos imprevisíveis sons do vale e do riacho, era como se ouvisse um idioma mais autêntico que o idioma autêntico: o som das palavras sem boca, diretamente coladas nas coisas que definem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda vez que retornava à casa e ao tecido sonoro produzido por Suri Arantza, Fermín sentia-se novamente jogado sobre a realidade. Aquela língua há pouco ouvida como que se dissipava novamente dentro do espectro das palavras corriqueiras, dentro do universo de nomes e verbos produzidos pelo idioma, a língua falada pela sua estirpe desde eras ancestrais. Volta e meia a mãe interrompia os cânticos e, mirando Fermín, fundo nos olhos, lhe perguntava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levanta-te, menino, põe-te de pé. O que está acontecendo ali? Olha com atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era mais a carcaça da ovelha que atraía seu olhar cansado. Ela já havia sido retirada. A persiana da janela mais próxima é que se mexia freneticamente, por causa do vento, dando secos murros na parede. Como era noite de lua cheia, portanto bastante clara, uma tímida luz vinha de fora. Esta luminosidade parca, acoplada ao vai-e-vem da persiana, produzia sombras fantasmagóricas no dormitório da devota. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É o vento, mamãe. Tua janela está aberta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde que Suri Arantza havia perdido boa parte da visão, Fermín também fazia as vezes de olhos para sua mãe. Aos vultos que ela via aqui e acolá – sobretudo aqueles do lado de fora da janela – ele dava a digna e honesta interpretação. “Vejo agora através das tuas palavras, Fermín”, dizia ela, sempre agradecida, nos momentos de lucidez em que cessava a cantoria. Eles eram diários e repetiam a mesma forma, como se um demônio meridiano tivesse implantado uma loucura sã, ou uma demência matemática no juízo da pobre velha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia ser às cinco horas da tarde ou às sete horas da manhã. Variava. Fermín chegava ao quarto minutos antes e, silenciosamente, acomodava-se na poltrona de feltro, colocada ao lado do leito de sua mãe. A ladainha religiosa arrefecia lentamente e, de repente, após alguns segundos de calado suspense, ela dizia: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levanta-te, menino, põe-te de pé. Diz-me o que lá se vê. Diz-me com atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a mulher do vizinho Iturbide, o ritual diário não passava de mais uma manifestação do sagrado coração de Cristo, indício de que Suri Arantza necessitava o quanto antes se confessar para sua redenção. Tais coisas oprimiam o coração de Fermín como um cruel torniquete. Antes que achasse uma solução viável para o problema, temia enlouquecer de vez. O vento que sopra do Mar Cantábrico em direção à península, assim que bate nas encostas de Navarra, retorna sobre Euskadi com a úmida força de uma resignação abatida. Em todas as direções que olhava, Fermín Arantza via indícios de seu mundo acabando. A ovelha que encontrara em seu riacho, tomara ciência posteriormente, havia sido abatida por fogo humano, impiedoso. Da guerra das pessoas, também os bichos estavam padecendo. A guerra chegara naquele ponto do mundo que quase ninguém havia conseguido transpor. A língua de Fermín e das ladainhas da sua mãe só havia resistido por força destas contingências, meio naturais, meio humanas, que preservam resquícios da fundação do mundo aqui e acolá. Assim que terminasse a guerra, temia Fermín, também terminaria a sorte de sua gente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ininterrupta corrente das efemérides era cada vez mais permeada pela angústia de Fermín e ritmados pela cantilena a São Tiago Apóstolo, às Virgens de Covadonga e Begoña, Santo Antônio e São Sebastião. Os Iturbide, comovidos com a situação do rapaz, trataram então de emprestar-lhe um bem valioso, para que pudesse ouvir, de quando em quando, outras melodias que não aquelas da sua mãe. O enorme rádio de botões circulares foi posicionado ao lado da cama de Suri Arantza, para que também ela pudesse variar um pouco a monotonia dos pensamentos. Naquela altura dos acontecimentos, qualquer mudança de tom representaria um temporário alívio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois que os resultados de tal empresa não foram os melhores, tendo em vista os planos ainda vivos na cabeça de Fermín de cruzar o cerco dos soldados e chegar ao Padre Xabier a tempo de operar a salvação da alma materna. Após um estafante dia de trabalho na plantação contígua à casa da etxalde, Fermín Arantza levou à mãe, como de costume, uma pequena ração de leite, biscoitos e café. Ao entrar no quarto, deparou-se não com as costumeiras cantorias religiosas, mas algo muito pior; muito mais difícil de ser aceito e passar imperceptível pelos aquilinos ouvidos da soldadesca. Com força surpreendente para uma velha entrevada, Suri Arantza, um tom acima da sua voz normal, cantarolava as malditas palavras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eusko gudariak gara&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Euskadi askatzego&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Gerturi daukagu odola&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Bere aldez emateko...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fermín Arantza conhecia muito bem aquela melodia. Quando a sua mãe ainda freqüentava o baile dos humanos sãos, ele volta e meia se dirigia, após as lides na propriedade, para a única cantina do povoado, tendo como objetivo consumir uns tragos. De quando em quando, gente de Bilbao aparecia propalando, numa ridícula versão pomposa do idioma, idéias tão absurdas quanto imaginar um morto insepulto feliz. Era um fato, conhecido e acreditado, que Fermín Arantza nunca gostara muito de gastar sua língua com castelhano e com a gente que o falava naturalmente. Todavia, reconhecia como sacrossanta a união das foralidades de sua gente e Reis Católicos. Questionar tais coisas parecia, para sua mente aldeã, tão sacrílegas quanto jogar aos porcos o sangue eucarístico. Uma das grandes irritações suas com o mundo daqueles dias era justamente o fato dele parecer estar se dilacerando através da suspensão destes liames sagrados; a fidelidade a certos princípios estava impressa em sua alma. “Quando ovelhas mortas aparecem boiando em riachos e pobres velhas são impedidas de se confessar, é porque tudo, absolutamente tudo está perdendo lentamente o seu sentido” – assim dissera Fermín Arantza para o amigo Iturbide, um pouco antes de regressar à casa depois de se aconselhar sobre a novidade da mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato preocupante não era agora o idioma em si: era o conteúdo das novas ladainhas da sua mãe. Fermín conseguia imaginar com perfeição a sua carroça avançando pela estrada, sua mãe escondida como podia, nada conseguindo abafar a cantilena que vem da sua boca. O primeiro soldado os aborda. Do fundo da carroça se escuta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eusko gudariak gara&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Euskadi askatzeko...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Nós somos os soldados bascos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que a Euskadi libertaremos...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os soldados entendem rudimentos do idioma. Em todo caso, mesmo não o entendendo, saberiam identificar a melodia republicana. Maldito dia em que os Iturbide haviam lhe emprestado aquele rádio. Melhor seria que os franquistas escutassem Done Jakue e “santo santo santo é o Senhor” do que aquelas palavras que ele mesmo não via razão de serem. A própria palavra gudariak não existia na sua língua normal, herdada dos avós e bisavós. Como bem lhe informaram alguns, tratava-se de mais um dos verbetes criados pela gente de Bilbao para falar de coisas que no mundo de antanho não existiam, mas que como a pólvora, a espingarda, a metralhadora de repetição e a bomba de fósforo, passaram a habitar o mundo das coisas conhecidas e demandavam nomes para si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meio a tudo isso, chegara o frio, e Suri Arantza fora acometida de uma violenta gripe que a colocou por algumas semanas mais próxima da morte do que da vida. Paradoxalmente, a doença acabou dando a Fermín Arantza uns dias de paz, uma vez que a cantoria - agora política - e não religiosa, havia trazido para a etxalde novamente o calar-se das coisas inertes. Temia, no entanto, que a mãe retornasse do silêncio proferindo outras verborragias, quem sabe insultos e palavrões. O medo acabou não se concretizando, mas assim que retornara ao pouco de lucidez que lhe restava, Suri Arantza apenas lhe perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levanta-te menino, põe-te de pé. O que é esta claridade lá fora? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É a neve, mamãe. O inverno chegou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fermín apreciava muito o brancor gelado que cobria os campos naquela época do ano, mas em tempos difíceis, nada pior do que a chegada do frio. O racionamento de víveres tinha se tornado ainda mais cruel. Os nacionalistas que bloqueavam a Estrada Grande haviam organizado, na semana anterior, uma campanha de recolhimento de todo tipo de tecido e peles, nas etxalde dos arredores, para o esforço de guerra. A propriedade dos Arantza não havia ficado de fora. Fermín e os empregados conseguiram esconder apenas uns casacos seus e umas mantas puídas de velhos tempos, de modo que patrão e empregados – os homens – faziam um rodízio semanal de agasalhos para organizar a penúria de modo mais ou menos decente. Na visita dos soldados, Fermín escondera a mãe no galinheiro, para que os castelhanos não ouvissem seus cantares revolucionários. Por vezes sentia toda aquela situação como ridícula, mas há muito as coisas perdiam sua seriedade e modo grave de ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que foram embora, percebera que um dos soldados deixara um enorme pala vermelho com as insíginias dos Reis Católicos sobre as almofadas do sofá. “Bem feito, filho da puta”, pensara de si para si em foro íntimo, e ajuntou a nova coberta ao leito da doente mãe. A gente do povoado tornara-se, naquele inverno, uma pequena população de inventores. A miséria fizera com que os objetos ainda não consumidos pelos esforço de guerra se tornassem polivalentes, servindo em todos os lares para muito mais funções do que aquelas em vista das quais vieram ao mundo. Esta situação derivou numa mudança de mentalidade por parte do vizinho Iturbide, que abandonara sua doutrina da dignidade ampliada dos objetos em tempos difíceis e adotara a máxima de que, por força da matança sem sentido, “os objetos haviam todos se prostituído”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que a primavera deu os primeiros indícios da sua chegada, colorindo pouco a pouco o campo da etxalde com pequeninas flores branco-e-amarelas, Suri Arantza pareceu um pouco mais disposta e aventurou-se para além da cama em passos tímidos e contidos, debruçando-se sobre o parapeito da janela. Fazia tempo que não via o mundo desde aquela perspectiva. Embora conseguisse mirar o exterior desde a sua cama, daquele ponto de vista o mundo de fora ocupava todo espectro do visível, por pior que fossem suas capacidades de distinguir a realidade dos borrões que via aqui e ali. Fermín Arantza a observava desde a poltrona com uma pequena alegria estampada na alma; freqüente nos momentos em que a mãe cessava o torpor melódico e retornava ao mundo das conversações normais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levanta-te, menino, põe-te de pé. O que é isto que se move lá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fermín levantou-se um tanto abruptamente. Da poltrona, via uma figura humana crescendo em direção à casa desde o exterior. Cambaleava. E parecia estender a mão. Da janela, pode enxergar melhor. Antes de correr para fora, respondera:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mamãe, é um rapaz que chega à nossa casa. Parece exausto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dê ao moço água e pão. Casa com visita, casa com Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fermín não parecia tão disposto a seguir à risca o ancestral preceito da sua mãe. Naqueles dias, uma visita também poderia significar o inferno de uma casa. Saiu para encontrá-lo, portanto, bastante receoso. Sempre tinha um revólver no coldre por precaução. Ao dar-se de cara com o visitante, percebeu que não se tratava nem de um galego, nem de um castelhano, cântabro ou basco; o surrado uniforme denunciava ser ele um membro das brigadas, inimigo dos nacionalistas e possivelmente estrangeiro. De fato, seus louros cabelos de visigodo e os profundos olhos azuis denunciavam qualquer coisa nórdica; para efeito de satisfação identitária, Fermín decidiu considerá-lo um alemão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que queres aqui? – perguntou em castelhano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Água. Comida. – respondeu o visitante, possivelmente dando voz à metade do seu vocabulário em espanhol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me acompanhe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fermín sentiu que o gesto para segui-lo havia sido mais eficiente que as palavras ditas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conduziu-o até a cozinha. Lá, preparou café forte e deu-lhe duas fatias de pão branco; um punhado de manteiga, o pote de açúcar. “Presunto?”, “Agradecido”. “Geléia?”, “Deus lhe pague”. Para si, Fermín serviu-se de café com um bocado de leite. Percebeu que fazia três anos que não dividia a ampla mesa de madeira com alguém de fora da etxalde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Brigadas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim – assentiu o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como você veio parar aqui? Não há um bloqueio dos nacionalistas logo aqui a frente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amorebieta caiu. Divisão italiana matou tudo nacionalista, pá, pá, pá! – esclareceu o visitante, gesticulando, com forte sotaque germânico – Eu perdi meu Kommandant. Escondido na floresta... dois dias caminhando até casa de bom homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o estrangeiro comia, Fermín Arantza reparava nas cicatrizes que seu corpo de normando sustentava, talvez como troféus. O sujeito comia como se nunca tivesse visto um prato de sopa em toda a sua vida. Tristes tempos, em que um mísero pedaço de pão provoca as mesmas reações que uma barra de ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O caminho agora está livre? Daqui até Amorebieta não há nacionalistas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Amorebieta caiu. Kaputt. Wir haben es geschafft.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amigo – disse Arantza após respirar fundo – se você é grato pela minha solidariedade, gostaria de lhe pedir um favor. De gente honesta para gente honesta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Escolte a mim e à minha mãe até a Igreja de São Tiago Apóstolo em Amorebieta. É questão de vida ou morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro não estava em condições de recusar qualquer pedido. Ao final da tarde já estavam com tudo pronto para a viagem. O coração de Fermín Arantza, pela primeira vez em anos, desde o início daquele cerco sem sentido, via-se pleno de alguma esperança. Cumpriria com orgulho sua função de bom filho: encomendaria de modo justo e decente a boa-morte de sua mãe. Viajariam durante a noite, por ser mais seguro. Embora os franquistas tivessem sido vergonhosamente abatidos por uma força tarefa de voluntários alemães, franceses, argentinos e italianos, era bem possível que alguns deles ainda perambulassem pela mata, humilhados e ansiosos por tomar o sangue de qualquer coisa que viesse a cruzar o seu caminho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A carroça avançava lentamente pelo curso da Estrada Grande. Cada vez mais longe da etxalde, Fermín Arantza conseguia compreender melhor o estrago sobre o mundo que o fratricídio ibérico estava causando. Não havia árvore, não havia bicho, não havia casa arruinada ao longo do caminho que não gritasse: “salvem-me, pois também sou vítima desta barbárie”. Fermín pensou então em Cristo e o sagrado mistério do sacrifício. Se um homem morre pela humanidade inteira, por que em alguns casos a humanidade inteira parece morrer por força de uns poucos homens?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os raios de sol já surgiam desde os cumes cantábricos quando sua diligência adentrara às portas da cidade recém tomada. Amorebieta ainda cheirava à peste; o fedor de pólvora, misturado com sangue e madeira queimada impregnava suas vias nasais. O estrangeiro, feliz pela retribuição paga, deixou-se ser levado mais uns metros pela carroça da família Arantza. Simpatizara com aquela velha louca, porém bondosa, que cantara a viagem inteira o hino da Internacional. Antes de se alistar em seu país natal, havia ouvido que não há lugar na península mais pitoresco e verdadeiro que aquelas terras do norte, espremidas entre o mar e a montanha, entre Deus e o Diabo, entre a Espada e a Cruz. Tal raça não parecia habitar a face da terra. Não, pelo menos, no mesmo registro que os demais povos ao redor. A viagem de escolta ao lado dos Arantza havia apenas confirmado esta impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das poucas ruas de Amorebieta não tomadas pela ocre lama da destruição, a praça central pareceu a Fermín Arantza a mais apropriada para estacionar a carroça e fazer descer, com segurança, sua pobre mãe. Dali até a igreja do Apóstolo eram uns poucos passos. Nada que as pernas de Suri Arantza, num sacrifício final, não estivessem aptas a fazer. Apesar do lento apagamento do mundo, o céu estava, naquele dia, assustadoramente azul. Traços brancos da aeronáutica alemã cruzavam sua imensidão lembrando aos mortais que o terror ainda persistia. Pelo menos para Suri Arantza, as coisas pareciam se encaminhar para um desfecho mais feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente, mãe e filho escutaram zumbidos de todos os lados. Vozes, muitas vozes, gritavam ordens em duas, três, quatro, infinitas línguas, de infinitas partes do mundo; de todas as partes da Terra, ao menos, que haviam enviado um pouco da sua gente para ter suas vísceras expostas naquela guerra de horrores. “Viva a República!”, ouvia-se à esquerda; “Es lebt die spanischen Republik!”, assoprava o vento à direita; “Por Franco, por España!”, de todos os lados; até mesmo um familiar “Gora Euskal Herria! Gora Euskal Herria askatuta!” conseguiram captar. Os zumbidos das balas eram cada vez mais próximos. Sem poder apressar o passo, Fermín Arantza tentou cobrir a mãe como pôde, puxando-a de um lado para o outro, de porta em porta, janela em janela, procurando defender a ambos da rajada de chuva prateada que os atinge e desperta: ou bem enfrentam o trovejar da guerra, ou bem Suri Arantza morre sem se confessar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De pronto, avistaram a Igreja de São Tiago Apóstolo cercada de anarquistas. Também ela havia sido tocada pelas balas. Do alto de um buraco na parede, outrora ocupado por um vitral, um soldado atirava na estátua de Cristo Rei. Rapidamente ele os avista, mãe e filho, Fermín coberto por um pala vermelho com a efígie dos Reis Católicos. Cumpridor de ordens, o soldado não titubeia. “Franquista!”, grita, e Suri Arantza suspende a respiração. Seus olhos não conseguem identificar nada mais que movimentos incertos, apenas a imagem de Fermín, jogado ao chão, destaca-se, visível, na tessitura do seu olhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levanta-te, menino. Põe-te de pé. O que está acontecendo aí frente? Que vozes são estas e que línguas são estas que eu não compreendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É o mundo, mamãe. São as palavras novas, mamãe. Nem elas, nem o mundo, nos pertencem mais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-2178863052120177054?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/2178863052120177054/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/05/devota-de-caetano-sordi.html#comment-form' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2178863052120177054'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2178863052120177054'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/05/devota-de-caetano-sordi.html' title='A devota, de Caetano Sordi'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-2662163863813092186</id><published>2010-05-11T14:09:00.000-07:00</published><updated>2010-05-11T14:09:56.491-07:00</updated><title type='text'>CORPO FECHADO, de Isabelle Fontrin</title><content type='html'>Deitado de olhos abertos no escuro do quarto, Doca recheia a noite insone com desespero. O sofrimento se esparrama e se aprofunda há dois dias. O medo resseca-lhe a boca. O coração dispara ao ritmo da angústia. Leva a mão à barriga e constata que o ferimento continua sangrando; e a dor, insuportável. Gostaria de sair porta afora espantando o impossível. Imagina-se correndo ladeira abaixo, a descer o morro, pegar o asfalto e fazer a única coisa na qual é bom. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tocaiar um otário voltando num carrão da balada. Estraçalhar o vidro, fincar o berro na cara.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doca gostava mesmo era do poder que sentia ao ver o terror nos olhos de suas vítimas sem saber o que viria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na paz, irmão! Leva tudo, mas me deixa.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas vezes ele ouviu estas palavras? Em vozes trêmulas, contraste com a firmeza de sua mão empunhando a arma que lhe dava coragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E aí, caralho, quem pode mais? Hein? Hein?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E gritava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Passa tudo, passa tudo, porra!.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais se encolhiam mais aumentavam as ofensas de Doca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Irmão é o escambau, mané, quem é mermão aqui? Sou filho do demo, não tenho parceiro, faço meus trampo na proteção do Poderoso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele acreditava no que dizia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na dolorosa madrugada leva a mão ao peito em busca da proteção que traz pendurada ao pescoço desde menino, presente de Mãe Vânia, poderosa na magia negra, temida no morro. Doca nunca se esqueceu da noite em que ela o pegou pela mão e o levou onde ninguém entrava sozinho ou sem permissão. Ele sempre fora curioso do lugar, mas tinha medo do poder da mulher que a todos na comunidade impunha limites. Aos olhos infantis-de-menino-que-já-viu-de-tudo o lugar parecia aterrador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dezenas de estátuas bizarras abarrotavam o minúsculo quartinho nos fundos do barraco da batuqueira. Lugar sem janelas, repleto de sombras subindo pelas paredes de madeira podre, desenhadas pelas chamas das velas que faziam o ambiente sufocante. Cheiro de morte. Sua protetora, com hálito de cachaça, avisou-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desde hoje, meu fio, tu não precisa mais tê medo de nada nem de ninguém. Tô te dando a proteção de um Pai muito melhor do que o teu verdadeiro”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela bebeu e deu de beber a ele, rodaram dentro do círculo pintado em carvão no piso, contornado pelas velas acesas, evocando palavras incompreensíveis ao menino. O ritual terminou com o sacrifício de um galo preto, retirado de um saco de estopa. O bicho teve o peito aberto em segundos pelos dedos de Mãe Vânia; o coração arrancado e colocado na pequena mão espalmada, ainda pulsante, quente, banhado em sangue. Doca lembra-se da sensação do músculo apertado, fechado entre seus dedos, o galo esperneando, como por magia, ainda conectado à vida que já não tinha. No final, recebeu um colar acompanhado da promessa-ameaça de nunca tirá-lo, um quadrado de couro preso a uma tira do mesmo material, recheado com misterioso conteúdo jamais conhecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tu tá protegido, guri. Ninguém mais mete a mão contigo. Chega de abusarem de ti porque é sozinho. Teu pai agora é o Poderoso. Fala pra todo mundo que eu disse isso. Nada de mal vai te acontecer, nem agora, nem no resto dos teus dias”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a partir daquele dia, a vida de Doca mudou mesmo. Ele se sentiu mais seguro, ninguém o incomodava, deixou de obedecer aos maiorais, como se seus donos fossem e passou a viver e ganhar a vida por ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um dia faço a mala e aí vou ter o que mereço.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que sempre esperava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, colada ao corpo suado do rapaz, a encardida guia permanecia como a finada Mãe Vânia ordenara. Na quente e sofrida noite havia inferno dentro do barraco e nas estranhas de Doca. Tinha 25 anos e nunca havia sido pego apesar das dezenas de mortes nas costas. Antes era parte do serviço, já há algum tempo lhe dava prazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Passa os troféu aí e vaza filha da puta, vaza, senão te encho de pipoca”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta oportunidade ele dava apenas aos que não se metiam a valentes. Colocava a grana, relógio, celular, tudo que pudesse virar pó, nos bolsos e se preparava para o próximo. Mudava de local, tinha os pontos perfeitos. Fazia como rotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A fita é cabulosa. Ô, meu pai, me tira dessa!” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há horas não conseguia mais se mexer, sem beber água, sem nada no estômago. Alternava momentos de lucidez e delírio. A febre e o vício consumindo dizimada energia. O calor, o calafrio, o ferimento podre, sangue se sobrepondo ao anterior, negro, seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Passa tudo, passa tudo, passa tudo, puta do cão”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Calma, calma, meu filho, estou indo para o trabalho, sou freira, que o Senhor esteja contigo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como Doca adivinharia que a mulher de meia idade, miúda à sua frente era uma religiosa? Sem hábito, dirigindo sozinha na madrugada, em zona tão perigosa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cala a boca, barata do caralho.”Tô na maior fissura passa tudo ou te colo o brinco. Não pensa que tu é outra.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doca falou que ela não era diferente dos demais, mas, achou que sim. Entrou no carro, tinha pressa, e cometeu o erro que cria de bandido nenhuma faria: baixou a guarda. Sentou-se no banco do carona; tentou arrancar das mãos da mulher a pasta que ela mantinha agarrada ao peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um movimento brusco, e junto com ele, veio também uma inesperada mão, forte, ágil e na ponta desta, a bicuda que afundou na barriga de Doca com força descomunal. Uma só mortal estocada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas o que é isso, barata da porra, tu pirou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na surpresa, foi só o que disse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela porta aberta e com um empurrão certeiro foi atirado na calçada, caindo ao lado do carro que arrancou rápido, sem que ele tivesse tempo de reagir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fica com Deus, meu filho. Que o Senhor te acompanhe.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-2662163863813092186?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/2662163863813092186/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/05/corpo-fechado-de-isabelle-fontrin.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2662163863813092186'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2662163863813092186'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/05/corpo-fechado-de-isabelle-fontrin.html' title='CORPO FECHADO, de Isabelle Fontrin'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-2770184636828084610</id><published>2010-01-15T04:48:00.000-08:00</published><updated>2010-01-15T04:48:58.066-08:00</updated><title type='text'>Mamãe trabalhava à noite (Emir Ross)</title><content type='html'>Mamãe trabalhava à noite. “Cuide da maninha até eu voltar.” Sempre que faço sombras de lua, lembro-me dela. Ela só voltava na madrugada. Maninha chorava, maninha brincava. Mas eu nunca dormia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa vida era pacata e quase normal. Só agora sei que mamãe dormia nas manhãs, depois que eu saía para o colégio. “Pegou a merenda?” Eu não gostava muito dos sanduíches. Porém ela sempre preparava as fatias de pão com recheio antes de me acordar. Sinto o sabor até hoje, sabor de estômago cheio, temperado com saliva. Ela tinha, às vezes, marcas pelo corpo. Eram marcas de feijão para o almoço, de repolho com vinagre. Quando ela se distraía eu podia ver outras marcas; de remédios pra gripe, de tênis novo. Algumas custavam a sair. Outras sumiam no mesmo instante que eu as via. Pareciam as mais doídas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não lembro dela ter amigas. As visitas que recebia nalgumas tardes eram da tia, que gritava. “Quer matar a mãe do coração?”. A mãe que a tia falava era a vovó, que só foi lá em casa uma vez. Complicado identificar o rosto dela, mas posso perceber que ela usava roupas de avó, largas, balançando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Difícil explicar porque essa rua lembra mamãe. Nunca caminhei por aqui com ela. Mas a calçada tem seu cheiro. Aparência de garoa, eis o que mamãe tinha. Garoa que chora, chora, chora. Mas nada molha. Talvez por isso sua maquilagem estivesse sempre impecável. E seus olhos tristes irradiavam brilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já pra dentro.” Dizia quando os meninos me chamavam de nomes estranhos. Eram nomes que usavam botas de cano alto. Casacos compridos de cores vistosas. Mamãe me abraçava. Maninha me olhava, a chupar o dedão, pois sempre deixava cair a chupeta e não sabia pedir que a ajuntássemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mamãe era alta. Naquele tempo todos eram altos. Tinha o cabelo negro liso. Escorrido em direção ao queixo. E só usava brincos à noite; os colocava pouco antes de sair. Basta levantar os olhos e vejo seus brincos. Eles brilhavam aos raios da luz que vem dos poucos postes. Não é raro eu passar aqui. Mas sinto esses mistérios a cada piscar. Os carros que passam levam mamãe; e trazem de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos menino, come logo que tenho de sair.” Porém nem sempre eu tinha vontade de jantar. Vez em quando, respirava fundo e saía. Me deixava lá. Então eu jantava uma sopa de ausência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeira noite de mamãe em casa foi no meu aniversário. Meu primeiro aniversário foi aos sete anos. Mas não foram os colegas de classe. Nem a tia que eu não gostava. Nem a vó que eu não conhecia. Mas foi diferente ver a mãe em casa a noite inteira. Maninha encheu o nariz de merengue. Eu apaguei uma vela e ganhei um presente. Só depois fui ver que meu presente era uma marca inchada na coxa de mamãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora vamos dormir.” E foi a única vez que maninha deixou o berço e eu deixei o sofá-cama para dormirmos os três juntos no colchão esticado no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É sem sentido um homem parar à uma rua sozinho. Sentir garoa e olhar brincos e casacos largos. Mas vejo sentido em reparar mamãe e abrir os braços. E, de repente, faz sentido eu ver outra mamãe a acenar. E outra mamãe com sorriso largo. E também faz sentido aparecerem mais três mamães a mandarem-me entrar. E quando eu digo “Sim, mamãe.”, faz sentido apenas uma aproximar-se. Andar firme, andar ausente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mamãe sempre teve marcas pelo corpo. Eu não gostava delas. Eram marcas de tudo. E um dia haviam tantas marcas de tantas coisas que não havia mais pele original de mãe. “O que é isso, mãe?”. Ela me olhou demorado, virou o rosto pra maninha, depois voltou-se a mim e sacudiu meu corpo de menino já grande. “É a vida, filho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca mais a vi. Em mim, também há uma marca. Que só eu posso ver. Uma marca que também cresce e refugia-se nesta rua. Por isso venho aqui. Para ver seus brincos, suas botas de cano alto, seu casaco de cor vistosa. Mas também vejo o que não quero ver. Marcas; muitas. Então visto-me apressado, para não ouvir as frases que fazem minha marca crescer. “Ande logo, tenho dois filhos para sustentar.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-2770184636828084610?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/2770184636828084610/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/01/mamae-trabalhava-noite-emir-ross.html#comment-form' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2770184636828084610'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2770184636828084610'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/01/mamae-trabalhava-noite-emir-ross.html' title='Mamãe trabalhava à noite (Emir Ross)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-7810347318625561233</id><published>2010-01-12T04:56:00.000-08:00</published><updated>2010-01-12T04:56:36.851-08:00</updated><title type='text'>Dois graus centígrados (Rubem Mauro Machado)</title><content type='html'>Até domingo, tenho de matar 37 mil pessoas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está abafado, o suor brota na raiz dos cabelos, me inunda a testa, a nuca, o pescoço, não há como se habituar a esse maldito calor. Alguma dúvida? Nenhuma. Procedimento? O de sempre: chegada ao alvorecer, vias de fuga cercadas, não se deve deixar testemunha nem ter pena de ninguém, há sempre que vencer o impulso natural de querer se poupar as crianças. Certo? Certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E o moral de seus homens, como está?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hesito. O major Camilo curva-se um pouco para a frente, estreita os olhos, na leitura implacável de minhas reações. Estamos sempre sob avaliação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Em geral é bom, mas oscila – digo a verdade – O senhor sabe como é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sei. Vou mandar um novo carregamento de Transformid.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Balanço a cabeça, em concordância. As malditas pílulas viciam, deixam os homens fora de si, enlouquecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passeio os olhos pela parede do QG forrado de mapas, num deles está circulado em vermelho o campo de refugiados a ser “apagado”, na nossa gíria. Noutros, estão assinalados alvos das demais unidades, em geral a média é de quatro incursões por mês para cada uma delas. A consumação de cada trabalho, mesmo com o nosso armamento moderno, exige horas e uma energia absurda. Armas bacteriológicas seriam mais discretas, mas seus efeitos poderiam se voltar contra nós. Bato continência, peço licença para me retirar. Quando estou saindo, o major grita:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah sim, capitão, nem preciso dizer, a tropa vai ganhar uma remuneração extra por esse trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Obrigado, major.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pego o jipe elétrico, dirijo-me para o aquartelamento da UL Zeta, que comando. Todas as Unidades de Limpeza foram batizadas com uma letra do alfabeto grego, como Beta, Alfa, Gama, Delta e por aí vai. Alguns homens limpam armas no alpendre, outros jogam basquete na quadra de esportes, outros mais levantam pesos à sombra de uma árvore, são maneiras que têm de descarregar o estresse; eles detêm-se um momento ao me ver chegar, sabem que fui receber ordens, o que significa ação imediata. Matar, destruir, vira uma cachaça, uma necessidade, tem um componente quase orgástico; quando você arranca sangue, quer ver mais, sempre mais, alguns parecem não poder mais viver sem isso, o componente sádico muito forte dentro de nós. O problema é que a maioria, passada a orgia, entra em depressão, tem pesadelos à noite, todas as unidades registram elevado índice de suicídios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou direto para o meu PC, desabo na poltrona, abro a blusa de brim, ligo o ventilador. Pego na caixa um lenço de papel, me ponho a limpar os óculos rayban. Mundo filho da puta. A culpa de tudo é a insaciável voracidade de nossa espécie: o leão, uma vez alimentado, deixa os restos da presa para o chacal; o homem não, quer mais, mais e mais, nunca se sacia. Sempre foi assim. Os políticos, que tanto desprezamos, sempre fizeram o jogo que no fundo queremos, daí vem a força que têm. E foi por isso que as tentativas, há pouco mais de trinta anos, de um acordo para deter o aquecimento global fracassaram. Ninguém, países desenvolvidos, em desenvolvimento, subdesenvolvidos, queria abrir mão de nada. Para fazer pasto para o gado, derrubaram-se florestas; e alguém desistiu de seus automóveis? Do consumo sem limites, como se as matérias primas fossem inesgotáveis? Como se a terra espoliada pudesse se renovar eternamente? Chaminés significam empregos, alegava-se; e quem não quer progresso? E mudar uma economia baseada em combustíveis fósseis seria contrariar poderosos interesses estabelecidos, seria mudar o eixo do poder. E assim, toneladas de CO2 continuaram a ser jogadas na atmosfera, resultando em mais aquecimento, num processo já quase irreversível. Vozes alertavam contra a insensatez, aqui, acolá; mas um bloco de gelo se desprendendo no Ártico, a milhares de quilômetros, parece um acontecimento remoto demais para perturbar o nosso cotidiano, para nos fazer crer em sua realidade, para nos obrigar a levantar da cadeira e tomar uma atitude. Verdade, os cientistas sempre souberam, o aquecimento da Terra é um acontecimento natural, cíclico, ao qual se sucede um resfriamento, alguns calculam que aconteça a cada vinte mil, 25 mil anos: a contribuição deletéria do homem na verdade não significa mais do que dois ou três graus no aumento da temperatura média do globo. Mas esses dois graus foram exatamente a gota que fez o copo transbordar, com a elevação dos mares e as catástrofes que daí decorreram. Pobre Havaí, pobre Holanda, pobre Indonésia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passo um lenço pela cara, pelo pescoço, bebo um copo de água gelada. Não estou com pressa de convocar os tenentes e sargentos, essa gente toda tão bem treinada e na expectativa aguda das novas ordens, homens escolhidos a dedo. Primeiro, preciso me recuperar desse cansaço que me esmaga. Quando chamá-los, preciso estar feroz e determinado, o maior erro de um comandante é demonstrar qualquer hesitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que tudo foi previsto. O que não se esperava é que acontecesse tão depressa. Hoje aquele primeiro grande massacre, o de setembro de 2042, já foi assimilado, tornou-se um mero fato histórico, como a batalha de Salamina, a bomba de Hiroshima, o atentado a Nova York de setembro de 2001, poucos se lembram agora da comoção mundial que provocou, embora a grande maioria tratasse logo de buscar os argumentos que o justificavam. Desesperados pela fome e a sede, centenas de milhares de africanos, que haviam visto seus rios secarem, seus animais e colheitas morrerem na savana esturricada, como se à voz de um comando invisível, embarcaram num enxame de embarcações de todos os tamanhos e feitios em direção à Europa, encheram com elas o Mediterrâneo, que alguns órgãos de comunicação, com humor macabro, chamariam depois de Mar Vermelho. Cientes da catástrofe que se abateria sobre si, impotentes para impedir a enxurrada de miséria que se aproximava, as marinhas da França, Espanha, Itália e Portugal, numa ação conjunta, mandaram suas corvetas e fragatas varrerem para longe, para o fundo, para o inferno, aquela turba escura e esquálida, abafando seus gritos e seu espanto com a voz forte dos canhões e metralhadoras. E apenas podíamos então pressentir que aquela seria a primeira mortandade na série que se seguiria. Àquela altura, o nível dos oceanos não cessava de subir, engolindo em pouco tempo boa parte do Rio, Nova York, Xangai, Hong Kong, Marselha, Liverpool e outras centenas de metrópoles litorâneas, fazendo de Veneza um mito comparável ao da Atlântida. O Ártico encolheu na forma de um pequeno solidéu branco, países ilhéus do Pacífico sumiram do mapa, o Ceilão virou uma ilhota. Enquanto grandes porções do planeta convertiam-se num braseiro, outras, como a Inglaterra, congelavam por causa do desvio das correntes marítimas que amenizavam o clima. Com a produção agrícola e toda a economia mundial em colapso, multidões de refugiados climáticos vagavam de um lado para o outro, buscando uma quase impossível sobrevivência em meio à grande fome. Foi então que os países maiores fizeram aquele grande pacto secreto e foram criadas as unidades militares de extermínio. Não havia alternativa. A esterilização em massa não resolvia o problema da superpopulação, seus efeitos, muito demorados, serviam quando muito para travar o índice de crescimento populacional, nada mais que isso; e havia gente demais no planeta e comida de menos; chegou-se então à decisão fatal: para que um núcleo humano, afinal de contas, sejamos francos, a elite da humanidade, sobrevivesse, era preciso acabar o quanto antes com os excedentes, com aquelas multidões subnutridas empilhadas em acampamentos da periferia, que geravam doenças de toda espécie e eram uma ameaça o tempo todo de distúrbios, saques e invasões. E a escolha era uma só, lógica, imperativa até: o extermínio dos mais fracos, mais ignorantes, mais desprotegidos – os menos aptos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho o relógio, depositado sobre o tampo da mesa. Um militar bem formado não discute ordens, cumpre-as. Vou chamar meu pessoal, repassar as instruções. É preciso não amolecer, não sentir pena, ressaltou o major. O novo alvo está estabelecido, a data também: o próximo ataque ocorrerá dentro de 48 horas, num réveillon em que fogos e gritos não serão de deleite. O pior são os gritos: atravessam as bolas de cera que entopem nossos ouvidos, continuam a ecoar depois de tudo terminado; por causa deles, muitos soldados preferem ouvir rock pesado enquanto trabalham. Depois, escavadeiras abrirão covas coletivas, tratores empurrarão os resíduos para dentro delas. Extenuados, embarcaremos em nossos helicópteros, regressaremos em silêncio para o quartel como zumbis, sacudidos por tremores, cada qual dono de suas próprias visões, à espera da próxima missão. Não fui eu que moldei este mundo. Ele não é o mundo que desejei para meus filhos. Mas que alternativa tenho eu?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-7810347318625561233?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/7810347318625561233/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/01/dois-graus-centigrados-rubem-mauro.html#comment-form' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/7810347318625561233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/7810347318625561233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2010/01/dois-graus-centigrados-rubem-mauro.html' title='Dois graus centígrados (Rubem Mauro Machado)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-2516670588243214124</id><published>2009-12-24T06:59:00.000-08:00</published><updated>2009-12-24T12:18:14.824-08:00</updated><title type='text'>Um mundo melhor (Sergio Faraco)</title><content type='html'>Para Jacob Klintowitz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;"Na tragédia, não agem as personagens para imitar caracteres, mas assumem caracteres para afetuar certas ações." ARISTÓTELES, &lt;em&gt;Poética&lt;/em&gt;, VI, 145-32&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Amanhã venho te buscar para o ensaio&amp;nbsp;&amp;nbsp;– disse Russo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Partiu o amigo, deixando-o no pórtico da galeria que ia dar no saguão do hotel. Absorto, não notou que o lugar, mal-iluminado, estaria deserto, não fosse um grupo de jovens, cinco ou seis rapazes e uma garota, em suspeito silêncio no recuo de uma vitrine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao perceber que o olhavam, era tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bando o cercou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto uns o imobilizavam, outros lhe vasculhavam os bolsos. Quis reagir, e a garota, uma loura sardenta de olhos claros que até então mantivera-se à parte, saltou à sua frente com uma faca. Cessou de se debater, mas isso não evitou que um dos rapazes o esmurrasse no nariz, que começou a sangrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não deixa melar o casaco – gritou a garota, e suas pupilas faiscavam na contraluz da vitrine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também roubaram os sapatos e a carteira. Antes da fuga, um safanão o derrubou. Ouviu vagamente a correria na direção da rua, mas não se moveu de imediato, menos por cautela do que por pasmo. Quando pôde levantar-se, algumas pessoas acorriam e o ajudaram a andar até a portaria do hotel. O nariz ainda sangrava, e o gerente, após certificar-se de que não estava tão mal, ofereceu-lhe um copo d'água e um lenço de papel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quer que chame a polícia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não valia a pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não levaram cheques, cartões?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinham levado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Convém fazer a ocorrência e avisar seu banco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem casaco, descalço, sem dinheiro e documentos, tomou o elevador com participantes de um seminário de lojistas, cidadãos de próspera aparência, com ternos alinhados e impecáveis colarinhos, que o relancearam como a uma parede, como se o não vissem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, quase não dormiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ler era impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se fechava os olhos, via os jovens se acercando, a disposição deles, o olhar de aço da garota, o lampejo da faca, e ressentia o murro no nariz. Figurava a garota com ódio, depois se compadecia e ódio outra vez a estremecê-lo, então acendia a luz de cabeceira e sentava-se na cama, ofegante e a transbordar rancores. Quanta ironia, quanto escarmento em seu papel de vítima. Logo ele, um dramaturgo cujas obras a crítica iconizara como fotografias sem retoques das tumultuosas noites urbanas, a brutalidade tão crua quanto aberrantes os processos que a deflagravam. Contra esse conspícuo arauto da violência rebelavam-se seus arquétipos – uma cena burlesca em que os infantes de Cronos cometessem parricídio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À lembrança do trabalho seguiu-se um conforto: não perdera a vida, como tantos, tampouco se ferira com gravidade e – um truísmo – continuava bem-parado em degrau muito acima daqueles sebentos que, mais dia, menos dia, acabariam na prisão ou a estertorar em periféricas sarjetas. Admitiu que a noite fora menos perversa do que poderia ter sido. Descontados o pequeno inchaço no nariz e o prejuízo material, uma bagatela, nada mudara. Era um autor bem-sucedido, o que lhe facultava, com um pouco mais de prudência, conservar-se distante daquele universo ignóbil, cuja utilidade em sua vida era tão-só a de papel-carbono. Não era assim que produzia suas exitosas peças, estereotipias do noticiário policial? A arte copiando a vida, como queria Sêneca? A vida como ela era, sim, trocando apenas de cenário: no lugar da rua escura, o palco enfumaçado à meia-luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E começou a se tranqüilizar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E apagou a luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelas frestas da veneziana viu que clareava o dia, uma nova manhã após o árduo combate, e lembrou-se de Homero: Quando a aurora de róseos dedos, filha da manhã... E sem saber que a lembrança já era um sonho, dormiu até perto do meio-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almoçou no restaurante do hotel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormiu novamente e, à meia-tarde, despertou indisposto. Ou não era bem isso, antes algo que o inquietava, que o estranhava. Como se mal se reconhecesse ou recém começasse verdadeiramente a se reconhecer, como se o incidente na galeria – que outra coisa haveria de ser? – lhe tivesse aberto um portal misterioso cujo limiar receasse atravessar, e surpreendeu-se murmurando algo que lhe vinha à lembrança nas horas de incerteza: Eu, o verme, reconhecendo este tecido de alma ausente...* E foi com um princípio de náusea que viu seu rosto no espelho da pia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noitinha, Russo veio buscá-lo. Cogitou de desistir do programa, fazer a mala e antecipar a passagem de volta, mas como poderia, se viera à cidade a convite, para ver o ensaio da peça de que era autor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi e logo se aborreceu, a esgrimir com a absurda sensação de que o texto não lhe pertencia ou, se pertencesse, era produto de aquoso e insípido crisol que agora se esvaziara para dar lugar a outras e ainda ignotas misturas. Molestava-se também com as intervenções de Russo e as repetições de cada cena. Russo queria verossimilhança, e o protesto concernia, mas queria também que a representação ultrapassasse sua própria essência, ou seu limite. Chegou a gritar com um ator:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não quero representação, quero vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais vida? E ele ouviu aquilo como a um desaire, como se alguém, por certo ele mesmo em outra dimensão, com outro rosto e redescoberta alma presente, estivesse a lhe apontar o dedo acusador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o ensaio, foram jantar no hotel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversaram sobre a peça, sobre os atores e o que Russo deles exigia, e em dado momento o escritor, quase sem querer e com ligeira impaciência, viu-se observando que a arte obedecia a certas leis que se desavinham com a vida real: cada elemento precisava ter sua existência justificada e esta era a harmonia. A vida não era assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E acrescentou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quando pedes menos representação e mais vida estás pedindo uma arte menor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro abriu os braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que é isso? Crítica ou autocrítica? Agora descartas teu bem-amado Sêneca? Como podes pensar que um texto ou uma representação se aproximem da arte na mesma medida em que se afastem do que é real?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não foi o que eu quis dizer, ou foi, mas de outro modo. Não é uma questão de distâncias. A arte tem de ouvir, como Bilac disse a João do Rio, tem de ouvir e registrar todos os gritos, todas as queixas, todas as lamentações do rebanho humano. Mas é um registro como representação, não um fac-símile. Não te parece que essa enunciação de nosso príncipe, considerada isoladamente, está incompleta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o que dissera, ou ao menos pensara, era que a vida, afinal, era o que era ou o que já tinha sido, um caótico enjambement de acasos, “uma história repleta de som e fúria, contada por um idiota” – como não lembrar essa clássica dedução? –, não um organismo ou um sistema que se provasse por ambicionar determinado fim. Ela não buscava o belo ideal, não buscava, como a arte, o mundo melhor. Quisera dizer, então, que a arte tinha de ser basicamente transformadora, e que seu desígnio não era se parecer com a realidade e sim corrigi-la. E acabava sendo – a verdadeira arte – uma imprescindível, primorosa e verossímil mentira. Ou não propriamente uma mentira, mas o que a realidade poderia ou deveria ser...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– ...se viver fosse uma arte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Russo o olhou por um instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Balzac?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O belo ideal? Sim e não. Foi o que ele ouviu e acatou, dito pela mãe de Madame de Staël.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho que entendo. Me serves uma sopa canônica, de Balzac a Schopenhauer, com pitadas quânticas e colherinhas de Shakespeare e Voltaire... não te faltou uma receita grega? Não era para tanto. Ou muito me engano ou, se me permites, sem que a comparação te ofenda, estás dando voltas como burro de olaria só para dizer que minha direção não te satisfaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Só estamos discutindo, meu diretor. Nunca te contaram que a dialética da controvérsia favorece a digestão? – e tratou de mudar de assunto, relatando o que lhe ocorrera na véspera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O teu nariz... – observou Russo, sinceramente pesaroso. – E numa hora dessas, eu aqui a tagarelar sobre arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Foi um incidente comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E não terminou tão mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Melhor foi o que veio depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como? Tem mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hoje à tarde saí, dei uma caminhada. Adivinha quem encontrei num trailer de cachorro-quente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Os ladrões!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A loura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A loura!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A loura sardenta, a da faca. Ela e um menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nossa, não sei o que eu faria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se aproximara e a agarrara pelos cabelos. E agora, sua putinha? O menino fugira, continuou, e imagina o espanto das pessoas ao redor, tentando compreender. E diante dele, aqueles olhos não mais implacáveis, olhos de medo e lágrimas de uma pobre menina assustada. E vira também naquele olhar uma saga de miséria e desespero – a versão dos derrotados, como o eram aqueles meninos. Que dos vencedores, como os engravatados do elevador, não obtinham sequer um átimo de reflexão, que dirá um gesto de compreensão, solidariedade e respeito humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vi nesse reencontro o teatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Viste a vida, meu amigo. A vida como ela é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, o teatro. Acreditas se te disser que a soltei e fui embora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Russo ergueu o cálice:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aos teus novos e indistintos conceitos não vou brindar, mas gostaria de fazê-lo à tua atitude. Um perfeito epílogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro brindou, com um ligeiro sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, quando se despediram à porta do hotel, ele ficou parado, vendo o amigo afastar-se pela galeria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um brinde impróprio, claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perfeito epílogo? Ora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Russo desprezara seus argumentos e acreditara piamente no reencontro com a garota – pensava ver nele a plausível harmonia, a absoluta comunhão entre arte e vida. Seus postulados se engrenavam, coerentes. Mas que pena essa coerência! Russo nem ao menos suspeitara de que aquele reencontro no trailer jamais acontecera e era tão-só uma correção literária do incidente – o mundo melhor –, isto é, a peça que um dia talvez pudesse escrever, desde que ele mesmo também se corrigisse, convertendo-se no autor que agora desejava ser. &lt;br /&gt;____&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Início do romance &lt;em&gt;À beira do corpo&lt;/em&gt;, de Walmir Ayala (N. do E.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-2516670588243214124?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/2516670588243214124/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/12/um-mundo-melhor-sergio-faraco.html#comment-form' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2516670588243214124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2516670588243214124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/12/um-mundo-melhor-sergio-faraco.html' title='Um mundo melhor (Sergio Faraco)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-6677054787702197964</id><published>2009-12-16T10:25:00.001-08:00</published><updated>2009-12-25T12:19:47.417-08:00</updated><title type='text'>Iluminação do cotidiano (Zélia Delacroix Farina)</title><content type='html'>Não houve tempo para nada. Para um grito ou uma expressão de espanto. Quando se deu conta, já estava no chão, a todo o comprimento, os cabelos libertos da touca que os domava, a roupa amarfanhada, um chinelo escada acima, outro se equilibrando na ponta do pé. Entre surpresa e aturdida. E na boca aquele gosto invasivo de saliva alheia. Não sabia ao certo se batera com a cabeça e tinha ficado meio inconsciente. O fato é que não havia mais ninguém ali. Somente latões de lixo, balde , esfregão. O que desabara sobre ela tinha a força de um vento de verão tardio, morno e intenso, um desses ventos capazes de soprar desatinos na cabeça dos viventes. Envolveu-a num inesperado misto de violência e delicadeza, buscando-lhe a boca com a boca, enquanto as mãos faziam o seu trabalho de busca e sujeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com esforço que se recompôs, o corpo não lhe obedecia, as pernas desenhavam círculos no chão, recusando a postura vertical, a cabeça parecia esvaziada e poderia até pensar ter sofrido uma alucinação devido ao calor, não fosse aquele gosto persistente de saliva. Inúmeras vezes lavara a boca; em vão. O gosto era interminável; nem bom nem mau, estrangeiro. Era sábado, no prédio havia um mínimo de funcionários, como de costume em finais de semana; ninguém aparecera durante o seu período de atordoamento. Melhor assim. Sabia que nenhum daqueles empregados seria capaz de ato semelhante. Viviam todos no mesmo código. Se um deles a quisesse, por Deus, já lhe teria dito e a coisa teria rolado ou não, como tudo na vida. Não era dada a muitas conjeturas; quedava-se, por isso, estupefata. “Quem, nesse prédio de gente rica, podia me querer, logo eu tão diferente de todos eles? Só se fosse..., mas não, bobagem,será possível?, um senhor tão distinto.” O fato é que era objeto do desejo secreto de alguém, um desejo violento porque ansioso e tímido, deliciosamente desajeitado. O corpo não lhe doía, além daquele mínimo que se confunde com prazer. Sofrera um atentado à mesmice da sua vida. Como se num surrado baralho de cartas marcadas, surgisse, inexplicavelmente, uma carta extra: um coringa que talvez pudesse mudar a sua vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o doutor Nogueira e Silva,nada saíra como o que tinha sido planejado, aliás como costuma acontecer. A ideia era somente pegá-la de surpresa e dar-lhe um beijo na boca, e depois safar-se. Fugir para sempre ou por bastante tempo. Viver daquela lembrança tanto quanto fosse possível. Mudar de cidade, ir morar na praia, ficar uns tempos na casa do irmão. Algo assim meio infantil meio maroto; esconder-se depois de uma travessura e só voltar quando as coisas estão sossegadas. Mas ela, desafortunadamente, pelo inesperado da situação,escorregara no chão úmido e rolara abraçada por ele no piso gelado, desencadeando um desejo irrenunciável. Fato inconteste é que há muito sonhava com ela, dormindo e acordado. Para dizer a verdade, desde que a vira pela primeira vez, limpando as escadas do prédio. Ele, a quem jamais interessou saber quem eram os funcionários do edifício ou o que faziam ou deixavam de fazer, viu-se oscilar, corpo e mente, ante aquela visão. Como era possível uma criatura exercer sobre ele semelhante tirania, era-lhe um mistério. Talvez por ser leve e graciosa ao executar atividades tão servis. No seu entender até brutais para um físico tão delicado. Devia ser nova no ofício, logo percebera, o corpo flutuava dentro do uniforme, os gestos ainda não eram bruscos e automáticos como fatalmente se tornariam com o passar do tempo.Como entendido em arte, logo a classificara: era uma bailarina que dançava em inusitado palco para ninguém, ou melhor, somente para ele que havia descoberto o segredo. Sabia que já a conhecia de algum lugar e isto o intrigou por um bom tempo. Aquela sensação de “déjà vu” o invadia continuamente, logo ele que execrava esse tipo de percepção por achá-la própria de mentes fantasiosas . Certo dia , folheando ao acaso um livro da biblioteca , localizou-a. O sobressalto do reconhecimento, como se uma cortina deslizasse para a entrada da luz.Era ela, sem dúvida, a figura mais impressionante pintada por Degas, “A primeira bailarina”, do famoso quadro do pintor francês. Essa tela sempre o fascinara pela mobilidade, era um quadro vivo, a bailarina parece que voa como se quisesse escapar para a vida, atirar-se nos braços do público. E lograra mesmo fazê-lo, pensava ele um tanto assombrado,pagando o alto preço do anonimato e da servidão. As roupas grosseiras, os chinelos de borracha e a odiosa touca nada lhe roubavam, ao contrário, acentuavam ainda mais a beleza por conta do violento contraste. Fechou o livro com cuidado, antes arrancando a página que retratava a bailarina. Pensou em colocar moldura, pendurá-la na parede ; estaria assim sempre à vista. Mudou de idéia, não a queria para os olhos de qualquer um, resolveu carregá-la junto ao corpo: algo assim como um talismã, um porta-fortuna contra a insipidez em que se transformara a vida. Para tanto, executou elaborado plano: localizou um tatuador artista, de outra cidade bem distante naturalmente, que reproduziu a bailarina com maestria na região abaixo do mamilo esquerdo,onde o coração a fazia balançar.Pensava, entre divertido e maravilhado, que ela jamais poderia escapulir, estava nele para sempre, ainda que não pudesse suspeitar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos primeiros tempos em que se conheceram , fingira ignorá-la,não mais que uma peça na engrenagem de limpeza do prédio, espiando-a, no entanto, freneticamente, pelo canto dos olhos. Ela, humilde, face abaixada, inclinava-se ainda mais à sua passagem para esconder os olhos e o embaraço. Tempos depois, um aceno comedido, de cabeça. E, mais tarde, um “Bom dia” , mais resmungado que dito. E,finalmente, um “ Bom dia, Teresa”.” Bom dia, doutor ”. Era o máximo de intimidade que se permitia.Descobrira na folha de pagamento do edifício que ela se chamava Teresinha, o que lhe causou contrariedade.Uma beleza maiúscula não admitia tal designação. Passou a nomeá-la Teresa, o que lhe garantiu a atenção da moça, surpresa duplamente: era nomeada e rebatizada. O dia só começava para ele quando, saindo para a caminhada matinal, a encontrava, sempre entregue à sua humilhante ocupação. Era o seu momento mais alto, um calor prazeroso se irradiava por todo o corpo e o mantinha assim, acima de todas as pequenas misérias da rotina e da idade. O respeitoso e esperado “bom dia, doutor” ficava dançando nos seus ouvidos, letra e melodia, indo e voltando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora,sem querer, estragara tudo. Perdera o controle, logo ele, exemplo de cidadão, homem de bem, curador da Escola de Belas Artes. Chegara perto demais, era isso, aquele perto que não admite retirada. Caíra no torvelinho. E assim, perdera o que não queria perder. Não sabia o que a moça sabia; ou do que desconfiava. Desabara sobre ela sem dizer palavra. E se estivesse rindo dele, da sua pretensão, do seu desatino? E se todos no edifício já soubessem do ocorrido e estivessem planejando uma ação contra ele, atentado ao pudor, abuso, quem sabe até suspeita de senilidade? Que horror! E ainda mais, se sabendo que tinha sido ele, tendo certeza disso, ela já tivesse contado para o marido, amante, companheiro ou sei lá o quê? Poderia ser alvo de vingança, e bem merecida no seu entender. Sim, pois era inimaginável que ela não tivesse alguém; essa era situação para gente como ele, fruto ressequido à espera da queda. Sentia que adentrava terreno movediço, novidade na sua vida. Como agir para manter-se na superfície? Como passar por ela, novamente, e colher aquele mínimo de atenção , “Bom dia, doutor!”, sem ser paralisado pelo medo ou pela vergonha ou até, quem sabe, sem poder reprimir o desejo todo novo de repetir a loucura que tinha vivido com ela. Surpreendia em si mesmo o emergir de um desconhecido, de um outro que estivera sempre à espera. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia, só voltou tarde da noite para casa, não queria correr o risco de revê-la ou de ouvir conversas de outros empregados ou moradores.Sabe-se lá o que realmente tinha acontecido a Teresa e o que ela dissera; ou calara. Por dois dias inteiros, não saiu do apartamento.Reclusão. Compasso de espera.Apenas escutava, ouvido rente à porta. Distinguia os sons habituais, risadas dos vizinhos, cumprimentos e até eventuais xingações entre marido e mulher. Isso, em outra situação, poderia ser puro divertimento para ele: um mundo se abria nesse seu novo posto de escuta. Mas um mundo que não o interessava mais,um mundo passivo; queria ser ator, ator principal, nunca é tarde. Conseguia inclusive apreender , ao longe, o roçar da vassoura no chão, a abertura dos sacos de lixo, o ritmado baque do esfregão contra o piso. Todavia não podia saber se era ela, a sua bailarina, a agente de tais ruídos. Teresa trabalhava somente na área de serviço, separada do prédio principal por pesada porta de vaivém, a porta corta-fogo: os sons chegavam, por essa razão, abafados, quase indistintos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles dois dias de exílio voluntário, privado das caminhadas e do encontro com Teresa, lhe oprimiam o peito. Diariamente saía do apartamento à mesma hora, sem se desviar jamais do caminho habitual, aliás o menos provável para um morador. Utilizava sempre a área de serviço, onde se localizavam as escadas, os latões de lixo... e Teresa. Era uma doce disciplina que se impunha . Mas devia justificar-se continuamente perante vizinhos e funcionários, surpresos com a recusa ao conforto dos elevadores, logo ele um senhor de certa idade,dizendo que o fazia somente pelo exercício físico. “Doutor, espere um minutinho que já chamo o elevador, oito andares não é brincadeira.“ Ao que ele sempre respondia: “Não se preocupem comigo, sigo conselho médico, devo caminhar o máximo possível. Subir e descer escadas é um exercício completo. ” Sem dúvida, o fazia pelo exercício, porém totalmente desligado de qualquer recomendação médica; seguia , isso sim, a sua recomendação interior, aquela que está gravada a fogo em cada um de nós. Sabia que fatalmente a encontraria em um dos andares, entregue ao seu inconsciente bailado. Era um exercício de encantamento, surpreendê-la, vê-la e ser visto por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No terceiro dia, após o desvario, não aguentou mais: ressurgiu.Com capricho, preparou-se para a caminhada, abriu a porta corta-fogo que dava para as escadas e, nada mais fixo que hora de empregado humilde, lá estava ela, precisamente no seu andar. Imobilizou-se, corpo e pensamento bloqueados. O coração solto,batendo como um martelo contra a tatuagem da bailarina; suor frio, boca seca. Excepcionalmente, ela não empunhava vassoura nem arrumava saco de lixo; estava imóvel, encostada na parede, mão na cintura, olhando para a porta, como se esperasse por ele. Pela primeira vez, um olhar direto, chama e labareda. O cabelo, entre preso e solto, estava liberto da touca. As mãos, sem as luvas grosseiras .O uniforme de brim cáqui, displicentemente aberto nos primeiros e nos dois últimos botões, assemelhava-se a um casulo de onde brotasse uma borboleta.E,no pé, a prova definitiva de que ele não se enganara a seu respeito, era mesmo a bailarina do quadro, a que trazia há tanto tempo gravada no peito: no lugar do indefectível chinelo , uma sapatilha branca, diáfana, de tela finíssima, que a deixava descalça e calçada a um só tempo, pronta para a dança do amor e do desejo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-6677054787702197964?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/6677054787702197964/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/12/iluminacao-do-cotidiano-de-zelia.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/6677054787702197964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/6677054787702197964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/12/iluminacao-do-cotidiano-de-zelia.html' title='Iluminação do cotidiano (Zélia Delacroix Farina)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-4527925242097698738</id><published>2009-12-04T09:54:00.000-08:00</published><updated>2009-12-04T09:54:06.684-08:00</updated><title type='text'>Rapsódia de um inseto (Vilson Ortiz)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;1 – O contexto&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;"Um fosso profundo&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;faz do castelo &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;o rosto perfeito&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;– cruel e imaculado –&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;como um anjo devasso,&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;sedento de paz &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;e repleto de salas secretas...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;onde fantasmas gargalham; &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;reclusos no espelho."&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele recém escapara do ataque de uma aranha quando percebeu sons estranhamente articulados em sua mente. O mais desconcertan-te de tudo é que entendia o que aqueles ruídos mentais significavam. Porém, expandira sua psiquê de tal forma, atravéz de conceitos abs-tratos, que estranhava tudo a sua volta. E via tudo de forma diferente, com uma profundidade antes desconhecida, com significados que reduziam tudo a um padrão sonoro e imagético mental. Foi quando reparou no seu corpo: perdera as antenas, as asas rígidas e suas seis patas. Estava quase do tamanho da árvore que outrora fora seu univer-so. Tornara-se gigante. Apesar de todas as novidades, sua primeira atitude foi esmagar a aranha que o atacara no gramado. Olhava para o novo corpo e via alguns seres semelhantes perto de onde estava. No entanto, eles cobriam suas peles com trapos de tecidos coloridos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, para seu espanto, todos fugiam apavorados quando ele tentava pedir alguma explicação sobre sua nova condição. Sem entender porque todos o evitavam, resolveu fazer o que sabia: pulou sobre um senhor bem vestido. Lhe obrigaria a explicar o que devia fazer em sua nova forma de vida. Contudo, seu gesto causou confusão. Foi preso e levado para a delegacia. Os policiais lhe deram roupas e perguntaram o que ele fazia nu no parque. Pensou que finalmente receberia alguma explicação sobre sua metamorfose e contou ao delegado toda sua história. Este, achou tudo muito engraçado e lhe aconselhou a r-tornar para casa – recomendando que parasse de se drogar ou procurasse tratamento psiquiátrico. Desconsolado, caminhou até sua árvore. No parque, reparou que, usando roupas, seus semelhantes não o evitavam de imediato. Porém, os poucos que lhe escutavam, expulsavam-no após ele contar sua história. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia fome, sensação que não lhe era estranha. Contudo, ninguém lhe dava de comer. Revirava as latas de lixo do parque, mas o que antes banqueteava com frenesi agora lhe repugnava. A noite se aproximava. O parque assumia tonalidades sombrias, diminuindo a eficiência de seus novos olhos, em relação aos antigos, melhor adaptados à pouca luz. As dores que sentia na barriga, devido à fome, aumentavam sua ansiedade – condição que conhecia desde os tempos de inseto. Desesperado, decidiu novamente fazer o que sabia – caçar comida. Armou-se com um galho de madeira resistente e surpreendeu um cão perdido, que farejava entre as árvores – o qual matou a pauladas. Mas não sabia como comeria aquilo. Tentou morder a pele dilacerada do animal. Porém, um de seus novos colegas de espécie – que observava tudo escondido, apresentou-se a ele e explicou que, se comesse a carne do cachorro crua, acabaria doente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu novo conhecido lhe ensinou a fazer fogo, carnear a presa e depois assá-la. Ambos dividiram o churrasco, em torno da fogueira, que fizeram atrás das raízes de uma figueira. O ex-inseto reparou que aquele homem, que lhe ensinara tanto, vestia roupas rasgadas e sujas. Porém, foi o único que ouviu seu relato com atenção – até o fim. Depois de escutá-lo, o homem disse que se chamava Batista e lhe explicou sobre sua nova condição de vida – seria muito parecida com a anterior: teria de roubar para comer e fugir de predadores maiores, como a polícia. A grande diferença era que, a partir de então, não utilizaria garras ou tentáculos, mas esperteza. O mais estranho para o ex-inseto foi compreender que não precisava procurar comida – bastava possuir dinheiro. Batista não possuía dotes pedagógicos, e levou tempo até convencer seu conhecido que o novo mundo onde ele teria de viver era movido pelo dinheiro. Mostrar uma das poucas cédulas que carregava não ajudou, pois seu novo amigo viu pouca diferença entre ela e as folhas das árvores do parque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2 – O observador&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juro a vocês. Precisam me ouvir. Sei que pareço um maluco – e que as roupas rasgadas que visto não ajudam os senhores a me respeitarem. Mas me dêem um pouco de crédito. Afinal, pelo que sei, sou o único que conhece toda a história do novo sócio que os senhores investigam. Mas, se os senhores duvidam da credibilidade deste mendigo que lhes fala, saibam que, antes de viver nas ruas, fui como um de vocês. Inclusive, me formei em jornalismo. E compreendo todo o asco que nutrem em relação a minha pessoa. Por que fui parar nas ruas? É difícil explicar. Teria de lhes descrever um longo processo de ruptura com minhas crenças – pois começou assim. Depois comigo mesmo. E o efeito dos remédios que me deram no hospital psiquiátrico. A solidão – coisas que os senhores temem e não querem ouvir. Sim, durante alguns períodos da vida perdi a sanidade – mas sempre consegui resgatá-la, pelo menos até agora. Querem que eu lhes conte a história do Gregório?! Não costumo trair amigos, mas ele nunca foi meu amigo e, quando não precisou mais de mim, simplesmente me descartou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os senhores precisam estar com a mente aberta – ou não acreditarão no que contarei. Imploro para que escutem o jornalista, e não o mendigo. E, se julgarem minha história digna, me consigam todo o dinheiro que prometeram, pois não agüento mais dormir nas calçadas. O conheci aqui, nesse mesmo parque, há seis anos – acho. Nas ruas o tempo passa de forma diferente – não sei explicar se mais rápido ou devagar. Mas o que isso importa? Conheci o Gregório nesse parque e, acreditem em mim, praticando o ato mais selvagem que já presenciei – e olha que vivo na rua... Ele matou um cachorro a pauladas e tentava devorá-lo cru – rasgando a pele com os dentes. Não sei de onde e-le veio – me contou uma história maluca: de que era um inseto e que se transformou em gente. Mas já vi tanto delírio que não o recriminei. Fui eu quem lhe ensinou tudo – inclusive a cozinhar a comida. Nem dinheiro ele conhecia e nem do nome lembrava. Fui eu quem lhe botou o nome de Gregório. Por quê? Por causa da história maluca que me contou sobre ser um inseto. Gregório era o personagem de um livro que li na juventude – A metamorfose, ou algo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ele começou? No início roubávamos e pedíamos. Mas ele era muito rápido e forte. Cedo começou a assaltar e a vender pó nos bares próximos. No tempo em que traficou, eu ainda convivia com ele. O cara me dava medo – matava seus concorrentes sem a menor piedade. Percebi que era muito mais louco do que eu pensava. Acabei trabalhando com ele – vendendo erva, pois ele me considerava incompetente para vender pó. E foi assim: enquanto eu vendia maconha e era preso, ele se tornava o maior traficante da cidade. Mas ficou pouco tempo no ramo. Comprou uma empresa e começou a se dedicar aos negócios e à política... mas isso vocês devem saber. Querem saber de seu temperamento? Contei que ele matou um cachorro a pauladas? É, ele fazia o mesmo quando um de nós não correspondia ao que ele estava esperando. Vi, com meus olhos, ele executando dois caras com pauladas na cabeça. Primeiro batia no rosto – para defigurar e causar dor. Triturava carne e ossos – os caras não tinham mais rosto, só uma massa de carne homogênea. Era horrível. Depois, deixava eles assim por algumas horas – sofrendo. Finalmente matava, batendo em suas cabeças com o bastão. Não sei o que fazia com os corpos. Alguns diziam que ele os devorava no dia seguinte. Isso mesmo, comia carne humana. Louco ele era, mas não sei se chegava a tal ponto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim. Ele era muito frio. Nada o emocionava ou comovia – dava a tudo uma finalidade prática e descartava o que lhe parecia desnecessário. Ainda não havia pensado no que vou lhes dizer, talvez seja apenas o delírio de um bêbado, mas ele parecia mesmo um inseto. Como na história em que me contou no dia em que o conheci. Nunca presencei uma demonstração de carinho – ele via o mundo como um inseto. A diferença é que era muito racional. Tinha uma inteligência assusta-dora – e sabia como convertê-la para fins práticos. Inclusive, não refle-tia ou se questionava. Usava toda sua inteligência para obter vantagens sobre os outros. Pegava tudo que lhe servia e descartava o que considerava inútil. Dizem – não sei – que como empresário ele faz muito sucesso. E eu acredito. Mas por favor: não contem a ele que me fizeram essas perguntas. Nem falem da história do inseto, pois não sei se ele a contou a outras pessoas... Claro. É evidente que temo por minha vida. Por menos que ela valha, é só o que me resta. E lhes garanto que ele não teria qualquer consideração por mim. Assim como não terá por vocês, quando se tornarem desnecessários a seus objetivos. Quanto a seus objetivos? Não sei. Nunca me disse o que queria. Nada o divertia – nem o que podia comprar com toda a grana que tinha. Acho que só o poder. Não! Não porque gostasse de mandar nas pessoas. Tenho a impressão de que tudo era apenas porque sentia medo. Só estando acima de todos ficava tranqüilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3 – O objeto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois meses sem o sol. Talvez séculos. E esse corpo estranho – restrito por regras falsas. Odeio toda essa gente, principalmente aqueles que me bajulam. Ao contrário dos que me agridem, os bajuladores querem me comer aos poucos – perna por perna. Já devoraram mi-nhas antenas. No espelho vejo um rosto estranho. Uma imagem que aparece nas revistas de negócios como outras: um dos dez homens mais ricos do país. E daí? Todos querem me derrubar, se vingar. Mais ainda os hipócritas que me procuram – que me chamam de “amigo”. Só aguardam o momento apropriado para me desferirem um bote fatal. Quase duas décadas fechado nesse mausoléu – que todos cobiçam. Nesse casarão cercado por bosques, câmeras e grades. Assas-sinando aranhas e formigas. Jogando na bolça de valores com o computador. Números. Números. Números e mais números – é tudo a que me reduzi. Cada vez mais rico, mais poderozo, mais invejado, mais só... cada vez menos complicado. E a evidência é arrasadora. Não que tivesse ilusões, mas nem prazer sinto. Semana passada torturei uma jovem até a morte. Levei dois dias para matá-la. Nem sua pele branca coberta de sangue – visão que alguns anos antes me encheria de orgulho – despertou qualquer emoção em minha mente. Foi puro desperdício de súplicas e gemidos. Naquela hora, nem os números me salvaram... Até eles revelaram-se malditos paradoxos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Restam os corredores escuros e esse cômodos repletos de vazio – meu império. Se ao menos os móveis dançassem, ou se o piano me engolisse. Retornaria à selva, em seu interior infinito. Mas sequer posso invejar minha antiga condição. Não há nada mais crítico que viver no meio do caminho – com essa maldita racionalidade humana e com esse pragmatismo artrópode. Não sinto nada: afeto, ódio ou qualquer outro sentimento. Fico mais rico a cada dia, mas não tenho nada. Nem a mim. Sou estranho até para o espelho. Se pudesse, detonaria todas as bombas atômicas do mundo de uma só vez e acabaria com esse pesadelo. Daria um fim glorioso à angústia de bilhões – todos perdidos em labirintos semelhantes ao meu. Um espetáculo pirotécnico jamais visto como epílogo da história. Exterminá-los seria perfeito, sem qualquer sentimento: apenas átomos se descombinando para depois se combinarem de outras formas – menos miseráveis. Mas quem sou eu para julgar a miséria? O rei dos miseráveis? Sim, talvez, mas nunca o dos hipócritas. Mas seria a plenitude – sentir os átomos livres como cometas, saindo pala tangente e dirigindo-se ao nada, ao insondável, unindo-se a tudo em algum buraco negro. Que breve conforto infinito para minha alma mal sincretizada. Que ode aos cupins que devoram as fundações de nossos palácios... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca acreditei na vida. Nada me difere das paredes desse ca-sarão que me exila dos sorrisos. Nem os criados podem me ver – eu odeio essa gentalha servil e traiçoeira. Só ocupam a ala de serviços – e me servem comida na sala de refeições sem que os veja. Tocam o sino – que indica que já serviram a comida e foram embora. Me sinto ligado a tudo, menos a esses vermes bípedes que ousam separar-se de tudo e centralizam o universo a sua volta. Mas nem os odiar consigo, pois entendo os mitos infames de que precisam se servir para continuarem vivendo sem desconfiarem que estão apenas sonhando con-sigo mesmos. E como desprezo suas ridículas personalidades – revestidas de ouro e recheadas de merda. Acho que apenas troquei facilidades: a vida descomplicada dos insetos, mas dura; por esse teatro, igualmente duro, mas adornado com castiçais reluzentes e pedrarias brilhantes. E o pior de tudo é que, quanto mais aceleram suas vidas, mais se aproximam de meus desertos – das taças que transbordam areia que bebo todas as noites enquanto contemplo a lua, da janela do quarto. E em poucas décadas serei o modelo de todo horror que espalharão no planeta. Mas por que me importaria? Que venham até onde estou e me libertem de suas lendas. Eis minha utopia, disfarçada de pragmatismo: o mundo será dos insetos – a revolução artrópode não pode mais ser contida. Me resta o consolo de que sou o século XXI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, me rebelei com a condição de objeto, imposta nas revistas de fofoca. Aqui estou, em minha mansão, vagando por corredores que parecem novos a cada dia. Porém, no meio de tantas relíquias artísticas – compradas ou roubadas – apenas um espelho, da mobília do rei Luis XIV, dá sentido a meu rosto. Todas as noites, antes de vagar no quintal, olho para ele por horas a fio – tentando captar-me. Mas, quanto mais focalizo a visão, mais meu rosto parece fugir – torna-se abstra-to. Como se também eu fosse apenas um arquétipo. Mas a muito desisti de buscar a sinceridade no reflexo: hoje tento apenas me comunicar com os cupins que devoram a moldura de madeira do espelho, entalhada com rigor e pintada com ouro. Eles me espiam de seus bura-cos, como se por eles vazassem lampejos divinos. E isso tudo me irrita muito, pois sou ateu. Duvido do primata estúpido que vejo – mas as frestas dos cupins compensam o meu horror. Já tentei conversar com o reflexo, mas ele me dizia palavras tão vãs que desisti. Era monstruoso. Desde então, tento me aproximar dos cupins – me comunicar com eles. Ajudar em sua tarefa. Devorar esse precioso espelho até sua últi-ma lasca, para sua imponência ser esquecida para sempre. Sei que eles me olham, me contemplam assombrados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos primeiros anos me entreguei às bacantes. Esse casarão abrigou as mais famosas orgias da cidade. E, como continuava enriquecendo, ninguém se importava. Pelo contrário, recebia a nata da sociedade local – sedenta de prazeres proibidos. A cocaína pura circulava em bandejas de prata e era inalada pelos convidados em canudos do mais fino cristal de murano. Devorávamos tudo o que podíamos – enquanto nossos corpos agüentavam. Mas isso acabou me entediando. Transformou-se em uma espécie de ritual – quanto mais tentava modificá-lo, mais se aproximava de um padrão. Uma noite expulsei todos de casa e desde então vivo recluso – com meus cupins. Como me torno mais rico e poderoso a cada dia, todos respeitam minhas particularidades – “é um gênio dos negócios”; dizem. Caso estivesse empobrecendo, diriam que sou louco. Mas e daí?! – tal aprovação não me convence. Quanto mais me odeiam, mais me admiram. Minhas empresas agem como aranhas no mercado – e recebo prêmios humanitários. O que teria de fazer para que assumissem que me odeiam? Tudo o que faço revela que os desprezo – e, quanto mais os desprezo – mais me adoram. Mas nunca conseguiriam entender o que sinto, aprisionado em seu mundo de aparências – transformado em espetáculo. Sou um deus laico que deseja apenas esquecer todas as palavras e retornar ao labirinto incogniscível da relva noturna. Um Odisseu que deseja voltar à época em que devorava para existir – e bastava existir. Hoje, ao contrário, existo para devorar – e, até que eu devore tudo, existir nunca bastará. Se os cupins soubessem o que é a inveja – entenderiam o quanto os invejo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;em&gt;Diário de um inseto&lt;/em&gt;, 20 de setembro de 2015. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-4527925242097698738?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/4527925242097698738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/12/rapsodia-de-um-inseto-vilson-ortiz.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4527925242097698738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4527925242097698738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/12/rapsodia-de-um-inseto-vilson-ortiz.html' title='Rapsódia de um inseto (Vilson Ortiz)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-4306435678667787167</id><published>2009-11-20T10:32:00.000-08:00</published><updated>2009-11-20T10:32:00.895-08:00</updated><title type='text'>Feito homem (Rudiran Messias)</title><content type='html'>Chora, mano. Pode chorar. Eu sei a dor que tu sente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não vou dizer pra ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O medo é assim; a dor é assim: ninguém entende antes de sentir na própria carne. Essa miséria de tá amarrado sem poder fazer nada. Foi assim que eu me senti todos esses anos, apodrecendo no inferno, sem ninguém pra me consolar. E por tanto tempo, tanto tempo, que eu queria ver se tu era macho de agüentar. Mas tu já chora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde pequeno a vida foi padrasta pra mim. Tu, pelo menos, tinha pai vivo pra te defender se alguém quisesse te ferrar. O Laurindo sempre ali, passando a mão na tua cabeça enquanto eu tinha que me virar do jeito que podia. Quando eu voltava do colégio, ele mal deixava eu almoçar e já me enxotava de casa. Dizia que se ele e a mãe trabalhavam, eu também tinha que fazer a minha parte. Só tu que ficava aqui dentro, na boa: vendo televisão, jogando videogame.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe também tava sempre do teu lado. Era como se tu fosse o único filho que ela tinha botado no mundo, porque tu parecia com ela e eu não. Da mãe, eu não tinha nem os olhos, nem o formato do rosto, nem o cheiro, nem a cor da pele. Então ela olhava pra mim e lembrava dele, aproveitava pra dar o troco. Acho que ela sabia o que o Laurindo fazia comigo, mas tava cagando. Deixava ele me esfolar de tanto bater, depois olhava pra mim e dizia: tu é bem como o traste do Dione. Merece cada uma dessas biaba que o teu padrasto te deu. Então eu chorava, como tu tá chorando agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorava quando ele aproveitava que a mãe tinha saído e te levado junto com ela. Aí ele me chamava na cama e me amarrava bem apertado, o teu pai. Ele fazia isso comigo. Um dia eu falei tudo pra mãe, mas ela não acreditou e ainda me deu um tapa na cara. Disse que eu só tava inventando aquilo porque o Laurindo tinha me dado uma sova. Depois ainda contou tudo pra ele, que negou e me surrou ainda mais. Ameaçou de me expulsar e falou pra eu não inventar história, pra não usar aquele palavreado na casa dele – ele tava falando desse barraco aqui, que o meu pai construiu com os próprios braços e que foi onde eu nasci. A mãe, do lado dele, só perguntava onde eu tinha aprendido tudo aquilo, se tinha sido com os capangas do Tonho. Mas eu tinha aprendido tudo aquilo era com o Laurindo, mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quem acreditou em mim foi o Tonho. Também foi ele quem me deu trabalho quando eu precisei, porque tinha sido amigo do meu pai. E me deu a faca do Rambo, quando eu contei o que o Laurindo tinha feito comigo. Primeiro me ofereceu um berro, mas eu vi a bichinha brilhando na cintura dele e disse que preferia a matar com faca, porque eu gostava do filme do Rambo. Quando eu disse isso, ele me olhou com orgulho, como só o meu pai já tinha olhado pra mim antes. Então eu voltei pra casa e furei aquele filho da puta do teu pai quando ele tava dormindo. Eu cheguei no quarto e ele tava de bruços, dormindo só de cueca, com aquela bundinha virada pra mim, se oferecendo. Daí eu cravei o aço e o Rambo comeu ele. Mas não demorou pra mãe chegar contigo, e vocês nem pensaram duas vezes antes de me entregar pros porco. Correram daqui chorando, como nunca tinham chorado por minha causa, que nem tu tá fazendo agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chora mano, pode chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe tá lá dentro e não vai acudir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela também não me ajudou quando eu precisava. Só o Tonho que me deu a mão. Ele sempre foi um pai pra mim depois daquele dia. Quando eu fui em cana ele disse pra eu agüentar um tempo lá, enquanto a história esfriava. Disse que assim eu ia aprender a ser homem – e eu aprendi, sofrendo, sem chorar. A cadeia me mostrou que pra ficar vivo a gente tem que ser forte, mano. E agora eu sou forte, por isso o Tonho deu um jeito de me tirar de lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chora, mano, pode chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não tem como ser diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora eu saí da cadeia e chegou a vez de provar que eu virei homem. Não adiantou o Laurindo ter feito aquilo comigo. Eu ainda sou macho – e sujeito homem vai lá e faz justiça, não espera que os outros façam. Foi o que o Tonho disse, quando me deu essa pistola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá vendo essa belezinha aqui? Essa arma é o meu ticão, que eu vou meter no teu rabo do mesmo jeito que o teu pai fez comigo, do mesmo jeito que ele fez com a mãe. Aí tu vai ver como foi que o Laurindo fudeu a nossa família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe entendeu tudo bem direitinho e agora tá lá dentro, dormindo sono ferrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chora, mano. Pode chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não vou dizer pra ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou contar que tu morreu feito homem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-4306435678667787167?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/4306435678667787167/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/11/feito-homem-rudiran-messias.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4306435678667787167'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4306435678667787167'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/11/feito-homem-rudiran-messias.html' title='Feito homem (Rudiran Messias)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-459118537319312267</id><published>2009-11-12T09:32:00.000-08:00</published><updated>2009-11-12T09:32:25.920-08:00</updated><title type='text'>Ouvindo a chuva (Paulo de Tarso Riccordi)</title><content type='html'>Dia ainda claro, do horizonte avançava uma barra escura de nuvens carregadas, quase sólidas de tanta água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vó Neca falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aí vem temporal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luizinho confirmou e logo se surpreendeu. Voltou-se para observar a bisavó. Teria recuperado a visão?! Não. Ela continuava com os olhos pregados no vazio, tão cegos como sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como é que tu sabe que vai chover, vozinha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu. - Pelo ar. Não sentes os sinais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu tô vendo o tempo fechar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os sinais da chuva que vem vindo estão no ar. É como um mensageiro que nos traz notícias de longe. A Natureza também fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estendeu a mão e tocou na cabeça do bisneto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fecha os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele fechou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que estás ouvindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um automóvel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Te concentra mais. Não escutas os passarinhos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Passarinhos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É. Ouve: eles pressentiram o temporal e estão buscando as árvores para não serem pegos pela chuva durante o vôo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luizinho, agora concentrado na audição, ouvia, sim, o rebuliço da passarada no arvoredo em torno. Era a mesma algaravia de sempre, mas agora parecia amplificado por sua atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora te concentra com o corpo. O que estás sentindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luizinho sentiu a leve, ainda levíssima, brisa chegar até eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá ficando mais fresquinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, na frente da chuva vem o vento frio. Está correndo para onde o ar é mais quente para ocupar seu lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele agora o percebia nos braços e nas pernas, arrepiadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora respira fundo. E então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele concentrou-se, nariz erguido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cheiro de capim. E de barro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, já está chovendo nos campos fora da cidade. A chuva vem vindo de lá para cá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luizinho entreabriu os olhos e viu a bisavó apontar com o queixo exatamente o rumo de onde vinham as nuvens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora as plantas estão felizes. A terra está molhada. Elas precisam de sol, mas também de muita água para crescer. Ficam mais fortes, crescem mais rápido. E o gado também fica mais feliz, porque tem o que comer. Não estás sentindo um cheiro de bosta de vaca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, ele não sentia. Era sutileza demais para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu tô sentindo é cheiro de eucalipto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, naquela direção. - A avozinha apontou adiante. - Deve haver uma grande plantação de eucaliptos lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luizinho mais uma vez surpreendeu-se. Avistava a meio caminho da linha do horizonte um mato de eucaliptos. Fechou os olhos e aspirou profundamente o ar impregnado desse perfume familiar. Era costume naquela família ter sempre uma lata com folhas de eucalipto a ferver à beira do fogão a lenha “para desinfetar o ambiente”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ainda estás com os olhos fechados?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sentes que o ar está mais pesado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Eu tô sentindo é cheiro dágua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, já tem cheiro de umidade no ar. Eu sinto no corpo e nas juntas dos ossos que a umidade já aumentou bastante. Logo isso vai se condensar e formar gotas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E aí vai pingar e começar a chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, por isso vai chover.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lençol escuro de nuvens os alcançou, cobrindo o que restava de céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pronto, o sol se foi. Agora ficou frio mesmo. Vamos entrar para não nos gripar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A avozinha levantou e arrastou consigo a cadeira, subindo as escadas e avançando pela casa, sabendo onde cada coisa se encontrava, melhor do que se enxergasse. Nunca precisava de auxílio para nada ali dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou preparar um chá de cascas de laranja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da janela da cozinha Luizinho ficou olhando a chuva chegar. Era a velha chuva de sempre, e ao mesmo tempo uma completa novidade. Primeiro o vento sacudiu as folhas das árvores do pátio, agitando-as desordenadamente em todas as direções. Depois as grossas gotas iniciais vieram tamborilar nos vidros. Quando a chuva chegou total, veio como uma cortina, avançando rua a rua, casa a casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Luís, tem um pano velho aqui debaixo do fogão. Enrola ele e põe junto à porta, que está entrando água por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra surpresa. De fato, a água começava a entrar na cozinha por baixo da porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como sabias disso, vozinha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- As gotas estão batendo contra a porta. É sinal de que o vento as está empurrando também por baixo dela. E depois, pelo barulho, o ralo do pátio deve estar entupido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não confessou, mas isso ela não ouvira, não. Fora a empregada quem, de manhã, dissera que a calha estava entupida de folhas secas e que “amanhã” iria limpá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele deixou-se ficar diante da janela, mas com os olhos fechados, deixando que os demais sentidos continuassem a perceber temperaturas, sons. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lembrança dessa tarde lhe voltaria ao longo da vida, trazida pelo ruído de chuva, pelo perfume de terra molhada e eucalipto, pelo sabor do chá de laranjeira e pelo abraço de um corpo mirradinho de carnes. Nunca mais as chuvas deixaram de trazer notícias das cercanias e do passado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-459118537319312267?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/459118537319312267/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/11/ouvindo-chuva-paulo-de-tarso-riccordi.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/459118537319312267'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/459118537319312267'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/11/ouvindo-chuva-paulo-de-tarso-riccordi.html' title='Ouvindo a chuva (Paulo de Tarso Riccordi)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-2574926131276352305</id><published>2009-10-30T08:10:00.000-07:00</published><updated>2009-10-30T08:10:09.411-07:00</updated><title type='text'>Encontro na praça (Ayalla de Aguiar)</title><content type='html'>A primavera explodia em roxos, como explodem as primaveras e os roxos em tempos de Feira. Gabriel Garcia Marquez explodia em &lt;em&gt;Cem anos de solidão&lt;/em&gt; e eu ansiava para mergulhar em Macondo quando, por graça, perguntei ao vendedor da barraca de livros se ele não me venderia apenas &lt;em&gt;Oitenta Anos de Solidão&lt;/em&gt;, e me daria um desconto. Um senhor ao meu lado, sem nenhuma cerimônia, introduziu-se na conversa e quando eu me virei para ver quem estava rindo da bobagem que eu dissera,&amp;nbsp;dei de cara com Mario Quintana, em carne e osso, que, alegremente, falava comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agarrei-me à oportunidade e, rápida, pedi licença para comprar um de seus livros para que ele o autografasse. Ao rapaz, solicitei&amp;nbsp;um exemplar de &lt;em&gt;A Vaca e o Hipogrifo&lt;/em&gt;, lançado naquele ano, se não me engano. Mais que depressa, Quintana atalhou a minha conversa com o vendedor e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, não leva a vaca, o quilo de carne está muito caro! Não leste no &lt;em&gt;Correio do Povo&lt;/em&gt;? Subiu o preço do boi!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpresa, retruquei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que, então, o senhor sugere?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Leva o &lt;em&gt;Pé de Pilão&lt;/em&gt;. Se achar demais, leva só o Pilão, deixa o Pé, que não tem muita serventia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comprei o Pilão, com Pé e tudo e o entreguei ao Autor, para que&amp;nbsp;autografasse. Perguntando meu nome, ele escreveu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Para a menina Ayalla, que ainda deve estar espiando por detrás da sra. Aguiar, o amigo velho – Mario Quintana. P. Al. 4/11/77”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-2574926131276352305?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/2574926131276352305/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/encontro-na-praca-ayalla-de-aguiar.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2574926131276352305'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2574926131276352305'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/encontro-na-praca-ayalla-de-aguiar.html' title='Encontro na praça (Ayalla de Aguiar)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-529071180307461353</id><published>2009-10-21T10:28:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:20:52.124-08:00</updated><title type='text'>Infância (Amilcar Bettega)</title><content type='html'>Nós éramos crianças e orgulhosos das nossas arminhas de chumbinho. Cada feliz brincadeira de nossos dias longos era, sem que soubéssemos, intensa e definitiva como um passo iniciático. Caçávamos passarinhos. Joões-de-barro, sabiás, bem-te-vis e tico-ticos abundavam naqueles lados de laranjeiras enormes, pereiras magníficas, macieiras, pessegueiros, e eucalipto e campo, um campo interminável, que nos isolava e protegia, como a cândidos reis infantis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um passarinho de estrutura doce e frágil, cujo nome nunca nos foi dado saber. Depois a chamamos de pombinha, talvez pelo branco incomum, quase um milagre naquele mundo de telúricos pássaros marrons; talvez pela brandura dos movimentos, que nos pareceram inequivocamente femininos; chamamos de pombinha porque nunca soubemos, de fato, que espécie de ave era aquela, tão pequena e tão diferente e que depois de tudo, e por muito tempo, ainda nos fez cogitar, na solidão escura de nossos quartos de dormir, que nem ave era, algum espírito disfarçado, uma coisa sagrada, e que nos vigiava o sono. Mas chamamos de pombinha, sobretudo, porque precisávamos de um nome, precisávamos contar, aos outros e a nós mesmos, nas histórias que sempre voltavam quando nos reuníamos, a experiência que foi caçar a pombinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi vista num relance por um de nós, e antes que todos a víssemos, vimos os galhos secos do pessegueiro que se agitaram num tremor repentino, como se uma pedra pelo meio deles caísse. E ainda assim, e já ela vista em seu vôo branco de alegres asas lépidas, algum de nós insistiu que se tratava de uma borboleta, esses fúteis pássaros de papel que saem do sonho de sestas indolentes, pulando no ar como se vivessem um desenho animado. Não era borboleta, era a pombinha, com corpo e vôo bem mais exato, feita de sangue e carne, o que a tornava, de pronto, coisa viva e real, maior e mais grave do que mil borboletas desabaladas. “Borboleta nada”, dissemos nós, meninos com sedes de aventura, ou realidade, ou o nome que se dê a essa gana de ser crescido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os primeiros três ou quatro tiros dissiparam-se em ecos aflitos, no infinito: não éramos tão bons quanto pensávamos. Costumávamos treinar em alvos fixos: as latas e tampinhas de garrafa. Ou então em sanhaços gordos e sonolentos da fartura das laranjeiras. Mas nada, nada como ouvir o rude bater de uma asa, o remexer frenético nas folhas, descobrir na placidez monótona da árvore o lugar exato de onde vem aquele movimento; essas coisas todas nos aproximavam de uma verdade quase táctil, sentíamo-nos vertiginosos, o sangue correndo mais ligeiro no corpo, o coração gritando na axila, no ombro que sujeita o cabo da espingarda, que pula, como se ela própria, a tirana, quisesse sozinha fazer o serviço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o pior, o terrível, foi que a pombinha não fugiu. No mais das vezes era só uma chance que tínhamos, ou, como atiradores infalíveis: uma só chance que dávamos. Raro era o passarinho que nos desafiava assim, pulando para uma árvore vizinha após errarmos o primeiro tiro. Raríssimo. Impossível. Nunca, jamais um passarinho ficou zanzando de cá para lá entre as árvores, depois de quatro disparos vergonhosamente perdidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quinto ela desandou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava num galho alto e desceu flagrantemente viva, não como uma bergamota madura e abatida como tantos joões-de-barro, sabiás, bem-te-vis, tico-ticos, tantos que assim caíam; mas desceu com as asas semiabertas, se debatendo numa espalhafatosa resistência. Tanto que não foi ao solo. Ficou meio que agarrada num galho mais baixo, quieta, num silêncio em que a surpresa, o medo, talvez a dor e a consciência de estar viva juntaram-se, imóveis. Foram grandes minutos, foram anos, até que um de nós a viu de novo: uma flor branca, se na árvore houvesse flores brancas. Imediatamente, como que dotada de percepções estranhas, ela se moveu, já desassossegada por aquele incômodo pedaço de metal incrustado sob a asa, e procurou escalar um galho mais acima, pondo nas garras a força que lhe faltava em uma das asas. Era já um alvo fácil, e essa facilidade intimamente nos irritou. Tivemos que atirar três vezes. Três vezes atiramos, três vezes, para que então sim ela viesse ao chão, com barulho e, pensávamos, ferida de morte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi sim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi sim. E não poderia ser diferente disto: uma sensação de que o mundo some, de que num repente desaparecem todas as forças que nos sustentam e de que algo terrível nos puxa para o nada. Sentir que um frio repentino nos chupa a vida. Sentir que se cai sem tempo de saber que se cai, ou de ao menos preparar o corpo para queda: talvez abrir uma asa, aprumar a pata, girar o torso no ar para que o peito amorteça o baque. Não. Ao contrário, sentir que tudo é pior e que não há força capaz de evitar o pior. Sentir com inequívoca certeza que se vai morrer, e que se queria tanto continuar vivo. A queda é feia e de bico, o pescoço entorta, e só depois as costas contra a grama, como um tambor que se rompe, chocho. E ali ficar, passado o susto, quase feliz naquela estranha convalescência de capins. O peito arfa de medo e cansaço, e há como que um sutil relaxamento dos membros, rapidíssimo, porque então vem o inevitável momento em que a dor se acomoda no corpo como quem chega de mudança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estirada assim, olhando o céu e as nuvens, os galhos que filtravam o sol como uma cortina puída, a pombinha pensou. Aguardou, imóvel e sem esperança, que alguma coisa viesse salvá-la. Mas aguardar não era mais do que pretexto para se dar o tempo de juntar forças, porque sabia — e talvez soubesse tanto isso — que estava sozinha. Trazia já uma asa inerte, pedaço morto de si, e o sangue vazava do corpo com uma lentidão de sono. Talvez sonhasse e talvez o sonho fosse bom: o céu azul, uma árvore baixa, uma quase comovente liberdade. Mas qualquer coisa, qualquer coisa que certamente era dentro de si, despertava e a trazia para um mundo de nuvens cruzando o céu e raios de sol furando a copa das árvores, um mundo onde alguma coisa lhe fustigava o flanco com crescente energia. E assim, ainda deitada em sua cama verde, ouviu ruídos que se propagaram perigosamente pelo solo, um tropel de pés muito maiores — sempre tudo muito maior e perigoso — e num só e brevíssimo instante teve de aprender a não ser pássaro e correr terrenamente por entre os ramos de capim, como criança começando a andar. O outro tiro entrou pelas costas, uma furiosa pedra quente que lhe lambeu a espinha e ergueu no ar inúmeras penas como na explosão de um travesseiro. E inúmeras carícias lhe caíram lentas sobre a cabeça, numa improvável tarde de neve. Uma ardência, uma crescente ardência. Eram já cinco os nacos de chumbo que dormiam no seu corpo, e a partir daí decidiu não mais contar. Simplesmente correu. Correu muito, sem saber como nem para onde, os flancos inchados, num esforço supremo para vencer os gigantescos tocos de capim que lhe arrebentavam as patas e se enterravam na carne das coxas. Intimamente sabia que os ramos altos e duros consumiam com velocidade assustadora as suas últimas energias, mas agradecia, a isto que lhe matava, por ser também a selva que a protegia do tiro fatal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não foi um, mas vários, a julgar pela quantidade de ecos que se multiplicaram nos ouvidos. Caiu, por fim, exausta, irrevogavelmente derrotada, mas com uma dignidade que não julgava ter. A asa morta, amarrotada sob o corpo como uma folha de papel inútil. Ficou assim estática por dois magros segundos, até que a outra asa, sem menos nem mais, como que atiçada por uma corrente elétrica, abriu-se num leque — e as penas todas, do lombo à nuca, arrepiaram-se num estertor de morte. Era a morte, não havia dúvida, e havia naquilo qualquer coisa de divino. Uma profunda dor no lado e o bico se abriu para puxar um ar que não vinha. O esforço de comprimir-se inteira em busca do nada rendeu-lhe apenas um vômito lento e incolor, pouco mais que um soluço. O bico se fechou num difícil gole em seco, a garganta ardia. Espichou o pescoço para facilitar a entrada do ar e, muito devagar, como quem teme que alguma coisa rebente, abriu outra vez o bico para que surgisse, retesada, a minúscula língua cor-de-rosa. Depois foi se encolhendo, a cabeça baixando no peito, como quem cai no sono. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando já não se pode imaginar mais nada, quando o ser parece esgotado de tudo o que nele vive, quando já se é uma massa alquebrada e inerte, quando já se está para sempre vencido e destroçado e batido e morto, é só nesse instante que se é o que de fato se é. A pombinha, nesse instante, como que tomada por forças sabe-se lá de que lugar de si, fez bruscos movimentos com a asa num arranco raivoso, abrindo espaço sôfrega e desabaladamente entre a grama, uma asa arrastando no chão, a outra tentando alçar um vôo absurdo, caindo e levantando e voltando a cair. E assim continuou por uns três, talvez quatro metros, que são vinte, mil, milhões de metros de uma trilha bêbada, caindo e levantando e voltando a cair — e nesse momento ela foi assustadoramente humana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então caiu, de uma vez por todas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente podia relaxar, deitada sobre o amontoado dormente que lhe pendia de um lado, e acreditou que dormia. A outra asa permaneceu aberta, tal qual um veleiro abatido, com sua vela espalmada e balouçante sobre a superfície do mar. Alguma coisa ainda se agitou por um tempo dentro de si, mas o sono acalmou tudo. O olho, voltado para o alto, ficou aberto e com a sensação de ser a última coisa a morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi ali. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi exatamente ali naquele olho aberto e lustroso, que nos vimos todos refletidos, todos à volta daquela mancha branca — e agora manchada de vermelho — sobre a grama, todos nós, meninos se aprontando, orgulhosos das nossas arminhas de pressão. Nós éramos crianças. E repetimos: nós éramos crianças. Repetimos muitas vezes, éramos crianças. E ainda seguimos repetindo, repetindo sempre.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-529071180307461353?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/529071180307461353/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/infancia-amilcar-bettega-autor.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/529071180307461353'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/529071180307461353'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/infancia-amilcar-bettega-autor.html' title='Infância (Amilcar Bettega)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-6582704429278573221</id><published>2009-10-21T10:16:00.000-07:00</published><updated>2009-10-21T10:16:04.344-07:00</updated><title type='text'>A vantagem de atravessar a madrugada no ocidente (Daniela Langer)</title><content type='html'>&lt;em&gt;Sono&lt;/em&gt;. Você me diz com o rosto já procurando um jeito de encaixar no meu ombro, acomodando-se entre as dobras das cobertas e o meu corpo. A madrugada caminha pelo quarto e eu suspiro cada segundo – em vez de carneirinhos, pulam, um por vez, todos tipos de pensamento. Vou e volto do oriente, faço na ponta dos dedos a conta de um fuso-horário. Tibete, Índia, Tailândia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sombras desenham elefantes entre a cômoda e o vão da porta, murmuro &lt;em&gt;no Japão o império durou milênios e eram tão lindos os imperadores, todas aquelas honras, você não acha?&lt;/em&gt; até que, grudando seus lábios nos meus, - e em algum lugar do meu sonho que ainda não começou - você ri, &lt;em&gt;só no Japão que já amanheceu, vai dormir.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tarde, e não consigo desembarcar desse mundo inteiro. O reflexo de um safári no espelho oposto à tv me faz caçar a voz monocórdia do locutor no volume quase mínimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tarde, e é tão bom sentir seus pezinhos mornos debaixo das cobertas. Viro para você que amolece quando meus dedos invadem as pontas dos tecidos da sua roupa. Minhas mãos lhe convidam para seguir comigo para o outro lado do mundo, quem sabe giramos e giramos sempre na beira do penhasco, um leopardo sai das savanas, tribo ao norte balança suas lanças, calor do seu rosto, seus lábios no meu ouvido &lt;em&gt;vem, ainda é hoje.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-6582704429278573221?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/6582704429278573221/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/vantagem-de-atravessar-madrugada-no.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/6582704429278573221'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/6582704429278573221'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/vantagem-de-atravessar-madrugada-no.html' title='A vantagem de atravessar a madrugada no ocidente (Daniela Langer)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-5390529549295752232</id><published>2009-10-19T09:28:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:21:49.568-08:00</updated><title type='text'>O dia seguinte (Moacyr Scliar)</title><content type='html'>Se há alguma coisa importante neste mundo, dizia o marido, é uma empregada de confiança. A mulher concordava, satisfeita: realmente, a empregada deles era de confiança absoluta. Até as compras fazia, tudo direitinho. Tão de confiança que eles não hesitavam em deixar-lhe a casa, quando viajavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez resolveram passar o fim de semana na praia. Como de costume a empregada ficaria. Nunca saía nos fins de semana, a moça. Empregada perfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram. Quando já estavam quase chegando à orla marítima, ele se deu conta: tinham esquecido a chave da casa da praia. Não havia outro remédio. Tinham de voltar. Voltaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando abriram a porta do apartamento, quase desmaiaram: o living estava cheio de gente, todo mundo dançando no meio de uma algazarra infernal. Quando ele conseguiu se recuperar da estupefação procurou a empregada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas que é isso, Elcina? Enlouqueceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí um simpático mulato interveio: que é isso, meu patrão, a moça não enlouqueceu coisa nenhuma, estamos apenas nos divertindo, o senhor não quer dançar também? Isso mesmo, gritava o pessoal, dancem com a gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O marido e a mulher hesitaram um pouco; depois — por que não, afinal a gente tem de experimentar de tudo na vida —aderiram à festa. Dançaram, beberam, riram. Ao final da noite concordavam com o mulato: nunca tinham se divertido tanto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte despediram a empregada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-5390529549295752232?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/5390529549295752232/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/o-dia-seguinte-moacyr-scliar-autor.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5390529549295752232'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5390529549295752232'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/o-dia-seguinte-moacyr-scliar-autor.html' title='O dia seguinte (Moacyr Scliar)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-4580729447594848334</id><published>2009-10-18T09:17:00.001-07:00</published><updated>2009-10-18T09:17:31.798-07:00</updated><title type='text'>O retorno (Eni Allgayer)</title><content type='html'>Mofo! O cheiro de mofo e poeira está em todos os lugares. Pelo jeito, o sol não entra no quarto há muito tempo. Estranho isso! Ele sempre gostou de luz. Detestava penumbra e poeira. Lembrei então de sua renite. Como estaria? Senti vontade de abrir as cortinas e janelas, deixando o ar puro e o sol entrar, mas me contive. Não seria prudente. Onde estavam as empregadas? Suzi e Verona sempre foram caprichosas, mantendo a casa limpa e perfumada. Será que ele as despediu? Homens são tão insensíveis! Ora, onde já se viu despedir duas empregadas que já estavam conosco há pelo menos vinte anos. Quem estará cuidando dele agora? Ninguém vive sem cozinhar, lavar, passar e limpar. E, ele nunca teve jeito para essas coisas. Lembro-me de como era desajeitado quando tentava me ajudar, nas folgas das empregadas. Chegava a ser engraçado, aquilo: pratos, copos e travessas não resistiam às suas mãos, e a toalha acabava cheia de manchas. Isso sem falar na comida queimada. Bom, vou deixá-lo dormir mais um pouco. Passei a mão em seu rosto áspero, estranhando a barba de dias, mas ele não se moveu. Acomodei-me ao seu lado, resgatando anos de silenciosa vigília. Depois de algum tempo, deixei-o na inconsciência do sono e fui revisar os outros aposentos. Que horror! A sala também tem as cortinas cerradas. Isso não está certo. Nunca pensei que ele pudesse mudar tanto. Antes, era ele quem abria portas e janelas pela manhã, para que o perfume do jardim invadisse todos os recantos. Era a sua maneira de demonstrar amor, pois sabia o quanto eu gostava das flores e árvores que havíamos plantado. Não raro, surpreendia-me com um botão de rosa, resultado de suas investidas furtivas ao roseiral. Chegando à cozinha, pensei preparar um café da manhã no capricho, lembrando que não havia nada que o agradasse mais do que um farto desjejum. No armário, pão dormido; na fruteira, uma banana passada, de casca escurecida; na geladeira, uma caixa de leite desnatado pela metade. O que está acontecendo com ele? Como pode deixar isso acontecer? Inconformada, retornei para o quarto. Encontrei-o encostado na cabeceira, com os cabelos revoltos e os olhos fechados. Sentei na cama, recostando-me ao seu lado, como nos velhos tempos, entrelaçando meus dedos nos seus. Ele permaneceu quieto, num silêncio sofrido. Acariciei-lhe as mãos, como costumava fazer, quando as coisas ficavam difíceis. Pensei ver um sorriso fugaz bailar em seus lábios. Depois de alguns minutos, ele levantou, começando a se vestir, com a calma costumeira. Esperei que fizesse sua higiene, e fomos para a sala. Finalmente ele descerrou as cortinas e, o meu coração se confrangeu ao ver que não existia jardim, nem roseiras, mas apenas plantas daninhas se enredando nas árvores. Por que isso?, perguntei, desgostosa. Num encolher de ombros, ele sentou em frente à escrivaninha. Na sala, pilhas de livros e jornais ocupavam mesas, cadeiras e sofás. Naquele momento, arrependi-me, sinceramente, por não ter adotado uma criança, como chegamos a cogitar, quando os médicos finalmente concluíram que ele era estéril. Voltei a questioná-lo sobre o que estava acontecendo, mas ele me ignorou, continuando a examinar os papéis que tirara de uma gaveta. Algum tempo depois, levantou para acender o abajur. Então me aproximei, tomando-o nos braços. Minha cabeça ainda estava recostada em seu peito, quando fixei o olhar na imagem solitária refletida no espelho. Só então compreendi a tristeza que havia em nossa casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-4580729447594848334?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/4580729447594848334/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/o-retorno-eni-allgayer.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4580729447594848334'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4580729447594848334'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/o-retorno-eni-allgayer.html' title='O retorno (Eni Allgayer)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-777458150663632080</id><published>2009-10-13T18:31:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:24:06.109-08:00</updated><title type='text'>A princesa e o dragão (Jeferson Flach)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;A PRINCESA E O DRAGÃO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vens me convidar com um sorriso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dizendo que tive uma grande sorte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por entrar onde um dragão desde o norte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;guarda o jardim ao sul do teu paraíso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;És palácio semovente, impreciso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;miro as colunas e penso na morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e ainda mais se toco o contraforte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o quanto deixo para trás meu juízo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que dizes ser apenas nanquim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sabe a carne, tem cheiro de jasmim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e se fujo assim, tão desajeitado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que me lembro agora do perigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;das princesas que trazem sob o umbigo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;escondidinho, um dragão tatuado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-777458150663632080?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/777458150663632080/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/um-poema-de-jeferson-flach.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/777458150663632080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/777458150663632080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/10/um-poema-de-jeferson-flach.html' title='A princesa e o dragão (Jeferson Flach)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-9196012211008605047</id><published>2009-09-20T08:07:00.001-07:00</published><updated>2009-12-25T12:25:18.292-08:00</updated><title type='text'>Dia de fechar negócio (Paulo Tedesco)</title><content type='html'>Desliguei o telefone. O Festugatto ia ficar puto com as novidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Era o Vicente – eu disse. – O Albumir fechou o negócio dos Scaparo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que tu falou?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso mesmo que tu ouviu, o Albumir fechou o negócio com os Scaparo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não pode ser! O negócio era meu! Tava se arrastando há mais de um ano para fechar! É cliente antigo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho que tu vai ter que falar com o Osni. Liga para ele, antes que seja tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Festugatto começou a andar de um lado para outro, no meio da calçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Me faltava essa, ter que implorar para um gerente de merda por uma venda que era minha. Minha, tá ouvindo? Eu que arranquei esse negócio do nada, eu que encontrei o cliente, eu que mostrei a mercadoria. Porra, até no aniversário da filha do cara eu fui! Aquele bando de chato ouvindo música de corno e tomando água, e eu seco por uma cerveja gelada, só querendo uma nega para eu dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Festugatto, tu sabe como são as coisas na imobiliária, a regra é a do cada um por si. No teu lugar eu já teria ligado e chorado alguma coisa. Sou teu amigo e tô querendo te ajudar, se falar com o Osni ele ao menos vai saber do que tá acontecendo. Gerente é para essas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O Albumir nunca respeitou o besta do Osni. Não te lembra do caso do Morro da Pedreira? Quando o Osni conseguiu todo o loteamento para vender e, no fim, quem levou a comissão foi o Albumir? Chega a dar pena do Osni, é gerente mas não sabe vender e, quando se alia com alguém, ainda toma rasteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que não liga para o Giacomin? Ele é o dono do negócio. Liga e pede uma reunião. Sei lá, inventa uma desculpa, diz que ficou sabendo de alguma negociação grande, e por isso precisa falar pessoalmente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E aí digo que o Albumir me passou a perna porque confiei no cliente e não assinei um pré-contrato de venda? Que a minha amante tava me aporrinhando para passar um fim-de-semana em Gramado e o cliente foi me procurar justo no plantão do sábado em que eu não estava e o Albumir tava lá e fez a parte dele? Porra, Vander, o cara é dono de meia cidade, tem amigo até no governo federal, tu acha que ele tem tempo para resolver briguinha de corretor? E se ele resolve confrontar a história com a do Albumir? Tu acha que o Albumir já não esquentou o próprio lado? Deve ter pré-contrato assinado, que pode ser falso, mas que ele tem, tem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bom, Festugatto, tu é grande e sabe te virar – eu disse, enquanto procurava nos bolsos a chave do carro. – Eu tô indo para a imobiliária, mas antes vou passar no cartório para pegar umas autenticações. Aonde tu fica?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vou contigo. Não sei o que pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estacionei na frente do cartório e ele não me deixou desligar o motor, por causa do ar condicionado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deixa de ser mão de vaca, Vander, não vou ficar derretendo nesse calor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando voltei, ele dormia, havia recostado a poltrona e ressonava. Não sei como alguém consegue dormir numa hora dessas. Se um colega de imobiliária tivesse me derrubado num negócio de 200 mil, eu estaria indo matá-lo, nesse momento. Perder comissão não faz a minha cabeça, aliás, me tira o sono por dias. O próprio Festugatto, certa vez, me levantou uma venda, se fez de louco e passou a mão num cliente meu. Depois pediu desculpas, disse que tava apertado de grana, que ia ter que devolver para a concessionária a BMW, que tinha se precipitado, eu era um cara legal e não merecia. Fiquei com pena e não fiz nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pus o automóvel em movimento. Ele abriu os olhos. Libertou um pigarro da garganta e retomou o sono. Nos meus primeiros tempos de imobiliária, ele emendara um peteleco dolorido na minha orelha sem nem saber o meu nome direito. Quando virei na cadeira giratória, vi um gigante; eu, sentado diante daquele homem de cento e cinqüenta quilos e quase dois metros de altura, sentia-me pequenininho. O peteleco tinha sido uma carícia, algo gentil, vindo daquele monstro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia me convidou para almoçar e disse que deveríamos fazer uma dupla. Eu era novo, tinha sangue jovem e era inteligente, unidos faríamos fortuna. A única condição que impunha é que o ajudasse nas brigas com o gerente, que abrisse o jogo dos negócios e o mantivesse informado de cada movimento do Albumir et caterva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Gente perigosa, Vander. Eles vendem a mãe e não entregam. Matam e vão chorar no velório. Confia em mim, vamos dar um nó nesses otários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nó, eles deram nele, e quase fui junto. Naquele negócio do Morro da Pedreira, quem deu início a tudo fui eu. Mas estava inseguro porque a coisa era grande demais, e dividi com ele. Em poucos dias o Osni também ficou sabendo e, quando o Albumir entrou na parada e começou a fechar a negociação, tive que ouvir do Seu Giacomin “da próxima vez que tiveres acesso à informação de coisas daquele tamanho, tens que te reportar ao teu gerente, ao Osni, e a mais ninguém. Para o teu amigo, o Festugatto, vou dar umas férias para repensar. Espero que ele aprenda a não fazer intriga nem esconder notícia que interessa à empresa, e tu, volta ao trabalho, que deve ter gente te esperando. Vamos, rapaz, te mexe”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu também tivesse ganhado férias naquela ocasião, teria quebrado, eram meus primeiros meses de corretagem e estava para perder meu carro em leilão de dívida. O engraçado é que quando a coisa apertou foi o Albumir quem apareceu para me ajudar. Ele tinha emprestado um cheque, e, no almoço do mês – todo mês o Giacomin pagava um churrasco para integrar o grupo dos corretores e comemorar as vendas –, um Albumir excitado disse que estava disposto a perdoar a minha dívida se eu entregasse ali, naquela hora e para o mundo, quanto que o Festugatto havia ganhado no negócio do condomínio Lazule, afinal, segundo ele, não era sempre que alguém ganhava comissão em quarenta apartamentos sem ter vendido nenhum: “Porra, Vander, vocês almoçam junto, vão em puteiro juntos. Entre nós, para o amigão aqui, abre o jogo, o pessoal tá curioso para saber quanto o Festu fez naquele rolo...”, e caiu numa estridente gargalhada, derramando cerveja sobre as carnes que iam saindo do fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estacionamos. O Festugatto ressonava, imóvel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Festu, acorda, porra. Vamos, homem, não posso esperar o dia aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele esticou o braço e agarrou-me pela manga. Não conseguia falar, algo parecia ter travado na garganta. Estava ofegante, os olhos arregalados e o cabelo revolto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Faltava essa, tá passando mal? Vai morrer? Quer que te leve para o hospital?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele apertou minha manga cada vez mais e repentinamente soltou-a. Virou a cabeça para o lado. Não tinha pulso. Liguei o carro e puxei o freio de mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Descansa um pouco, Festu, vou apresentar a proposta para a velha e depois nós te levamos para o hospital ou para o necrotério, onde tu quiser. Deixo até o carro funcionando e o rádio ligado para ti, fica ouvindo uma musiquinha, para distrair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subi pela escada que dava no alpendre da sede da imobiliária, um outro carro estacionava do lado oposto da rua. Eu batalhei muito por esse negócio, o Festugatto iria entender, eu não demoraria nada. Era a Dona Alberta Zandonai que chegava, e aquele era dia de fechar negócio...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-9196012211008605047?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/9196012211008605047/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/09/dia-de-fechar-negocio.html#comment-form' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/9196012211008605047'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/9196012211008605047'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/09/dia-de-fechar-negocio.html' title='Dia de fechar negócio (Paulo Tedesco)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-7343240669337181510</id><published>2009-09-11T15:53:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:27:50.717-08:00</updated><title type='text'>Sumô (Carlos Stein)</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;O locutor me anuncia no microfone, sinto calafrios; eu e o meu adversário nos erguemos e caminhamos para o tatame: se vencê-lo, serei o campeão de Sumô da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os oponentes param frente a frente no interior do círculo traçado a giz, separados por duas faixas brancas paralelas; a um gesto do juiz, cumprimentam-se e se preparam para o combate: de cócoras, os punhos crispados se apoiando no chão. O silêncio rói pelo estádio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso ouvir as línguas agitadas esquiando pelos lábios, o roçar nervoso de mil pares de mãos, todos olhares grudados em nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A uma ordem do juiz, como que catapultados, os dois arremetem para frente e se chocam, visando desestabilizar, derrubar, arrojar o outro para fora do círculo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo em que me preparo para suportar o impacto, percebo os espectadores gritando e se agitando, os pés martelando o chão, o alvoroço reverberando nas paredes, no teto, sob as arquibancadas, tudo isto percebo enquanto suporto a violenta investida do meu adversário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pega, liquida, mata, empurra ele para fora do círculo — vociferam as vozes. Os lutadores rodopiam céleres, outras vezes lentos quase imóveis, voltando a girar subitamente, escapando de qualquer maneira da marca fatal do giz – colunas, as pernas; clavas, os braços; garras; os dedos; e um desejo surdo grosso antigo de supremacia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele é mais alto e mais forte, seus músculos parecem cordas de aço, mas tenho de agüentar, encontrar uma brecha em sua defesa, derrubá-lo, ser campeão...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente uma perna é agarrada e imobilizada com firmeza (silêncio premonitório petrifica a todos), um peito se estufa de ar juntando-se a um movimento poderoso para diante, e um corpo é arremessado para fora do círculo. Dois uivos se escutam, mesclados: do vencedor, longo e tonitruante; e do perdedor, agudo e agoniado enquanto se estatela no chão. O vencedor, arfante, ainda em posição de combate, observa o perdedor, de bruços, o rosto expressando profunda decepção. A multidão sapateia, bate palmas, berra as sete notas do delírio. O perdedor se ergue, e num miúdo trotar, retorna para dentro do círculo; a um sinal do juiz, os lutadores se cumprimentam e deixam o tatame, o público acalmando-se. O perdedor escapa correndo dos holofotes e num salto se aninha nos braços da mãe que aconchega muito o pequeno corpo do menino, sacudido por forte choro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Perdi, perdi... – me lamento com mamãe, sem ter coragem de olhar para meu pai que deve estar muito decepcionado comigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-7343240669337181510?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/7343240669337181510/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/09/sumo.html#comment-form' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/7343240669337181510'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/7343240669337181510'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/09/sumo.html' title='Sumô (Carlos Stein)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-4064500769520420081</id><published>2009-07-29T13:16:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:28:57.050-08:00</updated><title type='text'>O diário do Doutor Newmann (Guilherme Behs)</title><content type='html'>20/01&lt;br /&gt;Hoje fui acometido por outro desses ataques de pânico. Comentando o assunto por alto com um colega, este me sugeriu que escrevesse tais experiências em um diário. Gostei da idéia, mas antes que pudesse fazer um comentário técnico sobre o mesmo, ele me expulsou de seu consultório sob o pretexto de que precisava terminar a consulta com seu paciente, me convidando para um café mais tarde. Um café. Mal sabe ele o mal que me faz a cafeína. No caminho de volta para o trabalho o trânsito estava terrível, lembrava uma artéria com obstrução quase total, e ainda que eu tenha controlado com algum sucesso a taquicardia que se instaurou em meu peito, decidi por deixar um bilhete para meus pacientes na porta consultório e fui para casa. Após o jantar tomei um banho quente para dilatar as veias e vim me deitar. Sinto-me melhor agora que apenas relato tais acontecimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23/01&lt;br /&gt;Hoje evitei utilizar meu carro, fazendo uso de ônibus para ir trabalhar. Péssima decisão! Aquela gente toda amontoada no corredor do veículo lembrava uma artéria com obstrução total. E como tossem e espirram, parecem animais! Me segurei firme e tentei desviar meus pensamentos, já que seria quase impossível passar por aquela parede humana em caso de mal súbito. Enquanto eu tentava formar em minha cabeça a imagem de macieiras ao vento, minha glote foi se estreitando, o coração acelerou e à medida que eu buscava um pouco de ar para oxigenar meus pulmões e reestabelecer meus batimentos cardíacos a um nível abaixo dos de um maratonista, terminei por inalar as hordas de bactérias que impregnavam o ar do maldito coletivo.&lt;br /&gt;Ao chegar ao consultório atendi a Sra. Ana, e evoluímos menos do que eu esperava e menos ainda do que a infecção que progredia sensivelmente em meus tecidos moles superiores.&lt;br /&gt;Mais tarde, já debilitado, atendi o Sr. Ricardo. A amigdalite e leves pontadas no córtex frontal não me permitiram concentrar na terapia. Que enigma este paciente! Há algumas sessões fracasso na tentativa de tirar algo dele, e hoje, não fossem as péssimas condições em que eu me encontrava, acredito que poderia ter conseguido. Ainda assim, saí com a sutil suspeita de que possa estar doente, uma vez que passou a consulta toda conversando comigo e com sua esposa, sendo que apenas eu e ele encontrávamos-nos na sala. Investigar. Sinto-me febril. Medir temperatura ao chegar em casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27/01&lt;br /&gt;As consultas de hoje foram reveladoras. Retornando ao consultório após um rápido lanche para combater a hipoglicemia, flagrei o Sr. Ricardo mediando um debate entre um hindu e uma bispa na minha sala de espera. Agora preciso investigar o quanto do que me contou sobre sua vida é real e o quanto é doença. Na volta pra casa senti um desconforto nas costas e me veio a divertida idéia de eu sofrer do mesmo mal que o paciente, o que faria com que o Sr. Ricardo, a exemplo de sua esposa imaginária, não existisse. Apenas a título de diversão pedi a meu vizinho que telefonasse para ele, certificando-me, enquanto a conversa se desenrolava, de que ambos eram reais, exceto se os dois fossem alucinações. Investigar. Aproveitei o ensejo do telefonema e perguntei se havia tomado a medicação, o que me respondeu afirmativamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28/02&lt;br /&gt;Hoje o dia foi duro. Descobri que dona Ana chama-se, de fato, Cláudia, e devia ter recebido alta fazem seis meses. Devo ter trocado as fichas ano passado. Aquelas malditas pedras nos rins não me deixavam fazer nada direito. O Sr. Ricardo por sua vez invadiu o consultório desesperado com o sumiço de sua esposa. A medicação está funcionando! Tentei explicar sutilmente o que se passa com ele, mas agora desconfia que sua mulher alugou um quarto em minha casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;07/03&lt;br /&gt;Hoje atendi o Sr. Cauduro. Ele está tendo enorme dificuldade para superar sua claustrofobia e relata tardes de verdadeiro pavor enquanto desempenha sua função de ascensorista. Contou, às lágrimas, que por vezes implora que alguns passageiros fiquem com ele por mais uns andares, o que está quase custando seu emprego. Desconfortável com seu relato, vesti meu casaco e fui pra casa, acometido de uma tosse terrível. &lt;br /&gt;Nos últimos dias tenho vivenciado a sensação de estar sendo observado. Eu poderia jurar que ontem, enquanto preparava compressas para aliviar o estranho inchaço que se instalou nas minhas pernas, vi uma mulher passando pela sala. Resolvi começar a fazer caminhadas para aliviar as tensões e o estresse a que ando me submetendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/03&lt;br /&gt;Estava me sentindo bem com as caminhadas dos últimos dois dias. Hoje tive a impressão de que passei pela mesma mulher que vira em minha sala outro dia e quando fui me virar para abordá-la, torci o pé, o que me obrigou a voltar pra casa. À noite, vi nitidamente a tal mulher passando pelo quarto e me fazendo sinal de positivo. Estou apavorado, devo estar muito doente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20/03&lt;br /&gt;A maldita assombração não me deixa mais em paz. Estou até me acostumando com ela. Ontem perguntou se eu queria chá. Hoje chamei ao consultório o Sr. Ricardo. Está inconsolável. Aceita, com reservas, que sua esposa é fruto do seu distúrbio. Ainda assim, diz que a ama profundamente e ameaça parar com a medicação para tê-la de volta. Aproveitando o assunto pedi a ele que a descrevesse. Minhas suspeitas se confirmaram. Trata-se da alucinação que anda perturbando minha vida. Chama-se, segundo ele, Letícia. Certamente um caso sem precedentes. Investigar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27/03&lt;br /&gt;Cancelei todas as consultas e passei o dia estudando, mas não encontrei nos registros históricos nenhum caso de contratransferência como esse. Li livros e mais livros, busquei em artigos, pesquisei na internet e nada. Letícia anotava tudo ao meu lado e até fazia sugestões de pesquisa. Como é prestativa! Ainda que eu anseie pela cura para este estranho problema, devo confessar que é muito bom ter alguém como ela por perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;05/04&lt;br /&gt;Hoje o Sr. Ricardo permaneceu comigo por mais de uma hora. Mal sabia ele que eu podia enxergar Letícia dentro da sala. Tentei ignorá-la mas, astuta que é, passou a dar petelecos em minhas orelhas e fazer caretas e poses na mesa de centro. Como é brincalhona! Perguntei a ele sobre suas lembranças, e enquanto ele me relatava histórias que viveram juntos, o ciúme corroía minhas veias. Ainda sabendo que tal sentimento é uma completa loucura, não pude controlá-lo. Acabei por confessar que andava vendo Letícia e estava perdidamente apaixonado por ela. Furioso, o Sr. Ricardo me empurrou no chão, pegou de minha mesa uma escultura da torre Eiffel e veio em minha direção. Calafrios correram pelo meu corpo, eu sei bem do que gente doida é capaz. Antevi a peça encravada em meus miolos, mas para minha surpresa, o Sr. Ricardo ergueu o braço, atirando a escultura contra o armário de remédios. Que idiota!- pensei. Mal sabia eu que segundos depois ele iria enfiar em minha boca, à força, os mesmos compridos que eu lhe prescrevera semanas atrás. Estou arrasado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/04&lt;br /&gt;Fazendo uma profunda reflexão decidi dar voz ao bom senso. Retirei todas esculturas da sala e novamente chamei o Sr. Ricardo ao consultório. Argumentei que a medicação é fundamental para seu tratamento. Envergonhado, ele concordou em buscar a cura, sob a exigência de que eu também me trate. Não quer que eu fique com Letícia definitivamente. Rindo, lhe respondi que já o estava fazendo, mas ele não acreditou. Por fim, combinamos de nos encontrar diariamente para que ambos tomemos a medicação um na frente do outro, podendo conferir também embaixo da língua três vezes por semana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/05&lt;br /&gt;Ricardo é um sujeito legal, e apesar da fossa em que estamos por ter perdido Letícia, nossos almoços têm sido bem agradáveis e o tratamento é um sucesso para ambos. Hoje convidei-o para ir a um bar. O local estava cheio, o balcão parecia uma artéria com obstrução total. Aquela gente fumava, ria e tossia, impregnando o ambiente como animais! Escolhemos uma mesa mais ao fundo e a noite foi bastante tranqüila, exceto pelo ataque de pânico que tive de controlar com respiração cachorrinho e por um garçom que falava e ria o tempo todo sozinho. Corroídos pelo ciúme o levamos para o banheiro, e após uma breve luta, conseguimos enfiar-lhe os comprimidos goela abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme Behs.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-4064500769520420081?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/4064500769520420081/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/07/o-diario-do-doutor-newmann.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4064500769520420081'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/4064500769520420081'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/07/o-diario-do-doutor-newmann.html' title='O diário do Doutor Newmann (Guilherme Behs)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-8581528878396117984</id><published>2009-07-13T16:37:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:30:20.794-08:00</updated><title type='text'>Está tudo bem, querido? (Ricardo Morales)</title><content type='html'>Sábado. Morales e Vitória há algum tempo não saíam para se divertir. Estavam presos a uma mesmice que se restringia ao emprego e o retorno para a casa. Clara contava com quase cinco anos e durante o dia ficava com a avó materna. Naquela noite, a menina tinha ido dormir com a mãe de Vitória, pois Morales decidira aceitar o convite de um colega para um jantar-baile no clube de oficiais do exército. Não era o tipo de festa que lhe agradava, mas pensou que poderia ser a quebra da rotina por ambos desejada em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher, depois da faculdade de pedagogia, obteve aprovação em um concurso público e passou a trabalhar em uma escola de ensino médio. Alimentou planos para prosseguir os estudos a fim de entrar no corpo docente da universidade do Estado. O projeto se desfez nos primeiros meses após o retorno à vida acadêmica; os motivos foram o ciúme e a gravidez. Por isso, por vezes, sentia-se como castigada. A estagnação em sua vida profissional e o casamento, um tanto tedioso, ainda que o marido fosse um bom homem, a aborreciam. Daí imaginar que o tal baile serviria como uma chance de diminuir a tensão cotidiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morales presumia que ele e Vitória entendiam com perfeição um ao outro, ao menos no que é possível para um casal maduro se entender. Na visão dos amigos era o modelo do casamento perfeito, as pessoas acreditavam naquilo e os dois, segundo ele pensava, gostavam de ser vistos assim. Além disso, Morales supunha que compreendia a si mesmo – o que podia fazer, até onde seria tolerado, o que lhe era proibido, quais as medidas que deveria tomar diante de determinados fatos; tudo por achar que conhecia muito bem as suas possibilidades e as suas limitações. Mais do que tudo, julgava gozar de elevado conceito na categoria de marido, cujo padrão conseguira ao longo dos anos, pois não se furtava de lavar a louça, acordar a mulher com um café na cama, presenteá-la de surpresa, só para vê-la satisfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois diziam se considerar um casal pleno, exceto por uma única ponta de tristeza por conta da interrupção do mestrado de Vitória, que Morales reputava como algo menor, que deveria ficar no passado. Mesmo que não quisesse admitir, às vezes, voltava a pensar no assunto, ultimamente, com maior freqüência e intensidade crescente, acompanhada por imagens horríveis, obscenas e inimagináveis onde a mulher o traía com um colega de curso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegaram em casa perto da uma da manhã; cedo para quem pretendia se divertir como nunca, como dissera Vitória ao chegar no salão de baile. Corpos cansados e cabelos com o cheiro da noite. Quem nunca foi a uma festa, em um ambiente fechado, talvez estranhe, mas, de resto, é assim mesmo, é ficar poucos minutos e a roupa, os cabelos e as narinas cheiram a cigarro e a suor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O anormal era a tensão calada que os envolvia sempre que ficavam juntos. Morales havia tomado algumas doses de uísque. Não apreciava as bebidas destiladas, mas influenciado pelas companhias agradáveis permitiu-se alguns excessos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentaram-se na sala de estar. Vitória esparramou-se no sofá. Percebeu que o marido, com o passar dos anos, tornara-se um pouco mais introvertido. Recusara-se a dançar com ela, mas jantou e conversou com o amigo Sérgio e com dois militares e suas esposas com quem dividiram a mesa. Nada além disso. No fundo, Vitória sentiu-se um tanto desprezada, pois ele não se importou que ela dançasse duas músicas com o Sérgio, cuja acompanhante exibia uma barriga de sete meses. O fato lhe trouxe alguma frustração, pois gostaria de ter desfrutado da festa junto com Morales. Além disso, subitamente, ele anunciou que queria ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vitória estava distraída entre as recordações recentes quando uma pergunta lhe trouxe para o presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Gostou da festa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que é que houve? De repente, tu resolveu ir embora?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não foi nada. Cansaço, só isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A comida estava quente e a bebida boa, não é?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mais ou menos, mas a música... Desculpe, mas não deu pra dançar, faltava alguma coisa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o Sérgio, coitado. Ele não dança nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morales fez silêncio. Recuou, em segundos, cinco anos. Uma prática cada dia mais comum e dolorida. Relembrava a época em que Vitória estudava; o curso noturno, as horas em casa aguardando o retorno da esposa, o dia em que olhou entre as persianas do apartamento e a viu saindo de um carro vermelho. “Carona de um colega”, ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De olhos fechados, tentou recriar os fatos, reconstruir a história de outra forma, imaginando a si mesmo indo buscar a mulher na porta da faculdade, emprestando o carro e lhe dando dinheiro para que colocasse o automóvel em um estacionamento pago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tome querida, não vá se atrasar... Ah, não, não peça carona pra esse cara... Ora, se não gosta de dirigir à noite, não tem problema, vou te buscar!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento, o relógio parecia paralisado. Morales poderia ficar uma hora remoendo e recriando imagens sem perceber. Ele sabia que aquilo não era bom, nem saudável, porém, não conseguia livrar-se do exercício infernal, das seqüências em reprise. Era verdade que nunca tivera a certeza inequívoca, definitiva e imutável do que ocorrera. Sabia que Vitória de uma hora para a outra havia desistido de prosseguir com os estudos. Sim, Morales reclamou das caronas. Mesmo que lhe fosse conveniente deixar de sair tarde para buscar Vitória, não podia concordar com aquilo. Um mal-estar havia se instalado naquele tempo. Morales não acreditava que um homem pudesse ser amigo de sua mulher. Ela era grande, como ele gostava. Seios firmes. Pernas rijas. Olhos castanhos. Cabelos longos e bem cuidados. Sempre vaidosa com as roupas e com o corpo. Não estava enganado ao expor aqueles temores para Vitória. Essa era a sua convicção. É claro que jamais havia pretendido prejudicar a esposa em seus projetos, não a proibira de fazer o que quisesse, mas não admitia ser iludido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O certo era que ao final ainda persistia a interrogação, a dúvida e a insegurança que andava surda entre os dois. Porém, sem qualquer aviso, em meio ao diálogo despretensioso durante o começo de madrugada, tudo aflorou como se aquela noite, perdida no passado, estivesse suspensa no tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aquele teu colega... Ele dança bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem? O Fred? O do curso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tu ainda lembras?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nem penso nele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele dança?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como posso saber? Nunca dancei com ele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas tu saiu com ele!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não... Olha, nós já conversamos sobre isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu preciso... Por favor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O quê? Não aconteceu nada. Nada demais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como nada? Ele tentou. Isso tu tens que admitir. Já faz tempo, eu sei. Mas, somos adultos, pode falar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Vamos deixar como está. Não há nada pra contar, querido.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vitória, meu bem, nós não precisamos de segredos. Eu nunca escondi nada, não é? Me conta, por favor. Nós nem vamos ver mais aquele cara.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher ficou um instante em silêncio. Para Morales foi a eternidade. Ele fixou o olhar nela, depois passeou pelo sofá, contou os quadradinhos no desenho do tapete e refez o caminho de volta. Quadradinhos, tapete, sofá, rosto da mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bem... Tá certo. Tu não vais ficar brabo? Já faz muito tempo...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo bem, afinal, sou eu quem quer saber.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morales procurava manter-se calmo, mas em seu íntimo crescia um sentimento sufocado. As malditas imagens em velocidades surpreendentes se reproduziam uma após a outra. Vitória sorrindo, o carro vermelho, Fred, o casal se beijando, Fred dirigindo com a mão sobre a perna da mulher, os dois rindo dele, Morales espreitando atrás da persiana, Clara de vestido amarelo correndo em uma praça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele me beijou... Nós nos beijamos... Só isso. Nada mais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele permaneceu quieto por alguns momentos. Precisava digerir a notícia, processá-la, absorvê-la e controlar a luta entre o instinto de preservação da auto-estima e o desejo de saber o que ocorreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que mais tu tens pra me contar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não aconteceu mais nada, já disse. Não fomos além disso. Só um beijo e nada mais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só isso? Tu achas pouco, então?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Calma, amor, nem penso mais nele. Não foi nada sério. Eu errei, eu sei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vitória reviu a noite em que retornou para casa de carona com o colega. Os olhos e o tom de voz de Morales eram os mesmos. Ela pressentiu que viveria a mesma cena e as mesmas indagações que agora ecoavam em sua cabeça. “Quem é aquele cara, Vitória? Onde vocês andaram? Sabes que horas são?” A repetição da antiga trama. Os punhos fechados do marido, o chute na cadeira da sala que voou contra a porta da rua, a voz quase inaudível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu Deus, o que mais aconteceu? Eu acho que sou um trouxa, isso sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não faz assim, Morales. Foi só um beijo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pra mim, já é o suficiente... Tu não tens noção? Um beijo. NEM AS PUTAS BEIJAM. UM BEIJO É MAIS ÍNTIMO DO QUE UMA TREPADA.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vitória não sabia o que fazer. O tempo parecia desandar. Tudo aquilo deveria ter acabado há muito tempo. Ela procurou apoiar-se na razão. Levantou-se do sofá, tentou abraçar Morales, demonstrar que tudo estava bem. Ela tocou os seus lábios nos dele, que ficaram imóveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia mais controle; Morales não podia parar. O que antes era uma suspeita, uma micro-certeza, tornava-se real. A mulher o traíra. A vergonha de ser um homem enganado tornava ridícula a história de casal feliz propagandeada entre os amigos. Talvez isso fosse até motivo de piada, talvez todos soubessem do caso. Ele ruminava em silêncio se agira corretamente. Reprovava a si mesmo por não ter interferido logo quando suspeitou. Deveria ter ido falar com ele, esperá-la na calçada, ameaçá-lo, se necessário. Mas não sabia até onde poderia ir. Ninguém desejaria estar em tal situação. Quem, nessas circunstâncias, saberia o que fazer? Logo Vitória, tão doce, tão bela e inteligente. Não queria acreditar. Um beijo, para ele, era muito mais importante que o sexo. Era pessoal, lascivo e, ao mesmo tempo, terno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morales sentia como se tivesse levado uma bofetada. Com um empurrão afastou Vitória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele colocou a língua na tua boca.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor, chega.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já imagino o que aconteceu depois...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morales apanhou as chaves e dirigiu-se à porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aonde tu vais?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não interessa!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele entrou no carro e rodou sem rumo. A bebida, o movimento, a dor de cabeça e a confirmação de Vitória o fizeram vomitar. Conseguiu estacionar e colocar a cabeça para fora. Agora, a realidade era material, definida. A suspeita soterrada, o esquecimento fingido pelo regular exercício de retirar da memória havia sido desvelado. O choque com a verdade; o tijolo atirado contra a vidraça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morales seguiu em frente, andou por vários lugares. Passou pela Farrapos e se viu entrando em uma das casas de shows da avenida. Pegaria uma qualquer para fazer a sua vulgar vingança. Desistiu, pois não teria como deletar a história daquele jeito. Terminou na Lima e Silva. Uma mesinha de ferro na calçada, público variado, jovens, bêbados, pessoas comuns e, também, gente estranha. Todos conversavam, sorriam sem preocupações, sem amores ou infidelidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pediu uma cerveja, que permaneceu intacta até que a espuma quase sumisse e o líquido ficasse morno. O dia já ameaçava clarear quando Morales fez um sinal para o garçom. Num minuto, trouxe-lhe um copo com gelo, limão e uma bebida mais forte que ele sorveu em pequenos goles para alcançar a coragem que sabia não possuir. Quem o olhasse à distância não teria ideia do que se passava. Ele parecia tranquilo. Absolutamente sereno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morales não podia esperar mais. Pediu a conta, largou duas notas sobre a mesa e levantou-se. Enquanto andava quase tropeçou numa pessoa deitada sob uma marquise. A manhã nascia gelada e dois cachorros estavam encostados ao homem coberto de jornais, entre sacos, entulho e garrafas de plástico. Poderia ficar ali, cair em qualquer canto. Quase desejou não ser mais lembrado, esquecer-se de quem era e de como estava a sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele precisava reunir forças para voltar para casa. Pensou na filha, Clara, que possuía as feições da mãe. Era linda e ficaria mais bonita quando crescesse. Aos domingos, gostava de apanhar o jornal e deitar-se com o pai. Pedia que Morales lesse o Caderno de Televisão, as tiras dos quadrinhos. A menina viera ao mundo depois daquela pequena tragédia conjugal. Ela, na certa, ignorava os fatos; tão pequena, tão inocente e sem culpa. Sim, alguém tinha de ser o culpado, alguém tinha que ser o responsável por aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Domingo. O sol já ia alto. Morales estacionou o carro e entrou no prédio. Abriu a porta com cuidado. O jornal havia sido colocado sob o tapete. Foi até o quarto e viu que a porta estava entreaberta. Vitória, deitada de lado, parecia dormir. Ele desejava um banho, um pouco de privacidade e alguma coragem. Tirou a roupa e abriu o chuveiro, regulando para que ficasse bem quente. Os vapores e o calor aconchegante do jato d’água na nuca fizeram com que relaxasse por um momento, mas a imagem projetada ainda era a mesma: Vitória murmurando abraçada a um outro homem sem rosto. Mais! Mais! Mais! Ele ouvia mentalmente quando abriu os olhos e pensou como as coisas haviam saído dos trilhos; sabia que estava errado e que, de alguma forma, tinha falhado, que não compreendera a mulher. Talvez ele não tivesse agido corretamente e, talvez, fosse ele o culpado, mas agora não havia mais nada que pudesse modificar. De repente, ouviu a mulher do lado de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Morales, tudo bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que é?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está tudo bem, querido?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já vou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhuma outra palavra foi dita. Depois de secar o corpo, Morales saiu do banheiro, foi para o quarto e viu a mulher sob os lençóis. Rapidamente, deitou-se para se encostar em Vitória. Ela voltou-se para ele e com suavidade passou a mão em seu rosto tenso. Ele tentou resistir, manteve-se imóvel, contudo não a afastou. Esperou quieto e ela, sem dizer uma palavra, acomodou-se sobre seu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morales não pôde deixar de lembrar do outro. Em como teria acontecido, naqueles encontros que povoavam a sua imaginação e, estranhamente, um desejo insano se instalou. Vitória deu-lhe um beijo ardente, cheio de paixão e piedade, enquanto comandava as ações e os quadris. Quando não pode mais suportar, abraçou-a e quase juntos tiveram um orgasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esposa, em seguida, aninhou-se em seu ombro. Morales lentamente permitiu que os pensamentos fossem se apagando. Afrouxou os músculos doloridos até que adormeceu para sonhar que voava de braços abertos sobre a cidade. Ele via o movimento nas ruas, as luzes das casas e dos edifícios, enxergava os rostos conhecidos, as pessoas andando nas calçadas, e sabia que ninguém poderia vê-lo ou tocá-lo. Sentia-se leve.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-8581528878396117984?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/8581528878396117984/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/07/esta-tudo-bem-querido.html#comment-form' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/8581528878396117984'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/8581528878396117984'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/07/esta-tudo-bem-querido.html' title='Está tudo bem, querido? (Ricardo Morales)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-6396364132617760436</id><published>2009-07-07T10:41:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:31:37.427-08:00</updated><title type='text'>Minicontos (Esmeralda Kiefer)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Herança&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Comprou um terreno no céu e deixou a conta para a filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Investimento&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Converteu-se para seduzir o pretendente. Ganhou o inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Injusta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ao se inclinar para ouvir os amigos, desalinha a balança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Com todo respeito&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ajeitou a gravata. Alisou o casaco. Colocou as flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sinal&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Perdeu o braço na parada do ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Lavanderia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Levou o rosto para passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dividendos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ganhou tempo. O marido morreu logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Classificados&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Idoso, viúvo, com casa própria, procura irmã para ler o Evangelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amor&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Estava na cara que ela não enxergava bem, mas ele preferiu não ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cegueira&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O bebê não fitava ninguém. Mas a babá viu que os pais estavam cegos de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Vingança&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O vizinho careca trouxe tantos problemas que a síndica ficou grisalha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-6396364132617760436?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/6396364132617760436/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/07/minicontos-de-esmeralda-kiefer.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/6396364132617760436'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/6396364132617760436'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/07/minicontos-de-esmeralda-kiefer.html' title='Minicontos (Esmeralda Kiefer)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-1124313152815906750</id><published>2009-07-03T10:31:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:32:41.447-08:00</updated><title type='text'>Minicontos (Luiz Ohlson)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Diagnóstico&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico deu-lhe um ano de vida. Devolveu no dia seguinte. Sem uso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jogatina&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feliz no jogo, infeliz no amor, suspirou, enquanto jogava a segunda esposa por sobre o parapeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sintaxe&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Tinha sérios problemas com o Português. De concordância, principalmente. Já com o Espanhol, seu amante...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alguém explica?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Doutor, eu sonhei que sua mulher me amava.&lt;br /&gt;– Eu também – suspirou o psicanalista – eu também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Debaixo da lona rasgada&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Divertiu-se com as palhaçadas, temeu pela vida dos equilibristas, comoveu-se com os bichos. Fechou o jornal e foi ao circo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Heróis e Mitos&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;1&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;– Como foi de viagem, querido?&lt;br /&gt;– Nem te conto, Penélope, nem te conto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;– Sabe do Kronos?&lt;br /&gt;– Mandou dizer que hoje não volta mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;– E o pagamento, Caronte?&lt;br /&gt;– Adiantado e em dinheiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-1124313152815906750?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/1124313152815906750/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/07/minicontos-de-luis-ohlson.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/1124313152815906750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/1124313152815906750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/07/minicontos-de-luis-ohlson.html' title='Minicontos (Luiz Ohlson)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-2039136060088733442</id><published>2009-06-15T11:30:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:33:43.314-08:00</updated><title type='text'>A civilização ocidental (Ricardo Silveira)</title><content type='html'>De início pensei em não ir, mas no horário e local marcado eu estava lá. Ele chegou antes de mim. Na sua frente um campari e uma garrafinha de água mineral. Tinha um olhar muito sério. Não parecia irritado. Eu estaria se fosse ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Boa tarde, senhor Campelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Boa tarde. Sente-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me ofereceu a cadeira e esperou eu me acomodar para sentar-se. Vestia-se com classe. Calça de lã, camisa salmão, um colete xadrez e uma parca. Eu vinha do meu trabalho e vestia calça jeans, camisa e um casaco de couro marrom cujos bolsos internos estavam rasgados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O senhor pediu que eu viesse. Aqui estou eu, seu Campelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— É... Eu pedi sim. Bebe alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Um carioca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pensei que estivesse com vontade de beber uma bebida mais forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O senhor tem razão. Eu quero um café expresso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O comentário a respeito da bebida já era algum tipo de alfinetada? Ele estava surpreendentemente calmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pedi que viesse, pois acho que devemos conversar, senhor... Como é mesmo seu nome?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Heitor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Heitor, tu és o amante de minha esposa, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O que o senhor quer, seu Campelo? Não me chamou para este tipo de conversa. Eu não sou nenhum idiota e sei que o senhor tem mais o que fazer a esta hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Claro que sabe. É neste horário que vocês se encontram, não? A propósito, vocês usam camisinha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Por favor, seu Campelo. Se a conversa continuar neste tom...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Tudo bem. Mudemos o tom. Eu lhe pedi que viesse, pois quero conhecê-lo e fazer algumas perguntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Antes do senhor perguntar, gostaria de lhe dizer... Bem, eu e a Camila... Nós nos amamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sim, ela me disse a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E quando a conheci eu não sabia que era casada. Ela não usa aliança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ela não usa quando está sozinha. Comigo, ela sempre usou aliança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pegou o anel que estava em um dos bolsos do casaco e me estendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Veja, dê uma olhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei de forma rápida e logo lhe entreguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não, observe com mais calma. Na parte interna da aliança está meu nome e a data de nosso casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei novamente e coloquei-a sobre a mesa. O garçom trouxe meu café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Isto aconteceu há sete anos. Eu sabia que não iria durar muito, mas na minha idade, um casamento com uma mulher vinte e oito anos mais nova é como renascer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Olha, seu Campelo. Eu vim até aqui afirmar para o senhor que eu amo muito a Camila. Não tinha a intenção de constrangê-lo e quando fiquei sabendo que ela era casada eu já estava apaixonado. Vim para dizer também que tomei uma decisão: ficarei com Camila apenas se houver separação. Não serei mais o amante. Se ela não me quiser e preferir ficar com o senhor não a verei nunca mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Campelo deu um sorriso amarelo e bateu palmas com ironia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Muito bem, senhor Heitor. Belo discurso! E decidiu isto só agora, quando recebeu meu telefonema? Vocês estão juntos há oito meses!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Bem, seu Campelo. O que eu tinha pra dizer está dito. A decisão agora é da Camila. Eu aceitarei o que ela decidir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E o que tu achas que ela irá decidir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Pergunte a ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu já perguntei a ela. O que tu achas que ela decidiu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Bem... Não sei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Vamos, diga. Tu achas que ela vai pedir a separação? Hein?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu realmente não sei. Não chegamos a conversar sobre isso. Eu fui surpreendido com seu telefonema e decidi sobre o que lhe falei no caminho para cá, mas é a minha decisão. E é definitiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Tens idéia de como eu fiquei sabendo do caso de vocês?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a achar aquela conversa estranha. Seu Campelo agora tinha o rosto vermelho. Demonstrava visível irritação. Alguém neste mundo realmente me odiava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Olha, não estou mais interessado nesta conversa, seu Campelo. O senhor está se alterando e não vejo motivos para continuarmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu não precisei contratar detetives. Tenho pessoas de minha confiança que fazem este tipo de serviço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O senhor andou me espionando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não, eu não diria isso. Eu apenas estava cuidando do que é meu. Sei de cada passo de vocês dois nas últimas duas semanas, e sabe por que tu ainda caminhas e atende ao telefone? Por que eu queria ter esta conversa contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Quem o senhor pensa que é? Deus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele deu uma gargalhada que foi ouvida por quase toda a cafeteria. Olhei para as mesas e, ao fundo, havia um homem de terno preto e óculos escuros que aparentava ler um jornal. Seu Campelo lentamente foi se restabelecendo da risada histriônica para então assumir uma carranca. Passou a falar cuspindo um pouco da saliva que juntou no canto dos lábios, como pequeníssimas porções de merengue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Deus? Não, eu não sou Deus. Eu sou corrupto! Entendeu? Corrupto! Iguais a mim está cheio por aí, mas eu sou um dos melhores, ou um dos piores. Fica a teu critério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu já ouvi falar de tua fama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Então por que se envolveu com minha esposa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Era isto que o senhor queria saber? Foi para isto que me chamou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Sinceramente? Sim. Queria conhecer o estúpido que teve a pretensão de me enfiar um par de guampas e ainda por cima não recuar diante de um convite para uma conversa comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não tinha pensado por este ponto de vista. Achei que teríamos uma conversa civilizada e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Civilizada? Meu Deus! Tu és mais burro do que eu imaginava. A que tipo de civilização tu te referes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A civilização ocidental — falei meio gaguejando, sem muita convicção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Civilização ocidental?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Campelo pegou com força um dos meus braços e o sacudiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Olhe para os lados, seu idiota! Veja!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para a praça de alimentação e não notei nada de muito suspeito além do homem de preto. O shopping estava vazio àquela hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Estás vendo? Não? Claro que não estás vendo. Tu não enxergas. Não percebes que te espreitam. Que o pouco que te resta de civilização é este cafezinho... E não tiveste nem a coragem de pedir uma bebida decente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu achei que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Cagalhão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos em silêncio por alguns instantes. Tempo suficiente de eu terminar meu café e ele seu campari.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O senhor quer me dizer mais alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Não, pode cair fora. Anda! Some da minha frente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei-me, mas ao girar sobre a cadeira lembrei de Camila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Onde ela está, seu Campelo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele desfez a face rubra de ódio e empalideceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ela está em um lugar confortável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O senhor jura pra mim que ela vai ficar bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juramentos não valem nada, os do seu Campelo menos ainda, mas ele não me disse coisa alguma, apenas estendeu um braço e chamou a garçonete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho para o estacionamento tentei diversas vezes contatar Camila pelo celular. Inútil. Decidi ficar mais um tempo. No shopping há um guichê da rodoviária e comprei uma passagem para Montevidéu. Tinha pouco tempo e preferi não sair do shopping até a hora da partida do ônibus. Pensei em Camila. Tudo está acabado pra nós, infelizmente. Retornei à cafeteria. Seu Campelo não estava mais lá, tampouco o homem vestido de preto. Pedi uma dose de vinho do Porto. Tive dificuldade para beber, pois minhas mãos trêmulas não me obedeciam. Acho que vou ter tempo pra me recuperar no Uruguai... Meu Deus! Como eu estou cansado...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-2039136060088733442?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/2039136060088733442/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/06/civilizacao-ocidental.html#comment-form' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2039136060088733442'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2039136060088733442'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/06/civilizacao-ocidental.html' title='A civilização ocidental (Ricardo Silveira)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-5623422392618277635</id><published>2009-06-07T09:32:00.001-07:00</published><updated>2009-12-25T12:34:52.175-08:00</updated><title type='text'>Em que coincidentemente se reincide (Leila de Souza Teixeira)</title><content type='html'>você está coberta por um lençol verde encolhida no canto da sacada de um apartamento que não lembra de quem é mas sabe ser no sétimo andar de um edifício com a fachada feita de pastilhas azul-piscina. enquanto de olhos fechados passa a mão vagarosamente sobre as pastilhas imagina a piscina da casa da sua mãe onde você nada todo sábado de manhã chapada. e chapada agora sai do canto para sentir melhor o vento quente que sacode a grade da sacada do apartamento que você tenta tenta tenta lembrar de quem é mas não consegue pois lhe vem na memória apenas (porém nítido) o sete vermelho pintado na parede branca nítido ali “7” quando a porta do elevador abriu. aliás na memória também nítida a recordação de que no exato momento em que viu o sete pensou no filme em as pessoas trabalham no sétimo e meio andar porque antes do momento exato em que viu o sete você já se sentia como as pessoas do filme sufocadas por um meio pé direito e naquele exato momento riu como ri agora da nítida coincidência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você resolve chegar bem perto da grade para sentir melhor o vento denso quente forte que de tão denso parece água e que espanta o sufocamento trazido por todas as lembranças do momento exato em que viu o sete vermelho. enquanto de olhos fechados encosta cintura para baixo na grade cintura para cima no vento imagina a água quente da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã bêbada. e bêbada agora desenrola desenrola desenrola o lençol verde que envolvia seu corpo pois não vê mais necessidade de estar enrolada em um lençol verde (ou a cor que fosse) já que essa coisa do vento mentindo ser água quente acabou com o frio que há bem pouco você sentia. aliás há bem pouco nesta manhã morna de verão você estranhamente pediu algo para se cobrir ao dono do apartamento que você mais estranhamente ainda não consegue identificar quem é nem na sua lembrança de ele parecendo não estranhar nada lhe dar um lençol verde antes de sair pela porta dizendo que iria comprar mais água e cigarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você cogita entrar na sala para ligar o rádio que há bem pouco enxergou através do vidro da porta da sacada porque neste exato momento qualquer voz mesmo que a voz de alguém que não esteja onde você está seria uma boa companhia. enquanto de olhos fechados gira o corpo em direção a porta de vidro imagina o silêncio embaixo da água da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã calada. e calada agora caminha até a porta de vidro mas a visão do sétimo andar e meio lhe oprime lhe oprime lhe oprime e você decide continuar em silêncio do lado de fora ouvindo só o som das coisas que o vento quente denso forte carrega para algum lugar que você não sabe qual. aliás saber para onde vão todas as coisas (e todas as pessoas) no sábado de manhã sempre mergulhou você em pensamentos porque você nunca conseguiu enxergar o motivo de ser convidada a visitar uma pessoa que vai embora quando você chega como se apesar do convite que ela própria fez não quisesse estar em sua companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você escuta o barulho do que talvez seja uma sacola de plástico fundir-se com o barulho do que certamente é o sacolejo violento do lençol verde que segura com a mão desde que o vento quente denso forte tirou de você também o frio. enquanto de olhos fechados caminha para trás até encostar o corpo de novo na grade imagina os sons das coisas voando que se fundem violentamente quebrando o silêncio de vozes na piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã confusa. e confusa agora observa na porta de vidro o reflexo das coisas que voam passando por trás de você como o reflexo ondulado da bandeja que sua mãe segura com as mãos passando por trás de você sentada no trampolim. aliás o único lugar no qual você encontra sua mãe em um sábado de manhã quando a visita é no reflexo ondulado da água da piscina quando ela larga larga larga a bandeja amarga do suco ao seu lado antes de sair (e voltar talvez quando você não esteja mais lá) pelo portão dizendo que vai comprar mais suco e cigarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você contempla a dança do lençol verde por cima da coreografia de folhas de árvores trazidas da rua para cirandar freneticamente ao lado dos seus pés descalços no chão da sacada. enquanto de olhos fechados permite que o lençol verde denso forte gire de volta para a rua o seu corpo encostado na grade imagina seu pequeno corpinho girando na água quente da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã sedenta. e sedenta agora entre os vãos dos galhos frenéticos das árvores que dançam por cima da rua procura o dono do apartamento que talvez assim de cima você consiga identificar e que seria melhor que chegasse logo porque esta espera parece impacientar seu pé esquerdo que você encara ele pé esquerdo batendo freneticamente no chão da sacada. aliás você perdeu perdeu perdeu as contas de quantas vezes ficou encarando seu pequeno impaciente pezinho esquerdo batendo no trampolim durante o tempo em que chamava platéia (que dizia que ia logo mas nunca ia) para suas cambalhotas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você evita fazer qualquer resistência quando o vento forte denso leva também o lençol verde que lhe cobria entre donos de apartamento sacolas de supermercado sensações de frio e folhas de árvores pois “ir embora” parece ser a ordem natural das coisas que lhe cercam aos sábados de manhã. enquanto de olhos fechados sente o pano suavemente se desprender dos seus dedos imagina as folhas verdes que desprendem das árvores plantadas ao redor da piscina da casa de sua mãe onde você nada todo sábado de manhã sozinha. e sozinha agora observa as nuvens mentindo que o prédio em frente se mexe e percebe que tudo se move se move se move ao seu redor como tudo se movia em torno de você (criança plantada de costas no trampolim) durante o tempo em que esperava sua mãe chegar para ver a cambalhota. aliás se movem mesmo o lençol verde que voa longe mais sacolas de supermercado as nuvens mentirosas mais folhas de árvores tudo salvo você nesta sacada esperando por suco água e cigarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você percebe que se as nuvens mentem que o prédio em frente se mexe devem mentir que o edifício com a fachada feita de pastilhas azul-piscina que tem um apartamento sabe-se lá de quem no qual você está se move também. enquanto com os olhos abertos senta na grade de costas para a rua imagina todas as coisas que giravam ao redor do trampolim da piscina da casa da sua mãe onde você esperava por horas todo sábado de manhã cansada. e cansada agora inclina inclina inclina bem o corpo para trás para ver se realmente as nuvens mentem que o edifício em que está se move mas logo pondera que talvez em um sábado de manhã como este as nuvens não mintam e o edifício realmente se mova. aliás em um sábado de manhã como este (como todos os outros) talvez ninguém minta nada e as pastilhas azuis da piscina a água quente densa forte o sétimo andar vermelho de meio pé direito tudo se mova em torno de você parada de costas no trampolim durante o tempo em que espera a platéia chegar para ver a cambalhota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você percebe que se as nuvens mentem que o prédio em frente se mexe devem mentir que o vento forte denso leva também a dança do lençol verde por cima da coreografia de folhas de árvores trazidas da rua com o barulho do que certamente é o sacolejo violento do rádio que há bem pouco enxergou através do vidro forte que de tão denso parece água e que espanta o sufocamento trazido por todas as lembranças que não lembra de quem é mas sabe ser no sétimo andar de um edifício com a fachada feita de pastilhas azul-piscina.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-5623422392618277635?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/5623422392618277635/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/06/em-que-coincidentemente-se-reincide.html#comment-form' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5623422392618277635'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/5623422392618277635'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/06/em-que-coincidentemente-se-reincide.html' title='Em que coincidentemente se reincide (Leila de Souza Teixeira)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-8456860737447578942</id><published>2009-06-01T11:51:00.001-07:00</published><updated>2009-12-25T12:36:03.927-08:00</updated><title type='text'>Musa de Argila e De inteiro a metade (César Azevedo)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;MUSA DE ARGILA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disforme, por entre os dedos&lt;br /&gt;Deslizas, matéria-prima.&lt;br /&gt;Escorrem abaixo e acima&lt;br /&gt;Teus excessos, meus segredos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na silhueta frágil e macia,&lt;br /&gt;Nômade, navego milhas&lt;br /&gt;Criando-te novas trilhas&lt;br /&gt;A moldar minha fantasia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da lama te faço vida&lt;br /&gt;Sabendo que vais embora.&lt;br /&gt;Nem quero pensar agora&lt;br /&gt;No instante da despedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai tua imagem, fica o rancor.&lt;br /&gt;É só dinheiro o que me sobra&lt;br /&gt;Da matéria, já feita obra&lt;br /&gt;No ofício de escultor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;DE INTEIRO A METADE&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Andou um tanto distante&lt;br /&gt;Do caminho habitual&lt;br /&gt;Imutável nada breve&lt;br /&gt;Na terra plana e arada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixou o inerte gemido&lt;br /&gt;Apagou culpa e pegadas&lt;br /&gt;Do fastio criou desejo&lt;br /&gt;Do deserto fez um rio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Traçou ambígua aventura&lt;br /&gt;Provou o golpe repetido&lt;br /&gt;Ao reinar em solo alheio&lt;br /&gt;Seco em laços e governo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arredou vales e montes&lt;br /&gt;Em busca do que levava&lt;br /&gt;O tempo todo consigo&lt;br /&gt;E só faltou entender&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou tardio ao abrigo&lt;br /&gt;Sinal vermelho na porta&lt;br /&gt;Colou o rosto na escuta&lt;br /&gt;E ao silêncio abandonou-se&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-8456860737447578942?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/8456860737447578942/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/06/dois-poemas-de-cesar-azevedo.html#comment-form' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/8456860737447578942'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/8456860737447578942'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/06/dois-poemas-de-cesar-azevedo.html' title='Musa de Argila e De inteiro a metade (César Azevedo)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-3522433281325155954</id><published>2009-05-21T09:18:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:37:03.662-08:00</updated><title type='text'>Os tártaros não invadem o forte (Christian Simões)</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;Os tártaros se aprontavam para invadir o forte quando o ônibus parou. Marcos se levantou a contragosto, marcou a página com o real que sobrara do troco e saiu na manhã fresca. Era o primeiro dia de aula, o campus estava cheio. Subiu a escadaria, observou as mulheres em frente, outro grupo que ria em torno de um banco, as árvores por todos os lados. Gostou dali. Mais adiante viu o bar. Era cedo, ainda, mas já estava aberto. Resolveu entrar e pedir um café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi, tu é bixo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virou. Uma mulher mais alta que ele, magra, bonita, um estojo e um caderno na mão, esperava na fila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sou, disse, um pouco surpreso, enquanto vasculhava uma moeda no bolso. – “Recém entrando no deserto”, e mostrou, satisfeito com o próprio comentário espirituoso, a edição de &lt;em&gt;Deserto dos Tártaros&lt;/em&gt;, de Dino Buzzati, o verde da cédula a sobressair da página marcada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Licenciatura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu já li esse livro, é ótimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos olhou para a mulher. O rosto afilado, o nariz bem feito, sorriso inteligente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxou a nota do meio do livro e pediu mais um café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Toma comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei se dá tempo. Tu já sabe qual é a tua sala...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sei, sim, ele disse, e simulou uma olhada no relógio. – Ainda é cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentaram próximos à janela. O bar ficava em desnível em relação à rua. Dali eles só podiam ver os pés das pessoas, de um lado para o outro. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;– Qual é o teu nome?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Silvana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Prazer, eu sou o Marcos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher abriu o estojo e tirou uma caneta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tu vai gostar daqui, Marcos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tu também é bixo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, eu me formo no ano que vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos abaixou o olhar, por um instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tu já leu o outro livro dele? – ela continuou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não. Como é que se chama mesmo...?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– &lt;em&gt;As montanhas são proibidas&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso, eu tenho esse livro. Tá lá em casa, para ler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só os livros lidos nos pertencem realmente”, ela escreveu na capa do&lt;br /&gt;caderno e virou para ele ler, um sorriso meio triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos sorriu desconcertado. Lembrou-se por um momento de Giovanni Drogo, a personagem central de &lt;em&gt;Deserto dos Tártaros&lt;/em&gt;, o jovem italiano que se alista numa guarnição de fronteira à beira do deserto e espera com ansiedade, durante anos, o ataque dos tártaros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu tô lendo o Borges, a &lt;em&gt;Antologia Pessoal&lt;/em&gt;, conhece? Tem um conto que é sobre isso tudo aqui, e rodopiou o dedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso aqui o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher olhou para os pés na rua, abriu uma página em branco do caderno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tá vendo isso? – com um risco delimitou as bordas da página.&lt;br /&gt;Marcos fez que sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso é o deserto. Já aconteceu alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aconteceu alguma coisa aonde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– No livro que tu tá lendo, na história. Já aconteceu alguma coisa de especial, assim, que mude o rumo das coisas, que faça tudo ficar diferente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos sorveu um gole de café, se endireitou na cadeira, olhou um segundo de novo para o desenho e depois fixou o olhar na mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A guerra, tá começando a guerra.... depois eu não sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher manteve o sorriso, olhou para a janela e ficou mais séria. Tinha um ar decidido e complacente, quase carinhoso. De repente traçou uma reta que iniciou fora do círculo e parou aproximadamente no meio. Aí largou a caneta, cruzou os braços sobre a mesa e disse com o mesmo sorriso complacente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Esse é o único livro que não precisa ser lido até o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos não entendeu o que ela queria dizer, e antes que pensasse numa pergunta ela arrematou:&lt;br /&gt;– Não tem guerra nenhuma, Marcos, não vai acontecer nada. Os tártaros não invadem o forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grupo do lado de fora chegou, parou, riu e se pôs a conversar ali em frente à janela. Marcos pôde ver pelos pés que era um casal: dois pares de All Star de frente um para o outro, bem próximos. O par menor ficava na ponta dos pés, de vez em quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas tu não disse que o livro era bom?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Foi o melhor livro que eu já li.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silvana tirou um cigarro da bolsa, acendeu-o e olhou para ele com a quietude de uma estátua. A fumaça do cigarro balançou, subiu, ladeou, espalhou-se e aos poucos envolveu a mulher e Marcos, depois a mesa e as cadeiras e, por fim, todo aquele canto do bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O conto do Borges é meio doido, acho que nem ele acreditou muito naquilo. É um grupo de alunos de Letras que no fim da aula descarrega um revólver no professor – e riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcos riu também. Começava a ficar fascinado por aquela mulher. Tudo que dizia era interessante e misterioso, ela toda era misteriosa, e como era bonita! Pensou em levantar e pedir outro café, perguntar mais coisas, de onde era, há quanto tempo estava ali, o que pretendia fazer, só sabia o seu nome, afinal, mas antes que pudesse tomar uma atitude ela se lançou da cadeira e disse que precisava ir. Arrancou a folha desenhada do caderno e lhe deu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A gente vai se ver muito ainda, falou, já quase na escada. – Depois vem o trote, talvez eu possa ser a tua madrinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subiu alguns degraus, virou-se e, por fim, disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olha, eu tava brincando, é claro que tu tens de ler o livro até o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * * &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;O professor Marcos olhou para as mesas e viu que o bar estava vazio. Olhou pela janela, também não tinha mais ninguém lá. Subiu para a calçada. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;O sol já estava alto. Pegou a velha edição de &lt;em&gt;Deserto dos Tártaros&lt;/em&gt;, folheou-a, abriu-a na última página. Leu a última frase: “&lt;em&gt;Em seguida, no escuro, embora ninguém o veja, sorri&lt;/em&gt;”. Com a mesma folha de caderno dobrada, remarcou o livro aleatoriamente. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;Um casal passou por ele, em direção às aulas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;– Bom dia, professor. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;– Bom dia, sorriu. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Recolheu o olhar assim que pôde. Respirou fundo. Mais um dia, menos um dia. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Seu peito parecia uma fortaleza, naquela época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-3522433281325155954?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/3522433281325155954/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/05/os-tartaros-nao-invadem-o-forte.html#comment-form' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3522433281325155954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3522433281325155954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/05/os-tartaros-nao-invadem-o-forte.html' title='Os tártaros não invadem o forte (Christian Simões)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-3478129059331818014</id><published>2009-05-17T11:51:00.000-07:00</published><updated>2010-08-08T12:04:18.278-07:00</updated><title type='text'>Clandestina e Gavinhas (Cecília Cassal)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Clandestina&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca tive as imunidades&lt;br /&gt;necessárias para transpor&lt;br /&gt;fronteiras: contrabandeio idéias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre faltou uma marca&lt;br /&gt;que ainda não houvera sido feita&lt;br /&gt;E tive medo, todas as vezes&lt;br /&gt;quando a procuraram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem cedo tentaram forjá-la,&lt;br /&gt;riscá-la sem fogo mas com força&lt;br /&gt;nas peles de dentro para fora:&lt;br /&gt;sou tão ruim que nem&lt;br /&gt;cicatrizes crio, me disseram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje aceno aos guardas&lt;br /&gt;porque permitem-me&lt;br /&gt;as passagens. Não carreio&lt;br /&gt;pestes: sou outro tipo&lt;br /&gt;de clandestina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Gavinhas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai tinha umas vezes&lt;br /&gt;uns arroubos de árvore&lt;br /&gt;que se pensa eterna e&lt;br /&gt;discursava claro&lt;br /&gt;de dentro da esfera&lt;br /&gt;Quase-mel-quase-verde&lt;br /&gt;dos seus olhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(eram olhos líquidos como o vinho)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha umas coisas de&lt;br /&gt;colono, depois do sermão&lt;br /&gt;do padre&lt;br /&gt;Ou de oleiro que&lt;br /&gt;se pensa Criador,&lt;br /&gt;após modelar para mim&lt;br /&gt;um estranho boneco&lt;br /&gt;de barro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia,&lt;br /&gt;debaixo das videiras, disse&lt;br /&gt;- minha filha,&lt;br /&gt;isso tu nunca que adivinha:&lt;br /&gt;eu olho para as parreiras e&lt;br /&gt;teus cachos têm&lt;br /&gt;a mesma forma das gavinhas&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-3478129059331818014?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/3478129059331818014/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/05/dois-poemas-de-cecilia-cassal.html#comment-form' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3478129059331818014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3478129059331818014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/05/dois-poemas-de-cecilia-cassal.html' title='Clandestina e Gavinhas (Cecília Cassal)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-6404627267645137708</id><published>2009-05-10T08:06:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:18:54.951-08:00</updated><title type='text'>Nem a pergunta quando parares de rir (Juarez Guedes Cruz)</title><content type='html'>Considerando que o meu computador (e o de todo mundo) tem uma memória quase absoluta, eu o chamo de Funes. Pois bem, eu anoto no Funes algumas coisas que penso sobre o que me acontece durante o dia e, numa certa hora, eu escrevo um conto como esse que vocês vão ler e que, aviso para os desmemoriados, começa com a frase Considerando que o meu computador (e o de todo mundo) tem uma memória quase absoluta, eu o chamo de Funes, e termina (já vou avisando para os mais apressados, que vão direto para a última linha) com a frase Deixando em quem escreve a sensação muito dolorosa de que não precisava ter lembrado nada disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o anotado ontem, já na madrugada, foi que o correto, em bom português, seria perguntar quando parares de rir queres dançar comigo? Porém o que ele, tímido e gaguejando, perguntou foi quando tu parar de rir vamos dançar? Mas o melhor foi a resposta dela — mulher tão linda, que ele, quando falou com ela, já achava que não a merecia e que ela iria virar a cara — o que ela disse (tão linda que era) foi então vamos dançar agora, porque eu não vou parar de rir tão cedo. E, desse momento até o cartório, à igreja, o nascimento dos filhos, são coisas de anos, mas o que interessa é esse instante, esse primeiro minuto em que ele perguntou desajeitado se ela queria dançar com ele depois que parasse de rir e ela respondeu que deveriam começar a dançar logo porque ela não pararia de rir tão cedo. O que interessa é esse primeiro minuto, esse primeiro dia e, até, as horas que antecederam essa pouco gramatical pergunta e tal encantadora e já citada resposta, então vamos dançar agora. Interessam as horas que antecederam esse encontro que, eles não sabiam, seria um encontro pelo resto da vida, com filhos e netos, mas isso fica pra depois, porque interessam as horas que antecederam o encontro, horas nas quais ele passara por outras três festas em outras faculdades. Festas que, nos anos sessenta, eram chamadas de reuniões dançantes. Ele havia passado por três outras reuniões dançantes, como se dizia na época, e nada de bom a não ser a cuba libre, mas nenhuma mulher que lhe chamasse a atenção. Ia embora para casa, e teria ido embora para casa se não fosse o amigo chamado Mauro, que depois se tornou pediatra mas, na época, era apenas um adolescente que jogava futebol de salão e quando jogava brigava com todo o time adversário, com o juiz e, até com os próprios companheiros quando erravam passe. Mas esse amigo Mauro insistiu (ele devia estar iluminado por Deus), insistiu que fossem a uma quarta festa, instalando, em plena Porto Alegre, uma &lt;em&gt;movida&lt;/em&gt; quando, em Porto Alegre, nem havia &lt;em&gt;movida&lt;/em&gt;. E tendo ido, para felicidade sua, a esta quarta festa, aconteceu a visão da mulher linda e vestida de azul e a súbita e desajeitada pergunta e a resposta encantadora, ou seja, aconteceu o decisivo episódio que está relatado nas primeiras linhas desse que se pretende conto. Aliás, esse amigo, Mauro, jamais teve conhecimento da importância do gesto. Nem soube que casaram e tiveram filhos aqueles dois que ele, sem saber, uniu. E também sem saber ficou que, passados alguns anos, nem a pergunta quando parares de rir queres dançar comigo, porque nem riso mais havia, havia era a alma despedaçada e nem havia mais música para dançar e nem mesmo a disposição de fazer a pergunta e, se fizesse a pergunta, por mais gramatical que fosse, a resposta não seria então vamos dançar agora, porque as lágrimas não deixariam falar e tudo conspiraria para instalar entre os dois a mesma sensação que invade, agora, este que se pretendia conto, ou seja, de que deveria ter parado na página anterior e não poderia de modo algum ter prosseguido até esse tempo onde a alma já está despedaçada, deixando em quem escreve a sensação muito dolorosa de que não precisava ter lembrado nada disso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-6404627267645137708?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/6404627267645137708/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/05/nem-pergunta-quando-parares-de-rir.html#comment-form' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/6404627267645137708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/6404627267645137708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/05/nem-pergunta-quando-parares-de-rir.html' title='Nem a pergunta quando parares de rir (Juarez Guedes Cruz)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-2732425130551561874</id><published>2009-05-07T10:37:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:17:07.703-08:00</updated><title type='text'>Memorial (Monique Revillion)</title><content type='html'>O pai chegou de madrugada, daquele jeito oco e cambaleante, quando nossa mãe dizia sem dizer para que ficássemos quietos, pois de nada adiantaria a palavra sobre o hálito pesado da bebida, o olhar de vidro e sangue lanhando o espaço, sem enxergar ninguém. A mãe recolheu-se no seu canto, curvada sob o xale escuro, assumindo para si as vergonhas que antecipava, uma em cada boteco desde a cidade até nosso rancho, três léguas de caminhada, tempo de sobra para a serventia do coisa-ruim, solto desde a sexta-feira santa e andando sem destino por aí. Eu e meu irmão apenas fingíamos dormir, solidários. Ela, no outro dia, retornaria o caminho para honrar os fiados, reparar besteiras, mal entendidos, numa via-crúcis ao avesso, recuperando na teia de feminina paciência a honradez de seu homem, um amor maior que o mundo, como costumava dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao amanhecer, porém, a rotina não nos trouxe sua facilidade, pois o dia já se esboroava com o chiado fundo do peito de nossa mãe, um lamento áspero de sopro engelhado, a mesa sem pão e sem leite, a fome esquecida em qualquer lugar. O pai havia sumido na fundura da noite, naquela hora suspensa em que todas as criaturas cedem, exaustas, à escuridão. Nossa mãe nada dizia, puxava o ar que lhe faltava, sibilante, a camisola apertada sobre o peito, os veios salientes da mão sob a pele muito clara, e sem tocá-la era fácil saber que tremia, e estava fria e úmida. De novo, profetizava algo ainda incompreensível para nossa inocência, embora há muito nos ensinasse a sentir o gosto e as cores de seus pesadelos, em confusa e sinestésica tradução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os vizinhos acudiram quando a tarde já ia alta, alguém com um prato de batatas, pasta de sardinhas, refeição que comemos, constrangidos, como se a comida, sua saciedade ou a virtude daqueles estranhos não nos fosse nenhum merecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O rio”, gritou a mãe de repente, angústia líquida vertida num jorro, e uma comoção respeitosa se fez entre os presentes, pois a enchente era tragédia coletiva, o rio onipresente nada poupara, descendo a serra numa fúria acintosa, carregando sementes, roças, ferramentas, o trabalho de anos transformado em lodo e bichos inchados, a podridão lembrando o lugar de cada um na ordem natural das coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe insistiu no pressentimento, sabia mais de nosso pai e de seus limites do que ele próprio. No leito de águas barrentas procuraram em cada curva, mas o corpo não foi localizado. Jamais curei a lembrança daquele dia, embora seja uma espécie de consolo saber que ele não resistiria ao que se sucedeu àquela enchente: a fome, a peste, a injustiça, tanta desonra e tão funda que fez nossa mãe definhar aos poucos, calada na sabedoria inútil aos novos tempos, uma profetisa fechada em si mesma, corroendo-se no círculo de ruminações e memórias, desconsiderada por um futuro onde seus presságios não teriam lugar. Talvez tenha sido melhor sumir no meio da noite, talvez melhor mergulhar tonto de cachaça, ninguém sabe o que passa na cabeça de um homem naqueles segundos de vertigem e desconsolo. Muitas vezes, sonho que o vejo, boiando com as costas à mostra em navegação incerta, a expressão tranqüila submersa no silêncio, o rio que ele adorava tornara-se algoz quando não medira sua maldade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, se lembro de meu pai, é com a mesma água que eu o abençoo, aquela que eu buscava numa bacia para lavar seus pés antes da janta, sem questionar minha submissão posta em joelhos, satisfeita por estar próxima, plena com sua mão afagando meus cabelos. “Minha filha”, ele dizia, e era como se me batizasse frente a uma divindade amorosa, sua voz e seu olhar me conformando e dando-me saliência, o peso de seu gesto garantindo minha existência, esboço de vida potencializado naquele instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A enchente daquele ano virou história e na cidade ergueu-se um pequeno memorial ao acontecido, fotos aéreas, depoimentos, números que nada dizem do drama de tantos e sei que a morte de meu pai não faz parte da estatística. O rio também não é mais o mesmo, a força subjugada por barragens, assoreamentos, dragas, agora um curso de água estéril e traído na sua natureza de turbulência e vida. Olho com atenção as fotografias, às vezes reconheço um ou outro conhecido, mas há uma foto que me comove especialmente. Nela, minha mãe aparece com a expressão que adquiriu depois daquele dia. Como numa máscara, seus traços não haviam mudado, mas virado pedra. Ela olha diretamente para a câmera, abraça a mim e a meu irmão como se temesse o bote de uma fera, e seu corpo, que nos parecia fortaleza, é frágil e comovente. Na cena, há ainda uma pequena boneca de pano presa sob meu braço, algo que somente eu reconheço na imagem desgastada pelo tempo. A mesma boneca que joguei no rio, triste por perder a única coisa que afirmava a minha infância, com a ordem de que encontrasse nosso pai, acreditando que ela o traria de volta. Neste momento, consigo voltar àqueles dias, quando antes de dormir fechava os olhos a imaginar o pai, feliz, encontrando o brinquedo, reconhecendo ali um sinal de amor e talvez de perdão, sentimento que acrescentei ao gesto com o passar dos anos. Por breves instantes, vejo-o, comovido, recolhendo a boneca e guardando-a com carinho junto ao peito, quando o rio original que corre em mim volta a rugir, lavando a terra, e apenas permito, com alívio, que ele siga soberano e sábio o seu caminho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-2732425130551561874?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/2732425130551561874/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/05/memorial.html#comment-form' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2732425130551561874'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/2732425130551561874'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/05/memorial.html' title='Memorial (Monique Revillion)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4105578041200592449.post-3672613054876040458</id><published>2009-05-05T12:34:00.000-07:00</published><updated>2009-12-25T12:39:35.991-08:00</updated><title type='text'>Poema de amor sem ninguém e Procuram José Gonçalves (Ana Mariano)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Poema do amor sem ninguém&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Este poema de amor&lt;br /&gt;é bilhete sem destino&lt;br /&gt;Não sei a quem entregá-lo&lt;br /&gt;Não há nome no envelope&lt;br /&gt;nem rua, nem direção&lt;br /&gt;Ternura jogada fora&lt;br /&gt;saudade apenas, sem fatos&lt;br /&gt;que se possam recordar&lt;br /&gt;este poema de amor&lt;br /&gt;reincidente e insano&lt;br /&gt;joga sal no oceano&lt;br /&gt;transpira lençóis de insônia&lt;br /&gt;esboça os traços de um rosto&lt;br /&gt;traceja a forma de um corpo&lt;br /&gt;apaga, torna a fazer&lt;br /&gt;Vento vago que levanta&lt;br /&gt;e logo depois deposita&lt;br /&gt;palavras soltas, papel&lt;br /&gt;este poema,&lt;br /&gt;eu mesma,&lt;br /&gt;este poema é ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Procuram José Gonçalves&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuram José Gonçalves.&lt;br /&gt;Homem simples,&lt;br /&gt;brasileiro,&lt;br /&gt;vivia&lt;br /&gt;em Montevidéu.&lt;br /&gt;Vendia flores na esquina&lt;br /&gt;da avenida San Jose.&lt;br /&gt;Além do nome, mais nada.&lt;br /&gt;Medroso bicho pequeno&lt;br /&gt;camuflado no prosaico,&lt;br /&gt;não alcançava os negócios,&lt;br /&gt;que, ao redor, se fechavam&lt;br /&gt;desdobrando-se em camadas,&lt;br /&gt;gravatas, lagos de gelo, uísques e amendoim.&lt;br /&gt;Nada sabia do inferno.&lt;br /&gt;Por que foi inesperado,&lt;br /&gt;homem levando um outro&lt;br /&gt;homem que não se vê ?&lt;br /&gt;Talvez tivesse uma dor que um dia desesperou.&lt;br /&gt;Ou seu olhar incendiado&lt;br /&gt;de impossíveis passados&lt;br /&gt;tivesse visto uma Rosa&lt;br /&gt;a qual ninguém mais não viu.&lt;br /&gt;E, nessa Rosa, outra rosa,&lt;br /&gt;algum chamego, um requebro,&lt;br /&gt;fez dele menino novo,&lt;br /&gt;o sexo arregaçado&lt;br /&gt;as mãos nos bolsos dobradas,&lt;br /&gt;guardando fundo um segredo,&lt;br /&gt;como quem guarda um real. &lt;br /&gt;Procuram José Gonçalves,&lt;br /&gt;menino, homem secreto,&lt;br /&gt;que ao badalar de uma hora,&lt;br /&gt;pisoteou as margaridas,&lt;br /&gt;dobrou, agudo, uma esquina,&lt;br /&gt;virou nota de jornal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4105578041200592449-3672613054876040458?l=gosteimuito.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gosteimuito.blogspot.com/feeds/3672613054876040458/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/05/dois-poemas-de-ana-mariano.html#comment-form' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3672613054876040458'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4105578041200592449/posts/default/3672613054876040458'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gosteimuito.blogspot.com/2009/05/dois-poemas-de-ana-mariano.html' title='Poema de amor sem ninguém e Procuram José Gonçalves (Ana Mariano)'/><author><name>Oficina Literária Charles Kiefer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06682922862834611416</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry></feed>
